Resenha de Trilha Sonora: STAR WARS – THE LAST JEDI – John Williams


Música composta por John Williams, regida por John Williams e William Ross
Selo: Walt Disney Records
Formato: CD, Digital
Lançamento: 15/12/2017
Cotação:

Dois anos após O Despertar da Força, o segundo título da terceira trilogia da saga espacial criada por George Lucas chega aos cinemas mundiais. Star Wars – Os Últimos Jedi, do diretor Rian Johnson, vem sendo considerado pela grande maioria da crítica como um filme superior ao capítulo anterior que, se analisado em sua essência, é praticamente uma refilmagem do longa original de 1977. Por trazer algumas escolhas criativas arriscadas e rumos inesperados, entre o público as opiniões sobre o novo filme se tornaram muito mais divididas, a ponto de haver até uma petição na web assinada por fãs mais radicais pedindo que a LucasFilm retire Os Últimos Jedi do cânone oficial da franquia.

Contudo, se há um aspecto do longa de Rian Johnson com o qual qualquer fã se familiarizará e se sentirá “em casa” é a trilha sonora do veteraníssimo John Williams. Aos 85 anos, o maestro simplesmente não tem competidor à altura. Qualquer score de sua lavra é diferenciado e se situa acima da média do que se compõe hoje para o Cinema. Em termos de Star Wars, então, nem se fala. Michael Giacchino bem que caprichou no filme derivado lançado ano passado, Rogue One – Uma História Star Wars, mas a verdade é que ninguém faz um Star Wars Sound melhor do que seu criador. Sim, aos 85 anos de idade John Williams não tem rival à altura… exceto a versão mais jovem dele mesmo. Pois é na comparação com seus trabalhos de décadas atrás que esta trilha sonora revela sua fraqueza.

Em qualquer filme anterior da saga, Williams criou no mínimo um grande tema. Em Uma Nova Esperança fomos introduzidos à clássica fanfarra de abertura (concebida  para ser o tema de Luke), ao tema da Força e à delicada melodia da Princesa Leia; em O Império Contra-Ataca, Darth Vader recebeu um dos melhores temas da história do Cinema, e Yoda sua assinatura musical inconfundível; em O Retorno de Jedi, os irmãos Luke e Leia ganharam um motivo inspirado, bem como o sombrio Imperador Palpatine; A Ameaça Fantasma trouxe a admirável “Duel of the Fates”, representando o conflito entre Luz e Sombra, Jedi e Sith; Ataque dos Clones recebeu o mais inspirado tema de amor da saga, “Across The Stars”, dedicado a Anakin e Padmé; o decisivo combate entre Obi-Wan e Anakin em A Vingança dos Sith foi acompanhado pela grandiosa “Battle of the Heroes”; e por fim, em O Despertar da Força, a protagonista Rey ganhou um belo tema, e ao final tivemos a introdução de nova e inspirada música Jedi para marcar o encontro de Rey com Luke.

Pois chegando a este The Last Jedi, constatamos que ele traz um underscore típico da franquia, que sem dúvida reforça com competência os elementos emocionais e dramáticos do filme. Mas no que se refere a material temático inédito e de qualidade, é o trabalho mais fraco já composto por Williams para Star Wars, dependendo bastante da ampla utilização de temas e motivos dos filmes anteriores – inclusive muito mais do que The Force Awakens. Tanto isto é verdade que, das 20 faixas do disco, apenas cinco trazem, inteiramente ou na maior parte, novo material: “Fun with Rose and Finn”, “The Rebellion is Reborn”, “Canto Bight”, “The Fathiers” e “Chrome Dome”.

Os Últimos Jedi introduz um tema inédito para Rose, o novo personagem mais significante do filme. Este tema é encontrado inicialmente nas faixas “Fun with Rose and Finn” e  “The Rebellion is Reborn” – esta soando como se viesse diretamente de uma trilha de Harry Potter. A música de Rose é gentil e sentimental, sem dúvida uma boa inclusão na antologia musical da saga, mas que nem de longe é capaz de suportar a responsabilidade de ser o único novo tema recorrente da trilha sonora. Já “Canto Bight” é uma faixa jazzística e divertida, claramente concebida nos moldes da clássica “Cantina Band”, da trilha do filme original. Em determinado momento inclui uma percussão que remete ao samba, e por volta do seu 1 minuto de duração ouvimos os conhecidos acordes de metais de “Aquarela do Brasil” – o que parece indicar que, para os norte-americanos, nosso país e sua música ainda são suficientemente exóticos para ilustrar um ambiente repleto de seres alienígenas.

Por sua vez, “The Fathiers” inicia com uma cue de ação original, mas após 30 segundos nos entrega uma orquestração genérica de metais destituída de uma melodia reconhecível. Ela ainda traz uma versão mais forte e enérgica do tema de Rose, para marcar a presença da personagem nos acontecimentos. “Chrome Dome” é a última faixa nova, mas que infelizmente não traz nenhum tema ou motivo inéditos. Basicamente é uma sucessão de cues, algumas já ouvidas, outras não, provavelmente trechos avulsos do score mixados em uma única faixa. Contudo, nada que chame a atenção.

E é só, tudo o mais na trilha de The Last Jedi é reciclagem dos trabalhos anteriores de Williams. Isso se torna mais óbvio se a compararmos com The Force Awakens, que já foi uma obra escassa de novo material mas que ainda forneceu temas inéditos para Rey, Poe,  Finn, Kylo e a Resistência, além de faixas de ação genuinamente originais como “Follow Me” e “Scherzo for X-Wings”. Fico imaginando se Williams compôs apenas o tema de Rose, deixando ao orquestrador e regente William Ross a tarefa de criar cues de transição para combinar temas e composições pré-existentes… Será?

