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Resenha: KINGSMAN – THE SECRET SERVICE – Henry Jackman, Matthew Margeson (Trilha Sonora)


kingsmanCDMúsica composta por Henry Jackman e Matthew Margeson
SeloLa La Land Records
Catálogo: LLLCD 1341
Lançamento: 30/01/2015
Cotação:star_3

As trilhas de Monty Norman e, principalmente, John Barry, para as aventuras de “Bond, James Bond”, se tornaram tão marcantes que acabaram por estabelecer um som padrão e distinto para filmes de espionagem. Este som continua a ser utilizado hoje, mais de cinquenta anos depois, não só nas trilhas de David Arnold e Thomas Newman para os filmes mais recentes do agente inglês, como também em longas que bebem na fonte das produções de espionagem dos anos 1960, como no score de Michael Giacchino para Os Incríveis (The Incredibles, 2004).

O filme mais recente a trazer espiões ingleses combatendo vilões que querem dominar o mundo é Kingsman – Serviço Secreto. Dirigido por Matthew Vaughn, trata-se de uma comédia de ação e humor negro baseada numa HQ de Mark Millar e Dave Gibbons, e conta a história de um adolescente das ruas cooptado por uma organização secreta para enfrentar um malvado gênio da tecnologia. Com certeza, um prato cheio para qualquer compositor reaproveitar e homenagear o estilo de Barry, enquanto, ao mesmo tempo, produz um score divertido e cheio de ação. E foi mais ou menos isso que Henry Jackman e Matthew Margeson tentaram fazer na trilha de Kingsman, embora o resultado esteja mais alinhado com scores de ação no qual o primeiro trabalhou, como X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011), G.I. Joe – Retaliação (G.I. Joe Retaliation, 2013), Capitão América 2 – O Soldado Invernal (Captain America – The Winter Soldier, 2014) e Operação Big Hero (Big Hero 6, 2014).

A história de Vaughn com a música de seus filmes é interessante. O segundo filme do sujeito como diretor, Stardust – O Mistério da Estrela (Stardust, 2007), teve uma boa trilha composta por Ilan Eshkeri; porém, em sua próxima produção, Kick-Ass: Quebrando Tudo (Kick-Ass, 2010), Vaughn usou nada menos que quatro compositores, incluindo Jackman, John Murphy, Marius de Vries e o próprio Eshkeri, além de um cue escrito por Danny Elfman. De todos eles, o diretor decidiu prosseguir apenas com Jackman, e ele recebeu o crédito solo para a trilha de X-Men: Primeira Classe, e colaborou com Margeson na continuação de Kick-Ass (que foi apenas produzida por Vaughn). Para Kingsman, Vaughn contou com a dupla para produzir uma trilha de espionagem nos moldes dos famosos scores do gênero. Porém, como já foi dito, os dois não conseguiram escapar dos clichês que sua própria produtora estabeleceu para trilhas de ação, ainda que a de Kingsman ofereça alguns momentos inspirados que fazem com que ela se destaque no universo de scores genéricos lançados aos montes pelos músicos da Remote Control.

O álbum é dividido em três partes, sendo que a primeira supera de longe as outras duas. Nela, Jackman e Margeson introduzem os temas principais, que, estranhamente, funcionam melhor quando não são utilizados como música de ação. No início do disco, quando são apresentados (além de algumas outras vezes depois), eles funcionam como melodias nobres, cheias de grandeza e heroísmo, qualidades que se perdem nas estridentes faixas de ação. E, embora o tema principal tenha diversas similaridades com o de outros blockbusters compostos por Jackman, como o de Capitão América, ele ainda é eficiente e se enquadra bem dentro da temática de espionagem.

Esse tema principal é logo introduzido na primeira faixa, Manners Maketh Man, inicialmente nas cordas e depois nos metais, numa boa apresentação que dá esperança ao ouvinte de que ouvirá ao menos uma homenagem digna a Barry e sua música de espionagem. A faixa seguinte, porém, começa com as cordas dramáticas e graves típicas de quando um compositor da Remote Control quer fazer algo “épico” (quase dá para dizer que estamos ouvindo a um score de Trevor Rabin). Porém o tema principal retorna para mais uma boa aparição, inicialmente com piano e harpa, e depois com cordas românticas já associadas com filmes de espiões. Na sequência, Valentine começa com bizarros sintetizadores (que, convenhamos, seriam inevitáveis, dados os responsáveis pela música), introduzindo um motivo eletrônico associado ao vilão Valentine (Samuel L. Jackson) que virá a se tornar recorrente no disco. Felizmente, ela finaliza com um belo tema secundário, complementar ao principal.

