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Na Trilha: As Melhores Trilhas de 2015 que você (provavelmente) não Conhece – Parte 2


Dando prosseguimento à série de ótimas trilhas de “fora do radar” do ano anterior, mais alguns scores de longas que, longe dos grandes blockbusters hollywoodianos, conseguiram se destacar por sua qualidade musical. Afinal, um bom Scoretracker precisa estar sempre ampliando seus horizontes musicais, descobrindo novos compositores (ou novas facetas de velhos conhecidos) e conhecer trilhas de todo o globo é essencial para isso. Prontos? Então vamos lá:

mr_holmes_CD_Mr. Holmes – Carter Burwell

Sr. Sherlock Holmes (Mr. Holmes, 2015) é um drama de suspense que mostra o famoso detetive (interpretado aqui por Ian McKellen) criado por Arthur Conan Doyle aposentado e vivendo na costa da Inglaterra com sua governanta Mrs. Munro (Laura Linney) e o filho dela, Roger (Milo Parker). Ele lida com a progressiva perda de memória, enquanto tenta se lembrar de um último caso de sua vida. Dirigido por Bill Condon, o longa tem a trilha composta pelo colaborador habitual do diretor, Carter Burwell.

Obviamente, foi uma coincidência, mas o fato de que alguns dos colaboradores do compositor, como Condon, Todd Haynes, os irmãos Coen e Charlie Kaufman terem lançado seus projetos uns próximos dos outros levou a uma “inundação” de trilhas do músico nos últimos meses depois de um hiato em 2014 – e ele ainda inclusive encontrou tempo de escrever para um longa mais comercial, Horas Decisivas (The Finest Hours, 2016)! Por outro lado, isso fez com que o nome do compositor retornasse às discussões sobre Música de Cinema e lhe rendesse algumas indicações a prêmios e novos fãs. Assim, se você foi conquistado pelo premiado trabalho do compositor em Carol (idem, 2015), ou mesmo por seus scores para a saga Crepúsculo, e quer se aprofundar mais na música de Burwell, então a trilha de Mr. Holmes pode ser uma porta de entrada.

Interpretada por uma orquestra de câmara (como de costume, regida pelo próprio compositor), com ênfase em cordas e madeiras, seu score aqui é elegante e caloroso como o personagem interpretado por McKellen, mas também reflexivo, hipnótico e onírico, como se o mundo fosse visto por uma névoa. Assim, o compositor retrata a luta de Holmes para recuperar a memória e resolver seu último caso, antes de morrer. Tudo isso é encapsulado no ótimo tema principal, ouvido na primeira faixa, que captura em seus três minutos de duração a alma do filme e desta versão do personagem. Seja em seus projetos mais comerciais, nos longas dos irmãos Coen ou em dramas como esse, Burwell sempre teve um talento especial para retratar um longa com seus temas principais, e isto também vale aqui. Assim, quase todas as faixas apresentam performances deste tema, embora (como também é de costume do compositor), ele também não sofra muitas variações ao longo da trilha.

Além da orquestra, Burwell também inclui em sua paleta instrumental o shakuhachi japonês (velho conhecido dos fãs de James Horner) e uma harmônica de vidro. O primeiro, como não poderia deixar de ser, acompanha as cenas que mostram uma viagem do detetive ao Japão, e é ouvido em faixas como Holmes in Japan e Hiroshima Station. Já o segundo serve para adicionar mais uma camada onírica à música, e sua importância é tamanha na trilha que ele inclusive ganha uma faixa em sua “homenagem”: The Glass Armonica. Ele também pode ser ouvido em faixas como Prickly Ash e The Other Side of the Wall.

Além disso, Always Leave a Trace e Ann’s Plans oferecem algumas belas e interessantes performances para a harpa e a harmônica de vidro, enquanto faixas como A and Bee, I Never Knew Your Father e An Incomprehensible Emptiness trazem melodias melancólicas, retratando o senso de lamentação e reflexão sobre a velhice e o fim da vida. Já a última faixa, The Consolation of Fiction, retoma o tema principal numa bonita e triste performance para orquestra, piano, harpa e o shakuhachi.

