Resenha de Trilha Sonora: THE HATEFUL EIGHT- Ennio Morricone


Hateful-eight_CDMúsica composta por Ennio Morricone
Selo: Decca Records
Catálogo: 4769489
Lançamento: 18/12/2015
Cotação: star_4_5

Quentin Tarantino e Ennio Morricone. Dois artistas que certamente estão entre os mais importantes da história do cinema, e que, dado à fascinação do primeiro com a música do segundo, estavam destinados a trabalhar juntos. Entretanto, o temperamento por vezes difícil da dupla impediu que tal reunião ocorresse até pelo menos o oitavo (e, segundo o próprio diretor, antepenúltimo) longa de Tarantino, intitulado Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015). Afinal, desde pelo menos Pulp Fiction: Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1994) Tarantino vinha tentando, sem sucesso, que Morricone escrevesse alguma música original para ele.

Isto, claro, não impediu que o cineasta usasse trilhas anteriores de seu ídolo em longas como os dois volumes de Kill Bill, À Prova de Morte (Death Proof, 2007), Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009), – outra oferta recusada de Morricone – e Django Livre (Django Unchained, 2012), para o qual o renomado maestro italiano escreveu pelo menos uma canção original, Ancora Qui. Porém, após o lançamento do western estrelado por Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio e Christoph Waltz, Morricone declarou numa entrevista que o uso da música por Tarantino em seus filmes era “sem coerência”, referindo-se ao uso de faixas de trilhas anteriores suas, e que “eu não gostaria de trabalhar com ele novamente, em qualquer coisa”. Mais tarde, porém, o compositor publicou uma declaração dizendo que sua fala foi tirada do contexto, e que ele tinha o maior respeito pelo diretor.

O fato, porém, é que Tarantino sempre foi reticente em pedir a outros compositores que escrevessem música original para seus filmes, muito embora suas trilhas sonoras, que incluíam, como já dito, cues de outros scores e canções de sua gigantesca coleção de discos, sempre foram aclamadas pela crítica, e incorporadas como parte do estilo peculiar do cineasta. O único músico que ele confiaria para escrever um score original era Morricone e, após anos de idas e vindas, finalmente Tarantino conseguiu convencer o maestro de 87 anos de idade, ao visitá-lo pessoalmente na Itália.

Novamente, tudo não correu como planejado: Morricone quase desistiu quando soube que  o filme já havia encerrado as gravações, e que Tarantino precisava da trilha completa e gravada em um mês, e o maestro já tinha um compromisso com o novo filme de seu antigo colaborador, Giuseppe Tornatore. Mesmo assim, intrigado pela história criada pelo diretor, um tema começou a se desenhar na cabeça do lendário maestro italiano, de forma que ele poderia escrevê-lo e gravar uma versão orquestral completa, enquanto aguardava que Tornatore lhe exibisse seu novo longa.

Porém, Morricone, inspirado apenas pelo roteiro (e uma matéria da Variety indicava que, pelo menos até novembro deste ano, o compositor ainda não havia assistido ao longa), conseguiu compor a trilha por completo, já pronta para ser gravada. Foram três dias de gravações, a partir de 18 de julho, em Praga, com a Czech National Symphony Orchestra, que já havia colaborado com Morricone em O Melhor Lance (La Migliore Offerta, 2013) e, recentemente havia saído em turnê com o maestro. Foi a primeira trilha de Morricone para um western desde 1981, em respeito a seu colaborador e amigo Sergio Leone, tendo recusado inclusive ofertas de Clint Eastwood para trabalhar em seus filmes do gênero.

Para a surpresa de Tarantino (que esteve nas sessões de gravação do score para supervisionar os trabalhos), a trilha de Morricone não era a que ele imaginava. Ao invés de suas icônicas e inovadoras orquestrações para os faroestes de Leone, a música aqui é mais adequada a um suspense, ou mesmo terror – a bem da verdade, Morricone escreveu um dos mais tensos scores ouvidos em filmes de qualquer gênero nos últimos anos. Afinal, Os Oito Odiados não é um faroeste típico, e boa parte de suas três horas de duração se passam em um único ambiente, o Armazém da Minnie, no qual os oito personagens do título se abrigam durante uma nevasca. Sem terem como sair, figurais amorais (como boa parte dos protagonistas de Tarantino) como a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), o carrasco John Ruth (Kurt Russel), o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins) logo começam a descobrir segredos sombrios uns dos outros, levando a um inevitável e sangrento confronto.