O álbum está longe de ser ruim. Mantém o Star Wars Sound do seu criador, e muitos dos velhos temas recebem boas variações. Mas infelizmente carece do que um filme desses mais necessita: um novo e épico tema, que permaneça na memória do espectador ao sair da sessão. Resta-me agora aguardar o que reserva o próximo capítulo da saga que será lançado em 2019, no qual John Williams, já com 87 anos, encerrará sua carreira em Star Wars e um novo compositor – provavelmente Michael Giacchino – assumirá de vez seu posto na já anunciada nova trilogia. Desejo, do fundo do coração, que o velho Mestre resgate pelo menos parte de sua imensa criatividade de outrora, nos brindando em seu “canto de cisne” com uma última e memorável trilha sonora para Star Wars.

Faixas:

1. Main Title and Escape 7:25
2. Ahch-To Island 4:22
3. Revisiting Snoke 3:28
4. The Supremacy 4:00
5. Fun With Finn and Rose 2:33
6. Old Friends 4:28
7. The Rebellion Is Reborn 3:59
8. Lesson One 2:09
9. Canto Bight 2:37
10. Who Are You? 3:04
11. The Fathiers 2:42
12. The Cave 2:59
13. The Sacred Jedi Texts 3:32
14. A New Alliance 3:13
15. Chrome Dome 2:01
16. The Battle of Crait 6:47
17. The Spark 3:35
18. The Last Jedi 3:03
19. Peace and Purpose 3:06
20. Finale 8:28

Duração total: 77:31

Jorge Saldanha

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8 comentários sobre “Resenha de Trilha Sonora: STAR WARS – THE LAST JEDI – John Williams

  1. John Williams é um gênio. Porém para uma saga que, acredito, por dinheiro está se estendendo demais. Quando isso ocorre o score tende a manter os motivos principais para a obra e alguns temas surgem como novos para novos personagens. Não escutei ainda más já era esperado a repetição dos temas.

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  2. Concordo e discordo ao mesmo tempo. Há temas novos. Rose tem o seu e temos um novo “Cantina Band”. Se levarmos em consideração os temas originais escritos para últimas trilhas da segunda trilogia em que, como você mesmo diz, tiveram juntos no máximo uns 4 ou 5 temas novos, não há muito motivo para ficar decepcionado. O que seria da trilha de “O ataque dos Clones” sem o tema de Padmé e Anakin? O que seria da trilha de “A Vingança dos Sith” sem a batalha dos herois e o tema tocado durante o funeral de Padmé, que são bastante queridos pelo público? Concordo que o tema de Rose não carrega tanta identidade quanto aqueles escritos para Yoda, Vader ou Palpatine, ele é mais inocente e não tem tanto destaque, como a personagem. Mas é um bom tema. Pode crescer no coração do fã com o tempo. Enfim, acho que Williams fez o que pode com o material que existia no filme. Todos os personagens principais tem um tema individual (Rey, Ren, Poe, Finn, Luke, Rose, Leia, a Primeira Ordem, a Rebelião, a Cantina…), os personagens novos, com exceção de Rose, não terão participações futuras significativas … Não há material, é simples. E, sinceramente, o filme não apresentou nenhuma mudança clara de que a Rebelião ou a Primeira Ordem foram reestruturadas. Em “império Contra Ataca” o motivo para a criação de um tema particular para Vader tem o objetivo de retratar a importância que o personagem tem no filme. Em “Uma Nova Esperança” ele não era ninguém, apenas um servo. Agora as coisas mudaram de rumo, e estão diferentes. Talvez no próximo filme tenhamos um novo tema para a Rebelião, talvez um novo tema para a Primeira Ordem, talvez um tema mais agressivo para Ren…. Houve mudanças suficientes para justificar a criação de novos temas para o próximo filme.

    E sobre Giacchino: adoro o trabalho dele, mas ele, por mais talentoso que seja no momento, ainda é pequeno comparado a compositores como Shore, Silvestri, Elfman, os irmãos Newman, (…), e mesmo compositores menores. Ele é popular agora, tem feito bons trabalhos, é uma promessa para os próximos anos, pode vir a ser muito popular com o tempo, mas ele ainda está muito longe de ser um “Williams mais jovem”.

    Digo, ele sempre mostrou ter potencial. Há muitos anos anunciam o momento em que Giacchino tomará o posto de Williams e o melhor, de forma respeitosa. Os mesmos que sempre trabalharam com Williams foram responsáveis por trazer Giacchino à luz. Spielberg e George Lucas nas figuras de JJ Abrams e agora da Kathleen Kennedy. Está tudo em casa! Mas Giacchino já está velho, por mais que não pareça, tem 50 anos. Está atrasado. A maioria dos compositores costuma se afastar e trabalhar em filmes menores ou continuam trabalhando em grandes franquias, embora com muito menos sede ao pote, a partir dos 60 anos. Se as coisas continuarem como estão, Giacchino terá uma grande década de 20, mas serão apenas 10 anos frente a 4 décadas de dominância de Williams (sendo que as 3 primeiras foram a todo vapor). Ou talvez as nossas tais tecnologias da informação ajudem ele a se tornar popular e talvez chegar a “rivalizar” com Williams na figura do “aprendiz” que passa a ocupar o lugar do “mestre”. De forma amigável. Como “o segundo sendo a continuidade do legado do primeiro”, como tentam vender para nós. Não é impossível, mas é difícil.

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