Resenha de Trilha Sonora: THOR – RAGNAROK – Mark Mothersbaugh


Música composta por Mark Mothersbaugh
Selo: Walt Disney Records
Formato: CD, Digital
Lançamento: 20/10/2017
Cotação:

Thor: Ragnarok é o décimo sétimo filme do onipresente Universo Cinematográfico da Marvel, o terceiro apenas neste ano. Na trama, o Deus do Trovão precisa enfrentar sua poderosa irmã mais velha, Hela (Cate Blanchett) que usurpa para si o trono de Asgard. Para isso, a vilã bane Thor e seu irmão adotivo/rival Loki (Tom Hiddleston) para o longínquo planeta Sakaar, governado pelo bizarro Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Lá, Thor encontra um “colega do trabalho”, o Hulk (Mark Ruffalo) que, desaparecido por dois anos, virou um herói para o povo de Sakaar ao combater na arena de gladiadores do planeta. Agora, Thor precisa convencer Loki, Hulk e Valquíria (Tessa Thompson), uma ex-membra da guarda de elite de Asgard, a escapar do planeta e impedir os planos de Hela. Dirigido pelo aclamado cineasta neo-zelandês Taika Waititi, o filme foi elogiado pela crítica, especialmente por seu senso de humor, aqui ainda mais proeminente do que nos filmes anteriores da Marvel (o que é muita coisa).

É bastante improvável que o compositor Mark Mothersbaugh encabeçasse a lista de muitos fãs de trilhas sonoras de músicos que eles gostariam que trabalhassem num filme do Thor, mas, mesmo assim, foi ele o escolhido pelo diretor Waititi. O sujeito é conhecido no mundo da Música de Cinema por suas colaborações com Wes Anderson (antes de este firmar parceria com Alexandre Desplat) e com a dupla Phil Lord e Chris Miller, mas antes de trabalhar com trilhas sonoras ele foi também o vocalista da influente banda Devo – o que provavelmente foi o fator decisivo para sua contratação. Afinal, o gosto musical de Waititi está profundamente enraizado no pop, no rock e na música eletrônica dos anos 1980, como provam o scores de filmes como seu aclamado Uma Fuga para a Liberdade (The Hunt for the Wilderpeople, 2016). Portanto, a escolha por Mothersbaugh foi natural.

O compositor e seu diretor estavam cientes daquele vídeo viral do canal Every Frame a Painting, que fazia duras críticas à música dos filmes da Marvel Studios.  Assim, ansiosos por entregar uma trilha verdadeiramente memorável e distinta, a dupla resolveu seguir por uma rota totalmente eletrônica, com as primeiras demos do compositor aparentemente trazendo uma forte semelhança com o trabalho de Jean-Michel Jarre (o filho do lendário Maurice Jarre, que chegou a influenciar até mesmo o trabalho do próprio pai no final dos anos 1980). O principal executivo da Marvel Studios, Kevin Feige, até gostou das demos, mas também exigiu que a trilha não se afastasse muito do estilo do estúdio, motivo pelo qual ela também traz uma enorme orquestra e coral.

Assim, temos um score verdadeiramente misto, combinando as orquestrações grandiosas que já aprendemos a esperar dos filmes de super-herói com sintetizadores dos anos 1980 – e o resultado é particularmente divertido. Talvez por ter tido suas origens na música eletrônica, Mothersbaugh respeita a linguagem e as particularidades de cada estilo musical, de forma que os sintetizadores são utilizados para desempenhar o papel de sintetizadores, co-existindo ao lado da música orquestral. Isso pode parecer óbvio, mas se torna surpreendente quando notamos que, nas trilhas hollywoodianas dos dias atuais, muitos compositores parecem enxergar a música orquestral e a eletrônica como se fossem a mesma coisa, ora utilizando sintetizadores para “engrandecer” a orquestra, ora traduzindo porcamente para os instrumentos acústicos a música originalmente escrita para os eletrônicos.

