Hunger Games Mockingjay 2 CDMúsica composta por James Newton Howard
SeloRepublic Records
Catálogo: 002438202
Lançamento: 05/12/2014
Cotação: star_3_5

Mais um ano se vai, e mais uma franquia hollywoodiana se despede das telas (pelo menos até anunciarem outros reboots, prequels, sequências, universos compartilhados e sabe-se lá mais o quê). Jogos Vorazes: A Esperança – O Final (The Hunger Games: Mockingjay Part 2), que continua a moda boba que Hollywood inventou de sugar suas franquias ao máximo e dividir um único livro em duas ou mais partes, adapta a segunda metade da obra A Esperança, último livro da trilogia futurista distópica de Suzanne Collins. O longa continua de onde seus antecessores pararam, com os 13 Distritos de Panem em uma sangrenta rebelião contra a opressora Capital, e a heroína Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) sedenta por vingança após descobrir que o ditatorial Presidente Snow (Donald Sutherland) torturou seu amigo (e ocasional namorado) Peeta Mellark (Josh Hutcherson) até a loucura. Conforme os exércitos rebeldes se preparam para a invasão final da Capital, Katniss, Gale (Liam Hemsworth), Peeta, Finnick (Sam Claflin) e o restante de seu esquadrão devem participar de uma desesperada missão pelas ruas infestadas de armadilhas da cidade, para que a protagonista possa acabar com Snow, e a guerra, de uma vez por todas.

Além do jovem trio de protagonistas, uma constante em todos os quatro longas da saga foi a presença de James Newton Howard comandando a trilha da série. Howard, um veterano da indústria desde que começou a trabalhar como compositor de trilhas sonoras, nos anos 1980, agora pode adicionar ao seu já volumoso currículo os scores de uma saga do começo ao fim. Dessa forma, ele se junta a um grupo seletíssimo, que também inclui Alan Silvestri, Don Davis, Howard Shore, Hans Zimmer e John Williams. Claro que, considerando a forma como Hollywood funciona, isso é a exceção, não a regra. Normalmente, por melhor que tenha sido a trilha no primeiro episódio de uma franquia, os produtores ou o estúdio podem trocar o compositor por uma série de razões, que variam de cortes no orçamento (nas sequências do Superman de Christopher Reeve e do primeiro filme de Jornada nas Estrelas) a mudanças de direção na saga (como na substituição de Danny Elfman por Elliot Goldenthal na franquia noventista do Batman), passando pelo fato de que os novos diretores contratados já possuem seus compositores de afinidade (saga Crepúsculo e os recentes longas de 007) até a questão da falta de tempo ou interesse do próprio compositor (como ocorreu com Williams nas franquias Jurassic Park e Harry Potter).

Após a estreia do primeiro capítulo, Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), parecia que Howard estava fadado a seguir o mesmo caminho de Carter Burwell e Junkie XL nas franquias rivais (e bastante inferiores) Crepúsculo e Divergente. Afinal, para o primeiro longa, o diretor Gary Ross quis utilizar mais canções produzidas pelo músico T Bone Burnett e faixas de artistas eletrônicos como Chas Smith e Laurie Spiegel, trazendo um compositor de filmes “tradicional” apenas para preencher os vazios. Quando Danny Elfman não concordou em trabalhar em tais termos, Howard foi trazido como uma substituição de última hora, tendo apenas três semanas para compor e gravar todo o score. Aparentemente, por causa das vontades de Ross, dos 80 minutos de música gravados por Howard, apenas cerca de 40 chegaram ao corte final do longa. Assim, seu score para o primeiro é corrido, mais baseado em efeitos eletrônicos e percussivos, e que poderia ter saído mais caprichado caso Howard tivesse mais tempo. Ou seja, nada muito marcante ou indispensável.

Felizmente para ele, o diretor contratado para substituir Ross nas sequências foi Francis Lawrence, que havia colaborado com Howard em seus últimos projetos. Assim, graças à esse “acaso do destino”, o compositor foi capaz de retornar para o sombrio e violento mundo criado por Collins, enquanto, agora com mais tempo disponível para compor, além de, claro, um diretor que confiava mais em seu trabalho, ele poderia alcançar resultados melhores. Sua trilha para Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013) foi um score superior ao primeiro em todos os sentidos, trazendo mais ação e novas nuances para a música. Já em A Esperança: Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, 2014), ele se inspirou no fato de que o longa tem menos ação que os anteriores para musicar o drama e a tristeza dos personagens – além do fato de que seu acompanhamento orquestral grandioso para a canção The Hanging Tree, interpretada por Jennifer Lawrence num dos momentos mais marcantes da produção, o levou ao topo da Billboard, feito raríssimo para uma trilha instrumental.

