Twin Peaks – The Return, EUA,  2017
ElencoKyle MacLachlan, Sheryl Lee, Michael Horse, Chrysta Bell, David Lynch, Robert Forster, Kimmy Robertson, Naomi Watts, Laura Dern, Al Strobel, Catherine E. Coulson, Sherilyn Fenn
Roteiro: David Lynch, Mark Frost
Direção:  David Lynch
Cotação:

Nesta madrugada, enquanto eu via o sensacional episódio final de TWIN PEAKS – O RETORNO (2017), eu ouvia os ventos da madrugada soprando forte, meio que construindo uma trilha sonora incidental/acidental junto aos silêncios das cenas, e dando um ar ainda mais misterioso para aquele momento tão especial. Principalmente em um cena em particular: a que mostra o Agente Dale Cooper num carro com Laura Palmer/Carrie Page. Eles estão em silêncio na escuridão de uma estrada que vai levar a Twin Peaks. Em determinado ponto, um carro parece estar seguindo os dois. E a câmera muda de perspectiva para a lateral do carro, apontando para a escuridão do banco de trás. O medo de que alguma coisa muito terrível brotasse dali tomou conta de mim. Mas a sensação de maravilhamento supera os medos, como sempre, nos trabalhos de Lynch.

Muito injusto falar deste acontecimento – seria uma série ou um filme em 18 partes? – tão especial e tão cheio de nuances de cenas antológicas e outras que merecem ser revistas para serem melhor apreciadas e entendidas, também pela excelência da direção de arte e de tudo o mais que faz com que TWIN PEAKS – O RETORNO seja o trabalho do diretor que mais se aproxima de uma pintura, inclusive com várias cenas que remetem aos quadros e a seus primeiros curtas-metragens. Para alguns, os efeitos especiais até vão parecer toscos, mas tudo ali é feito com total consciência.

Pode até ser injusto falar em tão poucas linhas da mais significativa produção audiovisual do ano – e provavelmente da década -, mas, pAra mim, isso se faz necessário, principalmente se queremos estender essa experiência maravilhosa que foram as semanas em que as segundas-feiras se tornaram o melhor dia da semana. Podemos começar, então, falando das expectativas do retorno de TWIN PEAKS, depois de todo esse tempo. Mesmo sabendo que Lynch é craque em frustrar as expectativas da audiência. Mas para fazer algo melhor e revolucionário.

Assim, TWIN PEAKS – O RETORNO começa com quase nada de Twin Peaks, a cidadezinha fictícia que se tornou célebre em todo o mundo. Demoramos a ver os personagens ou eles aparecem muito rapidamente em cenas muitas vezes fragmentadas. Aos poucos percebemos que a importância deles será diminuída nesta nova encarnação da série. O humor, ainda que exista, principalmente na figura de Dougie, o doppelgänger que representa a inocência e a pureza dentro de um mundo em que impera a maldade, é diminuído, em comparação com a série clássica.

Mas o mais perturbador de toda essa história de duplos (que só cresce à medida que a série se aproxima do final) é que Dougie é um personagem praticamente odiado pela audiência, já que é dentro dele que está o espírito de Dale Cooper, nosso herói e único protagonista de verdade da série. Tanto que o nome de Kyle MacLachlan é o único nome que aparece em destaque nos créditos. Os demais aparecem pequeninos, em ordem alfabética, sendo necessário apertar o botão de pause para que possamos ler com atenção. Como alguns atores e atrizes da série clássica (ou do filme, no caso de David Bowie) morreram durante ou muito antes da série ser finalizada, há vários episódios dedicados em memória a eles e elas. O mais bonito, certamente, é o episódio dedicado à Log Lady, Margaret Lanterman (a atriz Catherine E. Coulson sofria de doença terminal quando gravou as cenas).

Alguns dizem que TWIN PEAKS – O RETORNO não é uma série, mas um filme dividido em 18 partes. O próprio Lynch parece ter dito algo parecido. Mas a verdade é que talvez não seja nenhuma coisa nem outra. Ou seja as duas coisas, já que, embora haja alguns ganchos, cada episódio tem uma cara própria, uma mensagem própria, por assim dizer. Peguemos um episódio revolucionário como o oitavo, que certamente será estudado por muito estudiosos de cinema e de outras artes como um exemplo de tudo que não se esperaria de uma série de televisão, entre outras ousadias e belezas. Além de ser grandioso na abordagem do grande tema da série, que é a criação e a disseminação do mal na humanidade.

