Resenha de Trilha Sonora: ANT-MAN – Christophe Beck


ant-manCDMúsica composta por Christophe Beck
Selo: Hollywood Records
Catálogo: D002068592
Lançamento: 17/07/2015
Cotação: star_3_5

Décimo segundo filme da Marvel Studios, Homem-Formiga (Ant-Man, 2015) é a história de origem do herói do título. No longa, o ex-presidiário boa-pinta Scott Lang (Paul Rudd) se vê em dificuldades para arrumar emprego após sair da cadeia. Sem poder ver sua filha, ele é atraído de volta à sua antiga vida de crimes. Depois de invadir a casa do cientista Hank Pym (Michael Douglas), Scott rouba seu traje, que o permite encolher até o tamanho de um inseto, porém mantendo a força de um homem comum, além de controlar telepaticamente as formigas. Logo, vendo em Scott o potencial para ser um herói, Hank começa a treiná-lo no uso do traje, para que ele possa invadir sua antiga empresa, agora controlada pelo malvado Darren Cross (Corey Stoll), e roubar de volta a tecnologia de encolhimento antes que ela seja vendida para organizações perigosas.

O filme, de certa forma, pode ser considerado dos mais antigos da Marvel Studios. Ele passou anos em desenvolvimento, sem nunca sair do papel, sob o comando do diretor e “deus nerd” Edgar Wright. Porém, quando o longa finalmente estava com a data de estreia marcada e pronto para entrar em produção, Wright se desentendeu com a Marvel, foi demitido, e quase toda a equipe do longa foi trocada, incluindo os compositores: saiu o oscarizado Steven Price, entrou o especialista em comédias Christophe Beck, que havia colaborado com o novo diretor, Peyton Reed, em ocasiões anteriores.

Por mais que todos os fãs de trilhas sonoras estivessem curiosos com o que Price (um compositor relativamente novo) iria fazer, a escolha de Beck fazia sentido no novo contexto do longa, mesmo com muitos torcendo o nariz. Afinal, sem o tom grandioso de outros filmes de super-heróis, Homem-Formiga é uma produção mais simples e humilde, basicamente uma comédia de aventura com super-poderes. O tom mais leve se encaixaria bem nas especialidades de Beck, que musicou um sem-número de comédias nos últimos anos. E ele é bem sucedido ao entregar um score orquestral, bem-humorado e cheio de energia, ainda que com certas limitações.

A trilha é completamente dominada pelo tema principal, para representar o herói. Completamente onipresente durante todo o disco, ele aparece logo na primeira faixa, Theme from Ant-Man. Trata-se de um bom tema, uma melodia para toda a orquestra que, além de apresentar o típico “bom mocismo”, também mostra o seu lado mais gatuno – afinal, o longa é, basicamente, um filme de assalto. Assim, a melodia de Beck tem mais a ver com o estilo empregado por figuras como John Barry, Lalo Schifrin e Henry Mancini na década de 1960, combinada com orquestrações mais grandiosas de um filme de super-heróis. Ao apresentar esses dois lados da história, Beck consegue criar um tema bastante original dentro do gênero, e na própria Marvel, em particular, marcada pela irregularidade de suas trilhas.

O tema do Homem-Formiga, em seguida, passa a se tornar recorrente durante todo o álbum, variando de versões heroicas, como nas faixas de ação, a mais lentas e contemplativas, como no início de Honey, I Shrunk Myself, e mesmo de forma quase elegíaca e dramática, no final de Small Sacrifice. Vale destacar também a forma como Beck utiliza as cordas em pizzicato que servem de acompanhamento do tema como base da melodia de Old Man Have Safe, adicionando tensão à sequência da invasão da casa de Pym, bem como a versão “surf-orquestral” (como definida pelo próprio compositor numa entrevista) de Scott Surfs on Ants. Tais variações mostram o talento de Beck para equilibrar comédia e aventura, remetendo a outros trabalhos seus no gênero, como a trilogia Se Beber, Não Case (The Hangover) e Roubo nas Alturas (Tower Heist, 2011).

O problema é que o tema, apesar de bom, é utilizado incansavelmente na partitura, chegando ao ponto de eclipsar outros pontos da trilha. É uma tendência que Beck demonstrou em outros trabalhos, e que infelizmente continua aqui. Fiquei com a impressão de que ele se dedicou mais a musicar os momentos do herói, e não deu tanta atenção a outras sequências do filme. O tema do vilão Darren Cross, por exemplo, dificilmente será identificado por um ouvinte menos experiente, e mesmo eu precisei de várias audições do disco (além de uma sessão do filme) para conseguir achá-lo. Ele é uma melodia bastante clichê, que consiste em três notas ameaçadoras, que aparecem ora em baixos sinistros, ora em metais, e faz pouco para descrever o personagem além de dizer que ele é malvado até o último fio de cabelo (embora o filme não ajude, com um vilão que não é lá o maior exemplo de complexidade). Mais proeminente ao final do álbum, você pode encontrá-lo em 1:53 de Into the Hornet’s Nest e ao início de Insecticide, por exemplo.

