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Resenha de Trilha Sonora: SAN ANDREAS – Andrew Lockington


san_andreas_CDMúsica composta por Andrew Lockington
Selo: WaterTower Records
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 12/05/2015
Cotaçãostar_3_5

Os anos passam, os hábitos mudam, mas uma coisa sempre é constante no mundo do cinema: cinéfilos adoram filmes-catástrofe. Os desastres podem acontecer em escala mundial ou local (como dentro de um navio ou um avião), e podem ser de causas naturais, como terremotos, tsunamis e vulcões, ou envolver algo mais “fantástico”, como alienígenas. O público adora ver enormes cenas de destruição, ao mesmo tempo em que torce para que os heróis apresentados no primeiro ato continuem são e salvos (mesmo que milhares de outros figurantes digitais acabem morrendo).

Por serem tão abundantes na história de Hollywood, as trilhas para tais filmes variam dos clássicos absolutos até as mais esquecíveis. Na década de 1970, por exemplo, John Williams era o compositor “oficial” dos filmes-catástrofe do rei do gênero, Irwin Allen, como O Destino do Poseidon (The Poseidon Adventure, 1972) e Inferno na Torre (The Towering Inferno, 1974), antes de tomar o mundo de assalto com suas colaborações com Steven Spielberg e George Lucas. Já nos anos 1990, David Arnold despontou como uma das grandes revelações da Música de Cinema, com seus incríveis scores orquestrais para os filmes de outro diretor que fez seu nome com catástrofes no cinema, Roland Emmerich. No mesmo período, os trabalhos de James Horner no gênero, como em Impacto Profundo (Deep Impact, 1998) e Mar em Fúria (The Perfect Storm, 2000), de Christopher Young em O Núcleo: Missão ao Centro da Terra (The Core, 2003) e do próprio Williams em Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005) destacaram-se por sua excelência, que os distanciava dos esforços mais medíocres que começavam a povoar o gênero, principalmente vindos da dupla Harald Kloser e Thomas Wander, que por alguma razão inexplicável tomaram o lugar de Arnold como os compositores preferidos de Emmerich.

 Para nós, scoretrackers, reféns dos esquecíveis trabalhos de Kloser e Wander no gênero por anos, finalmente um alívio chega na forma de um jovem compositor em ascensão, Andrew Lockington, no novo filme-catástrofe Terremoto: A Falha de San Andreas (San Andreas, 2015). Basicamente, o longa conta a história de um heroico pai de família (interpretado por Dwayne “The Rock” Johnson), que deve resgatar sua ex-esposa e sua filha da catástrofe explicitada no redundante título nacional, que atinge toda a região da Califórnia (pare e pense: quantas vezes você já assistiu a um filme com histórias similares?). A crítica, claro, não gostou muito. Por outro lado, quem é fã de trilhas não precisa se preocupar com a bobagem vista na tela para apreciar a música, repleta de méritos no caso deste filme.

Talvez você não reconheça o nome, porém, o fato é que Lockington conseguiu formar uma pequena, porém dedicada, base de fãs, graças aos seus coloridos, divertidos e enérgicos scores orquestrais para filmes como Viagem ao Centro da Terra (Journey to the Center of the Earth, 2008) e sua continuação, Viagem 2: A Ilha Misteriosa (Journey 2: The Misterious Island, 2012). Tais trilhas são repletas do mesmo senso de aventura e grandiosidade que nós, fãs de film scores, tanto gostamos de ouvir no disco, ainda que sejam ligeiramente esquecíveis e genéricas. Para isso, Lockington contou com a ajuda sempre inestimável do orquestrador e maestro Nicholas Dodd, famoso (e polêmico) no mundo das trilhas por dar um som mais grandioso e épico aos scores de compositores novatos e não muito acostumados a escrever grandes obras sinfônicas, como foi o caso de Mychael Danna, Clint Mansell e o próprio Arnold. Assim, enquanto o inglês ex-compositor oficial de James Bond se afasta cada vez mais da Música de Cinema, Lockington parece ter chegado na hora certa para ocupar o lugar de Arnold nos corações de quem ama as trilhas de aventura das décadas de 1980 e 1990 – um feito e tanto no mundo de hoje, quando cada vez mais scores vem abandonando a orquestra sinfônica e seguindo o caminho da Remote Control.

