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Resenha de Trilha Sonora: STAR WARS – THE FORCE AWAKENS – John Williams


force awakens CD Música composta por John Williams, regida por William Ross, John Williams e Gustavo Dudamel
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: D002177202
Lançamento: 18/12/2015
Cotação: star_4_5

ATENÇÃO: O texto a seguir contém grandes SPOILERS de Star Wars: O Despertar da Força, que está em cartaz nos cinemas. Portanto, caso você queira ser surpreendido (e acredite, existem diversas surpresas), sugiro que pare por aqui e retorne após ter assistido ao filme. 

A espera chegou ao fim. Foram longos três anos desde o anúncio da compra da Lucasfilm e suas propriedades pela Disney (pela bagatela de US$ 4 bilhões, que foram para o bolso de George Lucas) e o anúncio de não apenas um, mas diversos filmes que dariam continuidade à saga Star Wars, até a chegada do primeiro deles aos cinemas, intitulado, Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, 2015). A menos que você tenha vivido exilado no deserto de Tatooine ou nos pântanos de Dagobah pelos últimos anos, provavelmente já deve saber todos os detalhes sobre a produção deste novo filme: a direção é de J.J. Abrams, contratado pela Disney após injetar fôlego novo em franquias como Missão: Impossível e Star Trek. No roteiro, Abrams tem o auxílio de ninguém menos que Lawrence Kasdan, responsável por escrever as continuações do original de 1977, Star Wars Episódio V: O Império Contra Ataca (Star Wars Episode V: The Empire Strikes Back, 1980) e Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi (Star War Episode VI: The Return of the Jedi, 1983), bem como Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981). No elenco, jovens estrelas promissoras como Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver e Oscar Isaac seriam acompanhadas pelos três protagonistas da trilogia anterior, Mark Hamill (propositadamente oculto em meio ao marketing massivo comandado pela Disney), Carrie Fisher e Harrison Ford. E, na trilha sonora, o retorno do compositor que, com sua música criada para a saga de George Lucas, marcou o cinema para sempre: John Williams.

Em seus filmes anteriores, Abrams havia estabelecido uma bem sucedida parceria com o músico Michael Giacchino, e por um certo tempo houve a especulação de que o diretor contaria com os serviços do ítalo-americano novamente, não só pela cumplicidade entre os dois, como também por causa da idade de Williams, que, aos 83 anos, deveria enfrentar a complexa tarefa de compor para mais um blockbuster. Tudo isso mudou, porém, quando em julho de 2013, Williams confirmado como o responsável pela música de O Despertar da Força – tudo isso com o apoio de Giacchino que, assim como Abrams, tem em Williams um dos heróis de sua infância. Os fãs do compositor, claro, ficaram em polvorosa, gerando um nível de excitação não visto antes desde pelo menos o retorno de Williams, sete anos antes, à outra de suas franquias lendárias, em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008).

Afinal, a importância das trilhas de Williams para os filmes originais transcende gerações. Além de todos os prêmios recebidos, a fama de seus scores para a galáxia muito distante é tamanha que mesmo pessoas que nunca pararam para ouvir uma trilha na vida conseguem reconhecer o tema principal ou a Marcha Imperial – basta ouvir as primeiras notas para imaginar personagens icônicos como Luke Skywalker e Darth Vader, e suas aventuras nos mundos criados por Lucas. Seu score para o primeiro longa, Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars Episode IV: A New Hope, 1977), foi o responsável por revitalizar a grande música sinfônica, no melhor estilo de Max Steiner e Erich Wolfgang Korngold, que parecia perdida para sempre, e inspirou várias gerações de compositores – dentre os quais, talentos como James Horner, Alan Silvestri e o próprio Giacchino, que finalmente puderam mostrar seu talento comandando épicos scores orquestrais. Em suma, o trabalho de Williams foi tão essencial para o sucesso de sua saga espacial que Lucas o chamou para musicar as duas continuações que se seguiram, além da polêmica “trilogia prelúdio”, na qual a trilha do compositor conseguiu brilhar mesmo sendo castigada por constantes alterações e edições.

