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Resenha de Trilha Sonora: CRIMSON PEAK – Fernando Velázquez


Crimson Peak CDMúsica composta por Fernando Velázquez
Selo: Quartet Records
Catálogo: QR208
Lançamento: 09/11/2015
Cotação: star_4

Dirigido pelo renomado diretor (e ídolo nerd) Guillermo Del Toro, A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015) é um misto de drama, terror e romance, com muitas inspirações em livros e filmes góticos do passado. Passado na virada do século XIX para o XX, ele é a história da jovem Edith Cushing (Mia Wasikowska), aspirante a escritora e herdeira de uma fortuna, que se apaixona por Sir Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), que está em busca de patrocínio para sua nova invenção. Depois de muitos contratempos, os dois se casam e ela vai morar com ele na decadente mansão Allerdale Hall, junto com sua fria e sinistra irmã Lucille (Jessica Chastain). Porém, o que logo Edith irá descobrir é que sua nova família esconde segredos mortais, e que a mansão também pode ser a moradia de criaturas do além… Ou seja, não é o típico de terror com o qual a audiência está acostumada (ou, pelo menos, a audiência de 2015), de modo que o filme naufragou nas bilheterias.

O que é uma pena, pois, assim, grande parte do público não pôde experimentar o suntuoso design de produção do longa, ou a bela trilha composta pelo espanhol Fernando Velázquez. Já discuti aqui algumas vezes a “invasão espanhola” nas trilhas sonoras hollywoodianas, da qual ele é um dos líderes, e Crimson Peak é um ótimo exemplo da razão pela qual compositores da nação ibérica estão ganhando cada vez mais espaço no cinemão comercial americano. Tais músicos trazem uma sensibilidade diferenciada e um sabor europeu às suas composições, além de terem domínio de uma ótima escrita orquestral. No caso do longa de Del Toro, Velázquez compôs uma trilha gótica, suntuosa, dramática, e também inteligente e bem estruturada, interpretada aqui por nada menos que duas orquestras: a The London Philharmonia Orchestra e a madrilenha The RVTE Orchestra and Choir.

Quem já é mais familiarizado com a carreira do músico, sabe que ele já compôs ótimos trabalhos tanto para o gênero terror, como O Orfanato (El Orfanato, 2008), Los Últimos Dias (idem, 2013) e Mama (idem, 2013), quanto para longas mais dramáticos, como as belas O Impossível (The Impossible, 2012) e El Mal Ajeno (idem, 2010). A Colina Escarlate é uma junção destes dois estilos, de tal forma que a música mistura perfeitamente o romantismo e a dramaticidade da história criada por Del Toro com orquestrações mais típicas de horror. O mais surpreendente, porém, disso tudo, é a facilidade com que Velázquez transita pelos dois estilos, que, ao invés de permanecerem separados, se combinam para criar uma atmosfera sinistra e cada vez mais perturbadora. Desta forma, o arco do filme é completamente delineado pela trilha do espanhol: a paixão de Edith por Thomas, o encantamento com sua nova vida, o medo e as inseguranças crescentes e, por fim, a certeza do perigo que ela corre em Allerdale Hall.

A trilha é ancorada pelo tema da protagonista, uma melodia para cordas bela, romântica, porém melancólica e intimista. Velázquez é provavelmente um dos compositores da atualidade que melhor sabe escrever para esta seção da orquestra (talvez por seu passado como violoncelista), sabendo como extrair toda a emoção de sua música, sem soar piegas. Na primeira faixa, Edith’s Theme, ele aparece após uma breve introdução para piano, e depois num cello solo, junto à orquestra, lembrando levemente alguns scores de John Williams, como A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) e As Cinzas de Ângela (Angelas’s Ashes, 1999). Um outro tema secundário, este de inspiração mais gótica e sombria, é baseado na canção In the Sails of Your Dreams, escrita por Velázquez e por Del Toro, que é interpretada ao piano no filme pela personagem de Jessica Chastain. Tal canção de ninar, no álbum, é substituída por uma variação, na décima sexta faixa. O tema originado a partir dela, dedicado a representar os fantasmas e o conceito de vida após a morte, e apresentado em After the Ghost, é reminiscente do estilo de Danny Elfman em trilhas para filmes góticos como Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990) – e, na verdade, fosse Elfman o compositor, e Tim Burton o diretor, não duvido que o americano utilizasse uma melodia parecida.

Ambos os temas são recorrentes durante toda a trilha, e servem como o acompanhamento perfeito para a jornada de Edith, e do próprio espectador, que vê a história pelos olhos da heroína. A primeira parte do score, e do próprio longa, é mais inocente, porém, mais melancólica, representando as perdas que ela sofre no primeiro ato da projeção, e o início de seu relacionamento com o misterioso lorde. A faixa Buffalo é um bom exemplo disso, com o tema da protagonista apresentado de forma mais lírica e alegre, de forma a representar a inocência de sua vida antes de conhecer Sharpe. Além dela, cues como a bela McMichael, I Desperately Need Your Help oferecem variações românticas porém ligeiramente tristes do tema de Edith, enquanto The Butterfly, Optician e Return to Your Ghost ilustram a ameaça crescente que paira sobre a protagonista, com interpretações sombrias tanto de seu tema quanto do motivo secundário.

