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Resenha de Trilha Sonora: FAR FROM THE MADDING CROWD – Craig Armstrong


Far_From_Madding_Crowd_CDMúsica composta por Craig Armstrong
Selo: Sony Classical
Catálogo: SK 503230
Lançamento: 28/04/2015
Cotaçãostar_4

Fundado por cineastas dinamarqueses, o movimento Dogma 95 foi um dos mais influentes nas últimas décadas do cinema. Ele surgiu como uma reação ao cinema comercial hollywoodiano, e pregava uma série de medidas controversas, como que cada filme do Dogma deve ser filmado no próprio local, com câmera na mão (vetando-se, assim, os longas de época e de gênero), e não deveria ter música não diegética – ou seja, trilha sonora original acompanhando as cenas. Seus principais fundadores foram Thomas Vinterberg e Lars Von Trier, responsáveis por filmes polêmicos, ainda que de grande prestígio, como Festa de Família (Festen, 1998) e Os Idiotas (Idiotern, 1998).

Porém, os anos passam e, apesar de que Von Trier continuou realizando filmes controversos, como o recente Ninfomaníaca (Nymphomaniac, 2013), o último de Vinterberg a atingir os cinemas não poderia estar mais distante das regras do Dogma. Trata-se do drama Longe Deste Insensato Mundo (Far from the Madding Crowd, 2015), uma adaptação literária do livro homônimo de Thomas Hardy de 1874, estrelada por Carey Mulligan, que conta a história de uma mulher forte e independente na Inglaterra Vitoriana, de nome Bathsheba Everdene, dividida entre três pretendentes: o fazendeiro Gabriel Oak, o sargento Frank Troy e o próspero solteiro William Boldwood. Na trilha sonora, Vinterberg contratou o compositor Craig Armstrong para criar um belo e romântico score para o drama.

Provavelmente, muitos intelectuais e críticos acadêmicos condenarão Vinterberg ao fogo do inferno por ter se “vendido para o cinema comercial e suas manipulações baratas das emoções do espectador”, mas até agora o longa vem sido bem recebido pela crítica, assim como a trilha de Armstrong, já reconhecida como uma das mais bonitas do ano até agora. O sujeito é mais conhecido por suas colaborações com diretores como Baz Luhrmann e Oliver Stone, bem como pelo score da aventura da Marvel O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008), mas até hoje nunca compôs praticamente nada que chegasse perto da beleza desta trilha.

Aproveitando a ambientação do filme, no interior da Inglaterra, Armstrong parece ter se inspirado tanto no típico folk inglês quanto na música clássica do período. Para o seu tema principal, ele utiliza um violino solo, em meio à orquestra, lembrando bastante obras primas como Iris (idem, 2001), de James Horner, e A Vila (The Village, 2004), de James Newton Howard. O resultado é singular, ainda que repleto de beleza e emoção.

Este tema aparece no início do disco, na maravilhosa Opening, que traz o violino solo, muito reminiscente da brilhante contribuição da violinista Hilary Hahn para a trilha de Newton Howard, junto a uma orquestra de cordas, madeiras e piano, numa melodia sentimental e memorável – procure por esta faixa na minha lista das melhores scoretracks de 2015, a sair no fim do ano, ela certamente estará lá. É a mais bonita que ouvi no ano até agora.

Entretanto, curiosamente, o violino solo fica ausente durante boa parte do score. Mais tarde, no álbum, ele retorna nas faixas oito e nove, intituladas Never Been Kissed e Hollow in the Ferns. A primeira tem uma clima triste e sombrio, com apenas dicas do tema principal, e a outra traz inicialmente uma harpa leve, seguida por melodias dramáticas, porém românticas. Mais tarde, o tema principal retorna na curta, ainda que bonita, End Credits.

Para o fazendeiro Oak, Armstrong entrega faixas que retratam sua vida bucólica e simples. Seu tema aparece inicialmente em Corn Exchange, uma bonita melodia para cordas, destacando-se violinos e violas, que certamente agradarão aos fãs de grandes trilhas românticas, como as de Entre Dois Amores (Out of Africa, 1985), Lendas da Paixão (Legends of the Fall, 1994), Água para Elefantes (Water for Elephants, 2011), e os trabalhos de Rachel Portman no gênero. Mais tarde, ele retorna nas igualmente belas Spring Sheep Dip, Time Moves On e Oak Leaves, ao passo em que Oak Returns e Bathsheba and Oak Unite trazem climas respectivamente mais sombrio e mais romântico, lembrando a escrita de Danny Elfman para dramas.

O sargento Troy, por sua vez, ganha um tema mais escuro e ameaçador, refletindo sua personalidade nada confiável. Ele aparece em The Great Misunderstanding, e consiste em violinos em staccato, acompanhado de cellos, baixos e harpa, e tem um ligeiro toque de Alexandre Desplat. Em Bathsheba and Troy Wedding e Fanny and Troy ele retorna, de maneira mais sutil, porém sombria e melancólica, ao passo em que Troy Swims Out apresenta piano e cordas atmosféricas. Já o terceiro pretendente de Bathsheba, William Boldwood, possui sua própria suíte, em Boldwood Variation, uma bonita e aristocrática peça para cordas, reminiscente das colaborações de Patrick Doyle com Kenneth Branagh nas adaptações de Shakespeare do diretor.

O fim do disco também possui a soberba Far from the Madding Crowd Love Theme (é impressionante como eu não lembro de nenhuma faixa que tenha as palavras “Love Theme” no título e que seja ruim), uma melodia expressivamente romântica e arrebatadora para toda a orquestra, incluindo aí a primeira participação de metais. Acho que já temos o nosso vencedor do concurso “tema de amor mais bonito de 2015”…

Enfim, Longe Deste Insensato Mundo não só é a trilha mais bela do ano até agora, como também é o melhor trabalho da carreira de Craig Armstrong. Os companheiros de Vinterberg e fãs do Dogma 95 podem ficar furiosos, mas, se você gosta de scores orquestrais repletos de drama e romance, então, não deixe este passar batido.

Faixas:

1. Opening (04:40)
2. Jerusalem The Golden (01:56)
Performed by the Dorset Singers and Yeovil Chamber Choir
3. Corn Exchange (01:28)
4. The Great Misunderstanding (02:26)
5. Spring Sheep Dip (02:19)
6. Oak Returns (02:18)
7. Let No Man Steal Your Thyme (02:06)
Performed by Carey Mulligan and Michael Sheen
8. Never Been Kissed (03:02)
9. Hollow in The Ferns (03:40)
10. Bathsheba and Troy Wedding (03:07)
11. Dribbles of Brandy (01:11)
Performed by The Eliza Carthy Band with Saul Rose
12. Swiss Boy (01:51)
Performed by The Eliza Carthy Band with Saul Rose
13. Fanny and Troy (04:06)
14. Troy Swims Out (01:18)
15. O Come, O Come, Emmanuel (02:48)
Performed by The Dorsey Singers and Yeovil Chamber Choir
16. Boldwood Variation (02:32)
17. Michael Turner’s Waltz (01:49)
Performed by The Eliza Carthy Band
18. Jenny Lind Polka (01:54)
Performed by The Eliza Carthy Band with Saul Rose
19. Time Moves On (01:08)
20. Oak Leaves (01:11)
21. Bathsheba and Oak Unite (01:37)
22. End Credits (02:09)
23. Let No Man Steal Your Thyme (02:33)
Performed by Carey Mulligan – Arr. by John and Neill Maccoll
24. Far From The Madding Crowd Love Theme (03:43)

Duração total: 56:52

Tiago Rangel

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