Apesar de o disco ser relativamente curto (pouco menos de 40 minutos), muitos ouvintes poderão considerá-lo chato ou tedioso, especialmente se você espera melodias épicas, dramáticas e de muita ação. Porém, este é ainda um interessante score de Burwell, onde é realmente necessário buscar as sutilezas e as nuances musicais para apreciar o trabalho do compositor por completo (e, claro, uma sessão do filme também sempre é de grande ajuda).

Muhammad_CDMuhammad: The Messenger from God – A.R. Rahman

Escolha do Irã para representar o cinema do país no Oscar desse ano, o épico Muhammad: The Messenger from God (de longe, o filme de maior escala já produzido por lá) é o primeiro de uma planejada trilogia que pretende contar a vida do profeta Maomé, o fundador do islamismo. Esta primeira parte, focada na infância do protagonista, foi dirigida por Majid Majidi e tem uma equipe e tanto: seu diretor de fotografia foi o legendário Vittorio Storaro (vencedor do Oscar por Apocalypse Now) e, na trilha sonora, um dos compositores asiáticos mais bem sucedidos da história, o indiano A. R. Rahman.

Reportadamente, Rahman trabalhou por 18 meses na trilha, num processo de gravação verdadeiramente colossal, envolvendo mais de 200 músicos em sessões na Índia, Irã, França, Egito e Alemanha (para a porção orquestral). Infelizmente, porém, o longa atraiu diversas críticas em países muçulmanos (historicamente avessos à representações do profeta), e tanto Majidi quanto Rahman receberam uma fatwa (espécie de pronunciamento legal emitido por autoridades religiosas do Islã).

Rahman, ele próprio um muçulmano (da corrente conhecida como sufismo), teve um envolvimento pessoal com o longa, e os resultados podem ser ouvidos em sua música. Sua trilha é praticamente uma irmã do score de John Debney para A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004) pela maneira com que mistura música envolvente e emocional para a orquestra, grandiosos coros religiosos e um sem número de instrumentos locais, dando um sabor exótico ao score. Se você conhece Rahman apenas por seu premiado trabalho “bollywoodiano” para Quem Quer Ser um Milionário (Slumdog Millionaire, 2008), talvez possa acabar se surpreendendo com a música aqui, mas o fato é que o músico indiano já se aventurou neste território algumas vezes – veja, por exemplo, seu épico trabalho para Elizabeth: A Era de Ouro (Elizabeth: The Golden Age, 2007), composto em parceria com Craig Armstrong.

O disco começa com Prologue – The Infinite Light, um ótimo cue que traz crescendos de orquestra e vozes sussurrantes, culminando numa grandiosa passagem com coro masculino. Já a dupla The Birth e And He Was Named Muhammad mistura uma bela vocalização feminina com cordas e sopros ligeiramente melancólicos, com a segunda se encerrando de forma celebratória e reverencial. Faixas como A Mother’s Advice to Her Son e Protecting the Innocent seguem trazendo variações de melodias para orquestra e vozes femininas de estilo religioso e reverente.

Por outro lado, em Ababeel, Signs of the Last Prophet e The Search Rahman faz bom uso do enorme número de músicos que teve à sua disposição para criar faixas de ação grandiosas. A forma como ele usa a orquestra e o coro aqui lembram um pouco o estilo que Hans Zimmer costumava empregar quando compunha para épicos, como O Príncipe do Egito (The Prince of Egypt, 1998), Gladiador (Gladiator, 2000), Rei Arthur (King Arthur, 2004) ou Piratas do Caribe, por exemplo. Além disso, Rahman mantém a fidelidade geográfica de sua música e, assim, faixas como Through the Sands e The Land of Friendship são particularmente evocativas. Para isso, o compositor contou com uma enorme quantidade de instrumentistas de todo o globo, em especial do Le Trio Joubran, três irmãos palestinos tocadores de oud (espécie de alaúde do Oriente Médio). Aparentemente, a importância do trio foi tamanha que eles foram creditados não apenas na capa do álbum lançado pela Sony Music India, como também ganharam duas faixas no disco, a sétima e a décima terceira.

