Resenha de Trilha Sonora: FANTASTIC FOUR – Marco Beltrami, Philip Glass


f4_CDMúsica composta por Marco Beltrami, Philip Glass
Selo: Sony Classical
Catálogo: 88875096722
Lançamento: 14/08/2015
Cotaçãostar_3

Dentre todas as escolhas surpreendentes de compositores que tem acontecido recentemente, nenhuma foi mais chocante e incomum do que a do novo Quarteto Fantástico (Fantastic Four, 2015): a colaboração entre Marco Beltrami e Philip Glass na trilha do longa. Ver o nome de Beltrami ligado a um filme de super-heróis não é nenhuma surpresa, claro, porém Glass trabalhando em um blockbuster repleto de efeitos especiais chocou e dividiu a internet. Para quem não o conhece, Philip Glass é conhecido por ser um dos compositores mais inovadores dos últimos anos, ajudando a popularizar, com discos como Glassworks e seus trabalhos na trilogia Qatsi, o estilo conhecido como minimalismo. Renomado e com inúmeros fãs espalhados no mundo todo, Glass, a partir do início do século, começou a adentrar cada vez mais o mundo do cinema comercial hollywoodiano, com trilhas para longas como As Horas (The Hours, 2002), O Ilusionista (The Illusionist, 2006) e Notas sobre um Escândalo (Notes on a Scandal, 2006) – embora, claro, nenhum fosse um caro blockbuster sobre super-heróis.

Na verdade, o novo Quarteto Fantástico sempre esteve cercado de expectativas e mistério desde seu início. Depois de três filmes lamentáveis (sendo que um deles foi uma produção trash de Roger Corman, e que nunca teve a intenção de ser lançada), parecia que os famosos heróis da Marvel finalmente ganhariam uma versão digna: na direção, Josh Trank, que causou boa impressão com sua estreia nas telonas em Poder sem Limites (Chronicle, 2012), e, no elenco, atores jovens e promissores como Miles Teller e Michael B. Jordan, além de diversas entrevistas destacando o quanto o longa seria mais ousado do que a maioria dos filmes de super-herói, mas uma ficção científica do que uma aventura comum. E, claro, entre todos os Scoretrackers, havia imensa curiosidade para saber o que sairia da colaboração de alguém como Marco Beltrami (que, apesar de talentoso, é uma figura mais “convencional”, por assim dizer) com Philip Glass. Sendo assim, com o filme e a trilha lançados, qual foi o resultado de uma parceria tão incomum?

A verdade é que: nós vamos continuar sem saber. Quero dizer, ouvindo o disco lançado pela Sony Classical, fica claro que estamos diante de mais um score comum de super-heróis, e certamente não um dos melhores. Aparentemente, qualquer que tenha sido o papel de Glass aqui, ele foi bem reduzido, com Beltrami sendo o verdadeiro responsável por efetivamente colocar a música no filme. Segundo o excelente site scoringsessions.com, em sua cobertura das sessões de gravação da trilha, o próprio Glass não esteve presente. Na verdade, quase ninguém da equipe habitual do músico, como o maestro Michael Riesman ou os membros de sua banda, o “Philip Glass Ensemble”, participaram das gravações, enquanto os colaboradores habituais de Beltrami, como o regente Pete Anthony, o produtor Buck Sanders e os arranjadores Marcus Trumpp e Brandon Roberts, estiveram presentes no Newman Scoring Stage. De acordo com o próprio site, porém, o envolvimento de Glass parece ter sido contribuir apenas com algum material temático e textural, enquanto o papel de Beltrami foi integrar isto ao tecido do score. Claro, nada disso seria um problema se Beltrami trabalhasse com seu talento habitual, mas mesmo assim seu trabalho em Quarteto Fantástico é um score extremamente burocrático, sem nada da inovação que uma parceria como a deles pretendia.

Além disso, não ajuda em nada o fato de que o próprio filme, ao invés de uma ambiciosa ficção científica, na verdade não passa de uma aventura mal construída e pobremente roteirizada. Destruído pela crítica, o próprio Trank tentou se distanciar do desastre, dizendo que o responsável pelo corte final do longa não foi ele, enquanto, por toda a internet, começavam a pipocar histórias sobre brigas nos bastidores entre o diretor e o estúdio. Todos esses problemas, porém, não pareceram respingar (muito) sobre Beltrami e Glass, muito embora, adicionando outra camada de mistério à história, vale lembrar que o próprio Trank (o responsável por trazer Glass para o longa) não esteve presente nas gravações do score, indicando que, àquela altura, ele já havia lavado as mãos.