To Become a Kingsman traz sutis aparições do tema principal, com piano, cordas e trompas, numa típica música “preparatória”, que culmina em grandiosas apresentações dos dois temas. Muitos poderão achar a faixa chata, mas eu aprecio sua interessante construção pela dupla de compositores. Pick a Puppy também tem um estilo similar, embora uma guitarra “retrô” e sintetizadores sejam acrescentados à orquestração. Já Drinks with Valentine tem um estilo mais sombrio, e reapresenta o tema principal e o complementar num contexto de suspense.

Infelizmente, o resto do álbum não mantém a mesma qualidade. Skydiving é a primeira faixa de ação, e começa até bem com reprises heroicas dos temas principais, mas da metade em diante ela fica tristemente genérica, repetindo os mesmos ostinatos de cordas, eletrônicos irritantes, e escrita sem inspiração para metais. Shame We Had to Grow Up é um pouco melhor, por ser a que mais se aproxima de ser “barryniana”, com o uso de metais e cordas que remete diretamente ao saudoso compositor inglês. Porém, na sequência, temos uma série de faixas que dependem de melodias ameaçadoras e sinistras que tentam criar tensão, mas só acabam entediando o ouvinte. Toast to a Kingsman, por exemplo, mostra a mão pesada dos dois compositores, e An 1815 Napoleonic Brandy, apesar de tentar soar ameaçadora, só provoca bocejos.

As coisas parecem mudar a partir da convenientemente intitulada Eat, Drink and Paaaaarty, que possui um crescendo indicando que estamos próximos do clímax. De fato, ele acontece, começando na longa Calculated Infiltration, porém, o que devia ser o ponto alto do disco acaba revelando suas maiores deficiências. As faixas de ação climáticas trazem clichê atrás de clichê, sem nunca serem energéticas ou inventivas como um filme desse pede. Como não poderia deixar de ser, a música é incrivelmente alta (como se isso, por si só, a deixasse “grandiosa”), mas ela parece ser composta apenas de melodias retiradas diretamente do score de G.I. Joe – Retaliação. De novo, temos os mesmos ostinatos de cordas, metais explosivos, ritmo rápido, muitos eletrônicos, e até ocasionais participações de um coral (!), numa tentativa de deixar a música épica. Além disso, a utilização do tema principal aqui só prova a tese de que ele é melhor utilizado fora das faixas de ação. Assim, após mais de dez minutos de música indutora de dor de cabeça, ao menos a trilha finaliza numa boa apresentação do tema secundário, que impede de deixar a audição totalmente inconclusiva. Como bônus do CD, ainda temos uma faixa “demo” de ideias para o tema de Valentine.

A trilha de Kingsman – Serviço Secreto, apesar de seus bons momentos (concentrados mais ao início do disco), não é tão divertida ou eficiente quanto poderia ser. É possível ver que Henry Jackman e Matthew Margeson realmente se esforçaram em tentar fazer sua própria versão de uma trilha de espionagem, mas eles se esqueceram de deixar os clichês e os lugares-comuns em casa na hora de compô-la.

Faixas:

1. Manners Maketh Man 1:38
2. The Medallion 2:14
3. Valentine 2:24
4. To Become a Kingsman 4:18
5. Pick a Puppy 2:13
6. Drinks with Valentine 2:39
7. Skydiving 3:37
8. Shame We Had to Grow Up 1:56
9. CD ONLY: Kentucky Christians 2:37
10. Curious Scars and Implants 3:08
11. Toast to a Kingsman 1:55
12. An 1815 Napoleonic Brandy 4:23
13. Eat, Drink, and Paaaaarty 1:53
14. Calculated Infiltration 7:54
15. CD ONLY: Out of Options 1:48
16. Hand On the Machine 2:21
17. Finale 3:56
18. Original Valentine Ideas (Demo Suite) 6:25

Duração: 57:19

Tiago Rangel

6 opiniões sobre “Resenha: KINGSMAN – THE SECRET SERVICE – Henry Jackman, Matthew Margeson (Trilha Sonora)”

  1. O primeiro tema é o tema dos Vingadores de ponta a ponta só que em um ritmo mais acelerado. O reconhecimento foi imediato, corri para ver se estava escutando a trilha certa. haha Filme muito divertido, mas pecaram em escolher como tema principal o tema de um filme tão popular e recente.

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