Resenha de Arquivo: PAN’S LABYRINTH – Javier Navarrete (Trilha Sonora)


Música composta por Javier Navarrete. The City of Prague Philharmonic Orchestra regida por Mario Klemens
Selo: Milan Records
Formato: CD
Lançamento: 19/12/2006
Cotação

O cineasta mexicano Guillermo del Toro desenvolve uma bem sucedida carreira devotada a filmes de fantasia, horror e ficção científica. Em sua língua natal ele dirigiu cults por excelência como Cronos e A Espinha do Diabo, enquanto em Hollywood realizou a ficção de terror Mutação, aventuras baseadas em quadrinhos como Blade II e Hellboy e blockbusters como Círculo de Fogo. O diretor consagrou-se no último Oscar com sua homenagem às ficções científicas dos anos 1950 A Forma da Água (conquistou quatro prêmios, incluindo os DOIS principais – Melhor Filme e Melhor Diretor), porém muitos ainda consideram O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno / Pan’s Labyrinth, 2006), falado em espanhol, sua melhor realização.

Este rico e multifacetado filme tem como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola. A história é vista através dos olhos de Ofélia, uma garotinha sonhadora que, juntamente com a sua mãe, vive numa casa do interior onde está aquartelada a tropa comandada pelo seu novo padrasto, o Capitão Vidal, que persegue os rebeldes que lutam contra o governo ditatorial do General Franco. A dura realidade que cerca Ofélia a leva a buscar uma maneira de fugir para um mundo melhor, mágico. Ela começa a viver uma fábula só dela quando uma criatura, que se parece com um verdadeiro Fauno, surge para salvá-la. O Fauno poderá tornar seus sonhos realidade, mas para isso ela deverá passar por três provas.

O Labirinto do Fauno marca a segunda colaboração do diretor com o compositor espanhol Javier Navarrete, após A Espinha do Diabo, e aqui sua parceria criativa atingiu um nível maior de maturidade. A partitura de Navarrete possui ricas orquestrações que capturam perfeitamente o clima fantástico imaginado pelo diretor – com toda a tensão, sensibilidade e imaginação dele decorrentes – e é interpretada pela City of Prague Philharmonic Orchestra regida por Mario Klemens, destacando os solos vocais da cantora Lua.

Como o filme a que serve, o score é uma criativa representação do clássico confronto entre o Bem e o Mal, traçando um paralelo entre as fantasias da garotinha e sua realidade – de um lado a psicologia da infância, a fantasia, o mundo de contos de fadas; do outro, a crueldade dos adultos, a realidade, o destino indesejado. No encarte do CD del Toro descreve como o próprio filme é uma espécie de conto de fadas para adultos, e de como necessitava de uma canção de ninar para conduzir a história do início ao fim.

Desse modo, Navarrete construiu sua música em torno de um doce, ainda que melancólico, lullaby. A canção é apresentada já na primeira faixa, “Long, Long Time Ago”, que enfatiza a inocência roubada de Ofélia – aqui representada pela suave voz feminina acompanhada por um bucólico piano que dará lugar à irrupção final das cordas. É um tema gentil, memorável, que também traduz a bondade que deriva de outros personagens, como a serva Mercedes (“Mercedes Lullaby”) e mesmo o novo mundo a ser revelado para a menina (“The Labyrinth”).

Com exceção da canção de ninar, Navarrete evita o uso de leitmotivs claramente associados aos personagens. Em vez disso, a música passa a ser centrada em sentimentos e nos eventos da trama. Metais anunciam os atos cruéis do Capitão Vidal, com a Guerrilha Republicana sendo representada por tons épicos e militaristas (“Guerrilleros”) ou peças melódicas, esperançosas (“The River”). O afeto de Mercedes, a governanta do Capitão, por Ofélia, e sua resistência contra o militar, são assimiladas em faixas como a suave “Mercedes” e a já citada “The River”. Conforme o álbum progride, a música gradualmente perde seu lado mágico e começa a mostrar uma faceta mais assustadora, levando ao ouvinte os perigos cada vez mais terrificantes que Ofélia passa a enfrentar.

A figura ambígua do Fauno simboliza a conexão de Ofélia entre a realidade e a fantasia, e as dúvidas sobre as suas verdadeiras intenções quanto à menina são capazes de nos trazer tanto um contido otimismo (como os sopros e a introdução em piano de “The Moribund Tree and the Toad”) como o horror causado pela ameaça de um monstro de pesadelo (“Not Human”).

A emocionante elegia de “The Funeral” e os tons sombrios e por vezes agressivos de “Mercedes” precedem as últimas faixas, que levarão o filme a seu paradoxal e bem engendrado final. “The Princess” é um dos momentos mais tocantes do score, um destaque da trilha seja apenas ouvida no disco ou em conjunto com as sequências finais do longa. “Pan’s Labyrinth Lullaby” acompanha os créditos finais, onde Navarrete nos traz mais uma vez seu tema principal, desta vez com solo de violino, para encerrar esta partitura indispensável.

Considero El Laberinto del Fauno um dos melhores scores de 2006, e a primeira indicação ao Oscar® de Javier Navarrete (ainda que não tenha conquistado o prêmio) foi um justo e bem merecido reconhecimento a um trabalho soberbo, sob qualquer aspecto.

Faixas:

1. Long, Long Time Ago  2:11
2. The Labyrinth  4:07
3. Rose, Dragon  3:36
4. The Fairy & the Labyrinth  3:36
5. Three Trails  2:07
6. The Moribund Tree & the Toad  7:11
7. Guerrilleros  2:08
8. A Book of Blood  3:49
9. Mercedes Lullaby  1:37
10. The Refuge  1:34
11. Not Human  5:53
12. The River  2:51
13. A Tale  1:53
14. Deep Forest  5:48
15. Vals of the Maldrake  3:41
16. The Funeral  2:46
17. Mercedes  5:37
18. Pan & the Full Moon  5:07
19. Ofelia  2:20
20. A Princess  4:02
21. Pan’s Labyrinth Lullaby  1:52

Duração: 73:46

Jorge Saldanha

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