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Resenha de Trilha Sonora: THE MARTIAN (ORIGINAL SCORE) – Harry Gregson-Williams


martian_scoreMúsica composta por Harry Gregson-Williams
Selo: Columbia Records
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 02/10/2015
Cotação: star_3

Parece que as aventuras de exploração espacial voltaram com tudo, ou, ao menos no cinema. Gravidade (Gravity, 2013) e Interestelar (Interstellar, 2014) foram grandes sucessos de crítica e bilheteria, e ainda conseguiram abocanhar alguns prêmios (incluindo o Oscar de Melhor Diretor para Alfonso Cuarón em Gravidade). Surfando nessa onda, estreou na última semana mundialmente a ficção científica Perdido em Marte (The Martian, 2015), que tem em comum com os outros dois um elenco “estelar” (com o perdão do trocadilho) e um diretor de renome, no caso, Ridley Scott (que parece estar voltando com tudo ao mundo dos sci-fi que fizeram seu nome no início de sua carreira).

O longa, baseado num ótimo livro de ficção escrito por Andy Weir, conta a história de Mark Watney (interpretado por Matt Damon no filme), astronauta, botânico e um dos seis membros da equipe da Ares 3, uma missão enviada pela NASA para o planeta vermelho. Porém, uma tempestade força os astronautas a deixarem o planeta às pressas e, na confusão, Watney acaba atingido. Seus colegas pensam que ele faleceu e acabam indo embora, deixando-o preso em Marte, a centenas de milhões de quilômetros da Terra. Assim, Watney terá que utilizar todo o seu conhecimento científico se quiser sobreviver nas inóspitas condições do planeta vermelho, enquanto tenta entrar em contato com a NASA e com os seus colegas de tripulação.

Para seu Perdido em Marte, Scott convocou o inglês Harry Gregson-Williams, que compôs alguns dos melhores trabalhos de sua carreira para o diretor de Alien: O Oitavo Passageiro (Alien, 1979) – embora, antes do drama espacial desTe ano, em apenas um filme ele tenha sido o compositor oficial, no caso, Cruzada (Kingdom of Heaven, 2005) uma bela e tristemente subestimada trilha. Nos anos posteriores, Gregson-Williams compôs música adicional para Prometheus (idem, 2012), bastante superior ao trabalho providenciado pelo compositor oficial do filme, Marc Streintenfeld, e umas duas grandiosas faixas de ação para sequências climáticas do épico Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings, 2014), bem como um bonito love theme para o longa.

Além disso, tanto Gravidade quanto Interestelar foram verdadeiras surpresas para nós, fãs de trilhas sonoras, com seus compositores (no caso, Steven Price e Hans Zimmer, respectivamente) se esforçando para trazer um som novo e inédito para os filmes espaciais, que acabaram se encaixando muito bem nos dois longas. Assim, ambos acabaram sendo recompensados por seu trabalho inteligente com uma indicação ao Oscar para cada um (e uma vitória, no caso de Price). E, considerando as ótimas reviews que o filme de Scott tem recebido até aqui, esta seria a maior chance de Gregson-Williams finalmente receber sua indicação ao principal prêmio do cinema, e se juntar a seu antigo companheiro, John Powell, como os únicos compositores oriundos da então Media Ventures (hoje Remote Control) a aparecerem nas fileiras do Oscar de trilha sonora.

Infelizmente para o compositor inglês, porém, depois de ter ouvido a trilha, fiquei com a impressão de que, a não ser que os membros da Academia considerem os trabalhos mais texturais de Gregson-Williams como sendo verdadeiras obras-primas, uma indicação esteja bem distante. Afinal, Price, no thriller de Cuarón, utilizou instrumentos processados eletronicamente para criar um senso de caos adequado à situação dramática dos astronautas interpretados por Sandra Bullock e George Clooney, e Zimmer, por sua vez, trouxe como principal inovação o uso de um órgão (real, não sintetizado) quase religioso para musicar o drama espacial de Christopher Nolan. Já Gregson-Williams, bem… é estranho dizer isso, mas sua trilha guarda uma semelhança incômoda e perturbadora com as centenas de scores que ele compôs para os filmes de ação genéricos estrelados por Denzel Washington.

Explicando melhor: parece que, neste ponto de sua carreira, Gregson-Williams tem a ambição de se tornar um compositor mais especializado em texturas e ambiências do que em melodias fortes e marcantes, e esta tendência se perpetua em The Martian. Faixas como Spotting Movement e Science the S*** Out of This trazem apenas texturas eletrônicas e de cordas, de forma bem low-key, lembrando bastante os scores para os thrillers urbanos que Gregson-Williams costumava compor para o falecido irmão de Ridley, Tony Scott. Mais para a frente no disco, Reap & Sow consegue ser mais envolvente, ao fazer o uso de eletrônicos, ostinatos de cordas e participações de trompetes e de um cello solo para criar uma atmosfera mais dinâmica e proativa, ao passo em que Work the Problem traz os sintetizadores mais agressivos e quase industriais até então.