O disco da trilha inicia com a impressionante Ragnarok Suite, uma ótima faixa que, infelizmente, não foi usada no contexto do longa, nem mesmo nos créditos finais. Trazendo uma escrita orquestral surpreendentemente imponente e grandiosa, ela varia entre passagens heroicas, emocionais e enérgicas, numa faixa muito bem desenvolvida que certamente é a melhor do disco. Além disso, ela introduz também o tema principal do herói, ouvido aos 1:08, uma melodia que, apesar de não ser lá muito memorável, também é adequada à proposta da música de remeter aos clássicos oitentistas. É como se tal tema fosse o produto do cruzamento entre o refrão de alguma power ballad dos anos 1980 com um dos temas que Brian Tyler compôs para filmes de super-heróis, incluindo o longa anterior do Deus do Trovão, Thor: O Mundo Sombrio (Thor: The Dark World, 2013), até hoje um dos melhores scores da Marvel.

Na faixa Thor: Ragnarok, que acompanha os créditos de abertura, o tema principal é ouvido num divertido arranjo de rock para guitarra e bateria que não ficaria fora de lugar numa música do Queen, por exemplo. Naturalmente, em faixas de ação como Arena Fight, Sakaar Chase e Devil’s Anus, ele é ouvido em metais heroicos, enquanto, por outro lado, em Running Short of Options e em partes de Twilight of the Gods, ele é ouvido de forma mais tensa, retratando que o personagem está em momentos de perigo. Finalmente, em What Heroes Do e The Revolution Has Begun, o tema do herói aparece em minhas versões favoritas da trilha: em sintetizadores grandiosos, ao mesmo tempo cafonas e empolgantes (mais sobre isso logo abaixo). Consigo facilmente visualizar tais cues sendo ouvidos em algum jogo arcade de luta dos anos 1980.

A vilã Hela também ganha seu próprio tema, apesar de, infelizmente, não ser nada lá muito memorável. Introduzido aos 4:05 de Twilight of the Gods, trata-se de uma fanfarra simples, de apenas quatro notas, que anuncia a malevolência da personagem. No disco, ela tem participações proeminentes em faixas como Hela vs. Asgard, The Vault, Where’s the Sword? e Flashback, seja em metais grandiosos, seja numa voz feminina perigosa e sensual. Curiosamente, os temas de Thor e Hela compartilham as duas notas iniciais – seria algum comentário de Mothersbaugh ao fato de que ambos são filhos de Odin e, portanto, mais similares do que aparentam? Talvez Hela represente o que Thor se tornaria se não tivesse aprendido com o pai a ser mais responsável para com aqueles que defende, e não tão focado no poder como sua irmã. Enfim, tal dualidade entre os personagens não é lá um tema muito explorado pelo longa, portanto a decisão de retratá-la representa um raciocínio curioso por parte do compositor.

Além disso, a resposta do compositor à tese do vídeo do Every Frame a Painting de que a música da Marvel não é memorável é particularmente divertida: citar temas e motivos dos scores de seus colegas para o estúdio. Em Weird Things Happen, Mothersbaugh recria a orquestração de Michael Giacchino para Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016), com cravo e cítara, ainda que não cite diretamente o tema do Feiticeiro Supremo interpretado por Benedict Cumberbatch. Mais adiante no longa, o love theme de Bruce Banner e a Viúva Negra (Scarlett Johansson) em Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, 2015), composto por Brian Tyler, faz uma divertida aparição, conforme Thor tenta utilizar a mesma tática da espiã a fim de acalmar seu furioso colega esverdeado. No início do filme, também é possível ouvir um coral infantil interpretando o tema Lokasenna de Tyler para O Mundo Sombrio, numa cena onde atores asgardianos encenam uma versão particularmente bizarra dos eventos do filme anterior.

Finalmente, na conclusiva Where To?, há um belo retorno do hoje infelizmente esquecido tema de Patrick Doyle para Thor (idem, 2011), aqui misturado ao seu próprio tema para o herói. A aparição do tema de Doyle aqui é particularmente inteligente por dar um senso de conclusão e finalidade ao arco do personagem, iniciado lá atrás no filme de Kenneth Branagh. Afinal, Thor passou de um guerreiro arrogante a super-herói e um verdadeiro líder de seu povo, tornando-se o rei digno que seu pai gostaria que ele fosse, e isso é bem ilustrado ao remeter à música do primeiro longa do herói.

