Resenha de Trilha Sonora: MISSION IMPOSSIBLE: ROGUE NATION – Joe Kraemer


mi_5_CDMúsica composta por Joe Kraemer
Selo: La-La Land Records
Catálogo: LLLCD1361
Lançamento: 04/08/2015
Cotação: star_4

Quinta aventura para os cinemas da longeva franquia baseada na série sessentista, Missão Impossível: Nação Secreta (Mission Impossible: Rogue Nation, 2015) traz novamente Tom Cruise como o quase indestrutível agente secreto Ethan Hunt e sua equipe da IMF (Impossible Mission Force, ou Força Missão Impossível, na tradução brasileira) combatendo uma sinistra agência secreta de espionagem, conhecida como o Sindicato, que quer levar o mundo ao caos. Mesmo repetindo alguns dos “clichês” da franquia, o filme foi um tremendo sucesso de crítica e de bilheteria, e continua a trajetória vitoriosa das aventuras de Hunt nos cinemas.

Escrevendo e dirigindo o longa está o cineasta Christopher McQuarrie, em seu terceiro filme para os cinemas. Em seus longas anteriores, McQuarrie contou com a inestimável ajuda do compositor Joe Kraemer, que recebeu diversos elogios por seus scores, tendência esta que, felizmente, se mantém no novo Missão Impossível. Você provavelmente não reconhece Kraemer pelo nome, até porque sua trajetória no mundo da Música de Cinema é relativamente curta, ainda que espalhada por diversos anos.

Quinze anos atrás, o jovem Kraemer, então com vinte e nove anos, musicou a estreia de seu amigo McQuarrie na direção, no thriller A Sangue Frio (The Way of the Gun, 2000), e sua trilha foi tão bem recebida que o sujeito foi considerado um dos talentos mais promissores de sua geração. Infelizmente, porém, nenhum outro cineasta quis contar com seus talentos, e ele praticamente sumiu durante a década inteira. Doze anos depois, foi novamente McQuarrie quem resgatou Kraemer do ostracismo de produções soft-core de canais à cabo (!) para trabalhar em seu segundo filme, Jack Reacher: O Último Tiro (Jack Reacher, 2012). Novamente, a trilha de Kraemer foi elogiada por sua ousadia e originalidade, e mesmo assim sua carreira não emplacou. Foram necessários mais três anos até que o mesmo McQuarrie convidasse o sujeito para musicar seu novo blockbuster, que também rendeu ótimas críticas ao score do compositor. Agora, eu realmente espero que este bizarro ciclo de “engrena-não engrena” seja encerrado, pois, além do novo Missão Impossível ser um sucesso maior que as duas tentativas anteriores da dupla, Kraemer realmente se superou na trilha, que provavelmente não só é a melhor de sua carreira, como também uma das melhores da temporada.

Provavelmente, o principal fator que torna essa franquia tão memorável e duradoura no imaginário de gerações de cinéfilos seja o seu imortal tema principal, composto por Lalo Schifrin para a série dos anos 1960. Sua melodia é famosa até mesmo entre quem não acompanha o mundo das trilhas sonoras, e se tornou tão icônica que, claro, foi utilizada em todos os longas da franquia cinematográfica que vieram depois. A boa notícia, porém, é que Kraemer foi o compositor que melhor soube utilizar as melodias de Schifrin, não só o tema principal (e mais famoso), como também o tema conhecido como The Plot. A inteligência de Kraemer ao desconstruir os dois temas e integrá-los à partitura, e ao próprio filme, certamente é digna de aplausos por sua ousadia. Assim, enquanto The Plot (que iremos aportuguesar para “tema do complô” nesta resenha) age como um motivo para os momentos de maior alívio cômico, principalmente os protagonizados pelo personagem de Simon Pegg (e, portanto, mantendo a leveza da partitura, sem perder a seriedade), a versão desconstruída para o tema principal funciona como uma fanfarra para as heroicas ações de Hunt.