Em The Camel’s Divine Intervention, o talento dos irmãos é combinado com as orquestrações grandiosas de Rahman resulta numa faixa enérgica particularmente interessante. Já The Last Hajj of Abdul Mutallib combina influências ocidentais e orientais, com a típica música orquestral religiosa se juntando a vocalizações exóticas. A faixa seguinte, The Sea Miracle serve como clímax do disco, como uma poderosa escrita para um coro presumivelmente enorme, entoando cânticos religiosos junto à orquestra. The Sermon, na sequência, traz de volta as vocalizações mais etéreas do início da trilha, mas agora de forma mais decidida e grandiosa, quase lembrando partes do score de James Horner para Avatar (idem, 2009), enquanto Ya Muhammad, encerrando o disco, é uma canção que tem em seu DNA a sensibilidade Rahman como compositor de Bollywood – se você gostou do que ouviu em Quem Quer Ser um Milionário certamente também apreciará este cue também.

Em termos musicais, Muhammad: The Messenger from God é um retorno quase nostálgico ao estilo utilizado para se musicar épicos antigos que estava em voga há cerca de quinze anos – além dos trabalhos citados nos parágrafos acima, também podemos encontrar parentescos com scores como Cruzada (Kingdom of Heaven, 2005), de Harry Gregson-Williams, Jesus: A História do Nascimento (The Nativity Story, 2006), de Mychael Danna, e Tróia (Troy, 2004), tanto partitura a rejeitada de Gabriel Yared como a oficial, de James Horner. Rahman soube combinar com talento e sensibilidade a grandiosidade da orquestra e do coro com o talento de músicos e instrumentistas típicos, resultando num trabalho altamente evocativo, e que vale a pena ser descoberto.

peter_wendy_CDPeter and Wendy – Maurizio Malagnini

O mais recente filme baseado na obra e nos personagens criados por J.M. Barrie é Peter and Wendy, um longa produzido para a televisão britânica, exibido no último Natal no Reino Unido. Nesta nova releitura mais atualizada, o filme conta a história de Lucy, uma jovem garotinha prestes a passar por uma cirurgia no coração no famoso hospital para crianças londrino Great Ormond Street Hospital. Para prepará-la para a operação, a mãe da menina lê para ela a história de Peter Pan e os Garotos Perdidos, e ela se imagina no papel da heroína Wendy. No elenco, veteranos como Stanley Tucci e a cantora Paloma Faith interpretam personagens consagrados como o Capitão Gancho e Sininho, sob a direção de Diarmuid Lawrence. Compondo a trilha sonora, está o italiano Maurizio Magnini, de 38 anos, que causou sensação com este trabalho – o crítico Jonathan Broxton, do site Movie Music UK, a considerou como uma das melhores trilhas sonoras de 2015.

Não que tenha sido sem motivo, porém: o trabalho de Magnini é completamente orquestral e estruturado ao longo de um belo conjunto de temas para ajudar a contar a história, além de oferecer aventura e emoção em doses enormes. Para começar, o compositor fez o correto (ou, ao menos, o que deveria ser o correto) para filmes de fantasia e entregou temas para os personagens principais da história: um para Peter e a Terra do Nunca, outro para o Capitão Gancho, um que representa simultaneamente as personagens Lucy e Wendy (já que a primeira imagina ser a segunda, faria sentido representá-las da mesma forma) e um love theme para Wendy e Peter. O tema da Terra do Nunca responde pelos momentos mais aventureiros do score. Literalmente a primeira coisa que ouvimos no disco da Silva Screen, ele consiste numa grandiosa fanfarra para a toda a orquestra, destacando o senso de aventura, emoção e inocência da história de Peter. Por outro lado, o tema de Lucy/Wendy é uma melodia profundamente tocante e emocional, aludindo à situação difícil da personagem, enquanto o love theme (que, na verdade, foi baseado na segunda parte do tema da Terra do Nunca) é igualmente belo. Já o do Capitão Gancho é uma marcha cômica, pomposa, mas sem perder o autoritarismo ou a vilania do personagem.

