Música composta por Hans Zimmer, regida por Gavin Greenaway e Benjamin Wallfisch
Selo: WaterTower Music
Formato: CD, Digital
Lançamento: 21/07/2017
Cotação:

O épico de guerra Dunkirk (idem, 2017) é o mais novo filme do controverso, porém bem sucedido, diretor Christopher Nolan. Baseado num dos períodos menos abordados no cinema da Segunda Guerra Mundial, o longa retrata o difícil resgate das tropas inglesas da praia francesa que dá título ao filme, após estas serem encurraladas pelo avanço do exército alemão no início do conflito. Neste cenário, Dunkirk aborda três histórias distintas e paralelas. Na primeira, um grupo de jovens soldados tenta sobreviver enquanto aguarda pelo resgate, tendo de lidar com os bombardeios e com as incessantes balas dos alemães. Na segunda, dois garotos adolescentes acompanham o pai de um deles enquanto atravessam o Canal da Mancha, como parte do esforço dos civis para ajudar no resgate dos soldados. Finalmente, a última história traz dois pilotos ingleses com a missão de manter afastados os bombardeios dos alemães, para que o resgate possa ser bem sucedido. O filme traz um grande elenco, que inclui Kenneth Branagh, Cillian Murphy, Mark Rylance e Tom Hardy, e teve sua trilha composta por John Willi… brincadeira. Sendo este um filme de Nolan, obviamente que a trilha não seria de outro senão Hans Zimmer.

Dunkirk, que marca a sexta parceria da dupla, traz um componente especial para Zimmer, que escreveu algumas de suas melhores e mais aclamadas trilhas sonoras para filmes sobre guerras. E não apenas longas do gênero Guerra em si, como também aqueles que traziam conflitos bélicos em sua narrativa, como Gladiador (Gladiator, 2000) e Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean: At World’s End, 2007). Já suas trilhas para os filmes do tipo eram tão distintas quanto os longas que as acompanhavam. Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998) é um score reflexivo e atmosférico que ajudava o filme a meditar sobre a natureza da guerra; já Pearl Harbor (idem, 2001) é igualmente dramático, porém mais romântico e nostálgico, o mais próximo que Zimmer chegou de escrever uma trilha no estilo John Barry e James Horner. Anos depois, O Último Samurai (The Last Samurai, 2003), que até hoje considero como sua melhor trilha, é uma combinação das melhores características desses dois trabalhos anteriores. Já Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down, 2002) é mais agressivo, violento e experimental do que seus pares; porém, embora sua audição seja mais difícil do que a de outros trabalhos que o alemão desenvolvia naquele período, ainda permanece como um dos scores mais impactantes de sua carreira.

Superficialmente, a trilha de Dunkirk é mais próxima da de Falcão Negro do que das de Pearl Harbor ou Além da Linha Vermelha. Afinal, as preferências musicais de Nolan levaram seu compositor favorito a um caminho muito mais experimental e eletrônico, com resultados invariavelmente polêmicos. Particularmente, tenho sentimentos mistos pelas trilhas do músico para a trilogia do Batman comandada por Nolan, embora, aqui e ali, elas demonstrem momentos de genuína excelência. A Origem (Inception, 2010) ainda permanece como um score muito bom, muito embora sua força tenha se diluído desde o seu lançamento, após alguns de seus elementos mais marcantes terem se tornado clichês de trilhas de ação em filmes hollywoodianos. Por outro lado, Interestelar (Interstellar, 2014) não apenas é a melhor trilha que Zimmer compôs para Nolan, como também seu melhor trabalho na década.