Como já seria de se esperar, a trilha de Ragnarok oferece o básico de um score da Marvel: faixas de ação bombásticas e grandiosas, com a participação de toda a orquestra e o coral. Neste sentido, Mothersbaugh surpreende: apesar de já ter composto música mais enérgica para filmes como Uma Aventura Lego (The Lego Movie, 2014), Lego Ninjago: O Filme (The Lego Ninjago Movie, 2017), Anjos da Lei (21 Jump Street, 2012) e sua continuação, este terceiro Thor é a maior oportunidade que o sujeito teve num blockbuster de ação e aventura. Assim, faixas como os minutos finais de Twilight of the Gods, Hela vs Asgard, Arena Fight e Asgard is a People são enérgicas, coloridas e bem interpretadas pela orquestra.

Mesmo assim, o que mais me atraiu na trilha não foi exatamente isso (que, afinal, é o mínimo que se poderia esperar de um filme da Marvel), pois Mothersbaugh oferece diversos momentos de criatividade e inovação que dificilmente veríamos num longa de super-heróis. A primeira parte de Twilight of the Gods reconhece as lendas da mitologia nórdica que inspiraram a criação do herói da Marvel através de uma bela melodia que inclui cordas, um hardanger (espécie de violino norueguês, utilizado por Howard Shore para o tema de Rohan em suas trilhas para a Terra Média) e uma nyckelharpa (instrumento de cordas sueco). Evocativa de um glorioso passado viking, trata-se do tipo de faixa que eu esperaria ouvir em algum épico histórico, não num longa da Marvel.

Para representar o planeta Sakaar, Mothersbaugh trouxe consigo todo o seu conjunto de sintetizadores dos anos 1980 que o diretor Waititi tanto gosta, com resultados divertidos. Faixas como Where Am I? e Grandmaster’s Chambers são puramente eletrônicas, ajudando a estabelecer o tal planeta como ao mesmo tempo exótico e familiar, cafona, porém com uma identidade própria (o que, aliás, era o principal ponto da crítica do vídeo do Every Frame a Painting). Depois, No One Escapes traz sintetizadores, percussão, metais e coral, combinando elementos eletrônicos e acústicos para criar uma atmosfera brutal, porém repleta de expectativa, retratando a tensão antes do confronto entre Thor e Hulk nas arenas do planeta.

Parade, ouvida no filme durante uma espécie de micareta em Sakaar, vai confundir muita gente que vier a esta trilha esperando mais um típico score orquestral épico de super-heróis, mas não deixa de ser uma faixa criativa e adequadamente “alienígena” – talvez o equivalente sakaariano da famosa Cantina Band de Star Wars. Depois, Sakaar Chase é possivelmente minha faixa de ação preferida do disco. Ainda que traga alguns trechos aqui e ali com metais, cordas e percussão, ela é primariamente eletrônica e bastante divertida, combinando a típica música de ação de blockbusters hollywoodianos com alguma canção antiga de rock progressivo. Aliás, o estilo deste cue é seguido na igualmente ótima Planet Sakaar, a suíte dos créditos finais, trazendo uma variação dançante do tema de Thor. Fica aqui a sugestão para que Mothersbaugh lance esta faixa como single, ela provavelmente fará o maior sucesso em diversas baladas “retrô” ao redor do planeta. Finalmente, a bonus track Grandmaster Jam Session encerra o disco com uma estranhíssima canção synth pop com vocais alienígenas ininteligíveis – se este for seu estilo musical preferido, você estará bem servido aqui.