A trilha de A Esperança: O Final, assim, manteve-se coerente com o que foi estabelecido nos scores anteriores, e soa quase que como uma mistura dos três primeiros. Claro, isso pode desagradar à crescente legião de críticos e fãs que desgostaram do trabalho do músico na franquia, porém, colocando tudo em perspectiva, começo a perceber qual a missão de Howard nos longas da saga. Tanto sua versão literária quanto a adaptação cinematográfica são obras tristes, cruéis, violentas (se considerado que foram produzidas para um público jovem) e niilistas, além de trazerem um comentário crítico sobre a cultura do entretenimento no Ocidente. Howard aqui não teve um universo rico, recheado de criaturas e culturas diferentes, além de sagas épicas envolvendo a luta do bem contra o mal, que Shore e Williams tiveram, por exemplo. Mesmo na franquia Matrix, mais “distópica”, por assim dizer, do que as anteriores, Don Davis teve a oportunidade de musicar lutas grandiosas e batalhas épicas (o que rendeu algumas das melhores músicas de ação do século), além da história de amor entre Neo e Trinity. Comparada a tais sagas, Jogos Vorazes se posiciona mais como uma tragédia cínica e pessimista, de forma que sua última parte nem sequer possui uma batalha grandiosa, travada entre os exércitos do bem e do mal, decisiva para o destino do mundo onde se passa a história – até há, na verdade, mas ela ocorre principalmente offscreen, com o foco todo em Katniss e sua missão.

Assim, sem poder contar com cenas épicas, feitos heroicos e embates aguerridos entre mocinhos e vilões, a música de Howard para a saga procurou acompanhar a história pelo olhar da protagonista (o que é coerente com os livros, escritos em primeira pessoa do ponto de vista de Katniss). Sua música é triste, porém restrita, como a heroína criada por Collins, e repleta de suspense e acordes ameaçadores, para descrever o constante perigo em que ela se encontra desde que se ofereceu para tomar o lugar da irmã Prim nos Jogos Vorazes, o que despertou a ira da Capital.

Uma consequência de ter seu score intimamente ligado à Katniss é que outros elementos dos filmes acabaram sendo tristemente esquecidos. Em meu texto sobre a trilha de A Esperança: Parte 1, reclamei da falta de novos temas para representar as novas adições que o longa trazia para a franquia, como a Presidente Coin (Julianne Moore) e o Distrito 13, e infelizmente aqui esta tendência continua. Note que, pela música ser do ponto de vista de Katniss, os temas mais proeminentes no score são relacionados a ela, tanto seu tema principal, a cargo das belas vocalizações da jovem Sunna Wehrmeijer, quanto o famoso Rue’s Farewell, veterano desde o primeiro longa. Na franquia, ele é mais usado para representar a capacidade da mobilização de Katniss das massas oprimidas de Panem contra a Capital, ocasionada por seu instinto protetor, seja com a jovem Rue, sua irmã Prim ou um cidadão do Distrito 11 executado por fazer o famoso gesto de três dedos como forma de protesto. Assim, é uma pena que um dos melhores temas da franquia, introduzido em The Tour, da trilha de Em Chamas, e utilizado para mostrar os efeitos devastadores da opressão da Capital sobre Panem, esteja praticamente ausente aqui (muito embora o longa não tenha como centro as ações ditatoriais da Capital, ou, ao menos, de forma reduzida que os três anteriores).

No lugar da técnica do leitmotif, Howard procurou repetir e trazer de volta temas e motivos dos longas anteriores, como o primeiro e o terceiro, mas, especialmente, do segundo, ligando cenas dos quatro filmes às vezes de forma sutil, mas em outras provavelmente apenas pela força dramática das melodias. Algo parecido, portanto, com a utilização por Williams do tema da Princesa Leia na cena da morte de Obi-Wan, em Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars Episode IV: A New Hope, 1977).

