Resenha: DJANGO LIVRE (Filme em Destaque)


14256370_eFjSsDJANGO LIVRE (Django Unchained, EUA, 2012)
Gênero: Faroeste
Duração: 165 min.
ElencoJamie FoxxChristoph WaltzLeonardo DiCaprio, Sacha Baron Cohen, Joseph Gordon-Levitt, Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Kerry Washington, Walton Goggins, James Remar, Don Johnson, Anthony LaPaglia, Tom Savini, James Russo
Trilha Sonora Original: Vários
Roteiro:  Quentin Tarantino
Direção: Quentin Tarantino
Cotação****½

Quem é da minha geração não teve a chance de ver os bons westerns spaghettis na gloriosa telona. Já havia passado a época. Eis que Quentin Tarantino, depois de tanto flertar com o gênero em seus filmes (de gângster, de guerra, de kung fu etc.), presta homenagem a Sergio Leone, mas principalmente a outros cineastas “menores” como Sergio Corbucci, do DJANGO original (1966), que também ajudaram a fazer do western produzido na Itália um cinema com um charme todo próprio, embora muitas vezes ignorado e criticado. Mas esse é um dos papéis de Tarantino: resgatar aquilo que é tido como obra de gosto duvidoso por um público e uma crítica caretas e transformar em obra enaltecedora.

Mas não apenas isso: Tarantino é um cineasta de mão cheia, que tem ideias que parecem apenas delírios de um fã de filmes B e cujo resultado é de extrema sofisticação. Não se trata de apenas fazer um coquetel com o que ele mais gosta e ver no que dá, mas pensar o roteiro e materializá-lo em imagens, com a ajuda de atores extraordinários, que ficam ainda melhores sob sua tutela. Se há algum problema em DJANGO LIVRE (2012) está na participação do próprio diretor na frente das telas, que acaba quebrando um pouco a excelência das atuações, já que ele nunca foi bom ator. É mais ou menos quando o filme perde um pouco de sua regularidade. Mas isso já acontece bem próximo do final.

A história se inicia em 1858, dois anos antes do início da Guerra Civil americana, que seria o pontapé inicial para o fim da escravatura nos Estados Unidos. Naquele momento, ver um negro montando um cavalo era algo inaceitável pela população branca. E logo no início, depois de ouvirmos o tema de Django durante os créditos enormes e em vermelho vivo, entramos em contato com os dois personagens principais: Christoph Waltz, no papel do caçador de recompensas alemão Dr. Schultz, e Jamie Foxx como Django, sendo levado como escravo. É na tentativa de compra do escravo que o filme estabelece o seu tom. Um tom semelhante àquele de BASTARDOS INGLÓRIOS (2009), quando Waltz era, então, um caçador de judeus.

Os dois homens se juntam para ganhar dinheiro como caçadores de recompensa. No início, o Dr. Schultz queria Django apenas para reconhecer três homens que estavam na sua mira, mas uma vez que a parceria entre os dois é mais do que bem sucedida, nasce daí uma amizade. E também uma promessa do alemão de que ajudaria Django a resgatar a sua amada esposa Broomhilde (Kerry Washington).

Em DJANGO LIVRE não é mais Waltz, mas Leonardo DiCaprio como o perverso dono de uma plantação, o responsável pelos momentos mais tensos do filme. Que é quase todo narrado nessa tensão, que torna cada diálogo interessante e com situações muitas vezes engraçadas. E quando a violência irrompe, ela é sentida como algo ao mesmo tempo cruel e extasiante. Afinal, qual fã de Tarantino não gosta de violência no cinema? Principalmente quando tão belamente orquestrada.

DJANGO LIVRE ainda tem a audácia de mostrar um negro racista, o personagem de Samuel L. Jackson, que impressionantemente funciona às vezes como alívio cômico, embora o cômico nos filmes de Tarantino seja de um fino humor negro. E Jackson está ótimo, assim como DiCaprio. Aliás, DiCaprio incorpora a figura do dono de escravos malvado e perigoso com tanta precisão que é difícil imaginar outro ator em seu lugar.

O novo filme de Quentin Tarantino pode não ser tão perfeito e intenso quanto os dois KILL BILL (20032004) nem quanto BASTARDOS INGLÓRIOS, para citar três de seus trabalhos mais recentes e mais próximos da memória, mas é uma prova viva de que o talento do cineasta continua intacto. Há quem diga que a morte de sua montadora (Sally Menke) tenha comprometido o seu trabalho. É possível. Mas Fred Raskin não faz feio. Afinal, o filme tem 2 horas e 45 minutos e mal se percebe o tempo passar. Também vale destacar o belo trabalho de fotografia de Robert Richardson, que já vem fazendo parceria com o cineasta desde KILL BILL. A trilha sonora seria um assunto à parte, que exigiria conhecimento dos fãs do western spaghetti para identificação das referências.

Ah, e, na sessão em que eu estava, o público parecia respirar cada momento do filme e brindou-o no final com uma merecida salva de palmas, fato raro de se ver numa exibição normal. DJANGO LIVRE ganhou dois prêmios no Globo de Ouro (melhor roteiro e melhor ator coadjuvante para Christoph Waltz) e concorre a cinco Oscar: filme, ator coadjuvante, roteiro original, fotografia e edição de som.

Ailton Monteiro

5 opiniões sobre “Resenha: DJANGO LIVRE (Filme em Destaque)”

  1. Crítica impecável de um filme que merece ser visto, revisto, analisado, estudado. Tarantino é o caso raro de um cineasta que se supera sempre, de alguma forma, a cada obra produzida. Um filme que merece – sem qualquer sombra de dúvidas – uma salva de palmas ao final.

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  2. Eu também adorei o filme, como todos deste diretor tão peculiar, principalmente pela originalidade. O Dr. Schultz é pra mim o grande protagonista e seu final não tem nada de óbvio. Nem acredito que tem 2h45min, passou muito rápido mesmo. Só descordo da atuação do Quentin, foi um tchan a mais no filme e durou o tempo necessário para produzir mais uma cena inesperada. Ouvi algumas críticas de que o filme não retrata a verdadeira história norte-americana de opressão aos escravos, mas a verdade é que os filmes feitos sob encomenda que mostram os escravos maus e os senhores de bom coração são tão furados quanto os livros de história que vemos na escola. Aqui no Brasil basta lermos “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre, para entendermos os pápéis bem delineados da escrava fogosa que com suas armas de sedução obrigava os pobres senhores a violentá-las, entre outras passagens para esquecer, deste livro que foi referência por tanto tempo do humilhante papel que a “história” escreveu, ainda que depois da lei “pra inglês ver” áurea.

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