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Resenha de Trilha Sonora: GHOSTBUSTERS – ORIGINAL SCORE – Theodore Shapiro


GHOSTBUSTERS_cdMúsica composta por Theodore Shapiro, regida por Mark Graham
Selo: Sony Classical
Formato: CD
Lançamento: 08/07/2016
Cotação: star_4

Quem poderia imaginar que o filme mais polêmico do ano até agora seria o novo Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016)? O longa, uma comédia de ação que funciona como reboot do clássico de 1984, tornou-se alvo de uma virulenta e misógina campanha, que incluiu votações negativas em massa no YouTube e ataques pessoais contra o diretor e o elenco no Twitter, apenas pelo fato de que a nova aventura seria estrelada por mulheres, ao invés do quarteto masculino do original – sim, infelizmente, esse é o mundo em que vivemos. Porém, após meses de batalhas sangrentas travadas nos quatro cantos da internet entre os apoiadores e haters, o filme enfim chegou aos cinemas, inclusive no Brasil.

Ele traz algumas das maiores comediantes da atualidade nos EUA (Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones) no papel de pesquisadoras desacreditadas que assumem para si a tarefa de livrar Nova York das várias forças paranormais malignas que assombram os moradores da cidade. O diretor Paul Feig, bem sucedido diretor de filmes como Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) e A Espiã que Sabia De Menos (Spy, 2015), comanda o longa e, junto a ele, está o compositor Theodore Shapiro, com quem colaborou em seu filme anterior.

Como muitos dos filmes mais bem sucedidos dos anos 1980, Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 1984) é mais lembrado musicalmente por uma canção pop, no caso, a absurdamente famosa Ghostbusters, de Ray Parker Jr. (sou capaz de apostar que você está ouvindo ela em sua mente nesse exato instante, enquanto lê estas linhas). O que pouca gente se lembra, porém, é que o longa teve de fato um score, escrito por um dos maiores compositores da história, Elmer Bernstein. O compositor de trilhas do calibre de Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, 1960) e O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962), entretanto, passava na época por um dos períodos mais fracos de sua carreira, trabalhando especialmente em comédias que não lhe davam muita inspiração. Assim, apesar de sua trilha para Os Caça-Fantasmas de fato ter permitido a ele a oportunidade de usar seu instrumento preferido na época, o Ondes Martenot, para representar as diversas assombrações do longa, Bernstein foi obrigado a ver uma grande parte de sua música (incluindo seu tema para os Caça-Fantasmas) ser substituída por canções no longa. Por outro lado, seu score ao menos teve a oportunidade de ter sido lançado num álbum separado, o que ocorreu apenas em 2006, 22 anos após a estreia do filme, graças à Varèse Sarabande. Já Randy Edelman, compositor da trilha da continuação, nem ao menos essa sorte teve: seu score pode ser encontrado apenas em versões bootleg na internet.

Por outro lado, se a Música de Cinema de hoje em dia tem uma vantagem em relação à dos anos 1980, é que ao menos (quase) todos os scores recebem seus álbuns próprios, não importando se o foco musical do longa está nas canções. É o caso da trilha de Shapiro, lançada pela Sony Classical em conjunto com um álbum de canções, este a cargo da RCA Records. O sujeito pode não ter o status icônico que Bernstein possuía na época do primeiro Caça-Fantasmas, mas ainda é um compositor talentoso, que tem amealhado novos fãs e o respeito da crítica nos últimos anos. Sua carreira é composta principalmente por trabalhos em diversos tipos de comédias, que variam de “dramédias” como A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secret Life of Walter Mitty, 2013), até besteiróis como Com a Bola Toda (Dodgeball, 2004), passando pela animação Piratas Pirados! (The Pirates! Band of Misfits, 2012) e comédias românticas como o sucesso O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006).

