Resenha de Trilha Sonora: LOST IN SPACE (DELUXE) – Christopher Lennertz


Música composta por Christopher Lennertz
Selo
: Lakeshore Records
Formato: CD, Digital
Lançamento: 13/04/2018
Cotação:

E lá vamos nós de novo, embarcando em uma jornada que deixará a família Robinson perdida no espaço… Até recentemente, houve duas tentativas concretas de trazer de volta a clássica série de Irwin Allen Perdidos no Espaço (Lost in Space, 1965-1968): a primeira em 1998, com o filme de grande orçamento dirigido por Stephen Hopkins que não faturou o suficiente nas bilheterias para garantir uma continuação; e a segunda em 2004, com o piloto não aprovado The Robinsons: Lost in Space, dirigido por John Woo. Agora, em 2018, um novo remake da série chega até nós graças, principalmente, aos contínuos esforços do documentarista e produtor Kevin Burns, que finalmente conseguiu viabilizar o novo projeto junto à Legendary Televison e à Netflix.

O resultado pode ser conferido desde o último dia 13 de abril, quando os 10 episódios da primeira temporada da nova Perdidos no Espaço chegaram ao serviço de streaming. No momento em que escrevo esta resenha ainda não assisti a toda a temporada, mas já posso afirmar que o esforço e o gasto (consta que o orçamento destes 10 episódios chegou a mais de Us$ 100 milhões) compensaram: o nível de produção é excelente, o elenco não compromete e, principalmente, foi preservada a essência do conceito original da velha série, que era mostrar a união da família frente aos desafios para sobreviver em um ambiente alienígena quase sempre hostil.

Considerando o longo histórico de revivals ruins de clássicos, tanto no cinema como na TV, posso dizer que esta Perdidos no Espaço saiu melhor que a encomenda. Obviamente alterações ou modernizações foram feitas, sendo duas delas vitais e altamente arriscadas: a troca de gênero do icônico personagem Dr. Smith, agora mulher (no lugar do inesquecível Jonathan Harris, temos a atriz cult Parker Posey), e a reimaginação do Robô, que virou um alienígena artificial com forma humanoide. A narrativa da série e sua estrutura também sofreu mudanças: entre outras coisas, agora os Robinsons não são a única família de colonos espaciais, e o desenvolvimento da trama muitas vezes emprega flashbacks para explicar o que vemos na tela. Como fã da série original (quando criança, Perdidos no Espaço era meu programa favorito na TV), eu gostaria que nestes aspectos a nova produção fosse mais conservadora, mas de modo geral reconheço seus méritos e o respeito que ela demonstra pela criação de Irwin Allen.

Uma das coisas que eu adoro no programa antigo é sua música – não apenas os dois temas de abertura compostos pelo grande John Williams (na época, Johnny), mas também as trilhas incidentais. Além dos temas Williams escreveu quatro estupendos scores da primeira temporada, que foram muito reutilizados até o cancelamento da série, em 1968. Quando ano passado li uma declaração de Burns dizendo que tais trabalhos de Williams seriam adaptados à versão moderna, me empolguei. Infelizmente, ao encerrar a audição deste álbum da trilha sonora da nova série, neste aspecto fiquei bastante decepcionado, já que o emprego do material de Williams limitou-se ao tema que ele compôs para a terceira e última temporada, que é o mais conhecido.

Independentemente disto o compositor Christopher Lennertz, que migrou dos videogames para a TV e o cinema, realizou um ambicioso trabalho (sem dúvida seu melhor, até agora) que segue um padrão orquestral similar ao empregado por Bruce Broughton no filme de 1998. Interpretado pela Philarmonia Orchestra de Londres, coral e com vocalizações de Lisbeth Scott, o score baseia-se em metais e cordas, e com frequência remete a trabalhos que John Williams realizou para clássicos do cinema-pipoca das décadas de 1970 e 1980, o que se revela adequado – afinal, em vários momentos a série adquire um tom eminentemente “spielberguiano”, especialmente nas cenas de Will com o Robô. Assim, em vez de uma adaptação direta dos scores de Williams para a série original, Lennertz optou por nos entregar algumas ideias típicas do grande maestro combinadas com seus conceitos próprios. Mas além de Williams, nota-se que este trabalho de Lennertz também reverencia outros compositores que deixaram seu legado em grandes aventuras de ficção científica, como James Horner, Alan Silvestri e David Arnold.

O novo tema principal de Lennertz, apresentado em “Main Titles”, evoca a exploração espacial e a aventura dos Robinsons. É uma composição inspirada que possui grandeza orquestral e otimismo, e que é sucedida na faixa pelo tema original de John Williams, em versão épica. Além desta faixa, o tema de Williams tem presença de forma pontual (mas importante) em outros trechos da trilha sonora, fazendo sua última aparição em “End Credits”. Na sequência temos “Crash Landing”, eletrizante música de ação que acompanha a atribulada chegada dos colonos ao novo e misterioso mundo. Um dos pontos altos do álbum, “Will Exploring” narra a descoberta do novo planeta através dos olhos do caçula Robinson. Com o uso de técnicas modernas de orquestração e sintetizadores sutis, a música de exploração é melódica e intensa, pontuando o deslumbramento do garoto diante do ambiente desconhecido. Mas há também o medo, e a música faz uma transição natural para esses momentos de suspense e perigo, traduzindo com eficácia as emoções do personagem.