Portanto, era evidente que, mesmo que o novo filme não fosse bom (o que não ocorreu, já que a Disney tomou todas as precauções para garantir que seus 4 bilhões valessem), a trilha de Williams seria, no mínimo, acima da média do que ouvimos atualmente. Dessa forma, mesmo em meio à operação de guerra montada pela empresa dona do Mickey Mouse para manter o novo capítulo em segredo, alguns detalhes começaram a emergir, estimulando ainda mais os fãs. Para começar, o novo score não seria gravado em Londres com a London Symphony Orchestra, responsável pelos seis filmes da saga, mas sim nos EUA, nos scoring stages hollywoodianos, de modo que Abrams poderia centralizar todo o processo de pós produção do longa em um só lugar (embora existam rumores que a saúde de Williams impediu que ele viajasse para tão longe por duas semanas). Um elenco de 90 músicos da Hollywood Studio Orchestra, além de um coro masculino de 24 vozes para as cenas envolvendo o misterioso Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), ficaria responsável por interpretar o score.

Foram cerca de 12 sessões,  espalhadas entre Junho e Novembro deste ano, um processo incomum não apenas para a saga, como também para boa parte das trilhas sonoras – as partituras anteriores da franquia, por exemplo, costumavam ser gravadas em cerca de duas semanas, no início do ano do lançamento dos filmes, visando uma estreia em Maio. A regência da orquestra seria dividida entre o próprio compositor e o maestro William Ross, homem de confiança de Williams, que já havia conduzido para ele o score de Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets, 2002), quando o compromisso do compositor com outros filmes impediu que ele participasse das scoring sessions do segundo capítulo da saga do bruxo. Além disso, o talentoso maestro venezuelano Gustavo Dudamel, responsável pela Los Angeles Philharmonic Orchestra e padawan de Williams, conduziu as famosas fanfarras de abertura e dos créditos finais do filme, além dos cues March of the Resistance e The Starkiller.

Segundo uma reportagem da Variety, foram gravados aproximadamente 175 minutos de música (provavelmente incluindo takes alternativos e música para cenas que acabaram descartadas do corte final), embora uma hora desta quantia acabou sendo descartada durante a montagem. Outra entrevista, desta vez para o L.A. Times, destaca que o filme possui aproximadamente 102 minutos de música, 77 dos quais (ou pouco menos de 70, se considerarmos os três arranjos para concerto no disco) podemos experimentar em disco – embora eu não duvidaria se uma chamada “edição especial” fosse lançada num futuro próximo. De certa forma, porém, é possível perceber que é um disco mais satisfatório do que o das prequels, que tinham a bizarra tendência de combinar música de cenas diferentes, muitas vezes separadas por vários minutos de distância, para formar suas faixas. Ou seja: a maior fidelidade aos cues como ouvidos no longa garante uma maior sensação de completude aqui, mesmo que ainda faltem aproximadamente 30 minutos de música para ouvirmos separados do longa.

Com isso claro, podemos passar agora para a análise da música em si. O primeiro ponto que deve ser ressaltado é como o estilo de Williams amadureceu e mudou ao longo dos anos. Afinal, o Williams de O Despertar da Força não é o mesmo de Uma Nova Esperança ou até mesmo do de A Ameaça Fantasma (Star Wars Episode I: The Phantom Menace, 1999). Aqui, podemos escutar ecos de trabalhos como Cavalo de Guerra (War Horse, 2011), Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008), Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005), Minority Report: A Nova Lei (Minority Report, 2002) e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, 2004). Assim, os mesmos fãs que estranharam a mudança no estilo do compositor entre 1977 e 1999 deverão reclamar das mesmas mudanças. Apesar disso, eu acho que constatar tal evolução em uma carreira tão longa quanto a de Williams, e perceber como ele adapta um som tão consagrado como o da franquia Star Wars a seu estilo atual, é uma das partes mais divertidas e gratificantes de analisar e dissecar um score. Além disso, para ser justo, de fato Williams, provavelmente a pedido de Abrams, também realizou um esforço para, aqui e ali, remeter a momentos clássicos das partituras da trilogia original, para reforçar o fator “nostalgia”, tão utilizado em O Despertar da Força.

