Música composta e regida por Alexandre Desplat, interpretada pela L’Orchestre National de France
Selo: Europacorp
Formato: CD, Digital, Vinil
Lançamento: 20/07/2017
Cotação:

Você é um dos que não suporta mais ir ao cinema, e lá só estar passando filmes de super-heróis, comédias sem graça, terror clichê e infinitas sequências de Velozes & Furiosos, Piratas do Caribe e Transformers? Acha que o cinema blockbuster hollywoodiano poderia muito bem ser oxigenado com ideias originais, sobretudo se vindas de criadores inventivos e ousados? Então Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets, 2017) é o filme feito para você! O longa é baseado numa série de quadrinhos franceses de aventura e ficção científica que, embora famosos em seu país de origem, são praticamente desconhecidos fora de lá. Dirigido pelo famoso Luc Besson, um fã das HQs desde a infância, Valerian conta a história do personagem-título (Dane DeHann) e de sua parceira Laureline (Cara Delevingne), dois agentes espaciais do século XXVIII, encarregados de manter a lei e a ordem. A dupla é enviada para Alpha, a cidade dos mil planetas do título, que recebeu este nome por abrigar espécies de todos os cantos do universo, com a missão de investigar as forças sombrias que podem estar querendo perturbar a paz do local. Infelizmente, as críticas ao filme foram mistas, e a bilheteria, decepcionante, praticamente inviabilizando novas aventuras dos agentes Valerian e Laureline por algum tempo nos cinemas. Mesmo assim, o longa já foi uma experiência válida, não apenas por tentar injetar o tal sopro de originalidade no cinema blockbuster, mas também por seu divertido e enérgico score de Alexandre Desplat, que certamente figurará na lista de melhores do ano de muita gente.

Desplat, um dos compositores mais bem sucedidos a emergir para a fama neste século, tem dividido sua vitoriosa carreira basicamente entre dramas, biografias, romances e/ou longas de época, e seu trabalho em filmes de ação, aventura e fantasia (com um ou outro longa de Wes Anderson aqui e ali, para variar um pouco). Tendo composto trilhas de ótima qualidade para filmes como A Bússola de Ouro (The Golden Compass, 2007), A Origem dos Guardiões (Rise of the Guardians, 2012), Godzilla (idem, 2014) e as duas partes de Harry Potter e as Relíquias da Morte, o compositor estava prestes a encarar o maior desafio de sua carreira em Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016), no qual seria o primeiro compositor além de John Williams a musicar um longa live action da saga espacial. Entretanto, os incontáveis problemas na produção impediram que ele conseguisse entrar na ocupada agenda do músico, levando-o a ser substituído pelo onipresente Michael Giacchino. Aparentemente, Desplat estava realmente determinado a escrever música para um filme de aventura espacial, pois logo após sua substituição em Rogue One ele foi oficializado em Valerian, levando a especulações de seus fãs de que ele reutilizaria alguns dos temas prévios que ele havia composto para o spin off de Star Wars.

Interpretada pela L’Orchestre National de France, a trilha de Desplat aqui é tudo o que um score para um blockbuster espacial de ação e fantasia deveria ser: enérgica, criativa, colorida, extremamente divertida, porém também complexa e instigante. Além disso, o francês também inclui uma boa quantidade de eletrônicos, inteligentemente misturados às porções orquestrais da trilha, e utilizados para adicionar tons exóticos aos mundos visitados por Valerian e Laureline. É possível que sejam também ecos da antiga parceria entre Besson e aquele que, até então, era o seu compositor preferido, Eric Serra.

A trilha é ancorada por um punhado de temas para acompanhar as aventuras dos agentes. O próprio Valerian possui dois, um mais cômico e divertido, e o outro mais heroico. Há também uma espécie de love theme para ele e Laureline, além de um tema para os Pearls, as criaturas do planeta Mul nas quais o plot do longa se centra.  Ambos os temas de Valerian são os mais frequentes no disco. O primeiro é mais presente nas faixas iniciais: em Reading the Memo ele aparece em flautas, acompanhado por percussão e os pulsos eletrônicos que se tornaram marca registrada de Desplat desde ao menos Reencarnação (Birth, 2004), indicando que uma grande aventura aguarda o agente espacial. Na faixa seguinte, Big Market, o tema surge inicialmente em piano e cordas, antes de retomar os tons divertidos e auto importantes, numa integração entre orquestra e percussão eletrônica moderna que me lembrou de trechos da trilha de O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012), de James Horner. Em ambas as ocasiões, dois compositores veteranos e “tradicionais” quiseram adicionar sonoridades urbanas aos seus scores, com bons resultados tanto para Horner quanto agora para Desplat. Finalmente, em Flight Above the Big Market, o tema surge numa grandiosa interpretação para orquestra, relembrando a música de Desplat para a fuga de dragão do banco Gringotes na segunda parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte, antes que a faixa retome os tons mais urbanos na metade final.

