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Resenha de Trilha Sonora: SAUSAGE PARTY – Christopher Lennertz, Alan Menken


sausage-party-cdMúsica composta por Christopher Lennertz e Alan Menken
Selo
: Madison Gate Records / Sony Classical
Formato
: CD
Lançamento: 05/08/2016
Cotação: star_4

Você pode gostar ou não das comédias repletas de palavrões saídas da trupe composta por Seth Rogen, Evan Goldberg, James Franco, Danny McBride e outros, mas uma coisa é inegável: elas costumam inspirar trilhas de ótima qualidade. Os dois longas anteriores de Rogen e Goldberg como diretores, É o Fim (This is the End, 2013) e A Entrevista (The Interview, 2014), inspiraram o compositor Henry Jackman a escrever alguns dos melhores e mais divertidos scores de sua carreira. Para a nova loucura da dupla, a animação Festa da Salsicha (Sausage Party, 2016), foram convocados o especialista em trilhas de comédias Christopher Lennertz, e uma lenda da música para desenhos animados: o hiper-oscarizado Alan Menken, em seu primeiro filme para maiores de 18 anos (é sério).

Dirigido por Conrad Vernon e Greg Tiernan, e escrito por Rogen e Goldberg, o filme é uma paródia adulta, com piadas sexuais e palavrões, das típicas animações familiares de produtoras como a Disney e a Pixar (o que torna a escolha de Menken, responsável por algumas das mais marcantes trilhas da Casa do Mickey na década de 1990, ultrajantemente engraçada). A trama conta a história de um grupo de alimentos de supermercado, como a salsicha Frank e a bisnaga Brenda, que acreditam que os humanos que lá fazem compras são deuses que os levarão a algum tipo de paraíso. No entanto, quando os heróis finalmente chegam em uma casa humana, descobrem a terrível verdade de que não passam de alimentos, e deverão lutar para sobreviver. Apesar da sátira religiosa e das situações bizarras e perturbadoras, o longa foi um sucesso de público e crítica.

Depois de seu enorme sucesso com animações como A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989), A Bela e a Fera (The Beauty and the Beast, 1991), Aladdin (idem, 1992) e Pocahontas (idem, 1995), Menken vinha compondo trilhas apenas esporadicamente. O compositor trabalhou em apenas cinco filmes, este incluso, nos últimos dez anos, além de escrever canções para séries de TV como The Neighbors e Galavant. Aparentemente, sua maior contribuição aqui foi a melodia da canção The Great Beyond, por si própria uma paródia das músicas que costumavam abrir as animações da Disney em que Menken trabalhou. Porém, a letra satírica e repleta de palavrões, cortesia de Rogen, Goldberg, do antigo colaborador de Menken, Glenn Slater, e dos roteiristas Ariel Shaffir e Kyle Hunter, escandalizaria qualquer pai que estivesse procurando uma nova versão de Belle.

Já Lennertz, com quem Menken já havia colaborado na trilha de Galavant, ficou responsável pela maior parte do score. O sujeito, apesar de seu talento já reconhecido pelos críticos por seu trabalho em videogames e na televisão, passou boa parte de sua carreira no cinema compondo para filmes de qualidade duvidosa como Os Espartalhões (Meet the Spartans, 2008), Os Vampiros que se Mordam (Vampires Suck!, 2010), Quero Matar Meu Chefe (Horrible Bosses, 2011) e sua sequência. Isso, porém, talvez mude a partir de sua divertida e elogiada trilha para Festa da Salsicha.

Conforme discuti algumas vezes, comédias costumam ser um fértil terreno para trilhas mais expansivas e enérgicas do que as de longas mais sérios. Afinal, um compositor que decide passar direto pela comédia e ressaltar o “drama” da situação (é engraçado para a audiência, mas duvido que os personagens estejam rindo tanto) a torna ainda mais hilária e exagerada. Assim, a trilha da eclética dupla de compositores (gravada em Londres, com orquestra completa e coral, regidos por Lennertz) possui uma energia e um senso de aventura que fariam inveja em scores de longas mais “sérios”.

A melodia da canção The Great Beyond é inteligentemente utilizada por Lennertz ao longo do score, agindo como um tema principal para as comidas que protagonizam o filme, acompanhando sua jornada. Em faixas como Chosen e ao início de Food Massacre, ele aparece em cordas, harpas, pianos e madeiras, demonstrando a inocência quase infantil das comidas ao venerarem os humanos. Já em Magical Sausage, We’re Home e ao final de Big Speech, ele ganha orquestrações melancólicas e calorosas, quase como um tema de amor para os protagonistas Frank e Brenda. Por outro lado, em The Cookbook e I Have Proof, é interessante notar que o trecho da canção onde se diz “dear Gods, you’re so divine in each and every way, to you we pray” é ouvido de forma sinistra e ameaçadora, em harpas e sopros, mostrando o terror da verdade sobre o que realmente são os adorados humanos.

O principal vilão, uma ducha de nome Chuca (ou Douche, no original) cujo sonho é literalmente entrar numa cavidade corporal, também ganha seu próprio tema, para se opor ao dos heróis. Ouvido inicialmente num dramático cello solo em Douche Loses It, ele logo se transforma numa marcha maligna para metais, depois reprisada em cues como The Spooge, I Have Proof e Final Battle.

