Cinderella-2015

Resenha: CINDERELLA – Patrick Doyle (Trilha Sonora)


cinderella_2015_CDMúsica composta por Patrick Doyle
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: D0021797-02
Lançamento: 10/03/2015
Cotaçãostar_4

Contos de fada sempre foram uma inesgotável fonte de histórias – e de dinheiro – para a Disney, desde o clássico Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937) até o recente megassucesso Frozen: Uma Aventura Congelante (Frozen, 2013). Depois de diversas animações de sucesso contando histórias sobre princesas, bruxas e reinos mágicos, o estúdio, nos últimos anos, tem pego alguns dos seus clássicos do gênero e os transformado em caras fantasias live-action, que sempre arrecadam milhões nas bilheterias. Porém, não foram só os acionistas da Casa do Mickey que ficaram contentes com essa nova tendência: os  Scoretrackers ao redor do mundo tem sido presenteados com trilhas de ótima qualidade para esses longas.

Danny Elfman e James Newton Howard entregaram trabalhos que estão entre os melhores de suas carreiras para Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010) e Malévola (Maleficent, 2014) – e isto é muita coisa, considerando que os dois grandes compositores estão na ativa desde a década de 1980. O mesmo Elfman também compôs para Oz: Mágico e Poderoso (Oz: The Great and Powerful, 2013), que, embora não seja tão bom quanto seu antecessor no gênero, ainda possuía qualidades suficientes para se destacar em sua filmografia. Agora, chegou a vez do escocês Patrick Doyle contribuir com os contos de fada, no recente Cinderela (Cinderella, 2015), e ele não deixa nada a dever ao alto padrão estabelecido por seus colegas americanos.

O filme, dirigido pelo antigo colaborador de Doyle, Kenneth Branagh, reconta a famosa história da “Gata Borralheira”, uma jovem criada por sua malvada madrasta, mas que, com a ajuda de sua Fada Madrinha, consegue ir ao baile e encantar o coração do príncipe da região. Ele tem recebido ótimas críticas por seu estilo mais tradicional, em oposição ao “revisionismo” de Malévola e Frozen, e se assumir como um conto de fadas típico, no melhor sentido da palavra. Isto se estende à música de Doyle, que, novamente trabalhando com a London Symphony Orchestra (sua colaboradora em inúmeros filmes), é plenamente orquestral, de estilo clássico e romântico. E eu devo dizer que, em tempos onde a Música de Cinema hollywoodiana parece cada vez mais fria, eletrônica e sem paixão, é quase um alívio ouvir uma trilha como essa – principalmente vinda de Doyle.

Isso porque, nos últimos tempos, a música do compositor escocês, que até então era puramente orquestral, vinha se modificando cada vez mais para se adequar ao estilo em voga na Hollywood de hoje (ou seja, fria, eletrônica e sem paixão). Isto começou com Thor (idem, 2011), que, apesar de alguns bons momentos, parecia uma tentativa de Doyle de compor um típico score da infame Remote Control, e culminou com a genérica e esquecível Operação Sombra: Jack Ryan (Jack Ryan: Shadow Recruit, 2014), mais um dos chatos scores de ação a seguir a escola Bourne. Dessa forma, Cinderela é provavelmente a melhor partitura do compositor em muitos anos.

Contando com uma ótima performance da renomada orquestra londrina, o score tem fantasia de sobra, principalmente em seu início. A Golden Childhood traz cordas mágicas e nostálgicas, leves sopros e instrumentos de percussão como xilofones, além de introduzir um tema que, descendente da música que Doyle fazia para as adaptações shakesperianas de Branagh, surge romântico e evocativo. Esse tema será reprisado diversas vezes ao longo do álbum, às vezes aparecendo de forma tradicional, em outras apenas sugerido. É uma tendência pela qual Doyle já foi criticado, mas que aqui não chega a incomodar tanto. The Great Secret o repete com uma apresentação mais lenta e solene, e A New Family começa com uma variação mais rápida, antes de partir para tons mais sombrios e ameaçadores – mas ainda melódicos, quem procura dissonância não vai encontrar aqui.

Life and Laughter é uma valsa pomposa e aristocrática, a primeira das muitas ouvidas no disco. Em seguida, The First Branch traz o tema de Cinderela numa bela interpretação que aqui, no estilo e em orquestração, lembram a trilha de Doyle para Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility, 1995), enquanto Nice and Airy o reprisa em meio a melodias mágicas, líricas e com um leve toque de comédia, para cordas e madeiras. Orphaned, porém, toma um rumo dramático e melancólico, ainda que haja certa leveza (com um toque de Alexandre Desplat) na melodia.

The Stag começa da mesma forma, com um triste solo de violoncelo, antes de um novo tema, heroico e empolgante, no melhor estilo capa-e-espada e reminiscente da “fase épica” de Doyle, imediatamente posterior ao seu grandioso trabalho em Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, 2005). É a parte mais empolgante do disco, que infelizmente dura pouco, mas logo o novo tema recebe uma variação mais nobre e solene para toda a orquestra. Em seguida, Rich Beyond Reason traz de volta o estilo aristocrático, com cordas, harpas, sopros e celesta. Já Fairy Godmother traz melodias acolhedoras e amigáveis para a fada madrinha do título, enquanto adiciona um senso de magia com a entrada de um leve coro feminino. Em Pumpkins and Mice, Doyle utiliza ostinatos brincalhões de cordas, que devem retratar a transformação empreendida pela fada para que Cinderela possa ir ao baile, além de uma incrível apresentação do tema heroico da oitava faixa ao final, com orquestra e coro. You Shall Go, outro destaque do disco, este tema se transforma numa melodia lírica, que segue crescendo em grandiosidade, até uma conclusão espetacular.