Eu costumo apreciar bastante trilhas para comédias de ação por serem, muitas vezes, mais dinâmicas e divertidas do que scores para longas que se levam mais a sério. E Shapiro vem se tornando particularmente muito bom nesse tipo de trilha, especialmente aquelas que se dedicam a parodiar um estilo específico de score. Em Trovão Tropical (Tropic Thunder, 2008), por exemplo, sua trilha funcionava como uma ótima paródia das partituras dramáticas e hiper-masculinas de compositores como Mark Mancina, Trevor Rabin e o próprio Hans Zimmer para os filmes de ação de Jerry Bruckheimer dos anos 1990 e 2000. Já o seu popular trabalho em A Espiã que Sabia de Menos era uma referência às trilhas de John Barry e David Arnold, para James Bond, principal alvo das piadas do longa.

O novo Caça-Fantasmas, por sua vez, com suas ameaças paranormais e elementos de fantasia, forneceu uma oportunidade única a Shapiro para escrever uma trilha mais grandiosa. Apesar do longa ser, tecnicamente, uma comédia, o compositor o levou muito a sério e escreveu um score com elementos de terror, aventura e fantasia que não deve em nada à música escrita para muitos filmes desses gêneros. Tudo o que você poderia imaginar para uma trilha do tipo está aqui: uma orquestra e coral em tamanhos apropriadamente gigantes, além de um órgão real que, presente na First Congregational Church of Los Angeles, foi tocado pelo músico Christoph Bull. Assim, o resultado é um score de raízes quase góticas, com ação, horror e coros grandiosos que se tornaram símbolo de criaturas do além desde que Jerry Goldsmith escreveu a trilha de A Profecia (The Omen, 1976) e suas continuações.

Mesmo assim, pastiche ou não, o fato é que tudo foi feito com muita inteligência por parte do compositor, principalmente, na parte temática. As Caça-Fantasmas, por exemplo, possuem dois temas próprios. O primeiro é uma heroica fanfarra para metais, introduzido sutilmente em Never Invited e de forma mais grandiosa ao final da faixa seguinte Distinct Human Form. Ouvido sempre que as protagonistas realizam algo particularmente heroico, tal fanfarra me lembrou um pouco do tema de Henry Jackman para X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). O segundo é basicamente um arranjo orquestral de um dos trechos da canção de Ray Parker Jr. para o longa original, talvez utilizado para reavivar a nostalgia do público. Seja como for, a utilização de ambos os temas para acompanhar os feitos das heroínas, especialmente em faixas de ação, é particularmente excelente. Os vilões, por sua vez, ganham motivos relativamente simples, introduzidos na faixa inicial, The Aldridge Mansion. O primeiro é um tema de quatro notas, ouvido na orquestra e no órgão, representando os fantasmas, enquanto o principal vilão do longa, o ocultista Rowan North (Neil Casey), é representado por instrumentos de percussão metálica.

A primeira parte do disco utiliza esses elementos temáticos como base para a música. Assim como em típicas trilhas de terror, temos tanto cues mais tensos e sombrios, que estabelecem a ameaça sobrenatural, como também verdadeiras explosões de horror, com orquestra e coro. Dos primeiros, além da citada The Aldridge Mansion, há também as sinistras The Universe Shall Bend e Pester the Living, que se utilizam dos motivos de Rowan e de uma versão mais agressiva do tema dos fantasmas, e a típica “música de investigação” em Ley Lines, que conclui com uma performance da canção de Parker Jr.

Já do segundo caso, a trilha de Shapiro possui elementos góticos o suficiente para fã nenhum de scores de horror botar defeito. A curta The Garrett Attack já dá uma mostra de como será o disco, com cânticos para o coro, trompetes dissonantes e muita percussão. Mais adiante, a agressiva Subway Ghost Attack traz os motivos relacionados a Rowan e às assombrações do além em meio ao caos orquestral, enquanto o tema das Caça-Fantasmas tenta se sobressair, representando o esforço das heroínas no confronto com a criatura. Já Mannequins não faria feio numa típica trilha para filmes de horror, trazendo violinos aterrorizantes, metais e, claro, o coral malevolente. Por outro lado, faixas como Ghost Girl e o início de I Will Lead Them All trazem um bem vindo respiro, com cordas, piano e texturas eletrônicas melancólicas que representam a longa relação de amizade entre as personagens de Wiig e McCarthy.