Após a melancólica e idílica “Moby Dick”, chegamos a outro destaque do disco, “Will and the Robot”, que em seus sete minutos e meio é plena de emoção, mistério e suspense. Como o garoto Elliot em E.T., Will encontra uma criatura fantástica de outro mundo, porém será ela amiga ou inimiga? A música, que inicia com vozes etéreas e cordas emotivas, seguidas por metais em tom baixo, traduz o medo e a desconfiança que a estranha criatura provoca, mas também a forte ligação que se inicia entre os dois. A faixa tem um seguimento natural com a dramática “Danger Will Robinson”, que acompanha a cena onde o Robô salva a irmã de Will, Judy, sob os olhares esperançosos – mas desconfiados – dos pais. A faixa conclui com um tom otimista, a la Star Wars, inclusive empregando o tema de Williams para a série original.

Em outro ponto alto do score, “Family Chores Fugue”, Lennertz emprega uma elegante e ágil escrita para cordas, tão inesperada quanto brilhante. Já “To the Chariot” traz uma sequência de percussão de grande intensidade, complementada por uma participação de cellos e trombones que, novamente, remete ao trabalho de Williams em Star Wars. Por sua vez, “Smith/The Forest” é climática e misteriosa, trazendo texturas de piano e sintetizador, bem como vozes fantasmagóricas. Na agitada “Dump the Fuel” encontramos, próximo ao final, uma versão do tema de Williams particularmente empolgante, complementada pelo coral.

“Flowers/Father and Son” é emotiva, mas com um senso de nobreza fornecido pela intervenção dos metais, e conforme a faixa se desenvolve surge um belo motivo para piano e cordas, na linha do score de Alan Silvestri para Contato. Este motivo, o que mais se aproxima na trilha sonora a um tema da família Robinson, retornará na igualmente tocante “Ultimate Sacrifice”. “Waterfall” inicia como uma bonita composição pastoral para cordas e piano, progressivamente se tornando mais abstrata, transmitindo uma sensação de apreensão. “Illumination”, que começa com o motivo para piano, é calorosa e lírica (exceto pelo final com metais ameaçadores), “Maureen at Work” mostra elegância com seus violinos, sinos e ritmo quase dançante, e “Maureen Flies” nos traz inesperados e etéreos vocais, cortesia de Lisbeth Scott, e efeitos eletrônicos.

De volta à ação, “Race the Minefield” inclui uma escrita criativa para cordas, pontuadas por percussão e fortes metais, “Here We Go” emprega trombones poderosos (bem como o tema de Williams) e “Alien Ship” traz metais graves, percussão, tons eletrônicos, coral e um final soberbo. Já em “Saying Goodbye” retorna a emoção, embalada por grandes crescendos orquestrais e címbalos. Ao final ouvimos uma nova e esfuziante interpretação do tema principal, completa com o coral. “The Resolute” inicia melancólica mas logo torna-se aventuresca e esperançosa, com um encerramento intenso e, por fim, “End Credits” marca a volta do bem sucedido  tema de John Williams, com intervenções do de Lennertz.

Como se vê, cada faixa desta trilha sonora oferece algum elemento merecedor de genuína apreciação, sendo que a edição DeLuxe aqui avaliada ainda inclui sete faixas bônus (dentre elas, “Cheering Up Will” poderia ser facilmente confundida com uma composição de Williams para Spielberg), e por ser a mais completa, é a edição que recomendamos. Lost in Space é um trabalho altamente recomendado, que comprova o talento de Christopher Lennertz, ainda a ser plenamente reconhecido. Espero que a partir de agora ele tenha mais oportunidades para compor scores com a qualidade deste, e senão ainda melhores, para grandes projetos.

Faixas:

Disco 1
01. Main Titles (1:11)
02. Crash Landing (1:12)
03. Will Exploring (5:05)
04. Moby Dick (2:49)
05. Will and the Robot (7:28)
06. Danger Will Robinson (3:33)
07. Family Chores Fugue (4:16)
08. To the Chariot (3:38)
09. Smith / The Forest (3:16)
10. Dump the Fuel (3:12)
11. Flowers / Father and Son (3:33)
12. Waterfall (4:18)
13. Illumination (4:40)
14. Maureen at Work (1:28)
15. Maureen Flies (feat. Lisbeth Scott) (1:13)
16. Race the Minefield (3:51)
17. Ultimate Sacrifice (3:55)
18. Here We Go (2:49)
19. Saying Goodbye (2:45)
20. Alien Ship (3:34)
21. The Resolute (3:18)
22. End Credits (1:13)

Disco 2
01. Back To the Ship (Bonus Track) (6:20)
02. Great Job (Bonus Track) (4:31)
03. Disconnecting (Bonus Track) (4:18)
04. Cheering Up Will (Bonus Track) (1:40)
05. Melting Judy Out (Bonus Track) (1:15)
06. Launch (Bonus Track) (4:27)
07. Backwards (Bonus Track) (0:51)

Duração Total: 95:40

Jorge Saldanha

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