Mesmo assim, se os discos anteriores não apresentavam lá muita variação, entre si e no contexto geral da franquia, a trilha da segunda parte de A Esperança é a que traz o maior e mais interessante arco musical. Combinando as texturas sombrias e opressivas do primeiro, a ação do segundo e o drama do terceiro, o score do último longa é o mais diversificado, e mostra um amadurecimento da saga. Claro, Howard não teve o melhor dos começos nela, e arrisco a dizer que ele próprio tinha consciência de que seu trabalho no primeiro longa dificilmente seria reaproveitado por quem quer que fosse ser o compositor para as continuações se ele não voltasse. Mas, uma vez que ele foi confirmado como o responsável pela música das sequências, ele fez o possível para continuar a construir seu universo musical de forma coerente com o que foi feito antes. Goste ou não, a música em A Esperança: O Final honra o estilo de suas antecessoras, ao mesmo tempo em que encerra o ciclo criado por elas.

Esclarecido isso, passemos agora à análise do disco lançado pela Republic Records em si. Entretanto, se você ainda não tiver assistido ao longa, atualmente em cartaz nos cinemas (ou, pelo menos, lido os livros), sugiro que pare por aqui e retorne quando tiver visto. Para fazer uma análise em profundidade da música terei de citar pontos importantes da produção. Assim, com o alerta de SPOILERS devidamente dado, vamos lá:

O começo do filme é tenso e sombrio, com Peeta enlouquecido, amordaçado no Distrito 13 e programado pela Capital para pensar que Katniss é ruim, enquanto a heroína, cansada de ver seus amigos e familiares sofrerem nas mãos dos opressores, decide ir ao Distrito 2 numa complicada missão que pode abrir caminho para a Capital. A música aqui é repleta de tensão, com Prim Visits Peeta aparecendo como uma abertura seca e dissonante, que não faria feio num score seu como O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999). O tema de Katniss, em seguida, permanece dominante, com uma participação atmosférica na voz de Wehrmeijer ao início de Send Me to District 2 e outra de forma dramática e torturada, nas cordas, aos 0:56 de Go Ahead, Shoot Me. Apesar das participações de orquestra e coral, o tom aqui é ameaçador e carregado, mesmo que, em Send Me to District 2, ainda apareça algo que lembre uma fanfarra para o Distrito 13 e os rebeldes, mais militarística e rigorosa do que propriamente heroica.

Stowaway continua esta tendência. A faixa começa com um motivo do segundo longa, interpretado por uma flauta para representar não só a relação de Katniss com a natureza, como também para representar sua personalidade mais crua e dura, de alguém que viveu no interior, em condições miseráveis, a vida toda – em oposição à opulência dos cidadãos da Capital. Em seguida, seguem-se texturas de sintetizadores, efeitos eletrônicos distorcidos e baixos ameaçadores, interrompidos por alguns momentos de grandeza dissonante para coro e metais, conforme Katniss, escondida num aerodeslizador do Distrito 13, embarca rumo à Capital cercada pelos rebeldes. Mais para o fim do cue, em 2:54, o tema Rue’s Farewell retorna, de forma triste, porém mais restrita, a cargo dos violinos, enquanto Katniss é identificada pelos combatentes rebeldes, que a saúdam com o gesto de três dedos.

A bela Your Favorite Color is Green traz de volta a canção The Hanging Tree, ou, ao menos, a parte dela que pertence a Howard, ou seja, o acompanhamento instrumental e orquestral, servindo como uma marcha para o avanço de Katniss e seu esquadrão. Mesmo assim, se até então a música vinha se mantendo restrita, o primeiro cue verdadeiramente de ação surge na longa Transfer Command, que traz de volta o tema de Katniss de forma melancólica, em 1:54, e mais para a frente, uma enérgica melodia reminiscente de Incoming Bombers, do score do filme anterior. O fim da faixa é menos agitado, mesmo assim a orquestra e o coro, com uma passagem dramática, descrevem o desespero crescente da situação de Katniss e seu esquadrão. Na sequência, Your Next Move e The Holo são duas faixas mais sutis e texturais, focadas em criar uma atmosfera ameaçadora e sinistra.

