ben-hur-2016-CDMúsica composta por Marco Beltrami
Selo: Sony Classical
Formato: CD
Lançamento: 05/08/2016
Cotação: star_2_5

Aparentemente incapaz de ter ideias originais novamente, Hollywood tenta sobreviver apelando para o que deu certo antes no Cinema. Isso atingiu um ponto particularmente perturbador em 2016, com a indústria do cinema ressuscitando dos mortos coisas como Independence Day e Os Caça-Fantasmas numa tentativa de recapturar a mágica que estes longas tiveram na ocasião de seus lançamentos. A mais recente “vítima” da atual tendência é Ben-Hur (idem, 2016), uma nova versão do épico romano de tons religiosos. A história de Judah Ben-Hur (interpretado aqui por Jack Huston), que é traído por seu amigo de infância Messala (Toby Kebbel) e deixado para servir como escravo nas galés romanas, antes de retornar para se vingar numa corrida de bigas, tem encantado multidões há mais de 130 anos, quando o livro escrito por General Lew Wallace se tornou o mais vendido do século nos EUA. Em seguida, a obra foi transformada numa gigantesca encenação teatral e, finalmente, transportada ao cinema, num filme mudo de 1925, e na versão mais conhecida, o épico de William Wyler de 1959. Hoje um clássico do cinema, o filme teve altíssimos custos de produção para a época, mas quebrou recordes de bilheteria e ganhou 11 estatuetas do Oscar – um recorde até hoje, empatado com Titanic (idem, 1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003).

Um dos OscarS que o Ben-Hur de 1959 levou foi o de Melhor Trilha Sonora, concedida ao seu compositor, o lendário Miklós Rózsa. Considerada a obra prima da celebrada carreira do músico húngaro, um dos grandes nomes da Era de Ouro do cinema, a trilha de Ben-Hur é uma colossal sinfonia de quase duas horas e meia, e principal representante da música que o compositor escrevia para os épicos bíblicos que faziam tanto sucesso na década de 1950. Contando com uma multiplicidade de temas memoráveis e portentosas fanfarras que agora associamos ao som da Roma Antiga, a obra de Rózsa era grandiosa, mas sem perder de vista a parte mais emocional e dramática que ajudava a tornar a jornada de Judah ainda mais contundente. Não à toa, nas décadas que se seguiram, o score foi analisado e estudado diversas vezes, e deixou uma marca indelével nas gerações seguintes de compositores – basta dizer que a trilha de Rózsa influenciou um certo John Williams (você deve ter ouvido falar dele) a compor para Star Wars. Se, um dia, você desejar conhecer melhor a música e os compositores da Era de Ouro do cinema, Ben-Hur é um excelente ponto de partida.

Cinquenta e sete anos depois, obviamente a Música de Cinema é bastante diferente da ouvida naquela época. Assim, para o novo Ben-Hur, foi convocado o compositor Marco Beltrami. Obviamente, por uma série de motivos, seria injusto exigir que Beltrami escrevesse algo no nível da trilha de Rózsa – afinal, falamos da obra prima da carreira de um dos pais da Música de Cinema! Seja como for, Beltrami, nos últimos tempos, tem sido bem sucedido ao buscar longas de gêneros diversos que, se não são lá exatamente novos clássicos da Sétima Arte, ao menos o permitem explorar novas facetas em sua música, fora do ciclo habitual de thrillers, ação e terror que dominou a maior parte de sua carreira. Tais longas incluem a aventura adolescente O Doador de Memórias (The Giver, 2014), o western Dívida de Honra (The Homesman, 2014), a comédia desbocada Sexo, Drogas e Jingle Bells (The Night Before, 2015), e a fantasia Deuses do Egito (Gods of Egypt, 2016). Todos esses filmes contaram com um trabalho no mínimo interessante de Beltrami, em especial, seu grandioso score para a malfadada aventura egípcia lançada no início do ano. Assim, para Ben-Hur, era de se esperar um trabalho no mínimo competente. Bem… imagino que você tenha visto a nota no início do texto.

Se você ouviu qualquer uma das principais trilhas para épicos históricos do atual século, de Gladiador (Gladiator, 2000) a 300 (idem, 2007), passando por Tróia (Troy, 2004), Cruzada (Kingdom of Heaven, 2005) e por aí vai, já sabe o que esperar da trilha de Beltrami: orquestra, coro, vocalizações femininas dramáticas e instrumentos étnicos do Oriente Médio para dar um tempero “exótico”. Entretanto, além disso, o novo Ben-Hur busca fazer um retrato mais duro e realista da região onde a história se passa; portanto, Beltrami, aparentemente, foi instruído a dar tons mais modernos e eletrônicos à sua trilha. O resultado final parece um cruzamento entre um dos diversos filhos bastardos que a partitura de Hans Zimmer e Lisa Gerrard para a saga do gladiador Maximus ganhou nos últimos anos, com um típico score atual para um thriller de ação (talvez um no Oriente Médio). Ou seja, uma mudança radical da trilha de Rózsa.