O principal destaque da trilha, porém, está no enorme e massivo clímax que, começando em The Power of Patty Compels You, traz vinte minutos de pura ação. Tal faixa funciona como uma divertida paródia de Krzysztof Penderecki e O Exorcista (The Exorcist, 1973). Logo em seguida, The Fourth Cataclysm é tão apocalíptica quanto seu título sugere, embora traga também uma ótima e heroica performance do tema das Caça-Fantasmas e, em cerca de 2:12, uma rápida aparição de um Ondes Martenot, funcionando como uma breve homenagem de Shapiro ao score de Bernstein para o primeiro longa. Balloon Parade e Battle of Times Square continuam o conflito, com o compositor levando seu gigantesco elenco musical ao limite. Ao final deste último cue, porém, há um ótimo e heroico arranjo para orquestra, coro, bateria e guitarra da canção de Parker Jr.

Entering the Mercado serve como um breve interlúdio, antes da ação voltar com força total, no fim da faixa. Behemoth é ainda melhor, com a orquestra a toda potência e um coro profano que não deve nada em poder ao ouvido nos mais memoráveis scores de horror dos últimos anos, como A Casa da Colina (The House on the Haunted Hill, 1999), de Don Davis, Arraste-Me Para o Inferno (Drag Me To Hell, 2009), de Christopher Young e, mais recentemente, A Morte do Demônio (Evil Dead, 2013), de Roque Baños. Por fim, Into the Portal encerra o clímax com orquestrações épicas, que me lembraram um pouco de Davis e sua trilha para Matrix Revolutions (idem, 2003) – o que nunca é uma coisa ruim. A faixa se encerra com a fanfarra das Caça-Fantasmas, indicando o final feliz e seu triunfo sobre o mal. O mesmo tema volta na curta NY Heart GB, um bom, ainda que breve, encerramento para o disco.

Independentemente de sua opinião sobre o longa (e a internet parece ter apenas opiniões fortes sobre ele, para um lado e para o outro), a trilha de Shapiro é, surpreendentemente, uma das melhores da atual temporada. O compositor, mais uma vez, prova que é um dos melhores na atualidade na arte de musicar comédias, um campo fértil para trilhas expansivas e coloridas se você ignorar o humor e ressaltar apenas a “seriedade” da situação (ideia popularizada justamente pelo próprio Bernstein, nos anos 1980). Pastiche ou não, dificilmente encontraremos outro score para algum blockbuster hollywoodiano com a grandiosidade da música do sujeito para o quarteto de caçadoras de fantasmas.

Faixas:

1. The Aldridge Mansion  2:57
2. The Garrett Attack  1:29
3. Never Invited  1:23
4. Distinct Human Form  2:26
5. The Universe Shall Bend  2:22
6. Subway Ghost Attack  3:21
7. Ghost Girl  0:59
8. Mannequins  2:12
9. Ghost In a Box  0:50
10. Dr. Heiss  3:21
11. Ley Lines  3:47
12. Pester The Living  2:48
13. I Will Lead Them All  2:16
14. The Power of Patty Compels You  2:16
15. The Fourth Cataclysm  3:32
16. Balloon Parade  1:58
17. Battle of Times Square  3:20
18. Entering The Mercado  2:31
19. Behemoth  3:43
20. Into The Portal  3:07
21. NY Heart GB  0:49

Duração: 51:27

Tiago Rangel

3 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: GHOSTBUSTERS – ORIGINAL SCORE – Theodore Shapiro”

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