Lalo-Schifrin

Perfil: LALO SCHIFRIN


lalo_schifrinA partir das transformações pelas quais passou a música de cinema nos anos 1960, o pianista, arranjador e regente argentino Lalo Schifrin desenvolveu um estilo musical único. As marcantes misturas de efervescente jazz, eloquentes passagens sinfônicas e faixas de ação ritmadas garantiram sua popularidade através de gerações de ouvintes e uma posição privilegiada na galeria dos compositores da Silver Age do Cinema.

Schifrin nasceu na Argentina, e foi em Buenos Aires que, em 1958, tocando piano em um clube de jazz, foi descoberto pelo famoso trompetista Dizzy Gillespie . Após seu ingresso no grupo de Dizzy, passou a ser requisitado por famosos jazzistas e compositores, como o maestro Quincy Jones, e logo passou a lançar discos solo. Mas foi quando desembarcou em Hollywood que viu seu talento ser reconhecido pelo grande público. Após o grande sucesso do tema e trilhas compostas para a popular série de TV Missão Impossível (Mission Impossible, 1966-1973), Schifrin foi contratado pelos grandes estúdios, para os quais compôs em três filmes idealizados para tornar a atriz Ann-Margret em uma estrela: A Marca de Um Erro (Once a Thief , 1965), A Mesa do Diabo (The Cincinnati Kid, 1965), e a sátira aos filmes de espionagem protagonizada pelo agente Matt Helm, Matt Helm Contra o Mundo do Crime (Murderers Row, 1966). Sua maestria em criar excelente música de suspense e ação também foi utilizada em séries e filmes como como O Agente da U.N.C.L.E. (Man From U.N.C.L.E., 1964–1968), Mannix (1967-1975) e A Louca Missão do Dr. Schaefer (The President’s Analyst, 1967).

Apesar de Schifrin ter tido a sorte de ver alguns dos seus primeiros trabalhos lançados em vinil, os interesses comerciais estavam mudando. O sucesso de Henry Mancini impôs um padrão para o formato dos álbuns de trilhas sonoras, no qual além de criar os temas principais, o compositor pegava trechos do score ouvido no filme e os desenvolvia em novas faixas gravadas especialmente para o disco. Usando a mesma técnica, Schifrin utilizou partes da música original de Once a Thief e fez um álbum comercial para ser tocado nas rádios. Já as gravações master realmente utilizadas no filme, eram esquecidas e arquivadas – não raro sendo destruídas pelos grandes estúdios. Daí a necessidade de que posteriormente, para serem lançadas em álbuns, muitas trilhas sonoras tiveram de ser reconstruídas e regravadas.

bullitApós ter se estabelecido firmemente na indústria, Schifrin marcou o final dos anos 1960 e o início dos 1970 com trilhas dinâmicas e funky, avidamente disputadas por colecionadores. A primeira foi o sucesso de 1968, Bullitt, no qual Steve McQueen participou, em São Francisco, de uma das mais espetaculares perseguições automobilísticas das telas. Curiosamente, ela não possui acompanhamento musical, mas é antecedida por uma memorável composição que ajuda a construir o clima para a caçada que se seguiria. O disco com as regravações de Bullit foi um grande sucesso, tornando Lalo um dos compositores de cinema mais requisitados no período.

Para a popular série de cinco filmes da Warner protagonizada pelo detetive Harry “O Sujo” Callahan (Clint Eastwood), Schifrin compôs para três deles. Em Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), Schifrin não criou um tema específico para Harry, mas dois motivos. Um é ouvido no tema de abertura e quando o personagem está investigando ou em ação, e outro surge ao final, mais dramático e melancólico. Este tema curto acabou se transformando na canção ouvida ao final de Impacto Fulminante (Sudden Impact, 1983), cantada por Roberta Flack. Um dos destaques do score de Dirty Harry é o sinistro tema do vilão Scorpio, que usa com maestria percussão, guitarra e vozes femininas. Para a continuação Magnum 44 (Magnum Force, 1973), na qual os vilões eram policiais, a abordagem foi diferente, mais marcial. O vibrante tema de abertura também foi distinto, com vocais femininos que remetem ao estilo de Ennio Morricone nos spaghetti-westerns estrelados por Eastwood. Cada um desses filmes musicados por Lalo foi diferente, e a única coisa que permaneceu em partes dos scores foi o melancólico tema curto de Dirty Harry,

dirtyharryCDO  diretor de Dirty Harry, Don Siegel, à época já era um profissional renomado, e sua parceria com Schifrin esteve presente em alguns dos seus melhores filmes, como Meu Nome é Coogan (Coogan’s Bluff, 1968), O Estranho que nós Amamos (The Beguiled, 1971), O Homem que Burlou a Máfia (Charley Varrick, 1973) e O Telefone (Telefon, 1977). Enquanto a década de 1970 passava, Schifrin começou a diversificar de projetos e diretores. Já havia sido bem sucedido com Apenas Uma Mulher (The Fox, 1967), do diretor Mark Rydell, e teve  contato com a ficção-científica através do primeiro filme de  George Lucas, THX-1138. Os grandes projetos continuaram, incluindo o clássico das artes marciais com Bruce Lee Operação Dragão (Enter The Dragon, 1973) e o drama da II Guerra A Águia Pousou (The Eagle Has Landed, 1976). Compôs uma trilha magistral para o clássico O Exorcista (The Exorcist, 1973), que foi descartada de modo no mínimo indelicado pelo diretor William Friedkin, e retornou para o terror em grande estilo com Horror em Amytiville (The Amytiville Horror, 1979). Em 1974 voltou à televisão para compor as trilhas da curta série baseada nos filmes Planeta dos Macacos (Planet of The Apes, 1968-1973).

Nos anos 1980 e 1990, Schifrin fez esporádicos trabalhos para o cinema, como O Casal Osterman (The Osterman Weekend, 1983) e F/X2 – Ilusão Fatal (F/X2, 1991), principalmente por descaso dos diretores. Em 1998 o diretor Brett Ratner, fã do compositor, o convidou para compor a trilha sonora de A Hora do Rush (Rush Hour), que teve mais duas continuações, também com música de Schifrin. No mesmo ano, o compositor pôde explorar sua paixão pela música do seu país natal com sua trilha para Tango, do aclamado diretor Carlos Saura. A partir dos anos 2000 seus trabalhos voltaram a escassear, sendo os mais recentes Abominável (Abominable, 2006), dirigido por seu filho Ryan, e A Hora do Rush 3 (Rush Hour 3, 2007). Atualmente, além de continuar se dedicar a projetos solo de jazz e música clássica, Schifrin, juntamente com a esposa Donna, segue (re)lançando seus trabalhos, esquecidos pelas grandes gravadoras, através do selo do casal, Aleph Records.

Jorge Saldanha

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