Resenha de Trilha Sonora: BLACK PANTHER – ORIGINAL SCORE – Ludwig Göransson


Música composta por Ludwig Göransson
Selo: Hollywood Records
Formato: Digital
Lançamento: 16/02/2018
Cotação:

Pantera Negra (Black Panther, 2018) é, indiscutivelmente, o filme mais atípico do Universo Cinematográfico Marvel. Apesar de, desde Homem de Ferro (Iron Man, 2008), o estúdio hoje pertencente à Disney nunca ter deixado dúvidas de que não temia riscos, muitos duvidavam de que um filme solo deste personagem, que fez sua estreia em Capitão América 3 – Guerra Civil (2016), fosse ser minimamente bom e, ainda por cima, que fizesse sucesso.

Pois bem, o longa do diretor Ryan Coogler (Creed – Nascido Para Lutar) não só ruma para ser a maior bilheteria de todos os tempos para uma produção da Marvel Studios como também é uma unanimidade positiva de crítica. Na essência, sua trama segue à risca a fórmula de um filme de super-herói: T’Challa (Chadwick Boseman) é confrontado por um vilão de poderes equivalentes, Killmonger (Michael B. Jordan), cai em desgraça e, ao final, triunfa. O diferencial é que, no roteiro, elementos já presentes nos quadrinhos originais de Stan Lee e Jack Kirby (personagens principais negros habitantes do fictício Wakanda, país de tecnologia avançadíssima isolado em meio à pobreza da África) recebem uma perfeita contextualização para os dias atuais. O filme, tecnicamente primoroso, conta com um excelente elenco de atores negros e aborda questões sociais e de representatividade que alcançam não só a comunidade negra mundial, mas a todos. Afinal, como bem lembra um dos personagens, a África é o berço de toda a Vida.

Na parte musical, Pantera Negra recebeu dois álbuns de trilha sonora: um com músicas inspiradas pelo filme, do rapper Kendrick Lamar, e outro com o score do sueco Ludwig Göransson, que é o objeto de nossa análise. Apesar de Göransson, colaborador habitual do diretor Coogler, já ter dado provas de sua capacidade e talento principalmente com sua música para Creed, em um primeiro momento me surpreendi com sua escolha. E tive uma segunda surpresa quando, assistindo ao filme, percebi que sua trilha incidental não poderia ser melhor e mais adequada. Posteriormente, ouvindo o álbum (infelizmente disponibilizado apenas em download digital), constatei que a partitura de Pantera Negra se torna ainda melhor quando ouvida em separado, já que assim podemos perceber todos os detalhes de orquestração, instrumentação e os extraordinários vocais empregados por Göransson, em especial na bela faixa Wakanda.

O álbum é longo, são mais de 95 minutos de música distribuídos em 28 faixas, sendo daqueles raros casos de uma trilha sonora onde fica difícil pinçar destaques. Apesar de, no álbum, a música não seguir a ordem cronológica dos acontecimentos do filme à risca, ela basicamente é estruturada como uma sinfonia, ou no mínimo um álbum conceitual, contando uma história épica e empolgante com início, meio e fim. Göransson empregou neste trabalho uma grande orquestra com 132 músicos, reforçada por uma potente seção de percussão, eletrônicos e coral. A orquestra seria, digamos assim, o componente mais tradicional ou ocidental, enquanto a percussão e os vocais tribais se encarregam de dar a necessária sonoridade africana.

A combinação de tais elementos se revela extremamente bem acertada e balanceada. Em Hollywood temos vários exemplos de trilhas sonoras que mesclam orquestra com ritmos e instrumentos africanos – Hatari!, do grande Henry Mancini, e a oscarizada O Rei Leão, de Hans Zimmer, me vem de imediato à cabeça – mas poucas foram tão bem sucedidas como a de Pantera Negra. O score soa autêntico, não como um mero pastiche ou um clichê hollywoodiano de como seria a música africana. Os instrumentos se combinam organicamente à percussão rítmica e soam críveis, não raro provocando no ouvinte um senso de maravilha e assombro. A música de Göransson, em suma, retrata Wakanda e personifica perfeitamente o protagonista T’Challa, cujo tema é ouvido em músicas de ação e momentos chave do score.

