STAR TREK II: THE WRATH OF KHAN
Produção: 1982
Duração: 116 min.
Direção: Nicholas Meyer
ElencoWilliam Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, Ricardo Montalban, Bibi Besch, Paul Winfield, James Doohan, Nichelle Nichols, George Takei, Walter Koenig, Kirstie Alley, Merritt Butrick, Ike Eisenmann
Vídeo: 2.40:1 (1080p/AVC MPEG-4)
Áudio: Inglês (DTS-HD Master Audio 7.1), Francês (Dolby Digital 2.0), Português, Espanhol (Dolby Digital 1.0)
Legendas: Português, Inglês, Espanhol, Francês
Região: A, B, C
Distribuidora: Paramount
Discos: 1 (BD 50GB)
Lançamento: 13/06/2016
Cotações: Som: **** Imagem: **** Filme: ***** Extras & Menus: ****½ Geral: ****½

SINOPSE
Encarregado de tarefas meramente burocráticas na Frota Estelar,  o Almirante James T. Kirk começa a acreditar que cavalgar pelo cosmos é um jogo para os jovens. Até que numa viagem de rotina para inspecionar a U.S.S. Enterprise, a carreira de Kirk entra em um novo capítulo quando ele reencontra um antigo inimigo, Khan Noonien Singh, um conquistador do século 20 geneticamente alterado. Escapando do mundo distante onde foi abandonado por Kirk, Khan planeja capturar o Projeto Gênesis, um artefato que pode criar e destruir um planeta num piscar de olhos, e vingar-se do seu velho “amigo”.

COMENTÁRIOS
“A vingança é um prato que se serve frio – Velho ditado klingon”. Não, não estamos falando de Kill Bill: Vol. 1, do Quentin Tarantino, mas sim do filme que introduziu este “antigo ditado klingon” (na verdade de origem russa, segundo o Sr. Chekov) na cultura pop mundial. Muitos alegam que os filmes originais de Star Trek (ou, como a franquia era conhecida no Brasil,  Jornada nas Estrelas), como cinema em si, não são grande coisa. Isso até pode ser verdade em alguns casos, mas não pode ser negado o fato de que, deficiências à parte (a maior delas: os filmes são melhor apreciados pelos fãs que acompanharam as séries de TV), alguns de seus títulos possuem méritos suficientes para até influenciar outros gêneros cinematográficos, fornecendo momentos realmente inesquecíveis.

É o caso deste Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, que retoma um dos melhores episódios da Série Clássica, “Semente do Espaço”. Nele, a Enterprise encontra uma nave à deriva no espaço, tripulada por humanos geneticamente aprimorados, todos em animação suspensa. Descobre-se mais tarde que eles, liderados por Khan Noonien Singh (Ricardo Montalban), foram os responsáveis pela quase destruição da Terra durante as Guerras Eugênicas da última década do século XX, e que fugiram do planeta para evitar a condenação por seus crimes. Após terem sido revividos e resgatados pelo Capitão Kirk (William Shatner) e sua tripulação, eles tentam tomar a Enterprise para utilizá-la em seus planos de conquista. Mas Kirk estraga os seus planos, abandonando Khan e seus companheiros no planeta Ceti Alpha V, presumindo que lá eles sobreviveriam sem ameaçar mais ninguém. Porém, seis meses após Khan e seu povo terem sido deixados lá, um planeta vizinho explode e altera a órbita de Ceti Alpha V, o que o transforma num inóspito deserto. Quinze anos depois Khan e alguns ainda sobrevivem, e agora tudo o que ele quer é vingar-se do homem que ele julga ser o responsável por tudo: o Almirante James T. Kirk. Quando a nave estelar Reliant chega para examinar o planeta, achando que ele é Ceti Alpha VI (o que explodiu), Khan captura o Comandante Chekov (Walter Koenig) e o Capitão Terrell (Paul Winfield) e assume o controle da nave. Khan então descobre que a Reliant está envolvida nos testes de um aparelho experimental conhecido como Gênesis (criado pela mãe do filho de Kirk, a DrªCarol Marcus), que possui o poder de criar vida e também de destruí-la. Simultaneamente, Kirk leva a Enterprise, sob o comando do Capitão Spock (Leonard Nimoy), em uma viagem de treinamento, tripulada por um punhado de inexperientes cadetes da Frota Estelar – entre eles a tenente vulcana Saavik (Kirstie Alley). Khan, agora com um inimaginável poder em suas mãos e com a Enterprise em desvantagem tática, parte para a vingança.

