Resenha de Filme: NO PORTAL DA ETERNIDADE


At Eternity’s Gate, EUA, 2018
Gênero: Drama
Duração: 110 min.
Elenco: Willem Dafoe, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Niels Arestrup, Oscar Isaac, Rupert Friend, Vincent Perez, Emmanuelle Seigner
Trilha Sonora Original: Tatiana Lisovkaia
Roteiro: Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel, Louise Kugelberg
Direção: Julian Schnabel
Cotação: 4/5

No Portal da Eternidade inicia com a escuridão. Com certeza não seria esta imagem que imaginaríamos no início de um filme sobre Vincent van Gogh. É uma pista da intenção do diretor Julian Schnabel de tirar o espectador da zona de conforto. O roteiro de Schnabel, Jean-Claude Carrière,e Louise Kugelberg não se desenvolve como uma biografia formal do pintor, se constitui de momentos apanhados ao longo de um período específico de sua vida.

Julian Schnabel, diretor do reverenciado O Escafandro e a Borboleta, desacelera o ritmo, sustentando os planos na tela muito além do tempo ao qual o espectador está acostumado. Nos interiores, Schnabel abdica da edição ágil, mantendo a câmera fixa nos personagens, espaçando seus diálogos com doses de silêncio. Nas cenas externas, a imagem, cuja fotografia não possui glamour, opta na maioria das vezes em ser testemunha estática da busca de Vincent por algo capaz de capturar o seu olhar.

A câmera de Schnabel se torna inquieta apenas quando assume o ponto de vista de Vincent. Rompe com os padrões da atual estética cinematográfica ao enquadrar a visão do pintor do mundo que o cerca. A imagem é muitas vezes embaçada, seu foco encontra o inesperado na paisagem e nos seres humanos, nos fazendo perceber a vida como Vincent a vê e a reproduz. O elenco conta com Willem Dafoe, Rupert Friend, Oscar Isaac, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Emannuelle Seigner e outros. Mas, não nos enganemos, o filme é de Dafoe – e de ninguém mais.

Ao assistir No Portal da Eternidade, se tem a impressão de que toda a carreira de Willem Dafoe foi um ensaio para viver Vincent. Mesmo já tendo colecionado desempenhos memoráveis em praticamente todos os gêneros cinematográficos, nada chega próximo ao resultado alcançado pelo ator neste filme pelo qual concorre ao Oscar. A semelhança física entre Willem Dafoe e Vincent van Gogh nos faz acreditar que um auto-retrato do pintor ganhou vida. O ator estudou as cartas escritas por Vincent a fim de desvendar o seu pensar. E, orientado por Schnabel, que também é artista plástico, aprendeu a pintar como Vincent, atacando a tela com pinceladas ansiosas. A angústia, o desespero, o duelo entre febril criação e torturada razão, estão presentes na respiração angustiada, no olhar perplexo. E os tortuosos caminhos percorridos por Vincent parecem marcados no próprio rosto do ator.

Tatiana Lisovkaia traduz as imagens em uma trilha minimalista, austera, na qual usa quase que somente o piano. Seu tema central ecoa delicada melancolia. Sua música sublinha a áspera poesia e o isolamento de Vincent. E as notas econômicas de Lisovkaia multiplicam a crescente emoção de sua acidentada jornada.

Assim como as telas de Vincent van Gogh causaram estranhamento a uma sociedade habituada com formas esteticamente agradáveis, No Portal da Eternidade desassossega o espectador na poltrona ao romper com a estética e o ritmo ao qual este se habituou no cinema. O filme convida a alterarmos a percepção, deixar o olhar vagar, ser surpreendido pelo inesperado que habita no óbvio. E, ao fazer isso, viver a emoção da descoberta. Ou como diria Vincent: “Eu posso fazer as pessoas sentirem como é estar vivo”.

Denis Winston Brum

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3 comentários sobre “Resenha de Filme: NO PORTAL DA ETERNIDADE

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