Felizmente para seus fãs, a trilha de San Andreas segue na mesma linha dos trabalhos anteriores do compositor canadense: ou seja, uma grande orquestra e coro, temas heroicos e belos momentos de drama, para acompanhar toda a tragédia provocada pelo terremoto. Assim, ainda que não esteja no mesmo nível de seus similares de décadas passadas, ela ainda garante um bom divertimento a qualquer um que aprecie potentes trilhas orquestrais.

A música é estruturada em torno de dois temas principais, sendo que um deles é dividido em duas partes. Este é o primeiro a aparecer no disco, logo na faixa inicial. A primeira parte aqui aparece a cargo de um coro melancólico, acompanhada de cordas graves, como se relembrasse as vítimas da tragédia, ao passo em que a segunda, na sequência, já tem ares mais nobres, com sua interpretação a cargo das trompas. Já o outro tema aparece pela primeira vez em San Francisco, e é uma melodia heroica e quase patriótica, remetendo um pouco aos scores de Michael Kamen, especialmente Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões (Robin Hood: Prince of Thieves, 1991). Porém, apesar de serem de boa audição, tais temas trazem um problema: eles não são muito memoráveis. Precisei ouvir o disco algumas vezes antes de, finalmente, começar a separar um do outro na minha mente, e eu tenho uma memória musical relativamente boa. É um problema que já apareceu nos trabalhos anteriores de Lockington e que ele deveria resolver, se quiser se tornar um compositor realmente – e literalmente – memorável.

Ambos os temas aparecem diversas vezes no álbum, tanto nas sequências mais explosivas quanto nas mais melancólicas. E, por mais incrível que possa parecer, é nos momentos de drama que a trilha de Lockington realmente brilha. Divorce Papers traz uma tocante apresentação das duas partes do tema principal, com cordas e piano, e finaliza com uma vibrante interpretação da segunda parte, para toda a orquestra. Mais para a frente, Remembering Mallory traz os dois temas de forma triste e repleta de dramatismo, enquanto a seguinte, Coit Tower Destroyed, mescla satisfatoriamente tragédia e suspense.

As diversas faixas de ação, por sua vez, trazem percussão, metais enérgicos, momentos de heroísmo, cordas rápidas – ou seja, basicamente o mesmo estilo de Brian Tyler. Claro, não dá para dizer que a música, em si, é ruim, e faixas como as similarmente nomeadas Natalie’s Rescue e Emma’s Rescue trazem bastante grandiosidade e explosões orquestrais, mas um ouvinte mais experiente pode se incomodar com a similaridade com o estilo empregado por Tyler em… Na verdade, nem dá para dizer com qual trilha do compositor americano tais faixas se parecem, já que, com algumas (poucas) exceções, Tyler não chega a modificar muito seu estilo de um score para o outro – o que torna tudo ainda pior para Lockington, que corre o risco de ver seu trabalho confundido com o do colega. Além disso, outro problema que afetou inúmeros discos antes, e que também aparece aqui, é o das faixas mais quietas, de suspense, que tentam evocar tensão com cordas e eletrônicos, mas que podem acabar entediando o ouvinte, como são os casos de Caltech e Connecting the Dots. A exceção, nesse caso, acaba sendo a interessante Need A News Feed, com sua mistura de techno e orquestral.

Falando em eletrônicos, apesar de Lockington os utilizar com bastante parcimônia (mais ou menos na média de uma trilha para um blockbuster atual), ele também utiliza seus sintetizadores para criar um irritante motivo, que quase prejudica a trilha. O mais-do-que-clichê horn of doom, presente num número absurdo de partituras dos últimos anos, aqui ganha uma versão totalmente sintetizada, e ainda mais bizarra, chegando a atrapalhar as melodias de ação do compositor. Ele é ouvido primeiramente em Hoover Dam, e depois retorna em Stanchion Collapse e em I Love You Dad, além de ter uma participação particularmente proeminente na citada Emma’s Rescue.