Aliás, o tema do Pantera Negra é dos melhores e mais empolgantes já compostos para um dos super-heróis da Marvel. Ouvido no filme já achei interessante, mas foi no álbum que descobri seus maiores méritos. É um tema até estruturalmente simples, basicamente fanfarras de metais que, num crescendo, vão recebendo o reforço da percussão, dos vocais e do restante da orquestra. O resultado, em vários momentos, soa grandioso e empolgante. E seu antagonista, Killmonger, ganha sonoridades e ritmos hip-pop, já que apesar de ter laços familiares com Wakanda, foi criado nos EUA. Na faixa Killmonger, o material é desenvolvido para ganhar sopros que remetem à África. São os dois lados de uma mesma moeda musical – o africano e o afro-americano – que fazem todo sentido no contexto do filme. Na faixa Killmonger vs T’Challa, que acompanha um confronto devastador entre os dois personagens, a música torna-se mais complexa para enfatizar não só a brutalidade da cena, mas também as facetas das personalidades dos lutadores.

Ressalto que, apesar da ênfase na instrumentação e nas vozes africanas, os elementos orquestrais do score não são meros complementos. A orquestra é parte essencial para dar grandeza e um tom emocional à música, como em Ancestral Plane, onde uma frase de cordas surge de tempos em tempos para evocar tensão e rendição. Nas faixas de ação, a seção de metais se junta à seção rítmica para ressaltar com potência os confrontos. Além disso, o diretor Coogler afirmou que Pantera Negra é “o James Bond” da Marvel”, e essa referência encontra sua contraparte musical em partes do score. Por exemplo, na primeira metade da faixa Casino Brawl, a música cria um ambiente de suspense eletrônico que remete às trilhas de David Arnold para os longas de 007. Já a segunda metade da faixa é uma eletrizante peça de ação com metais, percussão, efeitos vocais e coral.

A trilha sonora incidental de Pantera Negra é altamente recomendável, e a faixa United Nations / End Titles faz um bom resumo dos seus principais momentos e temas. Mas há muito mais a descobrir neste trabalho de Ludwig Göransson, que provavelmente o tornará um dos compositores mais requisitados de Hollywood. É possível achar um pouco de tudo aqui – romantismo orquestral, ritmos e vocais tribais, momentos de grandeza épica e de emoção. Apesar de sua longa duração é um álbum que não cansa, e nos reserva, a cada faixa, uma nova descoberta.

Faixas:

1. Wakanda Origins 1:44
2. Royal Talon Fighter 4:00
3. Wakanda 2:20
4. Warrior Falls 4:06
5. The Jabari 1:08
6. Waterfall Fight 4:03
7. Ancestral Plane 4:27
8. Killmonger 2:55
9. Phambili 2:31
10. Casino Brawl 3:32
11. Busan Car Chase 2:49
12. Questioning Klaue 3:32
13. Outsider 2:07
14. Is This Wakanda? 2:46
15. Killmonger’s Challenge 5:07
16. Killmonger vs T’Challa 3:30
17. Loyal to the Throne 1:35
18. Killmonger’s Dream 3:15
19. Burn It All 3:24
20. Entering Jabariland 2:42
21. Wake Up T’Challa 6:08
22. The Great Mound Battle 3:48
23. Glory to Bast 6:06
24. The Jabari Pt II 2:22
25. A Kings Sunset 4:28
26. A New Day 1:47
27. Spaceship Bugatti 1:23
28. United Nations / End Titles 7:32

Duração: 95:07

Jorge Saldanha

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2 comentários sobre “Resenha de Trilha Sonora: BLACK PANTHER – ORIGINAL SCORE – Ludwig Göransson

  1. A trilha é naravilhosa! Não me canso de escutar! Com certeza Goränsson será visto com mais frequência nos créditos finais dos filmes que estrearão nos próximos anos! A única vez em que ouvi uma trilha com uma sonoridade africana tão “autêntica” foi em “The Power of One” de Hans Zimmer, que é outro deleite e bem mais amarrada à tradição africana que “O Rei Leão”, embora nem de longe apresente o desenvolvimento de “Black Panther”. O filme e a música são surpreendentes e inesperadamente satisfatórios. Espero que esse filme instigue outros estúdios a aceitarem mais desafios. Eles podem render bons frutos!

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