O disco, porém, sofre uma virada abrupta com Sewer Attack. A faixa, que acompanha o embate com as monstruosas criaturas da Capital traz metais violentos, muita percussão e orquestrações potentes, além de trazer de volta motivos ouvidos em Monkey Mutts, do segundo disco, que também acompanhava um confronto com as criaturas mutantes da Capital. Entretanto, após cerca de quatro minutos de violento caos orquestral, a música assume ares trágicos, com cordas dramáticas e um coral elegíaco, remetendo à morte de um personagem querido da saga, numa das passagens mais poderosamente emocionais das quatro trilhas até agora. Depois de tanta violência, I Made It Up e Mandatory Evacuation são faixas mais contidas, baseadas em cordas, embora a segunda traga de volta o belo, porém melancólico, motivo para piano, ouvido antes em The Cave, no primeiro disco, e They’re Back, no terceiro (e o mais próximo que a música chega de um motivo para Peeta).

Tudo isso, porém, é apenas um prelúdio para outra potente faixa de ação, possivelmente uma das melhores de toda a franquia. Rebels Attack traz a orquestra e a todo vapor, lembrando o estilo de Howard em outros trabalhos seus como Waterworld: O Segredo das Águas (Waterworld, 1995), acompanhada por um coral quase religioso. Em seguida, o tema de Katniss retorna, numa aparição triste e melancólica, na voz de Wehrmeijer e um coro feminino, além de orquestrações trágicas, representando a devastadora morte de Prim numa explosão enquanto os rebeldes tomam posse da Capital.

Snow’s Mansion representa o encontro revelador entre o vilão e Katniss, logo após a derrota da Capital e, assim, a faixa é dominada pelo tema do ditador vivido por Donald Sutherland, uma melodia sinistra para cordas e sopros. Já Symbolic Hunger Games acompanha a proposta de Coin para organizar uma edição dos Jogos Vorazes com as crianças da Capital, e o voto de Katniss a favor disso, para manipular a rival a pensar ela a apoiava. Howard, assim, tem um pequeno momento de brilhantismo de acompanhar essa cena com um segmento de The Tour, ouvido no segundo filme, quando Haymitch informa à heroína que ela deverá continuar o fingimento de seu noivado com Peeta para todo o país, de modo a manter sua família à salvo das garras da Capital. Assim, tal melodia pode ser vista com um tema do “acordo com o diabo”, quando Katniss se vê forçada a agir de acordo com os interesses dos tiranos no poder (sejam eles Snow ou Coin), de modo a atingir seus objetivos – que, no caso aqui, é ter uma oportunidade de se vingar pela morte de Prim. Em suma: depois de ter passado os últimos quatro anos na companhia dos personagens e do mundo criado por Collins, o compositor já os conhecia bem o suficiente para relacionar as duas cenas, que poderiam passar desconectadas, aos olhos de um espectador comum. Snow’s Execution, assim, traz o tema de Katniss, acompanhado por vocalizações quase fantasmagóricas, seguido por orquestrações grandiosas (mas, nem de longe, heroicas ou otimistas), para o momento decisivo quando ela, ao invés de disparar sua flecha em Snow, atira em Coin, que cai morta, enquanto o vilão é atacado e morto por uma multidão furiosa.

Mesmo assim, é seguro dizer, porém, que o melhor do disco é seu final. A bonita Plutarch’s Letter é uma das mais belas faixas de toda a franquia, com uma tocante melodia para fiddle, cordas e sopros e, em 1:58, o retorno do motivo ouvido em Peeta’s Heart Stops, no disco de Em Chamas. Na franquia, ele representa a tristeza e o luto da protagonista por ter ficado sem seus entes queridos, no caso aqui, Prim, e Peeta, nos filmes anteriores (ele também reaparece em Please Welcome Peeta, no disco anterior, que acompanha o choque de Katniss conforme ela assiste a seu amigo numa transmissão da Capital). Na sequência, a curta Buttercup utiliza o fiddle também para evocar a depressão de Katniss em seu retorno ao Distrito 12 após a guerra. Porém, este ainda é um blockbuster hollywoodiano e, como tal, ele não pode ter um final muito pessimista. Dessa forma, Primrose, que mostra o retorno de Peeta para viver com Katniss, traz o love theme principal da saga numa bela interpretação na orquestra e na guitarra acústica que o marcou desde sua introdução, na trilha do primeiro longa. Ao final, uma bela e rústica passagem para fiddle, lembrando um pouco um dos melhores scores da carreira de Howard, Wyatt Earp (idem, 1994), e que também se passava no interior dos EUA (Panem é na realidade a América do Norte, devastada após séculos de guerras e catástrofes naturais).