Dessa forma, a música de Morricone descreve aos poucos a tensão e o conflito se desenhando lentamente entre os oito odiados do título. A atmosfera criada pela música do compositor é densa e sufocante, demonstrando que os desbocados personagens de Tarantino estão presos num inferno gelado, com pouquíssimas chances de saírem vivos de lá. Para isso, ele utiliza uma escrita orquestral complexa e inteligente, que visa manter um clima de perigo e ameaça constante, não muito diferente de suas trilhas para longas como O Exorcista II: O Herege (Exorcist II: The Heretic, 1977) e, especialmente, O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982) – não por acaso, cues de ambas as trilhas foram incorporados no longa, para preencher os “espaços vazios” que a música original do filme não conseguiu ocupar nas quase três horas de duração do longa.

A música é conduzida por dois temas. O primeiro é uma melodia sinistra e escorregadia, quase conspiratória, como uma ameaça nas sombras. Ele reflete bem a visão do compositor para a obra, já que, segundo o próprio Tarantino, Morricone havia lhe dito que esse tema sugeriria, com sua música, uma “carruagem se movendo pela neve, porém com um som ameaçador que sugeria a violência que estava por vir”. Já o outro tema tem como referência as trilhas para os antigos filmes de Giallo (tipo de terror que tinha no cineasta Dario Argento seu principal expoente) italianos dos anos 70, através da inclusão de uma caixa de música em sua orquestração, muito utilizada, por exemplo, nos trabalhos da banda de rock progressivo Goblin para os longas do gênero (mais do que nas próprias contribuições de Morricone para os filmes Giallo). Ela interpreta uma melodia cíclica, ligada ritmicamente ao primeiro tema, que, combinada a violinos gélidos e ameaçadores, acaba criando um tema tenso e sinistro, que não faria feio num filme propriamente de terror. Na verdade, tal tema consegue ser mais aterrorizante que boa parte dos scores para o gênero escritos hoje em dia.

O primeiro tema é desenvolvido na primeira faixa, L’Ultima Diligenza di Red Rock [Versione Integrale], inicialmente em fagotes e mais tarde por trompetes mudos, acompanhado por violinos ameaçadores, trompas sutis, flautas e bateria. Lembra um pouco o trabalho do compositor em Os Intocáveis (The Untochables, 1987), por exemplo. Porém, conforme a faixa progride, Morricone consegue torná-la cada vez mais tensa, enérgica e agitada, com o tema fluindo por diferentes sessões da orquestra, e chegando inclusive a trazer de volta gritos de um coro masculino reminiscente (aí sim) de seu trabalho em westerns nos anos 1960 e 1970, rumo a um final arrebatador. Ainda não sei em que medida ela será aproveitada no corte final de Tarantino ou se será apenas uma versão para concerto do tema, mas ela já ocupa seu lugar de direito como um dos grandes cues escritos em 2015. Mais tarde, no disco, o tema formará o centro de faixas como I Quattro Passeggeri e L’Ultima Diligenza di Red Rock [#2].

Em geral, porém, ele aparece sempre conectado ao outro tema. Este faz sua primeira aparição em Overture, faixa que Morricone escreveu para acompanhar justamente a “Overture” (abertura) do longa em sua polêmica versão cinematográfica para 70mm, mais um aceno de Tarantino aos grandes épicos do passado, que faziam uso de tais recursos (que renderam peças lendárias de música nas mãos de compositores como Maurice Jarre e Miklós Rózsa). Porém, ele é desenvolvido por completo na longa Neve, que, com 12 minutos (!) de duração, cria uma atmosfera perturbadora através de cordas sinistras e toques de suspense a cargo de sopros e da caixinha de música, além de sutis participações do tema principal. É uma peça inquietante e por vezes até desconfortável de se ouvir, mas Morricone merece crédito por sua inteligência em manter a tensão nas alturas durante um cue tão longo, mesmo sem grandes explosões aterrorizantes. Duas versões mais curtas da faixa também podem ser encontradas no disco.

Os dois temas tem participação de destaque em faixas como Narratore Letterario, o principal no fagote e o outro na caixa de música, acompanhado por cordas em pizzicato, e depois de forma mais sutil em La Musica Prima del Massacro. Já Sangue e Neve começa com a caixa de música do tema secundário, antes de partir para uma grandiosa aparição do tema principal com toda a orquestra.

Além disso, a trilha também possui algumas excelentes e dissonantes passagens de ação. Sei Cavalli é pura dissonância orquestral, com metais violentos e cordas praticamente “herrmanianas”. Já Raggi di Sole Sulla Montagna é uma composição abstrata e surrealista, cujas orquestrações quase lembram um sonho perturbador. O “clímax” do disco acontece nas duas faixas intituladas L’Inferno Bianco, uma com o subtítulo Synth, que significa sintetizador, e a outra subtitulada Ottoni, ou metais em português (indicando que esta é praticamente a única diferença entre as duas). Elas se iniciam com cordas e bateria, num estilo não muito diferente daquele que Morricone empregava em seus thrillers policiais durante os anos 1970 e 1980. Já a segunda parte traz uma espécie de dança entre cordas e madeiras em pizzicato junto ao tímpano, as trompas e trompetes, novamente lembrando algo que Bernard Herrmann poderia ter escrito em seu período de auge.

