tomorrowland

Resenha de Trilha Sonora: TOMORROWLAND – Michael Giacchino


tomorrowlandCDMúsica composta por Michael Giacchino
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: BVPR005022
Lançamento: 18/05/2015
Cotaçãostar_4_5

Há quase onze anos, o diretor Brad Bird, apesar de ser um novato no mundo do cinema, parecia que tinha o desejo de trabalhar apenas com compositores lendários, como Michael Kamen em seu O Gigante de Ferro (The Iron Giant, 1999) e John Barry em Os Incríveis (The Incredibles, 2004). Porém, após a recusa de Barry, Bird teve de se contentar com um músico estreante, Michael Giacchino, que, na época, havia ganhado certa fama trabalhando em video games e nas séries do seu parceiro J.J. Abrams, de forma que a animação super-heroica da Pixar foi seu primeiro filme de grande expressão no cinema – um movimento arriscado para todos os envolvidos, mas que acabou dando extremamente certo.

Desde então, Giacchino compôs para todos os filmes posteriores de Bird, como Ratatouille (idem, 2007), pelo qual ele recebeu sua primeira indicação ao Oscar, Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (Mission: Impossible – Ghost Protocol, 2011) e o recém lançado Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível (Tomorrowland, 2015). Por mais este score, Giacchino recebeu diversos elogios, e ele certamente deve se juntar ao outro trabalho do músico neste ano, O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015), na lista de melhores de 2015 de muita gente. Se pelo menos o filme tivesse conquistado os corações da crítica de cinema tanto quanto a trilha, uma indicação ao Oscar seria quase certa.

O filme pega o caminho oposto ao de muitos longas recentes, ao se apresentar como uma ficção científica otimista, sobre a importância de se pensar positivo. Ele conta a história de Casey, uma adolescente que é levada a se encontrar com o recluso inventor Frank Walker. Na infância, Walker foi levado à um lugar secreto, a tal Tomorrowland, onde as mentes mais brilhantes do mundo se reuniam para criar livremente. Porém, uma descoberta terrível o levou a ser exilado de lá. Agora, Frank e Casey, com a ajuda da garota Athena, que divide um passado com Frank, devem descobrir uma forma de voltar para Tomorrowland, e salvar o planeta.

Se fosse feito nos anos 1970 ou 1980, esse seria o tipo de filme para o qual gente como Alan Silvestri, James Horner e mesmo John Williams seriam os compositores ideais para entregar um score memorável. Na atualidade, porém, o próprio Giacchino é o mais indicado para assumir a função, que procura se inspirar nos grandes mestres das décadas passadas para compor suas trilhas, ao ponto de que muitos o acusam de ser simplesmente um plagiador. Porém, já com quase vinte anos de carreira na indústria das trilhas sonoras, ninguém pode negar que Giacchino já desenvolveu um estilo próprio e identificável, e a partitura de Tomorrowland segue na mesma linha de seus trabalhos anteriores para o gênero. Aqui, ela lembra uma mistura do som nostálgico e saudosista de Super 8 (idem, 2011) com a música de ação mais bombástica de seus dois Star Trek. Além disso, a trilha parece habitar o mesmo universo sônico das trilhas de aventuras de Horner nos anos 1980 e início dos 1990, especialmente o otimismo à moda antiga de Rocketeer (The Rocketeer, 1991), enquanto divide similaridades na orquestração com os trabalhos de Williams da mesma época (o que não é nenhuma novidade para quem acompanha a carreira de Giacchino).

O que é mais interessante acerca da trilha é que, enquanto Giacchino consegue manter um senso de deslumbramento e otimismo através de suas orquestrações, ele também constrói um ritmo constante e fluído através de sua música, deixando-a sempre em movimento, seguindo para a frente, mesmo nos momentos mais intimistas, como uma marcha para o futuro. Imagine uma trilha em que boa parte da música seja no mesmo ritmo de cordas e piano ouvido em Enterprising Young Men, da trilha do primeiro Star Trek. Para atingir esse complexo efeito, Giacchino estrutura sua música em torno de três temas principais, que também podem ser vistos como um único tema em três partes.

