O BEM AMADO (Brasil, 2010)
Gênero: Comédia
Duração: 110 min.
Elenco:  Marco Nanini, José Wilker, Caio Blat, Maria Flor, Matheus Nachtergaele, Zezé Polessa, Andréa Beltrão, Tonico Pereira, Drica Moraes, Bruno Garcia, Edmilson Barros
Compositores: Caetano Veloso, Mauro Lima, Berna Ceppas, Kassin
Roteiristas: Guel Arraes, Claudio Paiva
Diretor: Guel Arraes
Cotação: **½

O melhor e o pior de O BEM AMADO (2010), a terceira encarnação da obra de Dias Gomes, são justamente os seus brilhantes diálogos, especialmente os de Odorico Paraguaçu, aqui interpretado por Marco Nanini. Guel Arraes, com seu cinema excessivamente verborrágico, não nos deixa tempo para respirar com tantas falas e montagem corrida. Apesar de não questionar a inteligência e a espirituosidade do vocabulário de Odorico, foram poucas as vezes que ri de verdade. O que já é comum nas comédias de Arraes. Assim, O BEM AMADO guarda muitas semelhanças com O AUTO DA COMPADECIDA (1999) e LISBELA E O PRISIONEIRO (2003). O personagem de Caio Blat, por exemplo, parece estar imitando o Selton Mello o tempo inteiro.

O BEM AMADO (1973) foi uma das telenovelas mais bem sucedidas da história da televisão brasileira. Tanto que deu origem a uma série semanal (1980), que fez com que gerações se familarizassem com seus personagens divertidos. No filme, por questão de tempo, só os personagens principais aparecem. Há o inimigo de Odorico, seu concorrente político e dono do jornal “A Trombeta”, Vladimir (Tonico Pereira). Ele representa a esquerda, com todos os cacoetes de quem já participou de sindicatos e partidos comunistas, enquanto Odorico seria a direita demagoga no poder. Ambos são vistos como caricaturas, mas obviamente Odorico é melhor explorado, até por ser um personagem bem mais rico.

Muito bem sacada a ideia de fazer um paralelo em registro documental sensacionalista da cidade de Sucupira com o painel brasileiro dos anos 1960, quando o Brasil passou a ser dirigido pelos militares. Desse modo, o filme já conquista a simpatia do espectador logo no início. José Wilker ficou bem como o Zeca Diabo, imortalizado na televisão por Lima Duarte. E é ele quem dá o pontapé inicial na trama, matando o prefeito e deixando espaço para a entrada em cena de Odorico, que se aproveita do funeral do prefeito recém-falecido para dizer que sua principal meta de governo é construir um cemitério para Sucupira. A ironia é que ninguém morre na cidade e ele não consegue inaugurar o bendito cemitério. Prato cheio para Vladimir, que se aproveita para denegrir a imagem do político.

Não podiam faltar as irmãs Cajazeiras (Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Drica Moraes), como as mulheres loucas para casar com Odorico; além do braço direito do prefeito, o seu Dirceu Borboleta. Matheus Nachtergaele faz bem em não imitar o estilo gago-gay eternizado por Emiliano Queiroz na novela e na série. Ficou muito bom, mas não tão marcante, deixando mais espaço para Odorico brilhar. Completando o grupo principal, Caio Blat e Maria Flor tentam dar conta dos momentos mais românticos e sensuais do filme. Com tantos personagens interessantes e uma trama já toda pronta, fica até difícil fazer um trabalho ruim. E Guel Arraes tem experiência o suficiente para comandar um espetáculo desses. Pena que a certa altura o filme se torne cansativo, o humor vá se dissipando e o resultado final seja pouco satisfatório.

Ailton Monteiro

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