Resenha de Trilha Sonora: NOVO MUNDO (TV) – Sasha Amback


Música composta por Sasha Amback. Música adicional de Rafael Langoni, Marcos Suzano e Carlos Malta
Selo: Som Livre
Formato: CD, Digital
Lançamento: 05/04/2017
Cotação:

Novo Mundo é a atual telenovela da faixa das 18 horas na Rede Globo, em geral reservada para produções de época. A trama se passa em 1817, quando a futura imperatriz Maria Leopoldina de Áustria (Letícia Colin) zarpa da Europa para o Brasil, para se encontrar com seu marido, D. Pedro I (Caio Castro), um sujeito mulherengo e galanteador. A bordo do navio está a professora de português Anna Millman (Isabelle Drummond), que conhece ao longo da viagem o ator Joaquim Martinho (Chay Suede). No entanto, o romance do jovem casal será posto em risco pelas ações do perigoso oficial inglês Thomas Johnson (Gabriel Braga Nunes), que não apenas deseja ter Anna para si, como também será um inimigo político de D. Pedro, e por Elvira (Ingrid Guimarães), uma atriz decadente, que armou para se casar com Joaquim. Escrita por Thereza Falcão e Alessandro Marson, e dirigida por Vinícius Coimbra, a novela tem ido ao ar de segunda a sábado desde a sua estreia, em 22 de março.

Agora, esta é a parte em que você deve estar se perguntando o que uma trilha para uma telenovela está fazendo no ScoreTrack. Afinal, goste ou não das produções da TV aberta brasileira, mas (com raras exceções) as novelas brasileiras não são exatamente conhecidas por seus scores, mas sim pelas canções escolhidas para acompanhar a trama. Mesmo assim, para Novo Mundo, a Globo decidiu não poupar despesas a fim de dar um caráter épico à trama, o que inclui a construção de uma nau real de 25 metros para servir de cenário, e a gravação de uma trilha orquestral para acompanhar.

Tal score ficou sob a responsabilidade de Sasha Amback, um compositor e tecladista carioca, com apoio da música adicional de Rafael Langoni, Marcos Suzano e Carlos Malta, e foi gravada pela Orquestra Filarmônica de Praga. Se você acompanha Música de Cinema, provavelmente já deve ter ouvido algo interpretado pela orquestra tcheca: além da gravação de inúmeras trilhas sonoras para filmes, séries e jogos eletrônicos de diversos cantos do planeta, a orquestra é muito utilizada para regravar clássicos de Barry, Goldsmith, Herrmann, Rósza, entre outros. Assim, ainda que o Brasil possua ótimas orquestras, que poderiam se beneficiar muito de serem utilizadas para trilhas sonoras, a disposição da Globo em usar a City of Prague Philharmonic Orchestra mostra as intenções da emissora em transformar sua nova produção das seis numa experiência hollywoodiana.

Claro, ao longo de quase sete décadas na televisão brasileira, muitas trilhas sonoras marcaram época, como o trabalho do compositor mineiro Marcus Viana em produções como Pantanal, Terra Nostra, O Clone e A Casa das Sete Mulheres. Mais recentemente, Tim Rescala escreveu um score repleto de magia e fantasia, que deixaria Danny Elfman orgulhoso, para a colorida produção das 18h Meu Pedacinho de Chão, enquanto Alexandre Guerra compôs uma trilha épica e romântica para o filme transformado em minissérie global O Tempo e o Vento. Seu trabalho recebeu elogios até de algumas das publicações internacionais especializadas em trilhas de cinema mais famosas do planeta, como o Movie Music UK e o Movie Wave.