Ao final, um cue triplo, que, provavelmente, será o mais polarizador entre fãs e críticos. There Are Worse Games to Play/Deep in the Meadow/The Hunger Games Suite acompanha a cena final e os créditos finais (marcando a primeira vez que os créditos de um filme da saga são acompanhados pelo score, e não por canções de outros artistas). A primeira parte aparece enquanto Katniss e Peeta estão com seus filhos, anos depois da guerra, e Howard escolhe trazer de volta o tema de Rue ‘s Farewell. A escolha aqui é discutível: sim, é uma bela melodia, porém seu ar trágico ficou estranho junto ao clima mais solar da sequência (que desagradou aos fãs dos livros, mais sombrios e pessimistas), embora eu imagino que Howard tenha utilizado aqui simplesmente por ser a melodia do score mais reconhecível dos quatro filmes. Ela se liga com a canção Deep in the Meadow, cantada por Jennifer Lawrence, que parece ter tomado gosto pela música após The Hanging Tree. A canção aqui lembra o estilo de cantoras como Enya e Annie Lennox na saga O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings), num final dramático para a franquia. A tal suíte da saga traz, primeiramente, o motivo ouvido em The Train e A Quarter Quell, respectivamente do primeiro e segundo discos, em 2:55, seguido pelos violinos e sopros heroicos introduzidos antes em Bow and Arrow, de Em Chamas, e que, se naquela trilha este motivo parecia completamente avulso, aqui ele é melhor desenvolvido, e complementado por Rue’s Farewell. Por fim, o retorno de The Tour (o que significa também a terceira aparição de Rue’s Farewell na mesma faixa), e que provavelmente é o melhor cue composto por Howard em toda a saga, por sua força dramática e complexidade emocional evocadas.

As trilhas de Jogos Vorazes não são perfeitas e, o que pode ser mais chocante para alguns, não são exatamente o ponto alto ou o mais memorável da brilhante carreira de Howard, diferentemente de, por exemplo, Shore ou Davis. Imagino que o tipo de score que seus fãs gostariam de ouvir para a saga não se encontra aqui, mas sim em trabalhos como a citada Waterworld, King Kong (idem, 2005), O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010), Malévola (Maleficent, 2014) ou partituras pouco conhecidas, mas que mereciam ser redescobertas, como Limite Vertical (Vertical Limit, 2000). Sua música aqui pode ser muito contida e restrita para alguns, sem os rompantes épicos ouvidos em um O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003), Matrix Revolutions (idem, 2003), O Retorno de Jedi (Star Wars Episode VI: The Return of the Jedi, 1983) ou mesmo algo como Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean: At World’s End, 2007).

 Mesmo assim, é exatamente o que necessita uma franquia baseada nos livros de Collins, que, na realidade, são um comentário crítico sobre a mídia e a indústria do entretenimento americana. Eu particularmente consegui apreciar os trabalhos do músico na franquia, em especial, no caso desta última parte, as faixas de ação grandiosas e repletas de tragédia, ou o belo encerramento emocional proporcionado pelas quatro últimas faixas. Além disso, a forma como ele amadureceu sua música ao longo da saga, espelhando o próprio crescimento de Katniss, de garota pobre do campo a líder de uma revolução, é particularmente interessante. Porém, como sei que não é o tipo de trilha que agrada todo mundo, terei de fazer uma recomendação com reservas. “E que a sorte esteja sempre a seu favor”.

Faixas:

1. Prim Visits Peeta (01:25)
2. Send Me To District 2 (02:09)
3. Go Ahead, Shoot Me (04:58)
4. Stowaway (03:36)
5. Your Favorite Color Is Green (02:25)
6. Transfer Command (08:14)
7. Your Next Step (02:30)
8. The Holo (03:47)
9. Sewer Attack (08:00)
10. I Made It Up (01:28)
11. Mandatory Evacuation (03:14)
12. Rebels Attack (05:17)
13. Snow’s Mansion (05:16)
14. Symbolic Hunger Games (02:08)
15. Snow’s Execution (01:57)
16. Plutarch’s Letter (03:01)
17. Buttercup (01:09)
18. Primrose (03:16)
19. There Are Worse Games To Play / Deep In The Meadow / The Hunger Games Suite (09:41)
[feat. Jennifer Lawrence]

Duração: 73:31

Tiago Rangel

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