Star Trek Discovery Episode 1×1 – The Vulcan Hello, Episode 1×2 – Battle at the Binary Stars (2017)
Elenco: Sonequa Martin-Green, Michelle Yeoh, Doug Jones, Chris Obi, Mary Chieffo, James Frain
Roteiro: Bryan Fuller, Akiva Goldsman, Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: David Semel, Adam Kane
Cotação:

ATENÇÃO: caso você ainda não tenha assistido aos dois primeiros episódios da primeira temporada de Star Trek: Discovery, o texto a seguir contém Spoilers

Com os filmes de J.J. Abrams a franquia Star Trek, que agonizava desde o encerramento da série Jornada nas Estrelas: Enterprise em 2005, renasceu e conquistou novas gerações, ao mesmo tempo em que muitos fãs hardcore torceram o nariz para o “Abramsverse”, como foi chamada a nova linha temporal criada a partir do longa de 2009. Independentemente de gostarem ou não desses filmes, uma nova série de TV era um desejo unânime entre os trekkers, e ele finalmente se realizou com o lançamento no último domingo dos dois episódios iniciais de Star Trek: Discovery, primeira produção da franquia criada exclusivamente para serviços de video on demand – CBS All Access nos EUA e Netflix na maioria dos outros países, inclusive no Brasil.

O cérebro por trás de Discovery é o roteirista e produtor Bryan Fuller, criador de séries como Hannibal e American Gods, que iniciou sua carreira escrevendo episódios de Jornada nas Estrelas: Deep Space NineJornada nas Estrelas: Voyager. Com conhecimento de causa, portanto, Fuller criou o conceito que será desenvolvido ao longo dos 15 episódios da primeira temporada da série, situada 10 anos antes dos eventos da Série Clássica (1966) e que mostra o estopim da guerra contra os mais tradicionais inimigos da Federação dos Planetas Unidos, os Klingons. Porém, além de explorar esse momento particular da mitologia da franquia, Fuller buscou inovar e adequar Star Trek para os nossos tempos. Assim, ao invés de ter como protagonista um Capitão da Frota, o personagem principal é uma Primeiro-Oficial, Michael Burnham (Sonequa Martin-Green, de The Walking Dead), cujos conflitos internos, surgidos após uma tragédia em sua infância, a levarão a ser considerada culpada pelos eventos decorrentes do catastrófico confronto com os Klingons.

Adicionalmente, pelo menos nestes dois episódios iniciais, vemos que o otimismo característico da franquia criada por Gene Roddenberry deu lugar a conflitos entre oficiais e a um estilo narrativo mais sombrio e dramático. Nesse contexto, como em Game of Thrones e The Walking Dead, personagens considerados importantes morrem. Mas não foi só o tom ou o estilo que mudou: Fuller reimaginou todo o visual e a tecnologia da série, onde tudo é mais moderno e tecnologicamente avançado do que qualquer coisa que vimos nas aventuras da nave Enterprise comandada pelo Capitão James Kirk, que se passam apenas 10 anos depois de Discovery. Claro, há elementos de design clássicos que podemos identificar em naves, armas e uniformes, mas de modo geral tudo passou por upgrades e alterações. A nave USS Shenzhou, da Capitã Philippa Georgiou (Michelle Yeoh), é até mesmo capaz de pousar na superfície de um planeta – algo que só vimos em Voyager, que se passa 100 anos depois da Série Clássica. E a comunicação entre naves e a Federação se dá através de hologramas, algo até agora totalmente inédito na franquia.

Talvez o elemento mais discutido dessa reimaginação sejam os próprios Klingons, que ganharam uma aparência muito mais alienígena, inspirada pelos que foram vistos em Além da Escuridão: Star Trek (2013). Mesmo suas naves quase nada lembram às que tenhamos visto nas séries e nos filmes. Outro ponto de discussão é o fato de que Burnham foi criada desde pequena pelo pai de Spock, Sarek (James Frain), tornando-a portanto irmã de criação do vulcano mais famoso da franquia – algo nunca antes mencionado.

Polêmicas e discussões à parte, estes dois episódios iniciais se mostraram muito promissores. Discovery possui elevados padrões de produção, e isso se reflete na qualidade de cenários, figurinos e efeitos visuais. Martin-Green se revela competente no papel de Burnham, mas quem rouba a cena neste início é Michelle Yeoh (O Tigre e o Dragão), uma atriz que nunca, em sã consciência, imaginaria que algum dia participaria de uma série de Star Trek. Doug Jones (ator/monstro fetiche do diretor Guillermo Del Toro), como o oficial de ciências alienígena Saru, tem tudo para se tornar um dos preferidos dos fãs. Já entre as coisas que menos gostei incluo os próprios Klingons – nem tanto pela sua nova aparência, mas principalmente pelas muitas e longas sequências protagonizadas pelo líder T’Kuvma (Chris Obi), onde falam pausadamente em seu idioma nativo. Também não gostei muito da trilha musical de Jeff Russo, compositor que não me parece adequado para este tipo de material – as únicas notas que me ficaram na memória são as do tema original de Alexander Courage, ouvidas ao final da sequência de abertura.

De resto, é esperar pelo próximos episódios, onde finalmente veremos a nave USS Discovery comandada pelo Capitão Lorca (o ótimo Jason Isaacs) e o início da redenção de Burnham. Star Trek: Discovery poderá ser a grande space opera televisiva que não temos desde o final de Battlestar Galactica, caso consiga superar a perda de sua maior força criativa – Fuller deixou o projeto no meio do desenvolvimento, ficando sua equipe, que inclui até mesmo o notável Nicholas Meyer (Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan) sob a responsabilidade de Alex Kurtzman e Akiva Goldsman, colaboradores há longa data de Abrams (cujo espírito se faz presente na série através do característico efeito lens flare). Q’Plah!

Jorge Saldanha

 

Anúncios