Diferentemente da maioria dos blockbusters, a cena principal da história de Cinderela não acontece numa grande batalha, cheia de efeitos especiais, mas sim durante um baile, no qual ela e o príncipe se apaixonam. Para essa sequência do filme, Doyle viu que seria uma excelente oportunidade para compor música clássica “de verdade”, sem precisar depender das convenções da Música de Cinema. Assim, ele utilizou valsas e polcas para musicar a cena, a primeira delas a Valse Royale, levemente cômica e paródica. Depois, La Valse De L’Amour traz o tema principal transmutado numa valsa romântica que, a depender da popularização do filme, pode vir a ser usada em bailes de debutantes do futuro, enquanto La Valse Champagne é uma mistura das duas anteriores. Quanto às polcas, o disco possui três delas: La Polka Militaire, La Polka De Paris e La Polka De Minuit, todas danças alegres e animadas. Entrecortando esse longo setpiece musical, temos a ótima Who is She, que faz uma bela apresentação dos dois temas principais e, na marca de 2:14, introduz uma brilhante variação do primeiro; e A Secret Garden, que traz o tema principal em sua variação mais romântica, até a entrada de sinos, demonstrando que as badaladas da meia noite que irão terminar o feitiço da fada madrinha – e, com isso, a música muda para tons de suspense.

Assim, conforme a corrida para voltar para casa se inicia, temos duas faixas de ação, Choose That One e a enérgica Pumpkin Pursuit, provavelmente as melhores do tipo que Doyle compôs desde Thor Kills the Destroyer, da aventura da Marvel. The Slipper é um interlúdio, com o tema principal, e as coisas tomam um rumo melancólico e sombrio em Shattered Dreams. Porém, em Searching the Kingdom, a música adota um estilo ligeiramente medieval, inclusive com a adição de pandeiros e cravos. Já Ella and Kit volta ao estilo romântico, conforme os dois apaixonados se reencontram, e o tema adota a variação da décima quarta faixa, porém, numa versão mais sutil, com piano. O score conclui com Courage and Kindness, que reúne todas as ideias apresentadas até então: o tema principal, sua variação e o outro tema, num final feliz e romântico.

O disco ainda inclui a canção Strong, composta pelo próprio Doyle, pelo diretor Kenneth Branagh e Tommy Danvers, e interpretada pela artista Sonna Rele, e duas músicas da antiga animação da Disney, A Dream Is a Wish Your Heart Makes e Bibbidi-Bobbidi-Boo, pelas atrizes Lily James (Cinderela) e Helena Bonham Carter (a Fada Madrinha), respectivamente.

A trilha de Cinderela demonstra, mais uma vez, qual é a especialidade de Patrick Doyle: compor para filmes com fortes raízes europeias, no geral baseadas em sua cultura, em especial do Reino Unido. Seja em dramas shakesperianos, em fantasias ou mesmo em animações, Doyle é especialista em filmes de época, relacionados à cultura e mitologia da sua terra natal – categoria na qual se enquadra o conto de fadas da Gata Borralheira. Tais histórias servem de inspiração para sua exuberante escrita orquestral, fortemente clássica e mais alinhada com os grandes compositores europeus do que com seus contemporâneos americanos. Talvez algumas pessoas considerem o estilo romântico da música açucarado demais (o que é reforçado pela longa duração do álbum, mas quem der uma chance encontrará um excelente trabalho do escocês. Recomendado.

Faixas:

1. A Golden Childhood 3:56
2. The Great Secret 3:01
3. A New Family 2:15
4. Life And Laughter 1:34
5. The First Branch 2:11
6. Nice And Airy 1:53
7. Orphaned 3:46
8. The Stag 4:56
9. Rich Beyond Reason 1:43
10. Fairy Godmother 2:47
11. Pumpkins And Mice 4:32
12. You Shall Go 3:02
13. Valse Royale 2:06
14. Who Is She 3:20
15. La Valse De L’amour 2:34
16. La Valse Champagne 1:35
17. La Polka Militaire 1:47
18. La Polka De Paris 1:22
19. A Secret Garden 2:48
20. La Polka De Minuit 2:02
21. Choose That One 1:16
22. Pumpkin Pursuit 2:28
23. The Slipper 1:00
24. Shattered Dreams 4:10
25. Searching The Kingdom 2:51
26. Ella And Kit 2:11
27. Courage And Kindness 4:38
28. Strong – Sonna Rele 3:14
29. A Dream Is A Wish Your Heart Makes (Lily James) 2:00
30. Bibbidi-Bobbidi-Boo (The Magic Song) (Helena Bonham Carter) 1:22
31. MP3 & ITUNES ONLY: Strong (Instrumental Version) 3:15
32. MP3 & ITUNES ONLY: A Dream Is a Wish Your Heart Makes (Instrumental Version) 2:01
33. MP3 & ITUNES ONLY: Bibbidi-Bobbidi-Boo (The Magic Song) (Instrumental Version) 1:21

Duração: 84:57

Tiago Rangel

4 opiniões sobre “Resenha: CINDERELLA – Patrick Doyle (Trilha Sonora)”

  1. Detesto a trilha Alice no País das Maravilhas. É uma cópia preguiçosa de Serenada Schizophrana, um trabalho não filmíco que o Danny Elfman lançou uma década atrás.

    Curtir

  2. Gostaria de fazer um pequeno adendo: a variação do tema que aparece em Who is She e depois em Ella and Kit é na verdade uma versão instrumental de Doyle para uma canção infantil inglesa do século XVII Lavender’s Blue, que tem um papel de destaque no filme. Além dessas duas faixas, esse tema também pode ser encontrado em A Golden Childhood (1:22) e numa versão triste em Fairy Godmother (0:33).

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s