A carreira de Beltrami, nos últimos tempos, chegou a um ponto curioso: o sujeito tem demonstrado competência e talento em longas que acabam sendo desastres de crítica e bilheteria, como O Doador de Memórias (The Giver, 2014) e o horrendo O Sétimo Filho (The Seventh Son, 2014) – e é uma pena que, com o desempenho lastimável do segundo, o bom score de Beltrami provavelmente jamais seja lançado em disco. Sendo assim, é triste que tal tendência não continue em Quarteto Fantástico (com exceção das críticas pesadas ao filme, claro), um trabalho que até tem suas qualidades, mas que dificilmente irá se destacar dos diversos outros scores para filmes de aventura do ano.

Passemos, então, para a análise do disco. De todas as faixas, a que mais demonstra ter havido um nível de colaboração entre os dois compositores é a primeira, Fantastic Four Prelude – que, estranhamente, não é ouvida em parte alguma do longa. Com orquestrações ligeiramente incomuns (para uma trilha do tipo), o cue é o que mais lembra o estilo de Glass, com frases repetitivas para sopros, cordas e eletrônicos, combinada com o senso de mistério de trabalhos anteriores de Beltrami. Não sei dizer se, caso todas as outras faixas do disco fossem no mesmo estilo, teríamos uma trilha melhor, mas certamente teríamos uma mais diferente. O problema é que, daí em diante, o disco se torna cada vez menos inovador e mais clichê.

Assim, após esta introdução, o disco segue acompanhando a ordem do filme. As faixas iniciais combinam principalmente cordas e eletrônicos, dando um ar de suspense que reflete a característica mais “sombria” do longa. Dentre elas, destacam-se Baxter, que, com sintetizadores, guitarras e orquestra, também traz em seu DNA o minimalismo de Glass, e a grandiosa It Begins. Nesses cues, fica claro que a intenção do(s) compositor(es) foi a de dar um ar moderno, clean, quase de uma ficção científica para a música do longa, refletindo as maravilhas modernas sendo construídas no edifício Baxter. Infelizmente, porém, a maioria dos cues são bastante curtos, impedindo qualquer desenvolvimento. Assim, a boa Building the Future compensa neste sentido, trazendo a interpretação mais completa do ótimo tema principal do longa, que havia sido apenas sugerido nas outras faixas. Tal tema é a melhor coisa do score, graças à sua bela construção. Quem quer que tenha sido o responsável, Beltrami, Glass, ou os dois, acertaram com este tema, que, provavelmente, reflete melhor a personalidade que Trank e os produtores quiseram dar ao filme do que o próprio longa.

Quando os personagens, finalmente, saem na fatídica expedição que mudará suas vidas, a música assume novos ares. Footprints combina a grandiosidade de descobrir uma nova dimensão, incluindo participações do tema principal, com momentos desconcertantes de suspense. Isso leva a Run!, potente faixa de ação com metais enérgicos e ataques de violinos. Assim, é uma pena que o restante das faixas não sigam no mesmo estilo, com cues como Ben’s Drop e Under Pressure não sendo nada além de esquecíveis exercícios de construção de suspense com cordas e sintetizadores, ao passo em que Real World Applications e The Search até tem seus momentos, escondidos em meio a melodias menos memoráveis.

Na sequência, porém, o longa se aproxima de seu polêmico clímax, o principal alvo das críticas mais pesadas. He’s Awake, a mais longa do disco, com quase 7 minutos, traz ação, suspense, orquestrações violentas, uma interpretação mais trágica do tema principal e até um motivo ameaçador para o vilão Victor Von Doom, o Dr. Destino, agora com seus poderes completos. E, mesmo assim, esta faixa é só a preparação para o que vem a seguir: mesmo com todas as críticas direcionadas ao final do filme, é ele quem traz a melhor parte da trilha de Beltrami e Glass. Pursuit e, principalmente, Strenght in Numbers são poderosas e dramáticas faixas de ação, com participações do tema principal, do motivo de Doom, em orquestrações repletas de violência e energia, além de perpetuarem a evolução de Beltrami em musicar cenas do tipo. Ao final da faixa, o tema principal é retrabalhado como uma heroica fanfarra para o Quarteto, mostrando sua vitória sobre o vilão.