Ainda assim, infelizmente não se pode dizer que o cinema e a televisão brasileiros realmente estimulem a produção de trilhas orquestrais e as promovam junto ao público da mesma forma que em Hollywood, o que leva casos como os citados acima a serem as exceções, e não a regra. Aliás, a própria produção das telenovelas, bastante diferente das séries americanas, torna difícil a criação de scores individuais para cada capítulo, como é na televisão dos Estados Unidos. De um modo geral, a maior parte das novelas brasileiras costuma durar mais de cem capítulos, exibidos diariamente num curto espaço de alguns meses. Já as séries americanas têm seus episódios exibidos semanalmente (ou liberados de uma vez, como é em serviços de streaming, como Netflix e Amazon Prime), divididos em temporadas que podem variar de oito a vinte e quatro episódios. Uma série comum na TV aberta americana precisaria ser exibida por mais de seis temporadas para alcançar o mesmo número de capítulos que uma telenovela atinge em oito ou nove meses. Além disso, é comum que os capítulos das novelas sejam gravados poucas semanas antes de sua exibição, uma estratégia que permite que os autores corrijam os rumos da trama caso os espectadores não estejam gostando.

A saída, portanto, é gravar temas para personagens, situações e elementos que serão constantes na trama. É caso de Novo Mundo: uma vez que seria financeira e logisticamente inviável utilizar a City of Prague Philharmonic Orchestra para cada um dos mais de cem capítulos que a produção deve ter, Amback e Langoni gravaram com ela alguns temas específicos que poderão ser reutilizados ao longo da duração da novela. Tal abordagem, apesar de prática considerando a situação, infelizmente priva o score de uma das melhores características das trilhas sonoras. Afinal, melhor do que ter grandes temas, é vê-los se desenvolver e ganhar novos tons, em sintonia com o arco do personagem ou do elemento que o acompanha.

O disco lançado pela Som Livre contém 25 faixas, mais uma de bônus, e é focada basicamente na trilha instrumental. Ele traz as suítes para basicamente todos os personagens principais da trama, peças musicais com início, meio e fim, e não cues para cenas específicas, conforme explicado acima. Há um foco um pouco maior na mocinha, Anna, que ganhou dois temas para si. O primeiro aparece logo na segunda faixa, intitulada apenas Anna, uma valsa ligeiramente melancólica, para cordas, piano e flautas, que poderia estar num dos dramas de época musicados por George Fenton ou Dario Marianelli, por exemplo (e isto é um grande elogio). Mais adiante, ele ganha uma variação para piano no disco, que pode ser ouvida na faixa 20. Já o segundo, de nome Anna Iluminada, possui uma interessante escrita para cordas, na qual violinos dramáticos contrastam com cellos e baixos mais decididos e determinados. Ele tem duas variações: além de um arranjo para piano, ela ganha também uma Versão Suspense, mais agitada e enérgica.

O tema do protagonista Joaquim é particularmente empolgante e heroico, ressaltando o caráter aventureiro do personagem com metais, violinos e percussão. Já o vilão Sir Thomas ganha de Amback uma aristocrática marcha para trompas, trombones e percussão, ao mesmo tempo imponente, ameaçadora, mas também levemente melancólica, demonstrando que o personagem é também uma figura repleta de ressentimentos. Sua Versão Suspense, na faixa 19, substitui os metais por cordas em pizzicatto, e é mais sorrateira e menos grandiosa que a versão original. Finalmente, Leopoldina é uma aristocrática valsa para representar a Imperatriz, enquanto Piatã é uma melodia masculina e vigorosa que serve como tema do índio que é irmão de criação de Anna. Interpretada por trombones, cellos, e com acompanhamento de um ritmo para tímpanos, ela lembra um pouco a forma como John Barry utilizou sua orquestra para representar a força e a coragem dos indígenas em seu clássico Dança com Lobos (Dances with Wolves, 1990).

Além de temas para personagens específicos, Amback contribui também com motivos para elementos que serão recorrentes na trama de Novo Mundo. É o caso de Paixão de Anna e Joaquim, o tema de amor do principal casal da história, uma doce, ainda que um pouco previsível, faixa para piano e cordas. Mais bem sucedida, porém, é Amor, aparentemente criada para servir como um love theme geral, que consiste numa bela melodia para piano, com acompanhamento de ostinatos de cordas.