Cada uma das seis trilhas da saga contribuía com pelo menos um tema marcante, que ajudavam a contar a história das desventuras da família Skywalker na galáxia muito distante, e a de O Despertar da Força não é diferente. O principal tema novo aqui é o Rey’s Theme, composto por Williams para a protagonista do longa, interpretada por Daisy Ridley. Trata-se de uma belíssima melodia, interpretada principalmente por piano, flauta e cordas, que traduz bem a curiosidade, inocência e o espírito aventureiro da personagem. Menos abertamente heroico do que o tema de Luke de Uma Nova Esperança, e sem o estilo mais infantil do tema de Anakin ouvido em A Ameaça Fantasma, ele traz um pouco da escrita para flautas empregada por Williams em partes de Cavalo de Guerra, além do estilo doce e inocente ouvido recentemente em A Menina que Roubava Livros (The Book Thief, 2013), com leves toques de seus dois primeiros scores para Harry Potter e do tema de Prenda-Me se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002). Enfim, toda vez que tal tema aparece, o score brilha, e eu não duvido que Williams passará a incluí-lo em seus próximos concertos.

Outro tema de grande importância representa a Resistência, a organização descendente da Rebelião da trilogia anterior que, liderada pela General Leia Organa (não mais Princesa), defende a Nova República dos ataques da ditatorial Primeira Ordem, surgida das cinzas do maligno Império disposta a retomar o poder na Galáxia. Interessantemente, esta é a primeira vez em que uma marcha foi utilizada para representar os “bonzinhos” – nas duas trilogias anteriores, tanto o Império quanto a Federação do Comércio e seus Droids eram representados por Williams com marchas. A faixa March of the Resistance é a versão para concerto do tema, que não faria feio em um score como Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989).

O principal antagonista do novo longa é o misterioso Kylo Ren (Adam Driver), e, a depender da música composta por Williams para ele, Darth Vader e o Império foram fichinha perto da nova ameaça. Dois temas acompanham o personagem, embora eles estejam mais para motivos, como os de Vader e o Império em Uma Nova Esperança, do que um tema propriamente dito, como a Imperial March – possivelmente devido ao fato de Ren ainda não ter completado seu treinamento por completo com o Lado Negro. Interpretados principalmente por metais, eles são quase parentes próximos do Battle of the Heroes, ouvidos em Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith (Star Wars Episode III: Revenge of the Sith, 2005), ao representar ao mesmo tempo a tragédia, a tentação e o poder do Lado Negro da Força. Seu mestre, o Supremo Líder Snoke, também ganha, como mencionado anteriormente, seu próprio motivo, interpretado por um ameaçador coro masculino, assim como o tema do Imperador em O Retorno de Jedi, embora o de Snoke seja mais misterioso e sinistro, lembrando o cue Palpatine’s Teachings de A Vingança dos Sith.

Voltando aos heróis, o tema de Finn, o stormtrooper que passa para o lado dos “bonzinhos” no longa, é caótico e energético, porém cômico, representando o personagem que, ao deixar para trás sua antiga vida servindo a Primeira Ordem, acaba sendo jogado de uma situação de perigo a outra, para seu próprio horror, embora sua lealdade aos amigos não o permita desistir. Por outro lado, o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) é representado por uma deliciosa e extremamente heroica melodia, como dificilmente ouvimos nos dias de hoje. Dos temas antigos, retornam apenas os da trilogia clássica (nada de Duel of the Fates desta vez, pessoal), como o tema de Luke, de Leia, da Força, a fanfarra dos Rebeldes e o love theme de Han e Leia, ouvido primeiramente em O Império Contra Ataca. A Marcha Imperial, por sua vez, faz apenas uma breve aparição, na sequência em que Kylo Ren contempla o capacete de Vader, embora este cue não esteja presente no disco.

