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Na Trilha: Retrospectiva 2015 – Parte 2


As melhores ScoreTracks de 2015

Tal como foi em 2013 e 2014, eis a playlist com as melhores faixas que o ano que passou teve a oferecer. Tem para todos os gostos: desde a acidental (porém gloriosa) despedida de um veterano, até as sensacionais reintroduções a franquias já estabelecidas, de temas heroicos e muita ação a um sofisticado tema para vilões. Em pleno 2015, é um alívio perceber que aventura no melhor estilo capa e espada e melodias capazes de arrancar lágrimas de uma pedra ainda sobrevivem bravamente, enquanto viagens pelas planícies nevadas dos EUA no pós-Guerra Civil, por Marte e pelo deserto de Jakku foram acompanhadas por música de ótima qualidade. Além disso, é interessante perceber como mesmo trilhas que não gostei tanto podem ser salvas por uma única faixa espetacular, enquanto outros bons scores do ano como O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015), Terremoto: A Falha de San Andreas (San Andreas, 2015) e O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., 2015), ainda que consistentes, não ofereceram nenhum cue tão especial que se destacasse aqui.

Novamente, lembro que as faixas estão em ordem de lançamento (clique no link para a resenha completa da trilha sonora, quando disponível): 

James Horner – Return to the Wild – Wolf Totem

James Horner costumava ser um compositor que tinha o costume de musicar todo o encerramento do filme e seus créditos finais, seja com seu score, seja com canções baseadas nele – prática cada vez mais em desuso hoje em dia, quando peças específicas para os créditos são a exceção e não a regra. Isto rendeu faixas lendárias como Rocketeer To The Rescue-End Title, de Rocketeer (The Rocketeer, 1991), Alfred, Tristan, The Colonel, The Legend, de Lendas da Paixão (Legends of the Fall, 1994), os End Credits de Coração Valente (Braveheart, 1995) e Apolo 13 (Apollo 13, 1995)… e estas são só as que lembro de cor. Pois bem, elas acabam de ganhar a companhia de Return to the Wild, uma maravilhosa faixa, épica e emocionante como apenas Horner consegue fazer. Nela, após um início com cordas tristes, porém resolutas, uma variação do tema principal cresce e se torna cada vez mais grandiosa, atingindo seu ápice dramático aos 4:29, e não saindo mais dele. Lindíssima.

Patrick Doyle – The Stag – Cinderella

Depois de viver boa parte de sua vida obedecendo às ordens de sua cruel Madrasta e suas filhas, a jovem Ella decide fugir para uma cavalgada na floresta, onde encontra oficiais reais numa caçada. A heroína se envolve na perseguição, ajudando o animal a fugir, e no processo conhece seu Príncipe Encantado, com ambos se apaixonando mutuamente. Toda essa sequência é acompanhada pelos mais incríveis cinco minutos de toda a ótima trilha de Patrick Doyle para Cinderela. Combinando a liberdade de cavalgar pelos campos, ação, heroísmo e um final romântico, é nessa faixa que sabemos que estamos diante do melhor score de Doyle em anos.

Craig Armstrong – Opening – Far from the Madding Crowd

Sim, a influência da temp track nesta faixa é visível. Sim, o início é quase uma cópia da memorável The Gravel Road, de James Newton Howard, para a trilha de A Vila (The Village, 2004). E, sim, a faixa de Armstrong não deixa de ser uma das mais bonitas do ano por causa disso. Combinando os ótimos solos de violino com uma melodia romântica e pastoral, é uma ótima introdução para essa trilha, um dos melhores scores românticos do ano.

Michael Giacchino – Pin-Ultimate Experience – Tomorrowland

Apesar da qualidade e da consistência como um todo do score de Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível (Tomorrowland, 2015), é nesta faixa que você percebe que está diante de um dos melhores trabalhos da carreira de Giacchino. São quase cinco minutos de uma escrita orquestral inteligente, memorável, tematicamente consistente, e que descrevem com perfeição a primeira visita da heroína Casey à terra que dá título ao filme. Uma obra prima.

Michael Giacchino – As the Jurassic World Turns – Jurassic World

Os temas de John Williams para Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993) certamente foram memoráveis. Mas, a depender de Michael Giacchino, a música da franquia jurássica está em ótimas mãos. As the Jurassic World Turns é, na verdade, um cue duplo, que acompanha primeiro a visita dos irmãos Mitchell ao parque, seu encontro com sua tia Claire e, poucos minutos mais tarde, o voo de helicóptero de Claire com o novo CEO do parque, Simon Masrani. Assim, ele introduz o tema de Giacchino para o Jurassic World, uma melodia nobre e grandiosa como os animais que servem de atração principal, com ótimas orquestrações, muito ritmo, culminando numa excelente performance da fanfarra da Ilha Nublar de Williams, tratada com o devido respeito por seu talentoso pupilo.