Dunkirk, como seria de se imaginar, traz o alemão experimentando coisas novas tanto quanto nesses trabalhos anteriores para o cineasta inglês. Trata-se de uma obra tensa, angustiada e nervosa, que combina orquestra, vários solistas e até algumas sonoridades incomuns (como o tique-taque do próprio relógio de bolso de Nolan) em apenas um objetivo: ressaltar a terrível ameaça a que os soldados estavam submetidos, numa inglória luta contra o tempo. As reações, mais uma vez, foram mistas: os críticos de cinema, em sua maioria, aplaudiram a ousadia da trilha, enquanto aqueles da comunidade da Música de Cinema massacraram a obra, tomando-a como mais uma evidência do péssimo estado em que se encontram os scores em Hollywood.

Infelizmente, eu preciso concordar com quem está no segundo time. Afinal, Dunkirk é uma trilha ousada, porém, nem sempre ousadia é sinônimo de qualidade. Trata-se de um score que foi concebido, pensado e executado de forma tão equivocada que, na realidade, mais prejudica o filme do que o ajuda. Sim, a trilha é um dos pontos fracos de Dunkirk, e por dois motivos. Em primeiro lugar, ela é onipresente: dos seus 106 minutos de duração, pouquíssimo tempo não é acompanhado pela insistente trilha do compositor. Isso era comum nas trilhas da Era de Ouro de Steiner e Korngold, porém, além de não ser mais muito utilizado hoje em dia, a onipresença da música é tornada ainda pior por sua pouca variedade. Assim, quase todo o longa é acompanhado por música enervante, dissonante, eletrônica, agressiva e experimental, em qualquer uma de suas cenas. A principal consequência disso é que Dunkirk acaba parecendo menos um filme estruturado, com começo, meio e fim, e mais um longo videoclipe. Ou talvez um filme que ainda não saiu de sua sequência de abertura.

Na filmografia de Zimmer e Nolan, é possível dizer que é uma marca registrada do cineasta ter em seus filmes longas sequências climáticas que alternam sua ação entre vários núcleos diferentes, com um tom progressivamente mais intenso. E, em tais cenas, a música de Zimmer costuma ser essencial para construir a tensão cada vez maior, como, por exemplo, em Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), na sequência que envolve a busca do herói do título (Christian Bale) pelo promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) e por sua amada Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), presos em locais diferentes em uma armadilha mortal, enquanto o vilão Coringa (Heath Ledger) arma sua fuga da cadeia. Ou no clímax de Interestelar, que começa logo quando Cooper (Matthew McCounaghey) descobre a armadilha preparada por Mann (Matt Damon) e, alternando entre os eventos na Terra e no espaço, só termina quase meia hora de filme depois, quando o protagonista é engolido por um buraco negro. O problema é que Nolan aparentemente planejou para que Dunkirk fosse dessa forma em toda a sua duração, de forma que a principal consequência disso é que logo a música perde seu impacto: presente em toda a duração do filme, as cenas que poderiam efetivamente utilizar a trilha acabam chegando de forma enfraquecida, pois até então o ouvinte já estaria acostumado com a música e, portanto, estaria mais propensa a ignorá-la.

Não precisaria ser assim, claro, se a Zimmer ao menos tivesse sido permitido introduzir alguma variedade em sua música, o que nos leva ao segundo problema da trilha: sua “mesmice”. Tenho para mim que a falta de variedade na onipresente trilha sonora pode ter sido um dos fatores que alimentou uma das principais críticas ao filme: sua atitude fria e cerebral demais para cima de seus personagens. Nolan, propositadamente, deixa os espectadores no escuro com relação às figuras que povoam seu filme. Não sabemos quem são aquelas pessoas, o que as motivou a ir combater na guerra, e depois o que as motiva a voltar para casa. Você provavelmente sairá do cinema sem lembrar sequer o nome daqueles personagens. Com isso, é possível que ele tenha também instruído seu compositor a seguir na mesma linha e musicar apenas o que Nolan deseja ressaltar, ou seja, a terrível e constante tensão do filme.