O maior destaque, porém, é que Magnini não permite que tais temas fiquem estagnados do início ao fim da trilha. Na verdade, ele sempre encontra formas novas e criativas de apresentá-los, mantendo sua música sempre dinâmica e interessante. É um daqueles raros álbuns onde não encontramos um único momento tedioso, e isto é um testemunho do talento e da criatividade do compositor. O tema da Terra do Nunca, por exemplo, brilha em faixas como a dupla Looking for the Shadow e The Flight to Neverland, com orquestrações grandiosas e a participação de um coro feminino, lembrando o estilo que Danny Elfman costumava empregar nos anos 1980 e 1990, inclusive na escala de dinamismo e excitação.

Já o tema do Capitão Gancho é introduzido, obviamente, em Captain Hook, sendo ouvido tanto como uma marcha malevolente (claramente inspirada pela mãe de todas as marchas malevolentes modernas, a Imperial March), mas também como uma típica música de pirataria, em violão e acordeão. A partir daí, Magnini não deixa o tema se estagnar e, ao invés disso, o apresenta sempre de uma forma distinta: em Keep Your Eyes Open ele é interpretado num ritmo mais marcial e autoritário, enquanto, ao fim de The Lost Boys, ele aparece em meio a melodias de ação. Em The Execution, ele aparece de forma desconstruída, acompanhado de percussão e baixos ameaçadores, quase lembrando o tema de Jack Sparrow que Hans Zimmer escreveu para Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead’s Man Chest, 2006). Sua aparição de maior destaque, porém, é em The First Fight, no qual ele reaparece como uma clássica e elegante dança, remetendo aos aristocráticos duelos de espadas travados pela nobreza europeia.

Entretanto, apesar de toda a aventura e excitação gerada por tais temas, o que verdadeiramente me cativou no score de Peter and Wendy foi seu conteúdo emocional, representado tanto pelo tema de Wendy/Lucy, quanto pelo love theme. O primeiro é introduzido de forma mais urgente em Great Ormond Street Hospital, enquanto o segundo aparece pela primeira vez na faixa seguinte, The Hospital Museum, em violinos apaixonados. Em Lucy’s Dream o tema da garota é interpretado de forma atmosférica em piano, com acompanhamento de cordas e fundo eletrônico, quase adentrando no estilo de Thomas Newman, mas sem perder sua beleza.  Mais adiante, belíssimas performances do tema de Lucy e do tema de amor juntos nas faixas Lucy is Alive, Bedtime for the Children e What If Something Goes Wrong, em cordas, harpa, piano e madeiras, são particularmente emocionantes. Em The Kite, o love theme é retrabalhado e ganha o acompanhamento de um bonito e nostálgico piano, junto à cordas e coro, finalizando de forma grandiosa.

Ao fim do disco, Tinkerbell Drinks the Poison e I Believe in Fairies traz performances trágicas do tema de amor, seguidas por uma interpretação triunfal do tema da Terra do Nunca, para representar a famosa cena do livro de Barrie, em que as crianças declaram que acreditam em fadas, ressuscitando Sininho. Tudo isso, porém, prepara o terreno para o clímax, que ocorre em Back to the Ship, The Final Fight e The Death of Captain Hook. A primeira traz performances tensas do tema do vilão, enquanto a segunda promove um embate musical entre seu motivo e o tema de Peter Pan, em meio a melodias de ação. Por fim, a última, ao invés de celebrar a morte do vilão, interpreta seu tema de forma inesperadamente trágica e nobre, revelando mais uma vez a capacidade da trilha de surpreender.