E, como se tudo isso já não fosse o bastante, Kraemer ainda vai além e entrega dois outros temas tão bons quanto: o primeiro é um tema para o ameaçador Sindicato, bem como para o seu líder, o cruel Solomon Lane. Ele é desenvolvido na forma de uma suíte para concerto na excelente faixa Solomon Lane, onde aparece primeiro nos sopros e depois em cordas grandiosas, com acompanhamento de metais, e descreve perfeitamente a personalidade do vilão: elegante, inteligente, porém ameaçador e genuinamente mal intencionado.

O outro consegue ser ainda mais surpreendente: trata-se de uma melodia ouvida na ária Nessun Dorma, de Giacomo Puccini, para a ópera Turandot, que é (bem) executada no filme, durante uma sequência de ação na Casa da Ópera em Viena. Ela age como tema para a femme fatale Ilsa Faust, interpretada pela atriz Rebecca Ferguson, que age em seu próprio interesse e pode ou não ajudar Ethan e a IMF na luta contra o Sindicato. Tal tema aparece pela primeira vez antes da cena da ópera, na verdade, e em 2:14 de Escape to Danger, porém ainda de forma sutil – afinal, naquele ponto, Ethan ainda não conhecia Ilsa, ou sabia se podia confiar nela. Mais para a frente no disco, quando o relacionamento dos dois já passou por poucas e boas, ele retorna, na marca de 1:55 em A Matter of Going, numa bela interpretação, seguida por uma versão mais romântica do tema principal – agindo, assim, como um love theme para os dois. Ele retorna na última faixa do disco, em 0:46 de Finale and Curtain Call (aliás, sobre a bela utilização de Puccini como tema da trilha, sugiro a leitura da boa crítica de Pablo Villaça, do Cinema em Cena, sobre o assunto).

Mas o mais importante acerca deste score é a intenção de Kraemer e McQuarrie por trás dele. No press release do disco, o compositor diz (tradução minha): “Para manter o objetivo de homenagear o show original, e ainda soar relevante para as audiências de hoje, eu decidi utilizar apenas instrumentos que estavam disponíveis em 1966. Isto significa nada de sintetizadores, nada de techno loops, e essencialmente nenhum instrumento eletrônico de forma alguma. Como resultado disto, a trilha foi interpretada inteiramente com instrumentos acústicos, numa ambientação sinfônica e orquestral”. Sim, eu sei que é inacreditável uma trilha para um blockbuster de ação do século XXI sem instrumentos eletrônicos, porém Kraemer foi admiravelmente bem sucedido em seu objetivo.

E o poder de uma boa orquestra sinfônica (regida pelo próprio compositor nos lendários estúdios Abbey Road, em Londres) fez a diferença, e ajudou a diferenciar a trilha de Kraemer da grande maioria dos scores de hoje em dia. E olha que, diferentemente do que poderíamos esperar, a grande maioria da trilha nem é feita apenas de ação sem parar. Na verdade, por boa parte dela, é o suspense que se destaca, e mesmo este é construído cuidadosamente por Kraemer. Enquanto a maioria dos compositores atuais certamente utilizaria a mais-do-que-batida combinação de cordas e eletrônicos para as cenas em que não estão acontecendo explosões, lutas ou perseguições, a orquestra de Kraemer consegue manter o ritmo e a tensão das cenas, sem jamais soar chato ou entediante. Good Evening, Mr. Hunt, por exemplo, constrói a tensão rumo a um final explosivo, enquanto The Syndicate se destaca pelas participações do tema dos vilões, além de uma performance do tema do complô com metais, em 2:21, no melhor estilo Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962), de Maurice Jarre, para indicar a transição de cena para o Marrocos. Ainda no quesito “música exótica” (comum em filmes de espiões, que se passam em vários países), destaca-se também o início de Havana to Viena, com uma breve abertura no estilo de música cubana.