Michael Giacchino (ufa!) – Rainbow Flyer – Inside Out

Admita: você chorou quando (alerta de SPOILER!) Bing Bong desapareceu para sempre após ajudar Alegria a escapar, em Divertida Mente (Inside Out, 2015). Não precisa ter vergonha, pois você não está sozinho: o compositor Michael Giacchino também se emocionou profundamente com a nova animação da Pixar, escrevendo para esta cena um dos cues mais tocantes do ano. Ela começa de forma até cartunesca, com uma versão agitada do tema de Alegria, que fica cada vez mais grandioso conforme ela escapa das memórias esquecidas de Riley, ao custo da existência de Bing Bong, cujo desaparecimento é acompanhado por um melancólico motivo para piano. “Leve-a para a lua por mim, ok?”. Se vocês me dão licença, preciso ir enxugar meus olhos.

Christophe Beck – Theme from Ant-Man – Ant-Man

Num ano que nos trouxe novas aventuras dos Vingadores e do Quarteto Fantástico, é curioso pensar que o melhor tema de heróis do ano foi ouvido na estreia cinematográfica de um personagem semi-desconhecido, cujos estranhos poderes (encolher e controlar formigas telepaticamente) são motivo de piada até dentro do próprio filme. Porém, Christophe Beck compreendeu as intenções da Marvel Studios, e entregou um tema memorável que, mais do que ressaltar o heroísmo de Scott Lang, o Homem-Formiga, ele destaca seu lado gatuno e escorregadio. Afinal, o longa é uma mistura de filme de heróis com trama de assalto, que pede por um score que seja tão charmoso e carismático quanto os protagonistas, objetivo este alcançado à perfeição por Beck, graças à influência de compositores como Henry Mancini e Lalo Schifrin.

Joe Kraemer – Solomon Lane – Mission Impossible: Rogue Nation

Num score onde o aproveitamento de temas de outros compositores, como Schifrin e Puccini, foi o principal atrativo, é impressionante que um tema original de Kraemer tenha conseguido brilhar, mas foi exatamente o que houve aqui. Seu tema para o impiedoso Sindicato e seu líder Solomon Lane, é realmente espetacular, nobre, porém pedante, arrogante e impiedoso, ou seja, perfeitamente adequado aos antagonistas do longa. A versão para concerto do longa tem um clima quase gótico, incluindo metais no melhor estilo Christopher Young, deixando claro o refinamento europeu (como a maioria dos vilões em filmes de espionagem) de Lane e do Sindicato.

Harry Gregson-Williams – Crossing Mars – The Martian

Tive alguns problemas com a trilha de Perdido em Marte (The Martian, 2015), mas reconheço que a música de Gregson-Williams (de certa forma, a melhor vinda deste compositor em muito tempo) se adequou bem ao sci-fi de Ridley Scott, e que o tema de Mark Watney, o astronauta interpretado por Matt Damon no longa, é muito bom. E, aliás, é este tema que é o destaque da incrível Crossing Mars, a melhor e mais emocionante do disco, que o utiliza num arranjo épico, porém mantendo a dimensão humana e, assim, espelhando a temática do longa. Além disso, quando se tem um compositor talentoso em perfeita sintonia com seu diretor, é difícil errar ao musicar sequências de viagens em paisagens grandiosas – que o diga Howard Shore e seus The Ring Goes South e Over Hill.

Fernando Velázquez – Edith’s Theme – Crimson Peak

Antes de ser um compositor, Fernando Velázquez foi um violoncelista em diversas orquestras espanholas. Isto explica seu talento ao escrever para a sessão de cordas, bem como os belíssimos solos de cello dessa faixa, tema da heroína do terror gótico A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015). Trata-se de uma composição profundamente melancólica, ainda que extremamente romântica, como a protagonista interpretada por Mia Wasikowska, e que se junta à uma lista que inclui o tema de O Impossível (The Impossible, 2012) para a crescente lista de peças de Velázquez onde a seção de cordas da orquestra brilha. 

Ennio Morricone – A la recherche de la paix – En mai, fais ce qu’il te plaît

O título da faixa, numa tradução livre, significa “em busca da paz”, espelhando a principal temática da trilha, que, apesar de ter sido composta para um drama de guerra, nunca perde a dimensão trágica e humana de seus personagens. Assim, Morricone cria texturas de imensa dramaticidade primeiramente com o trompete e depois com uma soprano, refletindo a busca pela paz dos protagonistas desse drama francês, certamente uma das maiores e mais agradáveis surpresas que tivemos no mundo das trilhas sonoras no ano passado.