Após o controvertido e caro Jornada nas Estrelas – O Filme, A Ira de Khan foi produzido com um orçamento de meros Us$ 12 milhões, bem menor em relação ao do primeiro longa (que custou Us$ 35 milhões), e com o objetivo principal de encerrar a franquia de forma pelo menos satisfatória. Tanto que até mesmo um dos personagens principais, Spock, morre ao final. Mas, para surpresa do estúdio, o filme foi um grande sucesso de público e crítica, e não demorou muito para a Paramount ressuscitar Spock em um novo filme. E o resto, como dizem, é história.

Dirigido por Nicholas Meyer, da cultuada ficção científica Um Século em 43 Minutos (1979), Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan possui de cara uma grande vantagem em relação aos outros filmes da franquia: um vilão convincente. Geneticamente alterado para possuir inteligência e força excepcionais, Khan é perfeitamente encarnado pelo falecido Ricardo Montalban, que após uma carreira medíocre no cinema e por ter ficado mais conhecido como o Sr. Roarke de A Ilha da Fantasia, teve aqui o seu maior papel. E William Shatner, para não ficar atrás, fornece a sua melhor e mais tocante interpretação de Kirk, estando à altura de Khan a cada reviravolta da trama, a cada round do embate. A direção de Meyer, indiscutivelmente o responsável pelos melhores momentos da franquia no cinema, seja atrás das câmeras ou como roteirista, é perfeita. O diretor, que quando assumiu o projeto nunca havia assistido um episódio sequer da série, colocou sua visão pessoal no projeto, o que desagradou ao criador de Star Trek, Gene Roddenberry.

A ação é filmada com grande estilo e o filme possui uma atmosfera sombria, de perigo latente. A linha de comando nas naves da Federação é mais militarizada, baseada na clássica tradição naval, e fica perfeitamente estabelecida; a Enterprise realmente parece ser uma nave militar e os combates espaciais, brilhantemente criados pela equipe da ILM, também seguem o estilo naval, como se tratasse de um duelo entre submarinos – algo no estilo do que vimos no episódio da Série Clássica “O Equilíbrio do Terror”. Meyer, aliás, reconhece que uma de suas maiores inspirações para A Ira de Khan foi o filme A Raposa do Mar (The Enemy Below, 1957), centrado num estratégico combate entre um destróier norte-americano e um U-Boat nazista. Como roteirista não-creditado, o diretor adicionou muitas referências à literatura clássica nos diálogos, o que enriqueceu a trama. E a clássica partitura do saudoso James Horner, que graças a ela ganhou fama e posteriormente comporia as trilhas de grandes filmes como Titanic, Coração Valente e Apollo 13, é absolutamente eletrizante.

Mesmo 35 anos após seu lançamento, Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, que aborda temas caros à natureza humana como vida, paternidade, envelhecimento, morte e, acima de tudo, amizade, continua demonstrando possuir qualidades suficientes para agradar mesmo a quem não é fã da franquia. Apesar de Khan ser o catalizador dos eventos da trama, seu núcleo está na genuína amizade entre Kirk e Spock, tratada com grande emoção e dramaticidade por Meyer ao longo do filme. Impossível alguém não ficar comovido, ao final, com as últimas palavras trocadas entre os dois amigos que se despedem – algo que J.J. Abrams tentou emular sem sucesso no seu Star Trek – Além da Escuridão (2013).

SOBRE O BD
Em junho de 2016, como parte das comemorações dos 50 anos da franquia Star Trek, a Paramount Home Entertainment relançou em Blu-ray nos EUA Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan. Por trazer opções de áudio e legendas em nosso idioma, inclusive nos extras, deduz-se que o plano era também disponibilizar esta edição aqui, o que infelizmente acabou não acontecendo. Em termos de conteúdo, a principal diferença estre este BD e o anterior de 2009 é que desta vez, além do corte original de cinema, foi incluída a “Versão do Diretor” anteriormente disponível apenas em DVD. Esta versão foi feita para a exibição do filme na rede ABC em 1985, sem qualquer envolvimento criativo de Nicholas Meyer. No entanto, o diretor aprovou e supervisionou seu lançamento tanto em DVD como em Blu-ray, legitimando-a. Ela é quase quatro minutos mais longa do que a original, e os acréscimos na maior parte são extensões de cenas – um momento ou dois com Scotty (James Doohan), quando Kirk faz a primeira vistoria a bordo da Enterprise, uma conversa um pouco mais longa entre Kirk, Magro (DeForest Kelley) e Spock sobre Gênesis, outro momento com Scotty e Magro na enfermaria após o primeiro ataque de Khan, e outros segmentos menores. O grande acréscimo é ficarmos sabendo que o cadete Preston (Ike Eisenmann) é sobrinho de Scotty, o que explica o sofrimento do veterano engenheiro pela trágica morte do rapaz no primeiro ataque de Khan à Enterprise. Você pode escolher qual a versão do filme assistir (via seamless branching) através dos menus.