Claro, porém, que fazer uma abordagem primariamente orquestral talvez não fosse o mais adequado para esse longa. Afinal, ele tem como protagonistas cientistas, que, na Terra, em Marte ou no espaço, trabalham com a tecnologia mais avançada para cumprir o objetivo principal, que é trazer Watney para casa. Assim, muitas das cenas que trazem Mark empregando todas as ferramentas disponíveis e o seu conhecimento científico para escapar do perigo, são acompanhadas por cues de Gregson-Williams que lembram um pouco scores compostos para documentários televisivos sobre o espaço – o que faz sentido, afinal, tais cenas também são feitas no melhor estilo Nat/Geo ou History Channel.

Making Water, por exemplo, traz uma boa integração entre instrumentos acústicos e eletrônicos, além de uma empolgante construção, ao passo que a amigável Sprouting Potatoes poderia ter saído de algum documentário sobre a natureza, com sua singela e gentil melodia para cordas, violão e eletrônicos. Em seguida, Pathfinder e Hexadecimals lembram versões modernas da trilha de Alan Silvestri para a série Cosmos (idem, 2014), embora seja interessante notar que Gregson-Williams, nesse caso, demonstra mais habilidade do que o ítalo-americano para compor música eletrônica, que aqui surge envolvente, e, principalmente, sem os terrivelmente antiquados (e cafonas) sintetizadores oitentistas de Silvestri.

Quando o compositor deixa de lado suas texturas e resolve entregar um score mais melódico, ele também passa a entregar alguns ótimos momentos. A faixa de abertura, Mars, introduz o tema principal, relacionado à Watney, de forma atmosférica, porém melancólica, numa guitarra solo com acompanhamento de violinos. Em seguida, Emergency Launch começa de forma bastante tensa, antes de ficar verdadeiramente trágica, com orquestra e coro, representando o abandono de Watney em Marte por seus colegas que acreditavam que ele havia morrido. Já a sexta faixa, Message from Hermes, traz uma variação melancólica ao tema de Watney, numa melodia triste, mas ainda esperançosa e otimista como seu protagonista.

Mas a melhor faixa do disco mesmo é Crossing Mars, que, no filme, acompanha a jornada do herói pelo Planeta Vermelho. Ela começa com o tema de Mark de forma atmosférica numa guitarra, com fundo eletrônico; porém, em 1:50, passa a ser interpretado por toda a orquestra e coral, de forma grandiosa, nobre e épica. Sua bela melodia patriótica e heroica lembra um pouco scores de seu patrão Zimmer como The Pacific (idem, 2010), e é de longe a melhor coisa do disco. See You in a Few também traz algumas belas performances do tema de Watney, primeiramente de forma minimalista, e depois com orquestra e coro.

O clímax do longa, porém, ao invés de ser acompanhado por alguma música grandiosa, traz apenas as mesmas texturas urbanas e eletrônicas que podem até funcionar no filme, mas não são muito interessantes fora dele. Build a Bomb é uma faixa tensa, porém demasiadamente longa, e I Got Him! traz alguns interessantes crescendos na orquestra, mas com participações do infeliz horn of doom. Felizmente, tudo fica bem, e Gregson-Williams comemora primeiramente com sintetizadores que lembram a trilha de Vangelis para o clássico eterno de Scott, Blade Runner: O Caçador de Androides (Blade Runner, 1982), e depois com orquestrações nobres e épicas – quase que como uma versão “Remote Control” do finale de Apollo 13 (idem, 1995).

Como eu disse no início do texto, acho improvável que Gregson-Williams vá muito longe na temporada de premiações com este score, que não consegue abandonar a impressão de “oportunidade perdida”. Afinal, tal ambientação espacial/desértica já inspirou grandes trilhas antes, e a abordagem mais “urbana” de Gregson-Williams, enquanto talvez faça sentido (para ele) no contexto de sua carreira, acaba soando bem estranha quando pensamos que Perdido em Marte é um longa bem diferente dos thrillers de ação do Denzel Washington que compõem uns 75% da carreira do inglês. Assim, apesar de um bom tema principal e uma faixa brilhante (não se espante se Crossing Mars aparecer em minha futura lista das melhores scoretracks de 2015), devo constatar que o melhor momento musical do longa de Scott não é acompanhado pela trilha de Gregson-Williams, mas sim pelo clássico Starman, de David Bowie.

Faixas:

1. Mars 3:36
2. Emergency Launch 3:09
3. Making Water 2:38
4. Spotting Movement 1:49
5. Science the S*** Out of This 2:16
6. Messages from Hermes 3:31
7. Sprouting Potatoes 1:39
8. Watney’s Alive! 2:46
9. Pathfinder 2:33
10. Hexadecimals 2:33
11. Crossing Mars 3:36
12. Reap & Sow 2:21
13. Crops Are Dead 3:26
14. Work The Problem 1:58
15. Leaving Mars 5:11
16. Build a Bomb 5:06
17. I Got Him! 4:45

Duração total: 52:53

Tiago Rangel

4 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: THE MARTIAN (ORIGINAL SCORE) – Harry Gregson-Williams”

  1. É impossível não se emocionar ao escutar “Crossing The Mars”, principalmente aquele finalzinho da faixa. :) Também estranhei a texturização, admito que esperava uma trilha mais “feliz”, heroica e orquestrada. Porém, em alguns momentos, como em “Making The Water”, você considera o trabalho do Gregson-Williams e pensa “Olha, até que foi uma escolha inteligente”.

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