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Resenha de Trilha Sonora: THE MAN FROM U.N.C.L.E. – Daniel Pemberton


Man_from_uncle_CDMúsica composta por Daniel Pemberton
SeloWaterTower Music
Catálogo: WTM39694
Lançamento: 07/08/2015
Cotação: star_4

Super-heróis? Coisa do passado. O ano de 2015 pertence aos agentes secretos. Depois dos sucessos de crítica e bilheteria de Kingsman: Serviço Secreto(Kingsman: The Secret Service, 2015), A Espiã que Sabia de Menos(Spy, 2015) e Missão Impossível: Nação Secreta(Mission Impossible: Rogue Nation, 2015), o mais novo filme de espião a aportar nos cinemas é O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., 2015). Adaptação de uma bem sucedida série de televisão da década de 1960 (que contava com um famoso tema composto por ninguém menos que Jerry Goldsmith, e tinha seus episódios musicados por Lalo Schifrin, Gerald Fried e o próprio Goldsmith, entre outros), o filme, dirigido por Guy Ritchie, conta a história de dois espiões, o americano Napoleon Solo (o “Superman” Henry Cavill) e o soviético Illya Kuriakin (Armie Hammer), que, com a ajuda da femme fatale Gabi Teller (Alicia Vikander), devem derrotar uma organização de ex-nazistas que pretendem construir uma arma nuclear. Claro, como acontece todas as vezes em que Hollywood investe demais em exemplares do mesmo gênero, O Agente da U.N.C.L.E.foi o menos bem sucedido de seu grupo, tanto com a crítica quanto com a bilheteria. Tais críticas, porém, felizmente, não devem se estender ao ótimo score do filme, composto pelo britânico Daniel Pemberton.

Pemberton, apesar de sua relativa pouca idade (37 anos), já soma alguns trabalhos para a televisão inglesa, para o vídeo game LittleBigPlanet e para o drama de Ridley Scott O Conselheiro do Crime (The Counselor, 2013). Seu trabalho para o longa de Ritchie pode ser o que definitivamente irá abrir as portas dos blockbusters hollywoodianos para ele, a julgar pela criatividade e inventividade que Pemberton empregou em sua trilha. Ritchie, que em seus filmes anteriores, as duas partes da série Sherlock Holmes, inspirou Hans Zimmer a compor dois de seus mais peculiares, divertidos e estilosos scores, continua com a mesma tendência agora em O Agente da U.N.C.L.E. – embora, claro, as trilhas de Pemberton e de Zimmer sejam bastante diferentes.

No que os scores dos dois compositores de fato se assemelham é o foco em instrumentos incomuns e orquestrações peculiares, ao invés de uma orquestra tradicional (embora ela esteja presente nos trabalhos de ambos). No caso de Pemberton, sua trilha é um delicioso revival dos clássicos dos anos 1960, não apenas espelhando a época em que o longa se passa, mas também prestando uma divertida homenagem aos grandes compositores daquela época, como John Barry, Ennio Morricone, os já citados Goldsmith e Schifrin, entre outros.

A faixa inicial do score, Out of the Garage, já indica como a trilha vai ser: após um início que fariam os fãs dos clássicos de James Bond chorarem de alegria, vem logo uma melodia de ação interpretada por baixo, pratos, guitarra, cimbalom (um instrumento de cordas percutidas de metal) e uma flauta baixo, cortesia do solista David Heath. Aparentemente, Heath utilizou uma técnica chamada fluteboxing, que consiste em “cantar” dentro da flauta com sílabas faladas, criando uma espécie de som percussivo. Seu efeito é excelente, e a flauta baixo conduz a melodia de ação, sem perder o estilo.