Peter’s Farewell e Leaving the Hospital encerram o score, e não economizam na emoção, trazendo as performances mais emocionantes do tema de Wendy/Lucy e do love theme, com a segunda culminando em outra triunfal apresentação da fanfarra da Terra do Nunca. Em seguida, Peter and Wendy é uma canção interpretada por Phoebe Fildes, que traz de volta o motivo para piano da faixa The Kite e acrescenta letras ao tema de amor. Trata-se de uma bela música, porém, e um ótimo encerramento para a trilha.

Uma trilha como Peter and Wendy é muito fácil de se gostar, mesmo para ouvintes casuais de trilhas sonoras: grandiosa, romântica, divertida, emocionante, mas também intelectualmente estimulante, através do uso inteligente e dinâmico de seus temas. Talvez Maurizio Magnini (vencedor na categoria Compositor Revelação do Ano na última edição dos IFMCA Awards*) não tenha sido avisado que trilhas como essa são animais cada vez mais em extinção, e alvos do ódio dos críticos que detestam “música manipuladora e violinos tristes que te obrigam a chorar”. Por outro lado, a julgar pela ótima qualidade deste trabalho, certamente estamos diante do surgimento de um novo talento musical para as trilhas sonoras – e um dos maiores prazeres de se pesquisar trilhas e escrever reviews é justamente poder descobrir ótimos compositores surgindo por todos os lados. Imperdível.

steve-jobs-CDSteve Jobs – Daniel Pemberton

Inicialmente tido como um dos principais concorrentes da última temporada de premiações, o drama Steve Jobs (idem, 2015) teve de se contentar com apenas duas indicações ao Oscar, ambas para seus atores. O longa foi dirigido por Danny Boyle e traz no elenco Michael Fassbender como o icônico fundador da Apple, Kate Winslet como a executiva de marketing Joanna Hoffman, Seth Rogen como o co-fundador da empresa, Steve Wozniak e Jeff Daniels no papel do executivo John Sculley. Assistindo ao filme, pode-se perceber porque ele ficou de fora dos prêmios principais: trata-se de uma obra difícil e complexa que, mais do que ser uma cinebiografia comum de Jobs, encontra o personagem nos momentos que antecedem as grandiosas cerimônias de lançamento de três produtos, o Macintosh, em 1984, o NeXT, em 1988, e o iMac, em 1998. Assim, o filme procura fazer um recorte de seu personagem principal, encapsulando-o nestes momentos e utilizando-os para produzir um retrato de sua persona, e de como ele afetava as pessoas ao seu redor.

Para traduzir em música esta complicada visão, Boyle contou com os serviços de um dos principais nomes em ascensão no mercado hoje, o compositor inglês Daniel Pemberton, que já tinha comprovado sua criatividade em trilhas distintas e interessantes como O Conselheiro do Crime (The Counselor, 2013) e O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., 2015). Pemberton decidiu aproveitar a estrutura em três atos da obra para compor literalmente três scores diferentes. Para o primeiro, o compositor utilizou a época em que a história se passa para escrever sua trilha em sintetizadores analógicos que estavam muito em voga na época, como o Roland SH-1000 e o Yamaha CS-80 – dessa forma, sua música seria coerente com as inovações tecnológicas da época do lançamento do primeiro Macintosh. Já o segundo ato do longa é passado inteiramente no War Memorial Opera House, em San Francisco, e traz uma das frases mais marcantes do roteiro de Aaron Sorkin: “the musicians play their instruments. I play the orchestra” (“os músicos tocam seus instrumentos. Eu toco a orquestra”), que, inclusive, originou os títulos de dois dos cues de Pemberton. Assim, o compositor tira inspiração da natureza operística e megalomaníaca de Jobs para escrever a música do segundo ato quase como uma ópera, com orquestra e coral. Por fim, no terceiro ato Pemberton retorna à música eletrônica, porém aqui utilizada de forma mais introspectiva e discreta. Reportadamente, o músico inclusive utilizou seu próprio iMac para escrever esta seção do longa.