Esse mal aparece na figura de vários homens extremamente violentos e no modo como as mulheres são vistas constantemente molestadas por eles. Aliás, essa questão da mulher na série é um assunto bem delicado e um dos que mais incomodaram a alguns espectadores. Falta uma personagem feminina forte nesta nova roupagem de TWIN PEAKS. Antes havia uma galeria delas, em especial Audrey (Sherilyn Fenn). E o que vemos de Audrey na série é algo muito doloroso de ver. Doloroso e perturbador.

A própria ideia – que se confirma – de que Richard, o filho psicopata de Audrey, teria sido gerado pelo demônio BOB no domínio do corpo de Cooper enquanto ela estava em estado de coma é horrível de pensar. Mas a série vai mais além neste quesito, ao falar também do estupro que esse bad Cooper, também chamado de Mr. C em alguns veículos, teria feito a Diane (Laura Dern).

Voltando ao aspecto episódico de TWIN PEAKS – O RETORNO, talvez seja interessante ver cada episódio como uma faixa de um álbum. Você pode escolher um aleatoriamente um deles para rever em qualquer dia, e isso não diminuiria o prazer da revisão. Uma vez que a série termina, a vontade que temos é de ver tudo de novo. Aí temos a questão das canções, excelentes, que são parte integrante das emoções e de algumas cenas memoráveis desta nova encarnação de TWIN PEAKS. A maior parte delas acontece no bar chamado The Roadhouse. Nele, vemos passar por nossos olhos e ouvidos artistas como Nine Inch Nails, Eddie Vedder, Lissie, Trouble, Chromatics, Rebekah Del Rio, entre outros. É o caso de ficar de olho também na deliciosa trilha sonora.

Porém, curiosamente, a música, por mais que apareça sempre nos episódios, é muito discreta e econômica ao longo da trama. Aqui, Lynch e Mark Frost (é sempre bom lembrar que ele é um dos criadores e corroteiristas) preferem os silêncios que funcionam para dar um ar de gravidade à maioria das cenas. O espaçamento de segundos entre uma fala e outra de um diálogo, por exemplo, principalmente quando está em cena Gordon (o próprio Lynch), é parte da graça da série, e torna a música de Angelo Badalamenti, se um pouco ausente, mais valorizada, já que na segunda temporada da série os produtores usavam um dos temas principais de maneira abusiva, o tempo todo. Assim, talvez o momento em que ela aparece com mais emoção seja no retorno definitivo de Cooper. Os fãs em todo o mundo devem ter vibrado e enchido seus corações de muito amor.

Mas Lynch não é um diretor que quer fazer um final convencional. Principalmente o Lynch que já passou por obras que desafiaram as noções do espaço e do tempo cronológico, como ESTRADA PERDIDA (1997), CIDADE DOS SONHOS (2001), RABBITS (2002) e IMPÉRIO DOS SONHOS (2007). Assim, o que menos se poderia esperar deste retorno de TWIN PEAKS seria todo o elenco abraçado e comemorando com alegria a vitória contra as forças do mal, por mais que tenhamos assistido, sim, algumas vitórias muito bonitas. E outras parece que vão funcionar, mas não ocorrem como planejado, como é o caso das cenas da viagem no tempo de Cooper, para o ano de 1989, poucos momentos antes da morte de Laura Palmer. Cenas sensacionais, aliás.

Em vez disso, somos lançados a um território ainda mais perturbador, em que a própria noção de identidade passa a ser questionada. Uma coisa é vermos isso em um longa-metragem, como ESTRADA PERDIDA ou CIDADE DOS SONHOS. Outra é vermos personagens que nos apegamos ao longo de décadas passarem por algo parecido. Lynch, nosso malvado favorito, mestre dos sonhos e senhor do medo e da beleza no bizarro, conseguiu de novo. A este senhor eu deixo meu muito obrigado. É graças a pessoas como ele que o ser humano consegue transcender não só sua mortalidade, como também as noções de criatividade e invenção.

Ailton Monteiro

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