Música composta por Michael Giacchino
Selo: Sony Masterworks
Formato: CD, Digital
Lançamento: 07/07/2017
Cotação:

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, 2017) é o último capítulo da trilogia prelúdio da franquia símia, focada na decadência da raça humana e na ascensão dos macacos, liderados pelo mítico César (Andy Serkis). Na trama, após um ataque devastador cometido por um impiedoso Coronel (Woody Harrelson), que vitima os familiares de César, o líder símio parte em busca de vingança contra o militar, e o encontra liderando uma espécie de campo de trabalhos forçados para os macacos. O confronto final entre os dois adversários, assim, irá definir o destino de ambas as espécies na guerra pelo domínio do planeta. Novamente dirigido por Matt Reeves, o longa foi aclamado pela crítica, embora seu tom pesado e violento possivelmente tenha contribuído para uma bilheteria menor que a dos seus predecessores. O colaborador de Reeves, Michael Giacchino, comanda a trilha sonora.

É seguro dizer que, de todas as incontáveis trilhas que Giacchino escreveu para blockbusters de ação nos últimos anos, a de Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn for the Planet of the Apes, 2014) é uma das menos queridas. Apesar de funcionar exemplarmente bem no contexto do longa, em disco  ela trazia uma experiência particularmente desafiadora em disco, alternando entre momentos de suspense e horror com outros mais emocionais – o trabalho cinematográfico de Giacchino mais parecido com seus scores para a série Lost, juntamente com Super 8 (idem, 2011). Embora eu ache que muitas das críticas à trilha são exageradas (as dissonantes faixas de ação são ótimas, e o tema principal já “vale o ingresso”), devo concordar com meus pares que dizem que o trabalho do compositor para a sequência é superior ao de seu predecessor.

Em A Guerra, Giacchino utiliza os temas e o estilo de O Confronto como ponto de partida, expandindo o que foi estabelecido no score anterior, acrescentando novas e interessantes ideias e, principalmente, fechando o arco por ele iniciado de forma satisfatória – o que, basicamente, é o que toda trilha para um “capítulo final” deveria fazer. Se ao menos ele tivesse trabalhado no primeiro filme da nova trilogia (cujo bom score foi de autoria de Patrick Doyle), creio que este encerramento musical poderia ser ainda mais envolvente. Aliás, o trabalho aqui do sujeito encaixou-se tão bem na proposta do longa que ele conseguiu conquistar elogios de muitos críticos de cinema, como os do Birth. Movies. Death., The Hollywood Reporter, e também por críticos brasileiros, como Thiago Siqueira do Cinema com Rapadura e Pablo Villaça, do Cinema em Cena, que ressaltaram a importância da música de Giacchino para enfatizar a atmosfera triste do filme.

Tematicamente, este é um dos trabalhos mais fortes e interessantes de Giacchino em algum tempo, possivelmente por ser uma das poucas trilhas de sua carreira que constroem a partir de outro trabalho anterior seu – a nova trilogia de Star Trek e a série Missão: Impossível são longas mais fechados em si mesmos, e não trazem exatamente um arco narrativo entre seus filmes, ou ao menos um tão visível quanto na atual franquia dos macacos. Dessa forma, dois temas de O Confronto retornam aqui. O primeiro, apelidado de “grande tema emocional” por alguns críticos, em A Guerra é firmemente estabelecido como o principal tema da espécie dos macacos, e seu desejo de superar as dificuldades e viver pacificamente. O segundo, introduzido na primeira faixa do disco anterior, é um melancólico motivo para a raça humana, que, lenta e dolorosamente, vem cedendo seu lugar como a espécie dominante do planeta.

Trechos do tema dos macacos são ouvidos aqui e ali ao longo da trilha, acompanhando momentos importantes para os primatas na narrativa, como em Apes’ Past is Prologue, Exodus Wounds, nos instantes finais de Apes Together Strong e Planet of the Escapes, e nos segundos iniciais de A Tide in the Affairs of Apes. Seu grande momento, porém, se dá em The Ecstasy of the Bold, que em seus segundos iniciais podemos até pensar que estamos ouvindo à icônica peça de Ennio Morricone parodiada no título, antes de esta abrir caminho para uma grandiosa performance do tema dos macacos em orquestra, percussão e coro masculino. Ao fim do álbum, ela se torna a base do belo encerramento, Paradise Found, que funciona quase como uma versão mais otimista da Primates for Life do filme anterior. Já o tema dos humanos infelizmente é pouco presente aqui, ouvido apenas num melancólico piano, aos 4:36 de A Man Named Suicide, num momento representativo de que o fim havia chegado para a raça humana.