No primeiro ato do filme, é interessante notar a disposição do músico em realmente adequar sua música à tecnologia da época. Assim, faixas do disco lançado pela Back Lot Music, como Change the World e The Skylab Plan são autênticas músicas pop/eletrônicas dos anos 1980 e, se tivessem letras, poderíamos facilmente imaginá-las sendo tocadas por DJs nas baladas da época. It’s an Abstract, por sua vez, é mais discreta, mas sem perder o estilo futurista da música eletrônica da época, enquanto It’s Not Working é mais abrasiva e pesada. Jack it Up, por sua vez, inclui também uma bateria em meio aos sintetizadores analógicos, fazendo com que a faixa soe como uma curiosa mistura entre Kraftwerk e a trilha de Alexandre Desplat para O Grande Hotel Budapeste (The Great Budapest Hotel, 2014). Em Child (Father), porém, Pemberton introduz um dos poucos temas recorrentes da trilha, um motivo de duas notas sintetizado que retrata a complicada relação ao longo dos anos entre Jobs e sua filha Lisa. É um bonito tema, ainda que ligeiramente similar ao tema que Hans Zimmer escreveu para o Superman em O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), filtrado através da sensibilidade minimalista do músico alemão em Interestelar (Interstellar, 2014).

A música do segundo ato inclui verdadeiras óperas, como as duas faixas The Circus of the Machines, ou balés, como Russian Roulette. Ela traz também um cue grandioso, Revenge, que, ao longo de seus mais de nove minutos, é ouvido durante uma das cenas mais marcantes da produção, o virulento e revelador embate verbal entre Jobs e Sculley. Trata-se da faixa mais potente e impactante do disco e, ainda que lembre por vezes a copiadíssima Chevaliers de Sangreal, de O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006), tenho certeza de que é apenas uma coincidência devido ao fato de tanto Zimmer como Pemberton terem tido influências musicais similares ao escrever seus cues.

No terceiro ato, Pemberton permite que sua música dê um passo para trás para examinar a psicologia de Jobs após anos de conflitos com familiares e colegas. Faixas como Life out of Balance e I Wrote Ticket to Ride trazem texturas eletrônicas tristes, sutis, quase monótonas. Destituídas do pop dançante da primeira parte ou das orquestrações grandiosas da segunda, é como se a música de Pemberton retratasse apenas o que havia sobrado do orgulho e do relacionamento de Jobs após todos esses anos. The Nature of People até tenta ensaiar um retorno à opulência de antes, inclusive com uma versão eletrônica da melodia de Revenge, mesmo assim, a faixa não perde um tom ameaçador e atmosférico. Ao fim do longa, em Father (Child), Pemberton traz de volta o motivo do relacionamento entre pai e filha, demonstrando a reconciliação de ambos. Na sequência, Remember desenvolve o tema e finaliza o score de forma mais otimista e esperançosa, com eletrônicos, guitarra, piano e bateria, para a sequência final.

Para quem é mais acostumado a ouvir scores orquestrais, a trilha de Steve Jobs pode não ser a mais indicada. No entanto, é inegável a criatividade de Pemberton, bem como o conhecimento musical necessário para compor três trilhas distintas e ao mesmo tempo manter a coesividade do score como um todo. Pemberton, atualmente um dos mais imaginativos compositores a surgir nos últimos anos, conseguiu refletir a psicologia de um gênio atormentado e de um homem devotado à tecnologia de sua época. Assim, essa trilha é um dos mais interessantes trabalhos de vanguarda de 2015.

PS: Não deixe de conferir também o ótimo trabalho de John Debney para o “outro” filme sobre o fundador da Apple, o drama independente Jobs (idem, 2013), com Ashton Kutcher no papel do empresário. 

*Prêmio anual distribuído pela International Film Music Critics Association (Associação Internacional dos Críticos de Música de Cinema) – ou IFMCA. Para conferir os vencedores deste ano, clique aqui.

Tiago Rangel

Uma opinião sobre “Na Trilha: As Melhores Trilhas de 2015 que você (provavelmente) não Conhece – Parte 2”

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