Apesar de todos os problemas que vieram antes, End Credits (que, apesar do título, inclui também música ouvida no epílogo do longa, seguida pelos próprios créditos finais, a partir de 2:56 na faixa) encerra o disco num tom positivo. Faixas como What Are You Going to Do When You Are Not Saving the World?, passando por The Avengers e You’re that Spider Guy, até Promises/Spider-Man End Titles, provam que os melhores momentos de trilhas de super-heróis estão em seus encerramentos, quando o herói (ou grupo de heróis) finalmente assume seu destino e decide enfrentá-lo, seguidos pela apresentação mais emocionante de seus temas até então, de forma capaz até de salvar scores fracos, e não é diferente em Quarteto Fantástico. A bela melodia e a boa construção da faixa, seguida pelo tema dos heróis numa apresentação memorável, indica um futuro brilhante para a “Primeira Família da Marvel” – futuro este que, a depender das críticas, jamais chegará.

Mesmo assim, apesar das potentes faixas de ação e do seu sensacional encerramento, a trilha de Quarteto Fantástico, no todo, acaba sendo decepcionante tanto para os fãs de Glass quanto para os de Beltrami. Os primeiros que vierem aqui esperando o minimalismo e a ousadia de obras como Koyaanisqatsi: Uma Vida Fora de Equilíbrio (Koyaanisqatsi, 1982) ou Kundun (idem, 1997) certamente sairão enraivecidos, enquanto os outros já ouviram obras mais memoráveis do ítalo-americano no gênero de ação, aventura e super-heróis. Assim como o filme, todos nós esperávamos mais dessa trilha.

Faixas:

1. Fantastic Four Prelude (05:16)
2. The Garage (02:26)
3. The Unveiling (01:03)
4. Baxter (02:45)
5. “All My Faith” (00:45)
6. The Lab (00:53)
7. Meeting of the Minds (00:53)
8. It Begins (00:34)
9. Building the Future (02:49)
10. Launch One (03:11)
11. Neil Armstrong (02:57)
12. Maiden Voyage (01:56)
13. Footprints (04:00)
14. “Run” (02:38)
15. Ben’s Drop (02:27)
16. Real World Applications (01:39)
17. Under Pressure (01:01)
18. The Search (01:58)
19. “You’re Going to Like This One” (01:10)
20. Father and Son (01:49)
21. Return (02:42)
22. He’s Awake (06:55)
23. Pursuit (03:01)
24. Strength in Numbers (05:17)
25. End Titles (06:15)

Duração total: 66:20

Tiago Rangel
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8 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: FANTASTIC FOUR – Marco Beltrami, Philip Glass”

  1. Na boa, mas curti bastante a trilha. Fica claro a orquestração de Philip Glass com seu estilo não tão padronizado como ouvimos nas trilhas dos atuais heróis. E pra mim a união com Marco Beltrami funcionou. Já o filme…..pelo menos por enquanto não tenho a menor vontade de assistir. O elenco do anterior era melhor e eles sempre deixaram claro que gostariam de fazer um Quarteto mais emocionante e vibrante. Pena que naqueles tempos a Marvel ainda não estava sacudindo a cabeça dos roteiristas. Abraços.

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  2. Sobre o lançamento da trilha Seventh Son o distúrbio na força que o Tiago Rangel comentou pode ser observado neste e-mail que recebi do Tim Nelson responsável pelo site do Marco Beltrami. Confira abaixo:

    Tim Nelson (tim@marcobeltrami.com)

    Unfortunately we don’t have a date to give out when. Marco recently sent them the mastered copy about 2 months back. And of course we cannot announce who it is until the label announces first. When that will happen is anyone’s guess. As soon as we find out we will have the info on the site.

    Best,

    Tim

    On Aug 12, 2015, at 12:42 PM, Leandro Lombardi wrote:

    Greetings…

    Congratulations for your site.

    Just one question. When SEVENTH SON will be launch to buy?

    Its a great score.

    Thank you for your time.

    Leandro Lombardi
    Curitiba – Pr – Brazil

    Curtir

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