Apesar disso, além do tema principal, há também um outro bastante importante, que representa a família, principalmente a complicada relação entre Hank e sua filha, Hope (Evangeline Lilly). Ele consiste numa bela melodia para cordas, com um toque de melancolia, e lembra algo que James Newton Howard ou Alan Silvestri poderiam ter escrito para os momentos mais íntimos de scores que não necessariamente são para dramas, como Mar de Fogo (Hidalgo, 2004) ou O Mensageiro (The Postman, 2004). O segmento principal do tema aparece logo em 1:23 de San Francisco, 1987, e depois retorna em belas interpretações nas faixas Pym’s Lab e Become the Hero. Já em Your Mom Died a Hero ele aparece primeiro em ritmo de ação, e depois de forma dramática, acompanhando a cena em que Hank conta à filha o que houve com sua esposa.

Mas o destaque mesmo da trilha vai para as faixas de ação. Cheias de energia, elas apresentam metais rápidos, muita percussão e pratos para aumentar a adrenalina. No início do álbum, elas aparecem de forma mais esparsa, como em Escape from Jail, bastante reminiscente do estilo de Brian Tyler em trilhas como As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles, 2014), e em First Mission, que inclui uma aparição surpresa do tema dos Vingadores de Silvestri em 1:09. Ao fim do disco, porém, há uma profusão de cues do tipo, acompanhando o clímax do longa, e permitindo a Beck brilhar. Além da escrita complicada, que contrapõe os temas do Homem Formiga e de Darren Cross, destaca-se também a orquestração detalhista e a grande energia da música, em especial nas ótimas Into the Hornet’s Nest, Insecticide e Flight of the Bumblebee. Assim, é uma pena que o disco não seja maior e inclua mais da música do clímax – o que significa que Beck pode ter tido a ajuda de compositores adicionais e orquestradores para musicar todo o longa.

Enquanto isso, cues como Ant 247 e I’ll Call Him Anthony trazem um clima típico de filmes de assalto, com ritmos de percussão e piano acompanhando a orquestra. Já Crosstech Break-In, ao mesmo tempo em que mantém a tensão da invasão do grupo à empresa comandada por Cross, também traz sintetizadores evocativos da temática da espionagem industrial, com conspirações envolvendo grandes executivos e alta tecnologia.

Homem-Formiga pode muito bem ser um dos melhores trabalhos da carreira de Christophe Beck, um compositor talentoso que, quando procura fazer algo além de comédias, geralmente se sai bem. Dosando bem elementos eletrônicos, orquestrais e o clima cool de um filme de invasão, ele consegue iniciar a carreira de Scott Lang no Universo Cinematográfico da Marvel com o pé direito. Talvez falte um pouco de equilíbrio entre os temas, e um pouco mais de originalidade não faria mal, mas eu dificilmente reclamarei de um bom score orquestral para um longa de super-heróis.

Faixas:

1. Theme from Ant-Man 2:46
2. Honey, I Shrunk Myself 2:29
3. Escape from Jail 1:51
4. Ant 247 1:13
5. Paraponera Clavata 1:24
6. San Francisco, 1987 2:37
7. I’ll Call Him Antony 2:50
8. Tiny Telepathy 2:02
9. First Mission 3:23
10. Signal Decoy 0:51
11. Old Man Have Safe 2:25
12. Pym’s Lab 1:26
13. Antfiltration 1:20
14. Your Mom Died a Hero 2:03
15. Scott Surfs on Ants 1:11
16. The Water Main 1:14
17. CrossTech Break-In 1:47
18. Into the Hornet’s Nest 3:00
19. Become the Hero 1:52
20. Insecticide 2:51
21. A Center for Ants! 1:15
22. Cross Gets Cross 1:52
23. Fight of the Bumblebee 1:44
24. Ants on a Train 1:43
25. Small Sacrifice 3:36
26. About Damn Time 0:39
27. Tales to Astonish! 1:47
28. Borombon (Camilo Azuquita) 2:49
29. Escape (Roy Ayers) 2:14
30. I’m Ready (Commodores) 3:20
31. Pink Gorilla (HLM) 3:46

Duração total: 65:20

Tiago Rangel
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6 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: ANT-MAN – Christophe Beck”

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