Agora, passemos à discussão do disco lançado pela Walt Disney Records. Como seria de se imaginar em uma trilha de Star Wars, o disco abre com o famosíssimo Main Title, composto por Williams para ser o tema de Luke em Uma Nova Esperança, mas que, no decorrer dos outros capítulos, acabou sendo utilizado mais como um tema principal da saga. A interpretação dos músicos da Hollywood Studio Orchestra é distinta da LSO, porém digna e envolvente – e poucas experiências se comparam à de experimentar os títulos e o texto de abertura subindo pelo espaço, com a clássica melodia do compositor explodindo nas caixas de som do cinema. Depois disso, a música segue por um caminho sombrio e sinistro, conforme o longa abre com um ataque da Primeira Ordem. As melodias de ação ouvidas aqui não são muito distantes das ouvidas nos longas da trilogia original, remetendo justamente ao ataque do Império no início do Episódio IV, com metais enérgicos e grandiosas e furiosas investidas de cordas. O tema de Kylo Ren faz suas primeiras aparições aqui, em cerca de 4:21, e em seguida, aos 5:34.

Na sequência vem a espetacular The Scavenger. A faixa abre com texturas de baixos e sintetizadores, junto a uma flauta solitária, remetendo às orquestrações utilizadas por Williams para as sequências com C3PO e R2D2 vagando por Tatooine. Mas isto dura pouco: após algumas belas frases para flautas, o tema de Rey aparece aos 0:54 da faixa, acompanhando a introdução da personagem, catando lixo e tentando sobreviver no deserto de Jakku – e não exagero quando digo que tal cena, que soma a bela fotografia de Dan Mindel com a maravilhosa melodia de Williams, já é um dos meus momentos musicais preferidos do ano. Ao fim da faixa, o tema de Rey retorna de forma mais lenta e melancólica, mas igualmente bela, com cordas, harpa e madeiras, remetendo às passagens mais românticas de alguns scores de James Newton Howard, como King Kong (idem, 2005), Waterworld: O Segredo das Águas (Waterworld, 1995) e Malévola (Maleficent, 2014), entre outros. Porém, logo temos mais ação na agitada I Can Fly Anything, que não deve nada para as melhores faixas de ação dos seis longas anteriores: bastante heroica e enérgica, ela tem como destaque a primeira aparição do tema de Poe, em 1:20.

Na sequência, Rey Meets BB-8 (que, no filme, é ouvida antes da faixa anterior) é um cue bem curto que lembra um pouco os momentos mais mágicos de E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extraterrestrial, 1982). Porém, Follow Me, acompanhando a primeira parte da caçada dos caças TIE a Rey e Finn, é uma faixa enérgica de ação, separada por alguns momentos menos agitados, e conduzida por violinos rápidos e o tema de Finn, em cerca de 1:13. Ao fim da faixa, Williams pontua a primeira aparição da Millenium Falcon com a famosa Fanfarra dos Rebeldes, que ainda não perdeu seu frescor e energia desde sua primeira aparição, 38 anos atrás. No longa, esse cue está diretamente ligado a The Falcon, sétima faixa, porém, no álbum, Williams optou por separá-los pela (ótima) versão para concerto do tema de Rey. Em The Falcon, há uma magnífica ação em conjunto do tema de Finn e a Fanfarra Rebelde, que não só é apropriada do ponto de vista temático, como também tremendamente empolgante. Aliás, as aparições da Fanfarra Rebelde aqui podem também ser uma tentativa de remeter ao renomado TIE Fighter Attack de Uma Nova Esperança, embora o estilo do compositor aqui esteja mais próximo de algumas faixas de ação de A Ameaça Fantasma, particularmente Escape from Naboo e Anakin Defeats Sebulba (que aparece como The Gungans Retreat na edição “Ultimate Expanded” do disco, já que no longa o cue, escrito para acompanhar a corrida de pods, foi movido para a batalha final).