Mesmo assim, creio que isso seja um erro por parte de Nolan, ao subvalorizar não apenas o talento e a experiência de um compositor como Zimmer, como também o próprio papel que a Música de Cinema pode desempenhar para ajudar um filme. Afinal, sendo a trilha sonora um dos elementos que ficam no background de um filme, ela pode não apenas contar ao espectador o que ele já sabe, como também ressaltar aquilo que ele não sabe, revelar verdades que a imagem e os diálogos não deixam exatamente claras. Dessa forma, privado de fazer qualquer outra coisa a não ser descrever algo que o filme já deixa suficientemente claro, a trilha de Zimmer se torna quase um “papel de parede musical”, que existe apenas para reforçar o que já sabemos, mas sem procurar buscar novas camadas para o filme – o que, novamente, é uma gigantesca subvalorização do papel das trilhas sonoras.

Em disco, a trilha de Dunkirk é uma que eu acho que nem mesmo os mais fanáticos por Zimmer irão retornar com muita frequência. Afinal, não creio que uma hora de música agressiva e angustiada seja a melhor pedida para quem apenas quer escutar uma trilha sonora, mesmo se o ouvinte for mais “tolerante” com as experimentações do compositor. As onze faixas que compõem o disco podem ser classificadas em dois estilos: ou trazem música de ação enérgica e violenta, ou texturas de suspense que retratam a tensa situação dos soldados.

Individualmente, nem todas elas são ruins – e, na verdade, algumas conseguem ser até eficientes. A primeira faixa do disco, The Mole, por exemplo, começa com o que parecem ser sons manipulados eletronicamente de uma ventania, que dão uma ideia de desolação, abandono e destruição, que ajudam a colocar o ouvinte no clima do longa (e da trilha). Logo, a faixa acrescenta uma grande diversidade de sonoridades, num crescendo que inclui orquestra, percussão, um violino solo e o tique taque do relógio de Nolan, todos misturados para atingir as texturas almejadas. Mais adiante, Supermarine, uma faixa que é ouvida aqui e ali durante as cenas de combate aéreo entre ingleses e alemães, combina instrumentos acústicos e manipulação eletrônica, além de algo que aparenta ser um som de sirene, e fica cada vez mais intensa ao longo de seus oito minutos de duração. Os últimos minutos desta faixa também incluem um dos poucos temas recorrentes para trilha, uma melodia em crescendos progressivamente mais frenéticos para cordas que, estranhamente, me lembraram do tema do vilão de Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015), cuja trilha foi composta pelo discípulo de Zimmer Junkie XL. Seria o caso do mestre se inspirando no aluno?

Esse mesmo motivo retorna em trompas logo ao início de Regimental Brothers (que, aliás, foi “coescrita” por Lorne Balfe, outro dos mais frequentes discípulos do compositor) e, trazendo mais de cinco minutos de texturas acústicas e eletrônicas ameaçadoras, dá início ao longo clímax do disco. Assim, ele é seguido pela tensa Impulse e pela visceral Home, uma longa faixa que desenvolve ao longo de sua duração um motivo minimalista em meio a texturas eletrônicas de sonoridade particularmente desagradável, embora bem sucedidas em seu propósito de criar ambientações de caos e horror. Finalmente, The Oil revisita algum dos motivos de Supermarine, como o som da sirene e o tal tema em crescendo similar ao de Mad Max. Tal faixa é ouvida logo nos momentos decisivos do resgate dos soldados, no fim do filme e, graças à sua intensidade cada vez maior, é um dos momentos onde a trilha funciona melhor no longa. Infelizmente, isso só reforça o quão errônea foi a decisão de empregar música ao longo de todo o filme, pois eu creio que a faixa se tornaria ainda mais eficiente ao ressaltar a tensão da cena se a música estivesse sendo construída para aquele momento, preparando o espectador/ouvinte. No entanto, como até então praticamente todas as cenas anteriores haviam trazido música similar, o impacto que a faixa poderia ter logo acabou diluído e diminuído.