O primeiro é um tema para a própria Tomorrowland, uma grandiosa melodia para metais, com o acompanhamento dos ritmos progressivos de cordas e percussão. Ele é ouvido logo ao início do filme e da trilha, em A Story About the Future, inicialmente no piano e depois com toda a orquestra. Já o segundo tema está mais ligado aos personagens, e as relações entre si e com a terra futurística do longa. Ele aparece primeiro em You’ve Piqued My Pin-trist, inicialmente numa interpretação mais sutil, num xilofone, antes de aparecer de forma mais completa e grandiosa, em Edge of Tomorrowland. É uma bela e nostálgica melodia, que lembra um dos temas de Super 8.  O terceiro e último funciona como uma ligação entre os primeiros, ou seja, entre os personagens e a Tomorrowland – ou melhor, entre os personagens e as maravilhosas descobertas científicas de lá. Suas primeiras notas lembram vagamente o tema do Graal da trilha de Williams para Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989), o que pode ter sido acidental ou uma pequena homenagem do aluno ao seu mestre. Ele é sugerido inicialmente em A Story About the Future e em You’ve Piqued My Pin-trist, antes de ser completamente apresentado em Boat Wait, There’s More!.

O mais interessante é como Giacchino combina seus temas, frequentemente mesclando um ao outro, enquanto faz com que sua música progrida com eles, criando um belo arco narrativo para a partitura e para os personagens. Além da já citada Edge of Tomorrowland, que traz grandiosas interpretações do segundo e do terceiro tema, em meio a melodias de ação, um destaque do disco é a brilhante Pin-Ultimate Experience, que mistura os temas de Tomorrowland e o dos personagens, com toda a orquestra e acompanhamento de percussão e baixos, numa inteligente sugestão de Giacchino ao retratar a primeira visita de Casey à “Terra do Amanhã”. Mais tarde, a igualmente ótima What an Eiffel!, em seus quase sete minutos, desenvolve o terceiro tema, primeiro em interpretações nobres, e depois em versões progressivamente mais grandiosas.

O disco também é repleto de ação, em enérgicas melodias com toda a orquestra. World’s Worst Shop Keepers traz os metais em toda potência, de forma quase violenta, enquanto inicia uma “trilogia” de tensos cues, seguindo o mesmo ritmo, que também inclui Just Get In the Car e Texting While Driving. Já All House Assalt é igualmente impressionante, contando com cordas tensas, percussão e arroubos de metais, enquanto The Battle of the Bridgeway não faria feio, por exemplo, nos scores de algum Star Wars, com sua potente melodia, e os segundo e terceiro temas transformados em fanfarras heroicas.

Porém, apesar de a trilha ser de uma leveza raramente encontrada hoje em dia, ela também inclui momentos sombrios e tensos. Frank Frank traz cordas e trompas em uma interpretação taciturna e ameaçadora do terceiro tema, aqui despojado de toda a sua esperança e otimismo, retratando o homem triste e amargurado que Frank se tornou. Mais tarde, As the World Burns é bastante dramática, com toda a orquestra e coral. Nesse quesito, também podemos incluir outro tema menor da trilha, e talvez o único relacionado a um personagem específico: o tema do antagonista, o Governador Nix, que já deixou de ter esperança para a humanidade há muito tempo. É uma melodia repleta de ambiguidade e ameaça, que aparece primeiro em A Prologue e depois retorna em Welcome Back, Walker!, Sphere and Loathing e na citada As the World Burns, em sopros ameaçadores.

As últimas faixas do disco o encerram com chave de ouro. Electric Dreams traz a mais bela interpretação do tema dos personagens, inicialmente de forma sutil, com cordas e piano, e em seguida com toda a orquestra e o coro. Pins of a Feather e End Credits revisitam os três temas, em belíssimas interpretações, que fecham o ciclo da música perfeitamente. Aliás, Giacchino é hoje um dos poucos compositores que ainda compõem uma peça específica para os créditos finais, uma prática, infelizmente, cada vez mais em falta hoje em dia.

