Resenha de Trilha Sonora: THE JUNGLE BOOK – John Debney


jungle_book_CDMúsica composta por John Debney
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: D002386002
Lançamento: 15/04/2016
Cotação: star_4

Eu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais
Eu digo necessário
Somente o necessário
Por isso é que essa vida eu vivo em paz

A famosíssima canção-tema da animação Mogli – O Menino Lobo (The Jungle Book, 1967) é, seguramente, uma das mais cativantes e queridas da Disney. Originalmente intitulada The Bare Necessities e escrita por Terry Gilkyson (e não pelos irmãos Robert e Richard Sherman, como se costuma pensar, embora estes tenham sido os autores das outras canções do longa), ela vem embalando a infância de crianças em todo o mundo há quase meio século. Uma delas foi o compositor John Debney, embora ele tenha sido um pouco mais próximo de sua concepção do que a maioria das pessoas que cresceram com ela: seu pai, Louis Debney, trabalhou na Disney por mais de 40 anos, desde o clássico Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937) até as séries televisivas da empresa, nos anos 1950 e 1960. Assim, John cresceu praticamente dentro da Casa do Mickey, e inclusive era próximo dos irmãos Sherman, que deixavam o garoto assistir enquanto trabalhavam em suas lendárias composições. Anos depois, o primeiro emprego de Debney após sair da faculdade foi justamente na Disney, escrevendo música para as atrações dos parques de diversão da empresa e, ao longo dos anos, compôs a trilha de diversos filmes, desde as animações A Nova Onda do Imperador (The Emperor’s New Groove, 2000) e O Galinho Chicken Little (Chicken Little, 2005) até as comédias em live action Abracadabra (Hocus Pocus, 1993) e O Diário da Princesa (The Princess Diaries, 2001). Por conta disso, o novo Mogli: O Menino Lobo (The Jungle Book, 2016) é um filme mais pessoal para o músico, devido às suas experiências na infância, e, assim, ele batalhou para conseguir o posto de compositor – tarefa que foi facilitada devido ao fato dele ter colaborado com o diretor Jon Favreau em três ocasiões anteriores.

O filme conta novamente a história do garoto Mogli (o novato Neel Sethi), criado por lobos nas selvas da Índia, e suas aventuras junto á nobre pantera Baguera (Ben Kingsley), o divertido urso Balu (Bill Murray), a sinistra cobra Kaa (Scarlett Johansson) e o ameaçador tigre Shere Khan (Idris Elba), entre outros famosos personagens criados pelo autor Rudyard Kipling, em 1894. Entretanto, enquanto a animação da Disney, até hoje a mais famosa adaptação do livro, era uma comédia musical para crianças, o novo Mogli é uma aventura para toda a família que utiliza tecnologia de ponta para recriar toda a selva onde a história se passa e os animais que a habitam com um realismo impressionante, cujos tons épicos e grandiosos são realçados pela trilha de Debney. O compositor gravou pouco mais de 80 minutos de score, conduzindo uma orquestra de 104 músicos e um coro de 50 vozes no MGM Scoring Stage, em Los Angeles, em sessões que contaram com a participação do diretor Favreau e do compositor original Richard Sherman.

O amor de Debney pela animação original e seu legado se fazem presentes em sua grandiosa música, que trata as composições dos irmãos Sherman e de Gilkyson, bem como do compositor George Bruns (autor do score da animação, e de várias outras da Disney) com respeito e reverência. Além disso, o tom aventureiro e épico do longa forneceu uma bela tela para o compositor, que não desperdiçou a chance e escreveu uma trilha adequadamente grandiosa e emocional – e um de seus melhores trabalhos nos últimos anos.

No centro de seu material original está o tema de Mogli, uma linda melodia introduzida no início de Wolves/Law of the Jungle, em madeiras, harpa e cordas, não muito distante do estilo mais romântico de Jerry Goldsmith em scores como O Curandeiro das Selvas (Medicine Man, 1992).  Esse tema aparece em meio aos momentos mais dramáticos e emocionais da partitura, como nas altamente evocativas Water Truce e The Rains Return. Já na tocante Mowgli’s Leaving/Elephant Theme, o tema do herói aparece em meio a uma dramática melodia para cordas, harpa e um coro feminino sutil, enquanto, no fim da faixa, Debney introduz outro tema, o dos elefantes, tratados como divindades pelos animais da selva. Ele é interpretado em trompas, percussão, violinos e coro e também é repleto de nobreza e dignidade. Enfim, lembra algo que John Barry poderia ter escrito nos anos 1980 ou 1990. Mais adiante, em Honeycomb Climb, o tema de Mogli reaparece de forma mais brincalhona e bem humorada, porém ainda repleta de determinação e um senso de perigo, acompanhando uma façanha do protagonista. Na sequência, The Man Village é um cue mais sentimental e melancólico, em que as flautas se destacam na orquestração do colaborador habitual de Debney, Kevin Kaska.

As faixas de ação na trilha incluem bastante percussão “selvagem” com frases de metais que lembram um pouco o estilo de James Newton Howard em trilhas de ação e aventura. A música progride em intensidade conforme a trilha avança: da frenética Shere Khan Attacks/Stampede, passando pela curta, porém explosiva Monkeys Kidnap Mowgli e a épica Cold Lair Chase, e as intensas e dramáticas The Red Flower e To The River. Tudo isso converge para as enormes Shere Khan’s War Theme e Shere Khan and the Fire, no clímax do longa, que contam com a orquestra a todo vapor, além de cânticos poderosos no coral, rumo a um final potente e dramático.