É interessante notar como Kraemer consegue manter a coesão temática, mesmo nos momentos de maior suspense ou tensão. O tema do Sindicato faz aparições ocasionais, geralmente nas madeiras, remetendo a uma ameaça sempre à espreita na escuridão, enquanto os temas de Ethan e do complô servem como a resposta dos heróis, no elaborado duelo de forças criado por McQuarrie. Faixas como The Plan, It’s Impossible e a longa (e impressionante) The Torus são ótimos exemplos disso. Infelizmente, porém, muita construção de clima pode acabar cansando, e talvez por causa disso faixas posteriores como The Blenheim Sequence e Audience with the Prime Minister não sejam tão eficientes quanto suas predecessoras.

Em compensação, quando a música de ação aparece, ela é simplesmente explosiva. A longa faixa de abertura The A400 é um ótimo exemplo. Contendo ótimas performances da fanfarra de Ethan e do tema principal e muita percussão, ela dá uma mostra do estilo que será utilizado na partitura. Escape to Danger tem um estilo mais brutal, com metais, pratos e percussão, enquanto A Flight at the Opera é mais urgente, quase como uma versão mais orquestral e heroica dos trabalhos de John Powell na série Bourne, ao passo em que a conclusiva A Foggy Night in London se destaca pela tensão. Mas a mais impressionante é certamente Moroccan Pursuit, uma faixa enérgica, repleta de adrenalina, com metais no estilo consagrado da música de espionagem de John Barry dos anos 1960, além do conflito entre o tema do Sindicato e o de Ethan, acompanhando uma perseguição pelo Marrocos. Em Meet the IMF, há uma excelente e grandiosa performance do tema dos vilões em contraponto ao de Ethan, como que indicando a vitória dos mocinhos sobre o Sindicato.

No geral, a trilha de Missão Impossível: Nação Secreta é um ótimo trabalho, que mostra todo o talento ainda não explorado de Joe Kraemer. Espero, sinceramente, que o sucesso do longa e do score o leve a ser descoberto e utilizado por outros diretores além de McQuarrie, e em bons e bem sucedidos filmes. Não quero chegar no próximo longa do roteirista e diretor e ter novamente que dizer que Kraemer ainda é uma figura pouco utilizada. Hollywood só tem a ganhar com o seu talento.

Faixas:

1. The A400* (06:38)
2. Solomon Lane (04:08)
3. Good Evening, Mr. Hunt* (02:35)
4. Escape to Danger* ** (02:46)
5. Havana to Vienna* (05:13)
6. A Flight At The Opera* (02:23)
7. The Syndicate* (03:44)
8. The Plan* (03:21)
9. It’s Impossible* † (01:23)
10. The Torus* (07:02)
11. Moroccan Pursuit* (02:28)
12. Grave Consequences* (04:12)
13. A Matter of Going* ** (05:06)
14. The Blenheim Sequence* (04:00)
15. Audience With the Prime Minister* (04:23)
16. This Is the End, Mr. Hunt † (03:48)
17. A Foggy Night in London (02:10)
18. Meet the IMF* (01:47)
19. Finale and Curtain Call* ** (06:14)
* Contrains “Theme From Mission Impossible” & “The Plot” by Lalo Schifrin / ** Contrains “Nessun Dorma” (From “Turandot”) by Giacomo Puccini / † CD Exclusive track

Duração total: 73:21

Tiago Rangel
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8 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: MISSION IMPOSSIBLE: ROGUE NATION – Joe Kraemer”

  1. Conforme colocado na critica construtiva de Tiago Rangel quero apenas reforçar o foco na importância e no respeito de se manter o tema criado nos anos 60 e mantido pelo produtor Tom Cruise.
    Zimmer se tivesse um produtor como este teria mantido o tema tenso de Elfman para Batman acrescentando todos os temas criados por Hans em Batman Begins inclusive podendo juntar o seu tema simples com o clássico de Elfman no final da faixa e intercalando nas cenas antes de se tornar o poderoso Batman e claro, Man of Steel que ninguém, tirando a galera fã de trilha, faz alguma ligação com o tema criado por ele. John Williams já o imortalizou.
    Fato que os produtores e criadores da Lego Games nunca duvidaram como podemos ver em todos os seus jogos. Abraços.

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