Após estas faixas iniciais, tal tema é substituído por um outro também ligado ao herói, porém agora mais heroico, masculino e vigoroso – de longe, o melhor do score. Sugerido aos 1:32 de Flight Above the Big Market, ele ganha uma introdução mais apropriada na faixa seguinte, Showtime, onde, nas trompas, sugere os feitos do agente. Depois disso, quase todas as suas performances na trilha são memoráveis, como na empolgante e heroica Valerian’s Armor, onde ganha uma gloriosa performance completa para orquestra, coro e percussão eletrônica. Tal tema também surge como uma fanfarra heroica para o protagonista em faixas como Spaceship Chase e Boulanbator Combat, além de algumas aparições mais sutis em rápidos momentos de Pearls Attack, Medusa e Fishing for Butterflies. Já em I Am a Soldier, ele ganha um arranjo mais terno e melancólico para cordas e piano.

O tema de amor dos dois agentes consiste numa melodia tipicamente “desplatiana”. Em Shoot, ele é ouvido primariamente nas cordas, enquanto na triste Bubble ele aparece em um tocante arranjo para orquestra e piano. Porém, se por um lado este love theme funciona como um respiro em meio a tanta ação e aventura no álbum, por outro ele também não é particularmente memorável, podendo pertencer a qualquer uma das incontáveis trilhas do compositor para filmes de drama ou romance. Afinal, se o relacionamento entre Valerian e Laureline é o coração das aventuras dos agentes, então imagino que ele merecia um tema um pouco mais desenvolvido.

Finalmente, o tema dos Pearls surge pela primeira vez aos 0:42 de Pearls on Mül, em meio a uma surpreendentemente delicada e pastoral melodia para orquestra e eletrônicos, que provavelmente fará o ouvinte desavisado pensar que está ouvindo o disco errado. Entretanto, a partir de sua segunda metade, a faixa muda para tons progressivamente mais pesados, trazendo uma marcha para coral, percussão e metais, que me lembraram de James Newton Howard e seu O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010). A partir daí, o tema dos Pearls perde seu estilo mais idílico, e passa a ser ouvido de forma mais violenta e agressiva: em Pearls Attack, por exemplo, ele é reorquestrado como um rápido e furioso motivo de ação para violinos e depois trompetes. Mais adiante, em Pearl’s World, ele é ouvido em meio a texturas orquestrais frias e dissonantes, indicando que algo não vai bem no planeta das criaturas. Mais para o final da faixa, o tema até recupera seus tons mais otimistas, porém logo são esmagados por mais música de ação para percussão e metais.

Já em The City of 1000 Planets, ele é ouvido numa triste e solitária celesta, em meio a sombrios ostinatos de cordas não muito diferentes daqueles que Desplat empregou em faixas como Obliviate, The Grey Lady e Severus and Lily, de seus dois scores para Harry Potter. Porém, o grande momento de tal tema se dá em Pearl’s Power, numa imponente performance para orquestra, coral e algumas sonoridades eletrônicas exóticas, que haviam estado ausentes da trilha desde a primeira faixa.

No entanto, o grande trunfo deste score certamente são suas excelentes faixas de ação. Quem já é familiarizado com os trabalhos do músico em filmes de aventura e fantasia conhece a qualidade e a complexidade de sua escrita. Nesse aspecto, o trio composto por Showtime, Valerian in Trouble e Bus Attack é particularmente eficiente: as duas primeiras faixas constroem sua tensão, ficando progressivamente mais intensas, culminando num excitante e enérgico clímax na terceira, incluindo algumas passagens particularmente brutais para percussão e metais reminiscentes dos trabalhos do músico em filmes como Firewall: Segurança em Risco (Firewall, 2006) e Godzilla. Tal faixa também introduz, aos 1:35, um motivo para trompas não muito diferentes dos metais ouvidos nos scores de Elliot Goldenthal para filmes de ação e ficção científica, e que virá a se tornar recorrente ao longo do restante da trilha. Mais adiante, as mencionadas Valerian’s Armor e Spaceship Chase estão entre os grandes destaques do disco – e as complexas orquestrações de metais na segunda, eloquentemente combinadas com texturas eletrônicas, mostram como Desplat é um dos melhores e mais inteligentes compositores na atualidade.