Além disso, os fãs da animação original ficarão satisfeitos ao ver a música do desenho anterior incorporados de forma sutil, porém inteligente, por Debney em seu score. Nos Main Titles, logo após um arranjo grandioso de When You Wish Upon a Star, de Pinóquio (Pinocchio, 1940), conhecido como a fanfarra oficial da Disney, vem uma citação direta de um cue do score de George Bruns para a animação, uma melodia para flauta baixo e percussão. Em Kaa/Baloo to the Rescue, Debney produz um ameaçador arranjo da canção Trust in Me, cantada pela cobra no desenho sessentista, criando uma atmosfera sinistra e ameaçadora. Mais adiante, em The Red Flower, a melodia da canção retorna com mais intensidade, a cargo de um coral. Em Arrival at King Louie’s Temple, a canção I Wanna Be Like You fica disfarçada em meio a orquestrações de suspense, como a crescente ameaça que o gigantesco gorila representa para Mogli. Porém, na citada Cold Lair Chase, ela se torna parte das melodias de ação do compositor, ouvida junto aos metais e coro enérgicos, enquanto Mogli foge de Louie. Quanto a The Bare Necessities, a canção mais famosa, esta aparece num lindo arranjo para cordas, com acompanhamento de trompas e coro, aos 2:25 de Mowgli and the Pit.

Ao fim do longa, temos mais alguns belíssimos e conclusivos cues, começando pela emocionante Elephant Waterfall, que começa com cordas trágicas que lembram Rue’s Farewell, da trilha de Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), antes de uma majestosa apresentação dos temas de Mogli e dos Elefantes, com orquestrações grandiosas e um coral angelical para emocionar o ouvinte, e o público que for conferir o filme. Em Mowgli Wins the Race, a canção The Bare Necessities ganha orquestrações heroicas, enquanto The Jungle Book Closes finaliza o score com uma tocante performance do tema de Mogli.

Como não poderia deixar de ser, o disco também inclui algumas novas versões das canções da animação original: The Bare Necessities ganha duas performances, uma a cargo de Dr. John & The Nite Trippers, e a outra com as vozes de Bill Murray e Kermit Ruffins; Trust In Me é cantada aqui por Scarlett Johansson; e, finalmente, I Wanna Be Like You ganha uma divertida versão com a voz do ator Christopher Walken. Esta última se destaca por ter tido uma pequena alteração em sua letra, devido ao fato de que o personagem, um orangotango no original, virou um imenso gigantopithecus, um animal real, extinto a mais de 100 mil anos.

A trilha de Mogli: O Menino Lobo oferece uma rara oportunidade a Debney, tantas vezes desperdiçado em filmes estúpidos, de, ao mesmo tempo, homenagear os heróis de sua infância e escrever um dos melhores e mais belos scores de sua carreira recente. Em entrevistas e nas imagens e vídeos divulgados das sessões de gravação, o compositor se mostrava satisfeito e realizado pela grande oportunidade que lhe foi dada, e esta felicidade transparece em sua bela música. Afinal, Balu pode se contentar com “somente o necessário”, porém Debney precisava de um projeto grandioso e de qualidade como esse para que seu talento voltasse a brilhar.

Faixas:

1. The Bare Necessities (03:35) Performed by Dr. John and The Nite Trippers
2. Trust in Me (02:55) Performed by Scarlett Johansson
3. Main Titles (Jungle run) (02:27)
4. Wolves / Law of the Jungle (02:17)
5. Water Truce (03:39)
6. The Rains Return (01:45)
7. Mowgli’s Leaving / Elephant Theme (03:28)
8. Shere Khan Attacks / Stampede (02:06)
9. Kaa / Baloo to the Rescue (05:21)
10. Honeycomb Climb (03:30)
11. The Man Village (02:58)
12. Mowgli and the Pit (03:25)
13. Monkeys Kidnap Mowgli (01:51)
14. Arrival at King Louie’s Temple (04:35)
15. Cold Lair Chase (04:01)
16. The Red Flower (03:16)
17. To the River (03:05)
18. Shere Khan’s War Theme (02:37)
19. Shere Khan and the Fire (04:51)
20. Elephant Waterfall (03:27)
21. Mowgli Wins the Race (00:41)
22. The Jungle Book Closes (02:14)
23. I Wan’na Be Like You (03:02) Performed by Christopher Walken
24. The Bare Necessities (03:01) Performed by Bill Murray & Kermit Ruffins

Duração total: 74:17

Tiago Rangel
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5 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: THE JUNGLE BOOK – John Debney”

  1. Nesses tempos atuais com o monopólio de Hans Zimmer e seus inúmeros clones em todos as grandes produções de Hollywood, é um alívio ouvir uma trilha sinfônica como essa. Nota-se que Debney pegou inspiração nos mestres, pois dá para perceber toques de Goldsmith, Williams e Poledouris. Curioso que o final da faixa “Mowgli’s Leaving / Elephant Theme” se parece bastante com tema criado por Poledouris para o personagem do cavaleiro no filme “Amanda”. Outras faixas lembram o tema do “Star Trek Voyager” do Goldsmith e o tema de Rue do “Hunger Games” de James Newton Howard (algumas músicas de ação também lembram o estilo dele). Enfim, é uma ótima trilha e espero que a carreira de Debney deslanche dessa vez, pois é um desperdício um compositor talentoso como ele ficar relegado fazendo só filmes de comédia.

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