Na sequência, That Girl with The Staff começa com mais uma bela interpretação do tema de Rey, antes de entrar em território realmente ameaçador, com orquestrações pesadas de suspense. The Rathtars!, por sua vez, é uma faixa de ação tensa e violenta com percussão e metais, lembrando um pouco o estilo de Williams em trilhas como Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993) e sua continuação. Numa típica aparição do tipo “piscou, perdeu”, o tema de Luke/principal faz uma brevíssima aparição, em 0:51, ao passo que a Fanfarra Rebelde encerra a faixa novamente, demonstrando mais uma fuga por um triz dos heróis. Finn’s Confession, porém, começa com uma triste e melancólica melodia, quase como as ouvidas em Cavalo de Guerra e Lincoln (idem, 2012), até que o tema de Rey surja como um raio de luz e injete otimismo na faixa. Maz’s Counsel, na sequência, acompanha a diminuta alienígena enquanto ela conversa com Finn e, mais tarde, Rey. Para representá-la, Williams utiliza orquestrações misteriosas e enigmáticas para cordas e sopros, e a primeira aparição no score até então do tema da Força (aos 2:16 na faixa).

Em seguida, um dos destaques do álbum: The Starkiller, que acompanha a demonstração do poder da nova arma do tamanho de um planeta (e dezessete vezes maior que a Estrela da Morte) da Primeira Ordem. A faixa é uma bela, porém trágica, elegia para cordas, no estilo das passagens mais dramáticas do Episódio III, como as ouvidas em The Immolation Scene e Anakin’s Betrayal. Kylo Ren Arrives at the Battle, como o nome indica, é dominada pelo tema do vilão, em meio a agressivas orquestrações de ação, não muito distintas do estilo mais nervoso de Williams em Minority Report e Guerra dos Mundos. É então que, em The Abduction, o segundo motivo relacionado a Ren faz sua estreia, aos 0:14 na faixa. Interpretado principalmente por trompas e trombones, ele reflete a visão distorcida que Kylo possui da Força e sua veneração pelo Lado Negro, que o estimula a evitar qualquer coisa que o impeça de ser tão poderoso quanto Vader. Em 1:40, o tema de Rey é interpretado de forma dramática, conforme ela parte com Ren para um destino incerto.

A bela Han and Leia fará a alegria dos mais nostálgicos pela música da trilogia clássica, por ser completamente dominada pelo tema da heroína interpretada por Carrie Fisher (em 0:11), um de meus preferidos de toda a saga, e depois pelo love theme dos dois personagens (aos 0:43 e, depois, mais tarde, aos 3:29). Entretanto, nem tudo é alegria, e o fim do cue é assombrado pelo tema secundário de Ren, numa alusão de Williams… (última chance para você que ainda não assistiu ao filme fechar o navegador sem levar ainda mais spoilers) ao fato de que o vilão é, na verdade, Ben Solo, filho de Leia e Han cuja queda para o Lado Negro trouxe dor e sofrimento ao casal. Porém, o tema da Força ainda faz uma última aparição, representando a esperança de Leia de que o filho ainda possa ser salvo de seu caminho sombrio.

Na sequência, a ótima versão para concerto da Marcha da Resistência é seguida pela sombria Snoke. Reportadamente, Williams utilizou um poema de Rudyard Kipling traduzido para o sânscrito (a mesma linguagem do coro em Duel of the Fates), num coro masculino grave e malevolente, que poderia estar em algum filme de terror de temática religiosa. On the Inside é uma faixa tensa, acompanhando o jogo de gato e rato entre Rey, Finn, Han, Chewie e Kylo Ren dentro da Base Starkiller, e, assim, é dominada pelo tema do vilão.