Além disso, um punhado de novos e ótimos temas aparecem aqui. Finalmente, César ganha seu próprio tema pessoal, uma melodia de tons quase religiosos que o estabelecem como o lendário líder símio – imagino que, se Giacchino escrevesse o score de algum épico bíblico, ele não iria diferir muito deste tema do César. No disco, ele é introduzido logo ao início da ótima Exodus Wounds, primeiramente de forma intimista no piano, com acompanhamento de cordas, mas depois de forma grandiosa com orquestra e coral, antes de voltar ao minimalista novamente, conforme o protagonista parte em sua perigosa missão de vingança. Mais adiante, ele recebe uma performance melancólica no piano ao fim de Don’t Luca Now e depois de forma levemente mais otimista em Planet of the Escapes, antes de seu grande momento, em More Red than Alive, no qual ganha sua interpretação mais heroica e épica até então. Além disso, sua combinação com o tema dos macacos ao final de Paradise Found é particularmente excelente.

A garotinha muda Nova (Amiah Miller), que passa a ajudar os macacos, também ganha seu próprio tema. Trata-se de uma melodia bastante melancólica e triste, porém ao mesmo tempo inocente, quase como uma cantiga de ninar. Poderia até mesmo ser um dos temas do compositor para Divertida Mente (Inside Out, 2015). No entanto, além de ser uma melodia de rara beleza dentre a coleção de Giacchino, ela também traz um toque de inteligência ao compartilhar suas duas primeiras notas com as do tema humano, porém seguindo depois por um caminho mais esperançoso e infantil – sendo, portanto, uma variação mais otimista deste. Desta forma, o músico consegue aludir não apenas à origem da menina, como também diferenciá-la dos outros personagens humanos, sendo a única dentre eles que ainda demonstra um pouco de, bem, humanidade.

No disco, ela é ouvida logo ao início de The Posse Polonaise e Don’t Luca Now, bem como ao final de A Tide in the Affairs of Apes, sempre de forma minimalista, em piano e harpa. Mas sua melhor interpretação se dá em Apes Together Strong, que acompanha o grande momento da personagem no longa, conforme ela fornece grande ajuda para César. Assim, nesta faixa, nós ouvimos o tema inicialmente apenas em xilofone e harpa, mas depois em oboé e com toda a orquestra, ganhando tons mais decisivos e grandiosos.

Uma das muitas referências de Reeves ao criar seu longa foram os antigos filmes western, como aqueles estrelados por Clint Eastwood, representando, portanto, a oportunidade perfeita para Giacchino se inspirar em Morricone. O principal resultado disso é um tema vigoroso para metais, violões, percussão e coros claramente inspirados na música do maestro italiano para os westerns de Sérgio Leone, ouvido durante as viagens à cavalo entre César e seus companheiros, enquanto caçam o Coronel. Sua melodia, aliás, lembra até mesmo o tema principal de Morricone para o obscuro thriller italiano La Moglie Piu’ Bella, de 1970, conforme apontou o crítico Jon Broxton em seu texto. Embora não seja um faroeste, tal longa serve de indicativo das músicas que Reeves quis que seu compositor tivesse como referência ao compor o score. No disco, este “tema de viagem” é introduzido aos 3:30 de Exodus Wounds, e depois encontrado em The Posse Polonaise e Don’t Luca Now, além de ganhar um arranjo de ação em The Bad Ape Bagatelle. No entanto, na segunda metade do disco (e do filme), ele não aparece mais, conforme o longa passa a se ambientar no sinistro forte do vilão.

O Coronel também ganha seu próprio tema, embora, de tão sutil, ele seja de difícil percepção. Aliás, não exatamente um tema, mas sim mais um motivo sinistro e ameaçador, composto por cinco notas ouvidas principalmente na percussão, utilizado ou quando ele aparece em cena, ou quando é mencionado. Ele aparece pela primeira vez nos tímpanos aos 3:17 e depois aos 7:18 de Apes’ Past is Prologue, e traz uma presença imponente e perigosa para a faixa seguinte, Assault of the Earth, também na percussão. Apenas em Koba Dependent, porém, é possível ouvir no disco uma interpretação do motivo do vilão em outro instrumento além do tímpano, no caso, em sinistros e gélidos violinos. Assim, não consigo deixar de pensar que um antagonista tão importante e complexo quanto o Coronel merecia um tema um pouco mais evidente. Da forma como está, seu motivo aqui poderia ser a intro para o tema do Abutre de Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017).

Sendo um dos poucos devotos restantes da arte quase perdida na Música de Cinema hollywoodiana de escrever uma suíte para os créditos finais, Giacchino aqui encerra sua trilha com uma bela suíte, que inclui três temas. O tema de Nova abre a peça numa performance triste e dramática para orquestra, piano e coro, além de algumas sutis texturas eletrônicas, e é seguido por uma variação em forma de valsa do tema de viagem, e uma reprise do tema dos macacos, no mesmo arranjo de The Ecstasy of the Bold.