O compositor injeta uma dose de aventura no melhor estilo capa e espada em Piratas, sendo feliz ao evocar o estilo musical que o cinema hollywoodiano já nos acostumou como pertencendo aos piratas de antigamente. Já Cantiga de Amália é exatamente o que o nome indica, combinando xilofone com oboé e cordas levemente “morriconeanas” numa bonita canção de ninar. Por outro lado, Trovão procura ser mais ameaçadora, com trombones e percussão, porém o resultado final acaba sendo mais bobo do que o esperado.

A melhor faixa do compositor, no entanto, é a primeira: Abertura Novo Mundo, uma divertida e enérgica música de swashbuckling, que certamente não faria feio em trilhas como A Ilha da Garganta Cortada (Cutthroat Island, 1995), por exemplo. Interessantemente, esta faixa toma emprestado alguns motivos ouvidos em Joaquim – talvez para reforçar o protagonismo do mocinho? Finalmente, há o primeiro e o terceiro movimentos de Taberna (o segundo, estranhamente, está ausente aqui). Servindo de temas para o núcleo cômico da novela, eles consistem numa cartunesca e pomposa melodia para trombones, com o acompanhamento de percussão tropical.

Langoni, por sua vez, contribui com os temas dos personagens D. Pedro, Elvira e Domitila. O primeiro, ouvido na oitava faixa, é uma bela marcha para cordas, metais e percussão, que ressalta as origens aristocráticas como também o bom caráter do futuro Imperador do Brasil. Elvira, por sua vez ganha um motivo cômico, porém malicioso, para madeiras e cordas em pizzicatto. Finalmente, Domitila é a melhor dentre as contribuições do compositor, consistindo numa emotiva melodia para flautas, violinos e cello. Além disso, o compositor também foi o autor de outras duas faixas, O Oceano e A Terra, ambas trazendo belas e expressivas melodias para cordas, que evidenciam o talento do sujeito para a música orquestral.

Os compositores também cariocas Marcos Suzano e Carlos Malta foram os responsáveis pela trilha do núcleo dos índios da trama. A faixa Índios 1 consiste em percussão e flautas indígenas, que dão o necessário tom étnico para esta parte da história.

Um dos grandes destaques da trilha, porém, é a série de valsas Tänze des Brasilianischen Ballfestes, compostas por Joseph Wilde. Sua gravação para Novo Mundo é considerada o primeiro registro fonográfico das valsas, que, antes pensadas para piano, aqui ganharam um arranjo para cordas. Seja como for, tratam-se de belas valsas, bem interpretada pela orquestra tcheca, enquanto os compositores merecem elogios pelo esforço em sua preservação histórica.

Como dito acima, é uma pena que o próprio formato da telenovela inviabilize a produção de trilhas individuais para cada capítulo. Afinal, os compositores mostraram talento para a música orquestral e para a criação de temas de qualidade, e eu teria gostado de vê-los desenvolvendo tais melodias conforme a história e os personagens evoluem. De toda forma, Novo Mundo é mais uma prova de que nosso país está repleto de músicos com potencial para serem grandes compositores de trilhas sonoras, caso haja maior estímulo para esta arte, conforme a Globo fez para sua nova novela das seis. Esperemos que o sucesso dessa empreitada abra mais portas para Sasha Amback e Rafael Langoni, e para outras trilhas orquestrais no cinema e na televisão brasileiros.

Faixas:

01. Abertura
02. Anna
03. Anna Iluminada (Versão Suspense)
04. Anna Iluminada
05. Joaquim
06. Paixão de Anna e Joaquim
07. Leopoldina
08. Pedro
09. Sir Thomas
10. Elevira
11. Piatã
12. Cantiga de Amália
13. Trovão
14. Amor
15. Piratas
16. Taberna
17. Taberna
18. Domitila
19. Sir Thomas (Versão Suspense)
20. Anna (Versão Piano)
21. Índios 1
22. O Oceano
23. A Terra
24. Anna Iluminada (Versão Piano)
25. Tänze Des Brassilianischen Ballfestes
26. Meu Amor Marinheiro (Bonus Track)

Duração: 64:00

Tiago Rangel

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