Ao longo de nove anos e dezessete filmes, a Marvel se tornou um estúdio bilionário e disposto a corrigir os erros apontados pela crítica. No caso da parte musical, é perceptível o esforço da Casa das Ideias em se afastar da pecha de “trilhas genéricas” e trazer a cada longa um estilo musical distinto e apropriado a cada herói: o estilo cool de filmes de assalto em Homem Formiga (Ant-Man, 2015), o misticismo oriental de Doutor Estranho, os tons leves e joviais em Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017), os dois volumes do Awesome Mix na franquia dos Guardiões da Galáxia e agora o pop eletrônico oitentista em Thor: Ragnarok. Tudo isso coexistindo lado a lado com a música orquestral tradicional típica dos blockbusters da casa. Assim, o trabalho de Mothersbaugh aqui pode não ser o que a maioria dos fãs imaginaria para um filme do Thor, mas ainda é perfeitamente adequado à visão de seu diretor para o longa. Afinal, uma trilha de super-heróis executada do início ao fim por sintetizadores dos anos 1980 não começa a parecer algo tão assustador assim, hein?

Faixas:

1. Ragnarok Suite  8:53
2. Running Short on Options  2:46
3. Thor: Ragnarok  1:09
4. Weird Things Happen  1:46
5. Twilight of the Gods  6:14
6. Hela vs. Asgard  4:30
7. Where am I?  1:39
8. Grandmaster’s Chambers  1:18
9. The Vault  3:47
10. No One Escapes  3:01
11. Arena Fight  3:32
12. Where’s the Sword?  4:33
13. Go  1:43
14. What Heroes Do  1:37
15. Flashback  2:59
16. Parade  2:20
17. The Revolution Has Begun  1:47
18. Sakaar Chase  2:12
19. Devil’s Anus  4:52
20. Asgard Is a People  4:21
21. Where To?  2:22
22. Planet Sakaar  2:14
23. Grandmaster Jam Session  3:17

Duração: 72:52

Tiago Rangel

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5 comentários sobre “Resenha de Trilha Sonora: THOR – RAGNAROK – Mark Mothersbaugh

  1. Tiago, qual a sua opinião sobre esse bum de comentários do público sobre trilha sonora? Tem horas que fico completamente incomodado, pois claramente o critério de avaliação das pessoas é “se eu ouvi é bom, se eu não ouvi é ruim”, o que foge completamente do papel da música em um filme. Você vê essa popularização do assunto como algo bom? (Estendo minha questão ao Jorge e a quem quiser opinar. Citei o Tiago, pois foi o autor da crítica)

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    1. Não sou o Tiago, e nem pretendo responder por ele, até porque também estou a espera da resposta dele ao comentário (caso ele se disponha a isso, claro). Mas vou responder através das impressões que tenho.

      Sobre a popularidade das trilhas de hoje, acho que é um reflexo do quão fácil é revisitar a música que escutou no filme sem precisar assisti-lo do começo ao fim outra vez ou adquirir uma cópia física da trilha sonora. Nós temos a disposição essas trilhas para download, gratuitamente no Spotify, Youtube ou mesmo com acesso restrito como no Itunes. Há 15, 20, 25 anos não existia nada disso.

      Sobre esses comentários “se ouvi é bom, se não, é ruim” é um reflexo das críticas a`forma como a música tem sido deixada de lado nos filmes atuais. Em muitos deles, elas perderam a função de trazer vida ao filme e agora só servem como papel de parede, são automáticas, não são criativas. Há exceções, claro, mas, os filmes da Marvel foram duramente criticados nos últimos anos por não fazerem um bom uso da música e agora estão tentando consertar o erro com diversidade de estilos e bom uso da orquestra.

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      1. Voltando aqui… ahaha

        Sobre a Marvel: nos últimos anos tivemos trilhas bacanas como a escrita para Captain America, Ant-Man, Homecoming, Ragnarock, Doctor Strange, mas já tivemos trabalhos pouco criativos como o primeiro Vingadores, as trilhas do Henry Jackman e, na minha opinião, do Brian Tyler também. Muitas pessoas elogiam o trabalho dele em Thor e Iron Man, mas o estilo dele é muito copiado do Steve Jablonsky. Eu considero Brian Tyler um Jablonsky com mais recursos e o título de aprendiz de Goldsmith. ahaha Nada me impressiona em nenhum dos dois.

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