Ainda assim, se você for fã da música de Giacchino para os incontáveis blockbusters de aventura, ficção científica e super-heróis que ele escreveu nos últimos anos, provavelmente irá achar sua trilha aqui um pouco menos empolgante que o habitual. Se no meu texto sobre seu score para Homem-Aranha reclamei que a trilha não trazia momentos de grande peso dramático, talvez tenha sido por que ele salvou todos eles para este Planeta dos Macacos, um trabalho bem mais sombrio do que o habitual para Giacchino. Isso se reflete não apenas nos tons mais melancólicos ouvidos aqui, como também no maior enfoque dado a momentos de tensão e suspense.

Reeves aparentemente aprecia o estilo mais low key do compositor, quando este se foca em criar texturas ameaçadoras utilizando cordas, percussão, eletrônicos e alguns instrumentos exóticos (tal como em Lost, portanto). Afinal, suas colaborações com o compositor nos dois longas da franquia símia e em Deixe-Me Entrar (Let Me In, 2010) trazem alguns dos momentos mais sutis e menos chamativos da carreira de Giacchino. No entanto, não posso deixar de discordar do diretor: particularmente, creio que Giacchino se sai melhor escrevendo temas grandiosos para orquestras enormes, excitantes faixas de ação ou suas coloridas e emocionais melodias para as animações da Pixar.

O sujeito até se esforça para tornar seus momentos de suspense mais excitantes: Apes’ Past is Prologue possui alguns trechos com corais no melhor estilo Ligeti, que já haviam marcado presença na trilha de O Confronto. A faixa seguinte, Assault of the Earth, tempera sua tensão com algumas frases quase tribais para flautas, numa tentativa de lembrar a clássica trilha de Jerry Goldsmith para o primeiro filme da franquia, de 1968. Já as faixas de ação em si são poucas e espaçadas, ainda mais para os padrões de Giacchino: além da citada The Bad Ape Bagatelle, tanto A Tide in the Affairs of Apes e Planet of the Escapes combinam orquestra e alguns instrumentos exóticos para retratar o plano de fuga dos macacos, embora não tragam o estilo tradicional de música de ação que o compositor tem entregado nos muitos blockbusters em que trabalhou.

Curiosamente, os créditos finais do longa indicam que a primeira faixa do disco foi de autoria do pequeno Griffith Giacchino, o filho de 12 anos do compositor. Giacchino, dando uma de pai coruja, aparentemente tem procurado seguir os passos de Jerry Goldsmith e Elmer Bernstein de iniciar seus filhos na arte da Música de Cinema, talvez até fundar uma nova dinastia musical, no melhor estilo da família Newman. Afinal, seus filhos já haviam contribuído com música adicional e orquestração em scores como o próprio Planeta dos Macacos: O Confronto, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015) e Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Por outro lado, eu acho particularmente difícil de acreditar que o jovem Griffith tenha escrito sozinho 10 minutos de música para o longa, ainda mais para a sempre tão importante sequência de abertura (fundamental para conquistar o espectador logo nos primeiros minutos da história). Afinal, os produtores, o diretor e a 20th Century Fox não permitiriam que um tempo tão grande da projeção de seu caríssimo blockbuster de verão fosse musicado por um garoto de 12 anos… Ou deixariam?

Seja como for, a trilha de Planeta dos Macacos: A Guerra, ainda que distinta dos outros trabalhos do músico, ainda é uma ótima adição ao seu currículo cada vez mais lotado de franquias importantes. Além dos seus ótimos temas e um rico conteúdo emocional, a forma como Giacchino encerra a saga de César aqui retroativamente torna ainda melhor seu trabalho em O Confronto. Menos expansivo, porém mais melancólico do que seria o costume para seu compositor, esta é certamente uma das melhores trilhas sonoras da atual temporada em Hollywood.

Faixas:

1. Apes’ Past is Prologue  10:53
2. Assault of the Earth  5:29
3. Exodus Wounds  4:23
4. The Posse Polonaise  1:39
5. The Bad Ape Bagatelle  1:13
6. Don’t Luca Now  3:53
7. Koba Dependent  2:54
8. The Ecstasy of the Bold  1:57
9. Apes Together Strong  7:12
10. A Tide in the Affairs of Apes  5:31
11. Planet of the Escapes  2:42
12. The Hating Game  2:04
13. A Man Named Suicide  5:32
14. More Red Than Alive  2:41
15. Migration  2:03
16. Paradise Found  5:35
17. End Credits  9:30

Duração: 75:11

Tiago Rangel

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