MÚSICA EM CENA: Painéis e Eventos por Jorge Saldanha

06/05/2007

Uma noite para lembrar: o concerto de Morricone no MÚSICA EM CENA

jorge1-mediumEnfim, chegou o grande dia que todos aguardávamos. Após a coletiva realizada dia 02/05, o MÚSICA EM CENA – 1º Encontro Internacional de Música de Cinema, iniciou com o histórico evento que foi o concerto de Ennio Morricone. Pela primeira vez o Brasil foi o palco para a apresentação de um dos grandes compositores da história  do cinema, e o público correspondeu lotando o tradicional Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Já na chegada a expectativa e a ansiedade eram enormes. Nunca havíamos apoiado e feito a cobertura de um evento desta envergadura, mas felizmente tudo correu perfeitamente. Num lugar privilegiado do teatro, foi impossível não me emocionar quando o vídeo do MÚSICA EM CENA começou a passar no telão, e o público começou a ovacionar os temas conhecidos que ouvia. Infelizmente nem tudo foi perfeito, a organização teve algumas dificuldades e José Wilker, lendo sob protestos da platéia um discurso longo, deslocado e mesmo equivocado do ausente Ministro da Cultura, foi o ponto negativo da noite. Mas felizmente esses detalhes foram ofuscados, pulverizados pelas maravilhosas duas horas de música que se seguiram.

HPIM0037Porque o que vimos e ouvimos ali foi a comprovação da capacidade que a boa música de cinema, mesmo à parte do filme para o qual foi criada, tem de assumir o primeiro plano e emocionar profundamente seus ouvintes. Sem as imagens em celulóide, entram as presenças de Morricone, da Orquestra Sinfônica da Petrobras, do Coral Sinfônico do Rio de Janeiro e dos maravilhosos solistas que acompanham o Maestro, como a soprano Susanna Rigacci e a pianista Gilda Buttá. O repertório é praticamente o mesmo do concerto de Munique, recentemente lançado aqui em DVD. Em momentos de enlevo musical, noto à minha volta mulheres soluçando, com lágrimas nos olhos, e homens tocados pela beleza do que ecoava por todo o teatro. Reviviam emoções já sentidas no escuro do cinema, ali resgatadas pelos mágicos acordes do Maestro. Momentos deslumbrantes, que apaixonaram a platéia a ponto de, ao final, Morricone – sem dúvida também profundamente emocionado com a reação provocada por suas obras-primas – retribuiu ao carinho e à paixão com que foi agraciado com um inédito triplo bis. Um feito e tanto para um senhor prestes a completar 79 anos e que segue maravilhando, com sua arte, pessoas de todas as idades, em todo o mundo.

Para minha satisfação, um dos três bônus foi a reprise de “The Ecstasy of Gold”, minha composição favorita do italiano e que, com a mão trêmula, gravei para a posteridade. Sem dúvida foi o ponto alto da parte da minha vida dedicada à paixão por trilhas sonoras. Mas outras emoções sem dúvida o evento me proporcionou, como o meu encontro, no coquetel que se seguiu, com o curador do MÚSICA EM CENA, Tony Berchmans, que como eu ainda não acreditava que aquele nosso sonho comum finalmente se concretizara. Disse a ele e repito aqui, todos nós temos para com ele um débito que nunca poderá ser pago. Porque o feito de Tony e da organização é de uma importância quase inconcebível, e que de modo amplo somente poderá ser melhor avaliado daqui a algum tempo.

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Se houve problemas, é injusto destacar falhas que fatalmente ocorreriam na organização de um evento deste porte, porque afinal de contas foi graças à abnegação de um grupo de pessoas (como qualquer ser humano, elas não são infalíveis), que algo até há pouco considerado impossível aconteceu. Algo pelo qual aficionados de uma faixa etária que ia dos 15 aos 90 anos, aguardavam ansiosanente. Pessoas como Clesius Marcus Real de Aquino, provavelmente o maior colecionador de trilhas sonoras brasileiro, e Márcio Alvarenga, estudioso que mantém em Minas um dos raros programas radiofônicos nacionais dedicados à música do cinema, além de ser colaborador do ScoreTrack. Ambos, amigos com quem há anos travo profícuos contatos à distância e que finalmente pude conhecer pessoalmente. Pessoas como Remo Usai, autor da trilha sonora do clássico filme nacional ASSALTO AO TREM PAGADOR, a quem tive o privilégio de conhecer. E tive também um momento tiete – pude abraçar a querida Renata Boldrini, que além de linda e competente, mostrou ser pessoalmente aquela mesma pessoa simpática e radiante que conheci através da telinha.