His Name is Napoleon Solo, em seguida, é cheia de classe, destacando-se aqui o cimbalom, que remete a trilhas como Ipcress: Arquivo Confidencial (The Ipcress File, 1965). O poder da flauta baixo de Heath aparece na ótima Escape from East Berlin, em que ela é combinada à percussão, guitarra e até um teclado, mais para o fim da faixa. Em seguida, em Mission Rome, o destaque vai para um cravo, no melhor estilo Morricone. Imagino que Ritchie deva ter uma paixão especial pela música do grande maestro italiano, já que até Zimmer utilizou Morricone como inspiração em Sherlock Holmes: seu tema principal para o longa estrelado por Robert Downey Jr. é bastante reminiscente de um dos temas de Era Uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in West, 1968).

The Vinciguerra Affair poderia ser a versão instrumental de alguma música pop da época, com sua melodia conduzida por percussão e riffs de baixo, e algumas (poucas) participações de cordas. Bugs, Beats and Bowties segue no mesmo estilo, só que, aqui, o destaque vai para o cravo e um cômico teclado. Em Signori Toileto Italiano, há inclusive a participação especial de um acordeão tipicamente europeu, junto ao cimbalom, carro-chefe da faixa. Entretanto, após este divertido interlúdio, a ação retorna em Breaking In (Searching the Factory), novamente conduzida pela flauta baixo, acompanhada durante boa parte do tempo apenas por pratos e percussão, com o cravo e o baixo acrescentados mais para o final, resultando num efeito sensacional. Breaking Out (The Cowboy Escapes), como o subtítulo indica, poderia pertencer a um western spaghetti, com sua melodia conduzida por instrumentos tipicamente mexicanos.

Into the Lair (Betrayal Pt. 1) é a mais “convencional”, por assim dizer, do score, com suas cordas orquestrais dramáticas. Porém, logo as coisas voltam ao normal em Laced Drinks (Betrayal Pt. 2), com sua hipnótica melodia para cravo, misturada com a flauta e elementos de rock mais pesados. Circular Story, por outro lado, é uma faixa maravilhosamente nostálgica para os fãs de rock clássico (eu me peguei pensando em Led Zeppelin enquanto a ouvia). Na sequência, The Drums of War serve como uma perfeita homenagem a Morricone e seus western spaghetti: seus primeiros minutos poderiam aparecer em Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966). Porém, na marca de 2:30, a faixa passa a empregar, segundo o próprio compositor, “cada instrumento de percussão que pudemos encontrar em Londres”. O resultado é uma peça divertida, e bastante criativa.

E Pemberton ainda consegue arrumar tempo para mais uma homenagem a Morricone: Take you Down traz os gritos guturais que remetem a trilhas como Joe, O Pistoleiro Implacável (Navajo Joe, 1966), junto a uma enérgica melodia de rock pesado. E há uma certa atmosfera conclusiva em We Have Location, na melodia conduzida pela flauta, percussão, cravo e as cordas. A Last Drink, entretanto, tem um clima mais melancólico e triste, graças ao cravo e às cordas. Esta atmosfera continua em The Unfinished Kiss, a mais romântica e dramática do disco.

Se você optar pela versão digital do disco (a mais viável atualmente, para nós brasileiros), também ganha quatro faixas bônus de presente. Dentre elas, destacam-se Red Mist, que vai fazer a alegria dos fãs de Era Uma Vez no Oeste, e Warhead, outra ótima faixa de ação, que conta inclusive com a participação ocasional de metais na orquestração. Além disso, o disco ainda é completado por várias canções cool da época, inclusive uma do mestre da Tropicália Tom Zé, Jimmy Renda Se.

Talvez o único problema com a trilha de Pemberton é a falta de um tema principal forte para dar coesão à música. Seria mais interessante se toda a trilha estivesse unida em torno de um tema recorrente. E Pemberton nem precisaria se preocupar em criar um completamente do zero: o tema original de Goldsmith é bom o suficiente, e poderia se encaixar bem na música. Seria uma ótima homenagem, como a que Joe Kraemer prestou a Schifrin no recente Missão Impossível: Nação Secreta. Sendo assim, fica bastante estranha a escolha do compositor de optar por deixar o tema de Goldsmith de fora.