Imagem

Quando a Paramount lançou os seis filmes clássicos de Star Trek em Blu-ray, em 2009, A Ira de Khan foi o único do pacote que recebeu uma nova remasterização a partir de um novo scan 4K, e sem surpresa era o que possuía a melhor qualidade de imagem. Para este relançamento, surpreendentemente, foi feita uma nova e completa remasterização 4K, provavelmente para que as cenas adicionais não destoassem em qualidade das da versão original. Como resultado temos uma nova transfer 1080p/AVC MPEG-4 que apresenta diferenças em relação à anterior – como demonstram algumas das imagens comparativas feitas pelo site TrekCore, aqui reproduzidas. Nota-se principalmente que sua imagem possui uma paleta de cores mais natural, menos saturada e sem as tonalidades azuladas que a do Blu-ray de 2009. Os tons de pele ficaram mais realistas, e mesmo com menor saturação ela por vezes providencia tons deslumbrantes, como no azul dos letreiros iniciais, no vermelho dos uniformes da Frota e no roxo-rosa-azul da Nebulosa Mutara. Na sequência do duelo final entre a Enterprise e a Reliant, a Nebulosa Mutara ganhou roxos levemente mais escuros, porém vivos, e a transição entre as cores são mais suaves.

A imagem preserva a granulação fílmica original, ainda que por vezes inconsistente. Algumas cenas apresentam um claro desfoque nas bordas, provavelmente devido ao tipo de película ou equipamento utilizados – é bom lembrar que o filme não teve um grande orçamento, e claramente buscou-se economizar em alguns valores de produção. De todas as edições, é nesta que a imagem ganhou seu maior nível de detalhes, o que se nota especialmente nas texturas de uniformes e exteriores de naves espaciais. Por outro lado, ficam mais aparentes a pobreza de alguns cenários e de alguns consoles de instrumentos. Já os efeitos visuais, em sua maior parte, resistiram bem ao ganho de definição e qualidade, sendo raras as ocasiões em que notamos algum tipo de recorte na sobreposição de elementos. Outra vantagem desta nova remasterização sobre a anterior é o ganho no contraste e na intensidade dos níveis de preto, o que já se percebe a partir dos créditos iniciais, que tem por fundo um vasto campo estelar. Danos de película ou artefatos digitais não foram notados.

Som

Se no quesito imagem notam-se diferenças em relação à edição anterior em Blu-ray, no que se refere ao áudio a qualidade da faixa original em inglês Dolby TrueHD 7.1 mantém as mesmas características. O score de James Horner é reproduzido com clareza e fidelidade, porém em alguns momentos carece de força na mixagem. A faixa de graves possui “peso” apenas moderado, e a atividade surround, mesmo em se tratando de uma faixa lossless 7.1, é limitada, inclusive nos momentos de ação. Os diálogos soam claros, porém em alguns momentos ficam mais abafados, devido provavelmente à captação original do som. Notei um pequeno atraso de áudio quando a Enterprise entra na Nebulosa Mutara, logo após o som de uma forte descarga elétrica, que consegui retificar retrocedendo a cena alguns segundos. Não sei se o problema é da mídia ou do meu reprodutor, um Pioneer BDP-140 (pode até ser uma combinação das duas coisas). Enfim, temos uma experiência sonora que é certamente satisfatória, mas que sente os efeitos da idade. Também temos disponíveis dublagens Dolby Digital em Francês (2.0), Espanhol e agora Português (1.0). Aliás, para os fãs das dublagens clássicas, uma boa surpresa: a dublagem em português que foi incluída é a original, de quando o filme foi exibido na TV brasileira nos anos 1980. Infelizmente nas cenas adicionais da Versão do Diretor, que nunca haviam recebido áudio em português, foram empregados novos dubladores.