Tudo muda, porém, a partir de Allerdale Hall, um longo cue, que, em seus mais de seis minutos, acompanha a mudança de Edith para a mansão de seu novo marido e, para isto, ele utiliza grandiosas e exuberantes performances de seu tema, ao lado de melodias mais ameaçadoras e sombrias. Assim, conforme a heroína vai percebendo que sua vida na nova mansão não será nenhum mar de rosas, Velázquez ilustra a crescente solidão de Edith e os segredos mortais de sua nova família através de faixas como The House, The Book, The Attic, Crimson Peak e na dramática I’m Here, tudo isto ancorado, claro, pelos dois temas principais, aparecendo aqui e ali para manter a coesão musical.

Mesmo assim, a escuridão e a ameaça que pairam sobre a vida de Edith não tardam a cair sobre ela, e o compositor representa isso de forma lenta, gradual, porém constante. The Machine/The Box introduz um ostinato de cordas que virá a acompanhar todo o terceiro ato da projeção, ao passo em que Letter from Italy e You Didn’t Drink Your Tea apresentam uma performance mais tensa do tema da vida após a morte. The Gramophone, na sequência, um cue sombrio e sinistro, oferece ao final uma variação trágica do tema de Edith, conforme ela descobre a terrível verdade por trás de seu marido e de sua cunhada.

Dessa forma, o clímax do disco é a oportunidade para Velázquez escrever uma música mais tipicamente de horror, e desenvolver ideias que já haviam aparecido antes no score, em faixas como I Have to Get Away from Here e as três Ghost. O longo clímax corre por mais de 18 minutos, divididos em duas faixas, I Know Who You Are e Lucille & Showdown, e trazem momentos de suspense perturbadores, dissonâncias caóticas e momentos demoníacos de puro terror – além de, claro, mostrar porque Velázquez é hoje um dos mais requisitados compositores para o gênero. Além disso, a forma como ele incorpora os dois temas principais em meio a tanto horror é particularmente notável. Após o clímax, Finale e End Credits trazem dramáticas interpretações do tema de Edith, bem como do tema secundário, providenciando um encerramento em grande estilo para o score.

Talvez o único problema desta trilha é a forma com que seu álbum foi estruturado: nada menos que 36 faixas, a maioria delas de curtíssima duração. Isto, infelizmente, pode acabar afastando possíveis ouvintes que, de outra forma, tomariam contato com esta belíssima obra de um compositor que merece ser descoberto por mais Scoretrackers. Assim, deixo aqui minha torcida para que você não se incomode (muito) com esse problema no disco, ou ao menos que consiga apreciar a trilha mesmo assim.

Enfim, enquanto em seus filmes de ação e aventura mais comerciais, como Blade II (idem, 2002), os dois Hellboy e Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013), Del Toro utilizou compositores mais do mainstream, como Marco Beltrami, Danny Elfman e Ramin Djawadi, para seus longas de terror e menos “hollywoodianos” o diretor preferiu oferecer a oportunidade a músicos igualmente hispanohablantes, como Javier Navarrete em A Espinha do Diabo (El Espinazo del Diablo, 2001) e O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006), e agora Velázquez. Navarrete recebeu uma indicação ao Oscar por seu trabalho, o que eu duvido que acontecerá aqui, devido à recepção morna do projeto, mas, mesmo assim, a trilha de Velázquez permanece como uma das melhores (e, provavelmente, a melhor) do seu gênero em 2015. O espanhol é uma das vozes mais talentosas a surgir em seu país e o romance gótico de Del Toro oferece a ele uma belíssima tela para pintar. Altamente recomendada.

Faixas:

1. Edith’s Theme (01:56)
2. My Mother’s Funeral (00:49)
3. Buffalo (02:09)
4. After The Ghost (00:35)
5. Soft Hands (00:45)
6. McMichael (01:04)
7. Valse sur une berceuse anglaise (01:18)
8. Ghost I (01:40)
9. I Desperately Need Your Help (00:53)
10. The Butterfly (00:51)
11. Optician (01:25)
12. Return to Your Ghosts (03:54)
13. Allerdale Hall (06:18)
14. The House (01:47)
15. What Was That (00:41)
16. Lullaby Variation (01:40)
17. The Book (00:52)
18. The Attic (01:46)
19. The Ghost (00:52)
20. Crimson Peak (00:53)
21. Ghost III (01:42)
22. I Have to Get Away From Here (01:21)
23. Letter From Italy (00:23)
24. ’m Here (03:01)
25. The Machine / The Box (01:27)
26. Bubbling Up (00:21)
27. Key’s Chase (00:56)
28. You Didn’t Drink Your Tea (00:57)
29. The Gramophone (03:03)
30. You Are Awake (01:39)
31. Let Me Help You (00:52)
32. We Stay Together / McMichaels Arrives (01:14)
33. I Know Who You Are (08:14)
34. Lucille & Showdown (10:45)
35. Finale (01:51)
36. End Credits (04:07)

Duração total: 74:01

Tiago Rangel

4 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: CRIMSON PEAK – Fernando Velázquez”

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