Mesmo assim, ainda temos uma trilha divertida e deliciosa, e uma autêntica homenagem aos clássicos sessentistas. Além disso, eu duvido que esse ano teremos outra trilha tão estilosa e cool quanto essa. Imperdível.

Faixas:

1. Compared To What (*) (05:16)
by Roberta Flack
2. Out Of The Garage (03:47)
3. His Name Is Napoleon Solo (02:38)
4. Escape From East Berlin (04:25)
5. Jimmy, Renda se (*) (03:39)
by Tom Zé and Valdez
6. Mission: Rome (02:40)
7. The Vinciguerra Affair (03:22)
8. Bugs, Beats and Bowties (01:52)
9. Cry To Me (*) (02:36)
by Solomon Burke
10. Five Months, Two Weeks, Two Days (*) (02:09)
by Louis Prima
11. Signori Toileto Italiano (02:37)
12. Breaking In (Searching The Factory) (03:04)
13. Breaking Out (The Cowboy Escapes) (02:04)
14. Che Vuole Questa Musica Stasera (*) (03:36)
by Peppino Gagliardi
15. Into The Lair (Betrayal Part I) (01:47)
16. Laced Drinks (Betrayal Part II) (03:40)
17. Il Mio Regno (*) (02:23)
by Luigi Tenco
18. Circular Story (04:03)
19. The Drums Of War (05:11)
20. Take You Down (03:26)
21. We Have Location (02:22)
22. A Last Drink (01:48)
23. Take Care Of Business (*) (02:04)
by Nina Simone
24. The Unfinished Kiss (02:53)
Bonus Tracks (digital only)
25. The Red Mist (02:10)
26. The Switch (00:58)
27. Warhead (02:18)
28. Fists (01:49)

(*) – Album Only

Duração total: 80:37

Tiago Rangel

7 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: THE MAN FROM U.N.C.L.E. – Daniel Pemberton”

  1. Os temas do Pemberton e do Goldsmith são igualmente bons, e igualmente esquecíveis. São ótimos para o filme, para a história, mas não e prolongam. Mas são ótimos. Goldsmith à época tentou capturar o espírito do 007, assim como Pemberton neste score. O uso do tema da antiga série, seria bacana, mas não faria tanta diferença quanto o uso do tema do Superman no filme do Superman ou o tema da série Missão Impossível nos filmes Missão Impossível.
    Já Kraemer usou o tema do Schifrin não por homenagem, pelo menos não da parte dele, e sim por ele já estar ligado à série há tantos anos. A homenagem sempre deve ser creditada aos produtores, o próprio Tom Cruise entre eles. O elogio a Kraemer se deve ao fato dele ter feito vários arranjos e realmente incorporado o tema naquilo que ele compôs, coisa que não aconteceu nos dois primeiros filmes.
    Ainda estou para escutar a abordagem do Michael Giacchino nos filmes da série, que segundo dizem, teve uma participação tão grandiosa quanto a do Kraemer.

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    1. Em particular Missão Impossível 3. Lá Giacchino finalmente trouxe a força revigorada dos clássicos para a atualidade. Imperdível você vai curitr.
      O mesmo fez David Arnold para 007 em Tomorrow Never Dies bem ao estilo John Barry. Abraços.

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  2. Eu realmente não curto trilha sonora que mistura ao longo do cd, score com canções. Poderia ter as canções e depois o score, acaba ficando chato. Danny Elfman e Prince foram precursores em Batman de Tim Burton com duas trilhas distintas, tamanha era a quantidade de material.
    Vou acabar fazendo uma montagem para curtir melhor esta trilha que por si não acrescenta em nada. É mais uma trilha incidental preenchendo os espaços no filme. O tema de Goldsmith era bacana, com uma nova roupagem e sendo usado nas cenas de impacto ficaria bem legal e teria grandes chances de lembrarmos o tema ao final do longa. Uma pena.
    No mais acredito que as canções e o score devem ter encaixado bem na tela mas não agradam como um todo em separado. Abraços.

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