A trilha de Beltrami até começa bem. A primeira faixa, Ben-Hur Theme, é uma bela melodia para cordas, violino solo e a voz da soprano Lili Haydn, aos quais depois se juntam a orquestra completa e o coro. Trata-se de um sensível e delicado tema de Beltrami, tão acostumado a scores mais pesados, e lembra alguma coisa que John Debney poderia ter escrito para algum filme religioso, como A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004) ou o recente O Jovem Messias (The Young Messiah, 2016). Tal tema é o centro da trilha, e a torna melhor sempre que aparece. Em Dear Messala, por exemplo, ele aparece numa triste e nostálgica versão na orquestra, com o acompanhamento de instrumentos de cordas, similarmente à música pastoral do compositor para Dívida de Honra. Mais adiante, em Judah Ashore, ele é interpretado de forma dramática e derrotista, sinalizando o momento vivido pelo protagonista, ao passo em que, em Ben and Esther, ele aparece de forma minimalista e melancólica. Por outro lado, em Training o tema do protagonista ganha contornos mais vigorosos e enérgicos, onde recebe o acompanhamento de percussão vibrante e ostinatos de cordas, mostrando a preparação do herói para o embate final com Messala na corrida de bigas.

Infelizmente, as qualidades desta trilha se resumem ao tema principal mesmo. As faixas de ação, por exemplo, não soam como a típica música de Beltrami para o gênero, e muito menos como a de Rózsa para o original. Na verdade, a combinação entre sua orquestra com percussão e eletrônicos não fica muito distante de um dos típicos trabalhos da Remote Control de Zimmer e companhia que temos ouvido nos últimos anos. Faixas como Speaking of Zealots e Brothers Divide combinam sons eletrônicos processados particularmente desagradáveis com os horrendos Horn of Doom (“trompas da perdição”) que se tornaram padrão desde a trilha de A Origem (Inception, 2010). Já Galley Slaves e Rammed Hard são ainda piores: mais de sete minutos de percussão, vozes do Oriente Médio processadas eletronicamente e participações do Horn of Doom. Compare o que ouvimos aqui com a música interessante, envolvente e complicada que Beltrami escreveu para as batalhas de Deuses do Egito, ou mesmo para o clímax de Quarteto Fantástico (Fantastic Four, 2015), e o resultado se torna ainda mais triste.

Curiosamente, a sequência mais icônica do filme de Wyler, a corrida de bigas, não ganhou acompanhamento musical de Rózsa. Beltrami e Bekmambetov, no entanto, decidiram que a sua versão deveria ser musicada, o que não seria nenhum problema, caso a trilha do ítalo-americano mantivesse ao menos a qualidade que aprendemos a esperar dele para esse tipo de cena. De fato, as faixas Chariots of Fire e Brother vs. Brother são as melhores de ação do disco, mesmo que por default. A primeira é a que mais se assemelha à música de Beltrami para o gênero, e traz algumas interessantes performances dramáticas do tema de Ben-Hur em meio à ação constante. Já a segunda conta com uma maior presença de eletrônicos que, misturados a percussão, quase nos faz pensar que estamos ouvindo algo saído da trilha de O Homem de Aço (Man of Steel, 2013).

Além disso, por mais famosa que seja a cena das bigas, Ben-Hur, no fundo, é uma história religiosa sobre fé e perdão. Inicialmente focado em se vingar de Messala, o protagonista é modificado a cada encontro com Jesus Cristo, e termina por se transformar ao testemunhar Seu sacrifício. No entanto, esse aspecto da história fica quase inteiramente ausente da trilha de Beltrami, o que é estranho, considerando que os produtores declaravam que a nova versão se focaria ainda mais no lado religioso do que o longa de Heston, em que Jesus nem mostrava o rosto (aqui, ele é interpretado pelo astro tupiniquim Rodrigo Santoro). O único momento do disco em que a música atinge tons mais religiosos é na (ótima) Forgiveness, uma tocante faixa, com uma bela e majestosa versão do tema principal para coro e orquestra, mas já é tarde demais para salvar a trilha.

No fim das contas, em seus melhores momentos, Ben-Hur traz um lado mais sensível e dramático de Beltrami, o qual eu gostaria de vê-lo explorando adiante em seus trabalhos futuros. Entretanto, o restante do disco é extremamente decepcionante, afinal, mesmo se ignorarmos a trilha do clássico da década de 1950, o fato é que Beltrami é um compositor bastante talentoso, capaz de muito mais. Em 1959, Miklós Rózsa escreveu para o Ben-Hur de Wyler e Heston uma das maiores trilhas sonoras da história do Cinema; já em 2016, o score de Beltrami para esta fracassada releitura não é nem sequer seu melhor trabalho no ano.

Faixas:

1. Ben-Hur Theme  2:52
2. Jerusalem 33 A.D. / Sibling Rivalry  2:23
3. Carrying Judah  1:57
4. Mother’s Favorite  1:21
5. Messala Leaves Home  1:33
6. Dear Messala  1:46
7. Messala Returns  1:33
8. Speaking of Zealots  1:27
9. Messala and Tirzah  1:36
10. Brothers Divide  1:40
11. Home Invasion  4:41
12. Galley Slaves  4:59
13. Rammed Hard  2:18
14. Judah Ashore  2:29
15. Horse Healer  1:26
16. Ben and Esther  1:38
17. Training  3:19
18. Invitation  1:16
19. Ilderim Wagers  2:38
20. Leper Colony / Messala Will Pay  3:04
21. The Circus  2:39
22. Chariots of Fire  4:17
23. Brother vs. Brother  4:26
24. Carried Off  1:22
25. Jesus Arrested  3:10
26. Forgiveness  1:51
27. Modeh Ani Haiku  2:50

Duração: 66:31

Tiago Rangel

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