James Newton Howard – Plutarch’s Letter – The Hunger Games: Mockingkay – Part 2

Reconheço que aqui é uma escolha polêmica, já que poucos colocarão o último score de James Newton Howard para o encerramento das aventuras de Katniss Everdeen como entre seus favoritos do ano. Porém, eu acredito que essa faixa em específico traduz o espírito do último filme talvez de forma melhor até que o próprio: triste, melancólica, demonstrando que para derrotar a Capital, Katniss teve de pagar um preço alto demais. Além disso, os solos de fiddle acompanhando a faixa são belíssimos, e coerentes com o universo sônico construído por Howard até então.

Roque Baños – Homecoming/The Story is Told – In the Heart of the Sea

Preciso confessar: não fui um grande fã do score de Roque Baños para a aventura marítima de Ron Howard (cujos filmes já renderam ótimas trilhas nas mãos de figuras como James Horner e Hans Zimmer), No Coração do Mar (In the Heart of the Sea, 2015). Partes dele, particularmente no meio do disco, que acompanha o embate dos marinheiros contra um enorme cachalote, são bastante duros e até difíceis de se ouvir, quase resvalando na típica música da Remote Control. Entretanto, fui capaz de apreciar a carga emotiva contida em alguns belíssimos cues no início e, especialmente, ao final do álbum. As duas faixas que escolhi para entrar nesta lista compreendem quase 15 minutos de algumas das mais dramáticas e emocionalmente carregadas melodias já ouvidas em 2015, que por si só já valem uma audição do álbum. Assim, Baños faz jus a alguns maravilhosos scores para filmes sobre sobrevivência no mar, como As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2015), de Mychael Danna, e A Aventura Kon-Tiki (Kon-Tiki, 2012), de Johan Söderqvist, trazendo belas performances de seus temas principais em orquestrações que, variando do intimista ao grandioso, visam extrair cada gota de emoção quanto for possível.

John Williams – The Scavenger/The Jedi Steps and Finale – Star Wars: The Force Awakens

De todos os temas criados por John Williams para O Despertar da Força, certamente o melhor é o de Rey. A sequência da introdução da personagem, vagando e tentando sobreviver no deserto de Jakku, é quase que inteiramente sem diálogos e, dessa forma, apenas a música de Williams nos diz tudo o que precisamos saber sobre ela: sua personalidade curiosa e desbravadora, mas também profundamente melancólica e solitária, por ter sido abandonada por seus pais (uma das teorias mais discutidas na internet após o lançamento do longa). Entretanto, não podemos esquecer do memorável encerramento do filme: dando dicas de um possível novo tema a ser desenvolvido nos próximos capítulos, ele cresce rumo a um final grandioso com o tema da Força, e depois até a obrigatória suíte dos créditos finais, que reúne os temas novos e antigos de forma tradicional e reconfortante. Afinal, Williams sempre soube como encerrar seus Star Wars em grande estilo, como nas memoráveis The Throne Room, The Rebel Fleet, Confrontation with Count Dooku e A New Hope (todas elas acompanhadas do subtítulo and End Credits ou Finale) e aqui não é diferente. Um ótimo encerramento para a trilha mais aguardada dos últimos anos.

Ennio Morricone – L’Ultima Diligenza di Red Rock – The Hateful Eight

2015 realmente foi o ano dos veteranos, que fizeram a alegria de seus fãs ao mostrar que, mesmo octogenários, ainda conseguem escrever música de extrema qualidade. Foi o caso de Ennio Morricone e seu Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015): no seu primeiro faroeste em 34 anos, e primeiro filme hollywoodiano de expressão em 13, ele surpreendeu seus fãs e até mesmo o diretor Quentin Tarantino com um score totalmente diferente do esperado, destacando uma melodia que mais parecia inspirada por trabalhos como Os Intocáveis (The Untochables, 1987) do que pelos clássicos faroestes de Sergio Leone. A primeira faixa, L’Ultima Diligenza di Red Rock, é um clássico instantâneo, e uma das melhores peças de música ouvidas em 2015. Ela desenvolve o tema principal e suas ideias para o filme de forma perfeita, contando com as orquestrações sempre geniais do maestro italiano, além da ótima performance da Czech National Symphony Orchestra.

E para você, quais as melhores faixas do ano? Compartilhe aí abaixo conosco!

Tiago Rangel

3 opiniões sobre “Na Trilha: Retrospectiva 2015 – Parte 2”

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