A triste Torn Apart é um dos momentos mais emocionais da trilha, acompanhando um dos segmentos mais marcantes (e, certamente, polêmicos) do longa. Alguns instantes de uma não-temática melodia melancólica para cordas conduzem brilhantemente a uma passagem dramática para toda a orquestra e, finalmente, a uma interpretação triunfal do tema de Kylo Ren (em 2:48), conforme o vilão comete o ato que finalmente o alçou ao posto de principal antagonista da nova trilogia. Ao final, os temas da Força e de Rey até tentam emergir, mas mesmo eles são engolidos pela escuridão, com uma mistura de ação e tragédia lembrando, por exemplo, a igualmente dramática Qui-Gon’s Noble End, de A Ameaça Fantasma.

The Ways of the Force é um primor de escrita musical temática. Acompanhando no longa o duelo final entre Rey e Kylo Ren, ela também traz um embate entre ambos os temas do vilão, e os da heroína, representada aqui pelo tema da Força e por seu próprio. É quase como a representação musical da batalha entre os dois lados da Força, embora sem a energia cinética de um Duel of the Fates, por exemplo: o estilo mais tenso e pausado está mais ligado ao The Clash of the Lightsabers de O Império Contra-Ataca, ou mesmo à batalha contra os Dementadores no clímax de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Na sequência, Scherzo for X-Wings é o equivalente da trilha desse sétimo capítulo de um The Forest Battle ou mesmo um Battle of the Heroes. Explicando melhor: ambas as faixas citadas eram versões para concerto de dois cues de ação dos clímaxes de seus respectivos filmes, e, embora boa parte delas de fato apareçam na projeção (a maior parte de Battle of the Heroes acompanha a última parte do duelo entre Obi-Wan e Anakin no Episódio III, por exemplo), ainda existem pequenas diferenças entre as versões ouvidas no disco e no longa. A versão do filme de Scherzo for X-Wings é menor que a do disco e bem mais truncada, como se fosse composta, na verdade, de vários takes do mesmo cue, acompanhando no longa os esforços de Poe e seu esquadrão de pilotos para destruir a base Starkiller durante a última parte da batalha final. Felizmente no disco podemos ouvir sua versão completa, pois ela faz uma maravilhosa mistura dos temas de Poe, o de Luke e a Marcha da Resistência, e é a melhor oportunidade para Williams revisitar as trilhas de capa e espada, filtradas aqui através de seus próprios scores para Hook: A Volta do Capitão Gancho (Hook, 1991) e As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin, 2011), que tanto lhe serviram de inspiração no início da saga.

A penúltima faixa, Farewell and The Trip, é também um dos melhores e mais emocionais momentos de toda a trilha. A primeira parte acompanha a destruição da Base Starkiller e a vitória dos Rebeldes, trazendo performances grandiosas e emocionantes dos temas de Rey, Poe e da Força. Porém, os heróis também sofreram pesadas baixas, nomeadamente Han, e seu love theme com Leia faz uma última e tocante aparição, em 1:50, quando ela percebe a perda que sofreu. O cue (no longa, separado por uma performance de Rey Meets BB-8, bem no meio da faixa) leva ao tema de Rey, demonstrando sua longa viagem. Por fim, The Jedi Steps and Finale é um ótimo encerramento para a trilha. Suas orquestrações enigmáticas ao início lembram as partes mais misteriosas de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal e As Aventuras de Tintim, conduzindo até um grandioso e conclusivo arranjo do tema da Força.  Em seguida, Williams segue a tradição dos créditos finais de iniciar com a fanfarra tradicional do tema de Luke, antes das performances finais dos temas apresentados no longa. No caso, são eles o tema de Rey, os dois temas de Kylo Ren, o tema de Finn, ligado diretamente ao de Poe (representando a crescente amizade e conexão entre os dois personagens), a Marcha da Resistência, e por fim o tema de Rey, conectado ao da Força e ao de Luke – uma forma sutil de relacionar os personagens, e a conexão de Rey com a Força, já que ela deverá conduzir a narrativa nessa nova trilogia.