Medusa, por sua vez, é a faixa mais “convencional” da trilha, trazendo um crescendo zimmeriano para orquestra e coral que não ficaria fora de lugar no clímax de algum filme de super-heróis recente, da Marvel ou da DC. Depois, Boulanbator Combat alterna entre fanfarras heroicas para os protagonistas e violentas e tribais passagens para percussão, no melhor estilo da música de Desplat para a cena da batalha dos ursos em A Bússola de Ouro.

Porém, mesmo quando não está criando enérgicas faixas de ação, Desplat consegue manter sua música sempre interessante, através de trechos repletos de criatividade. Arriving on Alpha, por exemplo, traz algumas misteriosas texturas para cordas, sopros, harpas e os tais pulsos eletrônicos do compositor. Já Submarine investe em orquestrações atmosféricas e enigmáticas, embora, na segunda metade da faixa, elas deem lugar à uma furiosa passagem de ação. Finalmente, a surpreendente Le Souper du Roi combina orquestra com percussão tribal e flautas de sonoridade exótica, acompanhadas por um motivo no baixo estranhamente similar à canção-tema de A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991), composta por Alan Menken.

Finalmente, a longa Final Combat encerra o disco, construindo a tensão progressivamente, até atingir um clímax tão vigoroso quanto o restante da trilha havia sido até então, além de trazer as últimas performances dos principais temas, incluindo o tema heroico de Valerian e o dos Pearls. No entanto, particularmente, não achei que a resolução de toda a construção da faixa foi exatamente satisfatória e, com isso, o disco acaba encerrando-se de forma mais abrupta do que eu gostaria. Isso destaca um outro problema, que me impede de dar-lhe uma nota maior: a falta de uma conclusão mais desenvolvida. Tal problema poderia ser sanado por uma suíte, quer seja para os créditos finais, quer seja para o álbum, que costuraria todos os temas da trilha, e os tornaria ainda mais memoráveis.

Infelizmente, esse não parece ser exatamente um hábito de Desplat, mesmo em blockbusters, cujos créditos finais são acompanhados ora por canções (A Origem dos Guardiões, A Bússola de Ouro), ora por trechos anteriores da trilha montados pelo editor musical (As Relíquias da Morte Parte 1, Godzilla). Valerian, porém, é o score que mais sofreu com a falta de uma suíte para concerto, que não apenas deixaria a audição do disco mais satisfatória, como também tornaria a trilha mais memorável para futuros ouvintes.

Deixando este problema de lado, a trilha de Desplat ainda permanece como uma das melhores e mais imaginativas de todo o ano até agora. O sujeito mais uma vez se reafirma como um dos mais criativos e inteligentes compositores cinematográficos do século, e aqui se encontra tão inspirado como sempre. É uma pena que talvez não vejamos mais aventuras de Valerian e Laureline nas telonas mas, caso alguma sequência milagrosamente aconteça, só poderemos torcer para que Desplat seja trazido de volta para continuar desenvolvendo seu trabalho para os agentes. Se isso não acontecer, que ao menos fique a lição para que Hollywood enxergue que o grande talento do compositor poderia agraciar muito mais blockbusters do que até agora.

Faixas:

Disco 1:
1. Big Market 2:05
2. Space Oddity (David Bowie) 5:18
3. I Feel Everything (Cara Delevingne) 3:02
4. Jamming (Bob Marley) 3:19
5. Bus Attack 3:08
6. We Trying to Stay Alive (Wyclef Jean) 3:13
7. Arriving on Alpha 2:06
8. A Million on My Soul (Radio Edit) (Alexiane) 2:59
9. Rappcats (Instrumental) (Quasimoto) 2:02
10. Bubble Dance (Julien Rey) 2:25
11. Spaceship Chase 3:33
12. The World (Is Going up in Flames) (Charles Bradley) 3:22
13. A Million on My Soul (Alexiane) 4:07
Duração: 40:39

Disco 2:
1. Medusa 1:59
2. Pearls On Mul  7:36
3. Reading the Memo  1:23
4. Flight Above the Big Market 2:44
5. Showtime 2:38
6. Valerian In Trouble 1:38
7. Pearls Attack 4:05
8. Valerian’s Armor 2:09
9. Submarine 3:00
10. Shoot 1:35
11. Fishing for Butterflies 1:58
12. Le souper du Roi 1:59
13. Boulanbator Combat 3:02
14. Bubble 2:32
15. Pearl’s World 6:24
16. The City of 1000 Planets 3:50
17. I Am a Soldier 2:04
18. Pearl’s Power  1:49
19. Final Combat 7:06
Duração: 59:31

Duração Total: 100:10

Tiago Rangel

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