EXTRAS
Esta nova edição em Blu-ray de Jornada nas Estrelas II inclui todos os extras da versão de cinema lançada em 2009 (boa parte deles trazida do antigo DVD duplo, em SD, mais algum material novo em HD) e dois bônus inéditos. Todos os vídeos tem opções de legendas em português (como os menus estão disponíveis apenas em inglês, mantive o título original dos featurettes):

  • Comentários em Áudio – Temos duas faixas de comentários: a que Nicholas Meyer gravou para o lançamento do filme em DVD, e a que foi feita para o Blu-ray de 2009, que além de Meyer traz um dos realizadores da série Enterprise, Manny Coto, que demonstra ser um verdadeiro fã que teve a sorte de acabar trabalhando na franquia. Temos muitas informações e curiosidades, mas a falta de legendas em português é um problema para quem não compreende o inglês;
  • Comentários em Texto (apenas na Versão do Diretor) – Uma das novidades exclusivas desta Versão do Diretor são informações e curiosidades exibidas em texto durante o filme, organizadas pela dupla de especialistas em Star Trek Michael e Denise Okuda. E, felizmente, tem a opção PT-BR;
  • Library Computer (apenas na Versão de Cinema) – recurso que, durante o filme, dá acesso a um índice de informações e curiosidades em texto – selecione o tópico desejado e a informação surgirá em uma janela pop up. Diferentemente dos comentários em texto da Versão do Diretor, aqui nada foi traduzido para o português;
  • Captain’s Log (SD, 27 min.) – Ótimo documentário que inclui depoimentos dos principais envolvidos (Meyer, Shatner, Montalban e Nimoy, entre muitos) sobre suas experiências na realização do filme;
  • Designing Khan (SD, 24 min.) – Segmento relativo à criação dos figurinos, cenários e direção de arte;
  • Original Interviews with William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley and Ricardo Montalban (SD, 11 min.) – Como o nome indica, temos aqui um conjunto de entrevistas de arquivo com os atores;
  • Where No Man Has Gone Before – The Visual Effects of Star Trek II: The Wrath of Khan (SD, 18 min.) – Featurette onde Ken Ralston e outros técnicos de efeitos visuais falam sobre seu trabalho no filme, utilizando fotos e vídeos de bastidores;
  • James Horner: Composing Genesis (HD, 9:50 min.) – Neste vídeo de 2009, o falecido compositor fala sobre a trilha sonora original do filme e seus métodos de trabalho (uso de temas, o acompanhamento musical de determinadas sequências, etc.);
  • Collecting Star Trek’s Movie Relics (HD, 11 min.) – O colecionador Alec Peters fala sobre como adquiriu ao longo dos anos centenas de objetos de cena da franquia;
  • A Novel Approach (SD, 29 min.) – Documentário focado em dois autores, Julia Ecklar e Greg Cox, que escreveram algumas das muitas novelizações de Star Trek;
  • Starfleet Academy SciSec Brief 002: Mystery Behind Ceti Alpha VI (HD, 3 min.) – Uma Oficial de Ciências explica algumas teorias sobre o que aconteceu a Ceti Alpha V e seus habitantes – Khan e seus seguidores;
  • Tribute to Ricardo Montalban (HD, 5 min.) – Nicholas Meyer lembra o ator falecido em 2009, ano em que foi gravado este vídeo;
  • The Genesis Effect: Engineering the Wrath of Khan (HD, 21 min.) – Temos aqui o principal novo extra desta nova edição em Blu-ray. Neste featurette gravado em 2016, temos o depoimento do diretor Meyer e de outras pessoas envolvidas diretamente com a produção de A Ira de Khan ou à franquia de um modo geral, ao longo de décadas. Vários tópicos são abordados (ficamos sabendo, por exemplo, que Ron Howard quase dirigiu o filme, e que Shatner detestou o script original), mas talvez o mais interessante seja o que trata do desgosto de Gene Roddenberry com o aspecto militarista que a franquia progressivamente estava adquirindo.

Os extras ainda incluem uma galeria de 13 Storyboards e o trailer de cinema (HD, 2:50 min.).

Jorge Saldanha

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