Além destas faixas mais intensas, o álbum da WaterTower também inclui alguns cues mais sutis, que buscam criar ambientações tensas e ameaçadoras. Entre eles, estão We Need Our Army Back, que traz um motivo para violinos ouvidos de forma pessimista e repleta de suspense, e Shivering Soldier, que combina texturas eletrônicas e um solo de trompete que me lembrou do tema de Bruce Wayne em Batman Vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016). Finalmente, The Tide é ainda mais dramática e derrotista, sendo dominada por um triste solo de cello, além de sonoridades industriais que, fazendo jus ao título da faixa, aparecem e somem de forma similar a um mar agitado.

Os únicos momentos de otimismo da trilha aparecem apenas em suas últimas faixas, para as quais Benjamin Wallfisch criou um arranjo de Nimrod, a nona variação da peça Enigma Variations, composta por Sir Edward Elgar no final do século XIX que, pelo que pude pesquisar, se tornou uma das mais populares músicas patrióticas para os britânicos. Intitulada Variation 15 (pretensiosamente aludindo ao fato de que Elgar havia composto 14 variações para a peça, portanto, a de Dunkirk seria a décima quinta), a versão de Wallfisch é mais moderna, com seu tempo desacelerado em relação à original, não ficando muito distante das similarmente patrióticas trilhas do pessoal da Remote Control/Media Ventures para algum filme de ação de Jerry Bruckheimer. Finalmente, End Titles encerra o disco com um resumo da trilha, o que inclui tanto os trechos mais otimistas quanto os mais intensos.

Previsivelmente, as reações à trilha de Zimmer foram extremamente positivas por parte dos críticos de cinema, tradicionalmente avessos a trabalhos mais tradicionais e abertos à scores mais ousados. Peter Debruge, da Variety, Peter Travers, da Rolling Stone, e Diogo Rodrigues, do Cinema com Rapadura, mencionaram a trilha de forma favorável em seus textos. Já Todd McCarthy, do The Hollywood Reporter, chegou a dizer que Zimmer “enormemente reforça” o longa, enquanto Pablo Villaça, do Cinema em Cena, afirma que este é um dos melhores trabalhos do compositor (apesar de ainda lamentar que o longa não traga quase nenhum momento de silêncio na trilha sonora). Talvez a trilha até mesmo conquiste uma indicação ao Oscar, caso a Academia não se incomode tanto com a apropriação de Elgar. Quanto a mim, não posso deixar de lamentar que tantos elogios estejam sendo despejados em um trabalho cuja suposta ousadia traz também suas maiores falhas.

Na pior das hipóteses, toda essa aclamação pode ser até mesmo prejudicial para a Música de Cinema. Pois, errônea ou não, Dunkirk ao menos ainda é um produto de um compositor talentoso e com décadas de experiência no cinema. Mas o que acontecerá quando os atuais e futuros cineastas que assistirem ao longa se apaixonarem pela ousada trilha de Zimmer, e logo pedirem para compositores muito menos cuidadosos que o alemão para replicarem o que ele fez ali? E se muitas trilhas de ação dos próximos anos tentarem emular este trabalho de Zimmer, com os mesmos resultados sofríveis dos anos pós-A Origem? Não sei quanto a vocês, mas este não é um mundo no qual eu gostaria de ser um fã de trilhas sonoras.

Faixas:

1. The Mole  5:35
2. We Need Our Army Back  6:28
3. Shivering Soldier  2:52
4. Supermarine  8:03
5. The Tide  3:48
6. Regimental Brothers  5:04
7. Impulse  2:36
8. Home  6:02
9. The Oil  6:10
10. Variation 15 (Dunkirk) (Benjamin Wallfisch & Sir Edward Elgar)  5:51
11. End Titles (Dunkirk) (Benjamin Wallfisch, Sir Edward Elgar, Lorne Balfe & Hans Zimmer)  7:12

Duração: 59:41

Tiago Rangel

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