Enfim, o MÚSICA EM CENA não poderia ter iniciado de melhor maneira. Indiscutivelmente foi um concerto que poderá ofuscar as palestras, shows e concertos que se seguirão. Mas que não deixa dúvidas – o Brasil está pronto para realizar, com sucesso, novos eventos do gênero, e este foi apenas o primeiro de muitos e gloriosos que se seguirão.


08/05/2007

HPIM0083MÚSICA EM CENA: Painel “A Importância da Música na Narrativa Cinematográfica”

O nosso MÚSICA EM CENA – 1º Encontro Internacional de Música de Cinema, teve seguimento com este interessante painel realizado no auditório de O Globo. Dele participaram a pianista, cantora e compositora norte-americana Lisbeth Scott, o compositor Marcus Viana e o diretor Cacá Diegues, com a coordenação do jornalista, estudioso da música de cinema e escritor João Máximo.

O painel foi aberto com uma apresentação de Lisbeth Scott, que ao piano interpretou sua canção “Where” de As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Após a apresentação, Lisbeth e os participantes assumiram seus lugares e passaram a responder perguntas da platéia, encaminhadas por escrito, ou as que João Máximo fazia na hora.

A simpática Lisbeth respondeu à primeira pergunta, formulada pelo ScoreTrack, a respeito de sua experiência de trabalho com John Williams. Ela não poupou elogios ao profissionalismo e cavalheirismo de Williams, que utilizou os vocais da artista nos temas “Munich, 1972” e “Remembering Munich”. Lisbeth ainda respondeu sobre Hans Zimmer, a quem considera um sujeito “de muita sorte e esperto, que trabalhou em alguns filmes extremamente bem sucedidos”. Também comentou sobre como foi seu ingresso no mundo das trilhas, e questionada sobre Ennio Morricone, ressaltou a importância dele e de sua trilha A Missão como norteadora de sua carreira.

Lisbeth Scott e Jorge Saldanha
Lisbeth Scott e Jorge Saldanha

Marcus Viana, em suas respostas, discorreu sobre seus trabalhos para cinema e TV, em especial Olga e o recente documentário O Mundo em Duas Voltas. Sempre é interessante ouvir um compositor falar sobre seu processo criativo, que no caso de Viana sempre esbarra na precariedade de recursos do cinema nacional. Ele falou que em Olga tinha a esperança de trabalhar com uma orquestra de cordas, mas o dinheiro acabou e ele teve de gravar, sozinho, os 18 instrumentos. Esta “orquestra de um homem” também expressou sua admiração por grandes compositores do cinema, como Miklos Rozsa e John Williams.

Já o diretor Cacá Diegues demonstrou ser um grande conhecedor do cinema e de trilhas sonoras, explanando sobre o uso da trilha incidental/canções em seus filmes, a questão dos direitos autorais, a edição de trilhas nacionais em disco, etc. Destacou a importância do trabalho de Bernard Herrmann nos filmes de Hitchcock, e manifestou o discutível ponto de vista de que músicos que eventualmente fizeram incursões no cinema, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Miles Davis, podem ser considerados compositores de trilhas sonoras.

Enfim, este foi um painel que certamente agradou a todos os presentes, e que deu com êxito seguimento a este projeto único (em termos de Brasil) que é o MÚSICA EM CENA.


10/05/2007

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MÚSICA EM CENA: Painel e shows de Lisbeth Scott e Wagner Tiso

Por problemas decorrentes do temporal que atingiu o Rio no dia 09/05, não pude comparecer ao painel do MÚSICA EM CENA – 1º Encontro Internacional de Música de Cinema “O Processo de Concepção da Música de Cinema”, que segundo os presentes foi muito interessante. Mas hoje estive na PUC – RJ para acompanhar o painel que deu seguimento ao do dia 08/05, que tratou do mesmo tema – “A Importância da Música na Narrativa Cinematográfica”. Novamente presentes, João Máximo, Cacá Diegues e Marcus Viana. Desta vez a coordenação dos trabalhos ficou a cargo de David Tygel, um dos raros compositores brasileiros que se dedica exclusicamente às trilhas sonoras. Juntando-se ao grupo de discussões, o consagrado ator de TV e cinema, José Wilker.