Conforme o disco avança, e o ouvinte vai se acostumando a esses problemas, felizmente a música também melhora, chegando a um ótimo encerramento. A partir do segundo terço do disco, as faixas passam a trazer ação, drama e emoção. Skydive possui uma interpretação grandiosa do tema principal, com cordas, percussão e trompas, algo como uma versão melhorada das trilhas de Steve Jablonsky, por exemplo. Já Tsunami traz os dois temas numa violenta e brutal versão a cargo de toda a orquestra, enquanto, em Extinction, uma voz de soprano se junta à orquestra, numa melodia triste, que inclui a primeira parte do tema principal. Além disso, de The Kiss em diante, o álbum atinge seu ponto mais alto, num clímax heroico e dramático, que culmina na excelente Resuscitation, que traz, em seus seis minutos de duração, as melhores e mais satisfatórias interpretações dos dois temas, com orquestra e coral, numa conclusão emocionalmente potente e satisfatória para a música, lembrando scores tão díspares quanto os de John Ottman para Superman: O Retorno (Superman Returns, 2006) e os da década de 1990 para o gênero, incluindo Apollo 13 (idem, 1995), de Horner, o que é ligeiramente nostálgico. E, após isso, ainda há tempo de uma épica, ainda que curta, suíte dos créditos finais, mais uma vez com os dois temas.

Com seus altos e baixos, a trilha de San Andreas certamente irá agradar tanto a crescente base de fãs de Lockington quanto aqueles que sentem falta dos tempos antes da dominação mundial da Remote Control. Apesar de suas limitações, enxergo um bom futuro para o canadense na Música de Cinema. Ele tem minha torcida.

Faixas:

1. Main Theme (01:42)
2. Natalie’s Rescue (05:17)
3. Caltech (02:06)
4. Divorce Papers (03:28)
5. Hoover Dam (02:49)
6. San Francisco (01:51)
7. Connecting The Dots (01:40)
8. Emma’s Rescue (05:42)
9. Escaping The Tower (01:32)
10. Need A News Feed (02:40)
11. Blake’s Trapped (02:05)
12. Remembering Mallory (03:05)
13. Coit Tower Destroyed (03:33)
14. Skydive (02:50)
15. Stanchion Collapse (02:45)
16. Plan B (02:32)
17. Tsunami (02:46)
18. Extinction (01:01)
19. Extinction (03:09)
20. I’ll Bring Her Back (03:13)
21. I Love You Dad (03:25)
22. Resuscitation (06:39)
23. End Credits (02:58)

Duração total: 68:48

Tiago Rangel

7 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: SAN ANDREAS – Andrew Lockington”

  1. “…principalmente vindos da dupla Harald Kloser e Thomas Wander, que por alguma razão inexplicável tomaram o lugar de Arnold como os compositores preferidos de Emmerich.”

    Sempre pensei que David Arnold ficou chateado com o Roland, quando este contratou John Williams para realizar o score de O Patriota… Desde então, ele nunca mais trabalhou com o alemão. Entretanto, seu nome está no IMDB, como compositor de ID4 Parte II…

    Quanto ao Lokington, esse score parece ser bom. Dele só conheço as trilhas do primeiro Viagem e de Percy Jackson e o Mar de Monstros (trilha que ficou bem abaixo do primeiro). Vou baixar pra conferir.

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    1. O texto foi fraseado errado. Na verdade, o que eu quis dizer é que é inexplicável que Kloser e Wander foram os escolhidos por Emmerich para trabalhar em seus filmes, e continuam com ele há mais de 10 anos (imagino que deva ser porque Kloser também serve como roteirista).

      Mas, enfim, obrigado pelo aviso!

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  2. E eu não sabia que o Nick Dodd era polêmico! Sempre o considerei um ótimo orquestrador, principalmente, nos filmes em que ele trabalhou com o Arnold. Ainda bem que essa ‘polêmica’ me agrada. Já pensou se ele tentasse diminuir a grandiosidade das trilhas?

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  3. Um filme de drama e ação em que a Califórnia é o tema principal. Se falamos sobre o elenco, Carla Gugino faz um excelente papel. Este ano também ver na série Brik, que abre em julho. Ela é uma atriz que alcançou desempenhos escelentes farelo no filme.

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