Uma das piadas recorrentes no filme é o fato do supermercado, onde a história se passa, conter comidas de diversos países e culturas, devidamente satirizadas no longa. Assim, aqui e ali a dupla de compositores insere diversas referências musicais à culturas diferentes. Our Heroes inclui, em pouco mais de dois minutos, flautas e percussão indígenas e instrumentos árabes, incluindo alguns crescendos dignos de Jarre e seu Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962). Já He’s Coming traz alguns violões e trompetes tipicamente mexicanos, para uma cena que introduz outra personagem do longa: Teresa del Taco, uma taco lésbica com um desejo ardente mal disfarçado por Brenda. Ela ganha um belo e romântico motivo para retratar sua paixão impossível, ouvido ao final dessa faixa, e depois em The Spooge e I Have Proof.

Para representar o horror da terrível descoberta do que acontece com comidas congeladas quando elas vão para casa, Lennertz escreveu algumas das melhores e mais divertidas paródias de trilhas de terror do ano, junto com Theodore Shapiro e seu surpreendente Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016). Faixas como Darren, the Dark Lord e The Chosen contém alguns impressionantes momentos de horror, com coro e orquestra. Mas a melhor faixa do tipo é Food Massacre: nela, o compositor combina os ataques de violino típicos de Herrmann e seu Psicose (Psycho, 1960) com os coros góticos em latim de Goldsmith e A Profecia (The Omen, 1976), numa paródia hilária, mas que poderia muito bem pertencer a um típico filme de horror. Segundo o site Movie Music UK, as letras em latim cantadas pelo coro são “calidus canis, miseria infernum, holus frux, fluvius sanguis, caedis cibus, obitus panis, ignis aeternum” cuja tradução para o português é algo como “cachorros-quentes na miséria do inferno, frutas e vegetais num rio de sangue, um massacre de comida, pão morre no fogo eterno”.

A música de ação dos dois compositores é de ótima qualidade, e trazem uma vivacidade que dificilmente encontramos em longas do gênero nos dias de hoje – algo que poderia ter saído de John Powell, Danny Elfman ou mesmo do John Williams ouvido nos anos 1980 e 1990. Embora faixas como The Crash e The Spooge tenham alguns ótimos momentos do tipo, o melhor fica guardado para o imenso (e bizarro) clímax. Juntos, as faixas Big Speech, The Big Fight e Final Battle trazem quase dez minutos de pura ação, com a orquestra e o coro à toda potência – o que apenas reforça o exagero da cena. Além disso, há também o retorno tanto dos temas do vilão Douche quanto do principal, finalmente transformado numa heroica fanfarra para os alimentos amotinados. Por fim, o Finale encerra o score com performances grandiosas do tema principal, além de uma curta referência a David Arnold e seu Stargate: A Chave para o Futuro da Humanidade (Stargate, 1994).

Além do score de Menken e Lennertz, o disco da Madison Gate Records inclui algumas canções de pop e rock, escolhidas a dedo para privilegiar o efeito cômico. Entre elas, alguns clássicos românticos cafonas, como True, do Spandau Ballet, Hungry Eyes, de Eric Carmen, e I’d Do Anything for Love (But I Won’t Do That), de Meat Loaf – no longa, cantada por um verdadeiro “bolo de carne”.

Uma crítica que deve ser feita, porém, é à mixagem da trilha. No filme, ela está mixada num volume bastante reduzido, sempre oculta em meio ao vozeirão dos personagens (em especial, o de Rogen). Isso é particularmente problemático na sequência do “massacre de comida”, em que o coro fica quase indistinguível. Assim, se no disco podemos experimentar todas as sutilezas da trilha, no longa seu impacto acaba reduzido.

Mesmo assim, Festa da Salsicha é um divertido e excitante trabalho de Lennertz e Menken. Trilhas como esta, a citada Caça-Fantasmas e Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets, 2016), de Alexandre Desplat, mostram que a música para comédias, gênero tão subestimado pelos apreciadores de trilhas sonoras, vive um bom momento este ano – e o fato de serem de filmes tão diferentes apenas reforça a sua variedade. Assim, mesmo se o humor pesado, satírico e sarcástico de Festa da Salsicha não for o seu preferido, não deixe essa trilha passar batida!

Faixas:

1. The Great Beyond (Cast)  3:13
2. Chosen: Darren, The Dark Lord  0:55
3. Chosen  1:50
4. I’d Do Anything for Love (But I Won’t Do That) (Meat Loaf)  5:14
5. The Crash  2:34
6. Douche Loses It  2:16
7. Wake Me up Before You Go-Go (Wham!)  3:50
8. Our Heroes  2:31
9. He’s Coming  1:47
10. Food Massacre  3:15
11. Hungry Eyes (Eric Carmen)  3:47
12. True (Spandau Ballet)  5:31
13. The Spooge  3:46
14. Magical Sausage  1:40
15. Gone (JR JR)  3:46
16. We’re Home  3:29
17. The Cookbook  1:26
18. I Have Proof  3:06
19. Big Speech  3:04
20. The Big Fight  2:37
21. Final Battle  4:04
22. It’s Your Thing (The Isley Brothers)  2:46
23. Finale  2:24
24. Joy to the World (Three Dog Night)  3:14
25. The Great Beyond Around The World (Cast)  2:44

Duração: 74:49

Tiago Rangel

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