Para exemplificar a importância da Música na narrativa cinematográfica foram projetados trechos de filmes como 2001 – Uma Odisséia no Espaço e La Nave Va. Os presentes fizeram várias perguntas aos painelistas, com temas tão variados quanto o processo de criação da música, a influência do diretor no trabalho do compositor, a evolução da trilha sonora desde os trabalhos dos veteranos da Golden Age até os dias de hoje, a crescente edição de trilhas antigas em CD, etc. Foi interessante comparar as opiniões contrastantes dos painelistas, em razão de sua área de atuação. Mais uma vez presente na platéia, o veterano compositor Remo Usai recebeu uma merecida homenagem pelo seu importante e infelizmente não reconhecido trabalho.

Mas o painel, encerrado com a exibição do filme Olga (trilha de Marcus Viana), foi apenas a primeira atividade do dia. À noite, no Canecão Petrobras, ocorreu um grande show com a cantora, pianista e compositora norte-americana Lisbeth Scott, um dos maiores compositores brasileiros do cinema, Wagner Tiso, e seus convidados Tony Garrido e Elba Ramalho.

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Mas quem conquistou mesmo uma platéia inicialmente fria foi Lisbeth Scott, com sua beleza, simpatia e principalmente talento. Em sua apresentação de uma hora, que abriu o show, ela interpretou várias de suas canções ouvidas em filmes como As Crônicas de Nárnia, Cruzada e A Paixão de Cristo. Sua interpretação de “Remembering Munich”, da trilha de Munique, composta especialmente para ela por John Williams, foi emocionante. Lisbeth compôs as letras da música em quatro idiomas, a pedido do diretor Steven Spielberg.

Infelizmente não pude acompanhar a apresentação de Wagner Tiso até o fim, pois tive a rara oportunidade de encontrar com Lisbeth nos bastidores. Nem pensei duas vezes para falar novamente com ela, após o painel do dia 08/05, e pedi-lhe que autografasse o CD que comprara no saguão. A conversa foi rápida, mas suficiente para que eu lhe desejasse muito sucesso e dissesse que ela era a artista mais doce que já conhecera. Pode ser impressão minha, mas acho que ela estava um pouco ruborizada enquanto autografava o disco. Seja como for saí do Canecão feliz, com meu CD autografado e a certeza de que o MÚSICA EM CENA, de fato, está sendo uma experiência única.


11/05/2007

HPIM0120MÚSICA EM CENA: Painel “Profissão: Compositor”

Nosso MÚSICA EM CENA – 1º Encontro Internacional de Música de Cinema encaminha-se para seu encerramento, que infelizmente não vou poder acompanhar porque já estou retornando para Porto Alegre. Entre outras coisas, não assistirei ao show e painel de Gustavo Santaolalla e o concerto de encerramento regido por Júlio Medaglia. Mas hoje ainda pude comparecer ao interessante painel “Profissão: Compositor”.

O painel contou com a participação do diretor Sérgio Rezende (O Homem da Capa Preta, exibido após o painel), de sua esposa e produtora Mariza Leão, do pesquisador e restaurador de cinema Hernani Heffner e do compositor Ney Carrasco. Mais uma vez, os debates foram conduzidos pelo compositor David Tygel. Os painelistas dividiram suas experiências com os presentes, tendo Mariza Leão dado um interessante insight sobre o papel do produtor nos aspectos relativos à música do filme – contratação de compositores, seleção de canções, pagamento de direitos autorais, orçamento para a música, etc.

Rezende exibiu trechos de alguns de seus filmes que tiveram trilhas incidentais de Jaques Morelembaum e Tygel, como exemplos de música aplicada à imagem. Tygel, por sua vez, exibiu partes do filme de 1991 (inédito no Brasil) A Child of the South, no qual ele e Rezende trabalharam. Neste filme, Tygel desenvolveu sua partitura a partir de uma canção de ninar africana, cantarolada no início por um dos personagens.

Heffner explanou sobre o desenvolvimento da trilha sonora no cinema nacional, desde o advento do som até os dias de hoje, destacando as gerações de compositores que nele atuaram. Carrasco, que assim como Tygel leciona música de cinema, falou sobre técnicas de composição. Juntamente com os demais convidados, na parte final do painel respondeu às perguntas da platéia, boa parte dela formada por alunos da PUC – RJ e de músicos que começam a aventurar-se nas trilhas de teatro, comerciais e cinema experimental.

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