A esse ponto, é incerto se Williams retornará aos outros longas da franquia, afinal, ele terá 85 anos de idade na estreia do Episódio VIII, e incríveis 87 no Episódio IX (isto se não ocorrer nenhum atraso nas produções). Dito isso, Star Wars sempre foi a joia de sua coroa, e o próprio já mostrou grande disposição em continuar com os personagens. Seja como for, esse O Despertar da Força abre excitantes novas possibilidades para a saga, funcionando quase como uma receita de bolo para ele próprio ou para Giacchi…, digo, para outros compositores que possam eventualmente substituí-lo na saga. Porém, deixaremos para nos preocupar com isso quando o momento chegar. Por ora, devemos admirar o quanto Williams, mesmo após quase meio século de carreira, ainda compreende a fundo os personagens, suas motivações e sentimentos, e a história que está contando. Quer ele esteja se despedindo da saga, quer ele esteja apenas retornando à franquia que o consagrou na memória de gerações de cinéfilos, uma coisa é certa: esta é uma das trilhas do ano (confira abaixo um featurette de bastidores da gravação da trilha sonora).

Faixas:

1. Main Title And The Attack On The Jakku Village (06:25)
2. The Scavenger (03:39)
3. I Can Fly Anything (03:11)
4. Rey Meets BB-8 (01:31)
5. Follow Me (02:54)
6. Rey’s Theme (03:11)
7. The Falcon (03:32)
8. That Girl With The Staff (01:58)
9. The Rathtars (04:05)
10. Finn’s Confession (02:08)
11. Maz’s Counsel (03:07)
12. The Starkiller (01:51)
13. Kylo Ren Arrives At The Battle (02:01)
14. The Abduction (02:25)
15. Han And Leia (04:41)
16. March Of The Resistance (02:35)
17. Snoke (02:03)
18. On The Inside (02:05)
19. Torn Apart (04:19)
20. The Ways Of The Force (03:14)
21. Scherzo For X-Wings (02:32)
22. Farewell And The Trip (04:55)
23. The Jedi Steps And Finale (08:51)

Duração total: 77:13

Tiago Rangel

22 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: STAR WARS – THE FORCE AWAKENS – John Williams”

  1. Hehehehe eu ainda não acredito que o Giacchino venha assumir o Episódio VIII… Mas são coisas que não estão ao nosso controle. Kathy Kennedy o confirmou nos episódios principais e, qual o problema pow? Johnny Williams é, relativamente, mais jovem que Ennio Morricone! E este continua a todo vapor.

    Eu acredito na promessa da Kennedy. Creio que John Williams, venha a concluir esta saga.

    Uma pena que ele não tenha feito o mesmo por Harry Potter. Teria sido tão interessante…

    E, ah, um pequeno adendo: segundo os próprios créditos finais, JW co-orquestrou a trilha junto com o Bill Ross. E ele não faz isso há muito anos.

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  2. Excelente resenha, Tiago. Esperamos (creio que posso falar por todos os fãs e admiradores) que o mestre Williams retorne sim às películas seguintes para concluir a score que o consagrou há muitos anos. #fãincondicional

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      1. Exato, mas já estava definido que o envolvimento do Williams se daria apenas nos filmes da nova trilogia. Os filmes derivados (caso de Rogue One) terão outros compositores.

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  3. Mas que baita trabalho do mestre, hein? Um show orquestral! A sinergia e a energia dessa trilha é o que faltam na maioria dos scores de hoje. Mas admito que está na hora de outros compositores assumirem o posto a partir do próximo filme da nova trilogia. Não apenas pela questão da idade do John Williams, mas também porque, inevitavelmente, o trabalho dele poderá acabar apresentando sinais de cansaço (se ele fizer a trilha dos outros dois episódios, serão quase 10 filmes com o mesmo compositor). Torço para que o Colin Trevorrow anuncie o Michael Giacchino – eles se reuniram de novo em The Book of Henry – no comando da trilha do Episódio 9. E bem que o Rian Johnson poderia dar uma chance ao grande Howard Shore. Gente talentosa a altura do velho mestre é o que não falta.

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