Tomorrowland pode ser visto como um filme sobre o “futuro do passado”, ou sobre a forma que, antes, imaginávamos o futuro como um lugar melhor, ao invés de distópico e violento. Da mesma forma, a trilha de Giacchino traz uma exuberância e uma leveza que não víamos há muito tempo, não apenas complementando o longa perfeitamente, como também rendendo um excelente álbum. Aqui, o drama e a frieza dos dias atuais dão lugar a um otimismo puro e simples e, se os personagens do filme sonham com um mundo melhor, podemos imaginar trilhas sonoras melhores também. Afinal, por que não?

Faixas:

1. A Story About the Future 0:54
2. A Prologue 1:29
3. You’ve Piqued My Pin-Trist 3:27
4. Boat Wait, There’s More! 1:08
5. Edge of Tomorrowland 5:17
6. Casey v Zeitgeist 1:23
7. Home Wheat Home 0:42
8. Pin-Ultimate Experience 4:53
9. A Touching Tale 1:36
10. World’s Worst Shop Keepers 3:34
11. Just Get In the Car 1:42
12. Texting While Driving 0:47
13. Frank Frank 1:18
14. All House Assault 4:04
15. People Mover and Shaker 5:26
16. What An Eiffel! 6:56
17. Welcome Back, Walker! 2:31
18. Sphere and Loathing 2:21
19. As the World Burns 4:24
20. The Battle of Bridgeway 2:52
21. The Hail Athena Pass 0:59
22. Electric Dreams 4:40
23. Pins of a Feather 5:19
24. End Credits

Duração total: 73:08

Tiago Rangel

8 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: TOMORROWLAND – Michael Giacchino”

  1. Bem, Brad Bird disse que só chamou Giacchino para compor Os Incriveis, após uma madrugada assistindo um episodio de Alias (se não me engano, tem essa entrevista nos extras do DVD). Confesso que, hoje, não consigo imaginar esse filme sem a musica dele. Foi uma escolha extremamente ousada? Foi, mas foi muito certeira.

    Desde então, os scores do Giacchino para os filmes do Bird, foram do ótimo ao excelente. A parceria entre os dois, é como o duo Williams/Spielberg ou Williams/Lucas. Cada um complementa o outro.

    Curti bastante o score de Tomorrowland. Leve, divertido, você não sente o tempo passar ouvindo ele. O ultimo deste naipe que eu ouvi, fora o de David Arnold para o Narnia III…

    Há tempos que Giacchino, ocupou um lugar cativo nas minhas playlists. E a cada trabalho que ele tem feito, a qualidade só tem aumentado. Este ano é dele! Espero ansiosamente por Jurassic World e Inside Out.

    “Se pelo menos o filme tivesse conquistado os corações da crítica de cinema tanto quanto a trilha, uma indicação ao Oscar seria quase certa.”

    Interessante observar que aconteceu o mesmo com John Carter. E a trilha do filme é magnifica. Sempre achei que devia ser indicada ao Oscar… Mas, com ou sem, não deixou de ser um trabalho de qualidade exemplar.

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  2. Francamente, o trabalho de Giacchino para Tomorrowland me fez lembrar porque eu gosto tanto de trilhas sonoras. É daquele daquelas trilhas sonoras que tem diversos trechos brilhantes aqui e ali. Não sou especialista como vocês do Scoretrack, mas me parece que o Giacchino consegue explorar de verdade o potencial da orquestra. Ele experimenta coisas novas, mas não de uma forma absurda, e sim com um pé no estilo clássico. Valeu!

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  3. A ilimitada criatividade de Speed Racer encontra a energia de Star Trek junto com a nostalgia e a emoção de Super 8. É um trabalho bárbaro que merecia levar o Michael Giacchino ao Oscar.

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