Entretanto, La Lettera de Lincoln (em duas versões, com e sem diálogo) finalmente traz um momento mais acolhedor para a trilha, com uma bela melodia, ainda que ligeiramente fúnebre, para trompete, um dos instrumentos preferidos do compositor, acompanhado pela orquestra. Por sua vez, a curtíssima La Puntura Della Morte encerra o disco num tom de suspense.

O disco lançado pela Decca também inclui três ótimas canções, Apple Blossom, da banda The White Stripes, Now You’re All Alone, de David Hess, e There Won’t Be Many Coming Home, do grande Roy Orbison – as duas últimas já haviam sido utilizadas respectivamente no terror Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972) e o western O Violão Heroico (The Fastest Guitar Alive, 1967). Além disso, como é de costume com as trilhas de Tarantino, esta traz alguns trechos de diálogo do filme, que, por melhor que possam ser, eu sugiro que você as deixe de fora em sua audição, para uma melhor experiência musical.

Com a temporada de premiações se aproximando, muitos críticos e jornalistas de entretenimento, em suas apostas, já definiram que é quase certa uma indicação ao Oscar de trilha sonora para Morricone (a primeira em 15 anos), e alguns chegaram até a apostar em sua vitória, visto os prêmios que vem colecionando até então. Caso ele vença, além de ser um merecido Oscar, também corrigirá um erro histórico da Academia, que, depois de ter ignorado a música do compositor por tanto tempo, só foi lhe dar um “Oscar honorário” em 2007. A trilha de Os Oito Odiados certamente não é igual às que Morricone compunha para seus icônicos “bangue bangue à italiana” de antigamente, mas mostra um compositor que, aos 87 anos, ainda sabe como escrever música orquestral complexa e extremamente inteligente, fazendo por merecer seu status de lenda viva. Não é certo se ele irá colaborar com Tarantino novamente, até porque o diretor costuma ter de escolher entre muitos projetos antes de seguir em frente com um, mas, qualquer que sejam seus próximos passos na Música de Cinema, sei que podemos ter certeza que Morricone continuará a escrever trilhas sonoras da mais alta qualidade.

Faixas:

1. L’Ultima Diligenza di Red Rock (Versione Integrale) (07:30)
2. Ouverture (03:11)
3. “Major Warren Meet Daisy Domergue” (00:32)
Jennifer Jason Leigh, Kurt Russell and Samuel L. Jackson (dialogue)
4. Narratore Letterario (01:59)
5. Apple Blossom (02:13)
The White Stripes
6. “Frontier Justice” (01:50)
Tim Roth & Kurt Russell (dialogue)
7. L’Ultima Diligenza di Red Rock (#2) (02:37)
8. Neve (Versione Integrale) (12:16)
9. “This Here Is Daisy Domergue” (01:01)
Kurt Russell & Michael Madsen (dialogue)
10. Sei Cavalli (01:21)
11. Raggi di Sole Sulla Montagna (01:41)
12. “Son Of The Bloody Nigger Killer Of Baton Rouge” (02:43)
Samuel L. Jackson, Walton Goggins & Bruce Dern (dialogue)
13. “Jim Jones at Botany Bay (feat. Kurt Russell)” (04:10)
Jennifer Jason Leigh (dialogue)
14. Neve (#2) (02:05)
15. “Uncle Charlie’s Stew” (01:41)
Samuel L. Jackson, Demián Bichir and Walton Goggins (dialogue)
16. I Quattro Passeggeri (01:49)
17. La Musica Prima del Massacro (02:00)
18. L’Inferno Bianco (Synth) (03:31)
19. The Suggestive Oswaldo Mobray (00:47)
Tim Roth, Walton Goggins & Kurt Russell (dialogue)
20. Now You’re All Alone (01:29)
David Hess
21. Sangue e Neve (02:05)
22. L’Inferno Bianco (Ottoni) (02:02)
23. Neve (#3) (03:31)
24. Daisy’s Speech (01:32)
Walton Goggins, Jennifer Jason Leigh & Michael Madsen (dialogue)
25. La Lettera Di Lincoln (Strumentale) (01:41)
26. La Lettera Di Lincoln (Con Dialogo) (01:46)
Ennio Morricone & Walton Goggins
27. There Won’t Be Many Coming Home (02:44)
Roy Orbison
28. La Puntura Della Morte (00:27)

Duração total: 72:14

Tiago Rangel
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