Música composta por Randy Newman
Selo: Walt Disney Records
Formato: CD, Digital
Lançamento: 16/06/2017
Cotação:

Embora tenha tido uma longa carreira como cantor e como compositor de dramas aclamados pela crítica como Avalon (idem, 1990), Tempo de Despertar (Awakenings, 1990) e A Vida em Preto e Branco (Pleasantville, 1998), toda uma geração de crianças (que hoje são jovens adultos) conheceu o trabalho do compositor Randy Newman através de suas clássicas trilhas e canções para os primeiros filmes da Pixar. Os scores do músico para Vida de Inseto (A Bug’s Life, 1998), Monstros S.A. (Monsters, Inc, 2001), Carros (Cars, 2006) e, claro, a trilogia Toy Story basicamente definiram a sonoridade e a ambientação para a primeira fase da casa, numa deliciosa mistura de jazz, Americana, comédia animada quase no estilo Carl Stalling, aventura e emoção. Ainda que as trilhas da Pixar tenham ficado mais diversificadas nos últimos anos, com trabalhos de seu primo Thomas Newman, Michael Giacchino, e alguns aventureiros como Mychael Danna e Patrick Doyle, as composições de Randy ainda possuem grande importância na história da produtora. Tanto que, aparentemente, apenas a Pixar é o que tem lhe feito sair de sua semi-aposentadoria da Música de Cinema. Sem compor a trilha de um filme live-action desde O Amor não tem Regras (Leatherheads, 2008), Newman nesta década tem se dedicado basicamente a continuações de seus antigos sucessos na Pixar, como Universidade Monstros (Monsters University, 2013) e agora o recém lançado Carros 3 (Cars 3, 2017).

Terceira parte daquela que é considerada a menos aclamada das franquias da produtora, o novo filme traz o carro de corrida falante Relâmpago McQueen (Owen Wilson no original, e Marcelo Garcia na dublagem brasileira) superado nas pistas por uma nova geração de veículos armados com tecnologia de ponta. Para mostrar que ainda pode ser um campeão, McQueen receberá ajuda da treinadora Cruz Ramirez (Cristela Alonzo/Giovanna Ewbank). As críticas não foram exatamente estelares e a bilheteria, abaixo dos padrões da Pixar, mas a venda de merchandising do filme deverá ser o bastante para deixar os acionistas da Disney contentes.

Para Carros 3, Newman regeu uma orquestra grande até mesmo para os seus padrões: 110 músicos, além de alguma percussão de rock e guitarras. Tal como as trilhas anteriores do sujeito para a Pixar, ela é bastante diversificada, variando de tons melancólicos à comédia que representa o alívio cômico da série, Mate, até à ação para as cenas de corrida. Além disso, alguns temas do score de Newman para o primeiro Carros são revisitados aqui, conectando os dois longas – uma vez que o segundo capítulo da saga, Carros 2 (Cars 2, 2011) substituiu Newman por Giacchino.

Fãs de Newman, em particular de seus scores para a Pixar, irão encontrar muito para lhes agradar, não apenas porque esta é a primeira trilha do músico para as animações da casa em quatro anos, como também porque o compositor aqui se mantém dentro de seu estilo muito particular e característico, o que é uma coisa boa. Afinal, se seus trabalhos para as animações da renomada produtora não são lá exatamente muito diferentes entre si, todas elas compartilham o fato de serem trilhas deliciosas, emocionalmente diretas e plenamente satisfatórias – qualidades estas que Carros 3 traz aos montes.

Curiosamente, o fato de Newman ter se mantido tão fiel ao seu estilo particular é o que faz com que este trabalho aqui se destaque em meio às trilhas da atual temporada. Veja as faixas de ação, por exemplo: enquanto muitos compositores tem procurado misturar orquestra com eletrônicos para criar ritmos intensos e furiosos, a música de ação de Newman é extremamente melódica, colorida e quase exclusivamente orquestral. As duas faixas iniciais, Storm’s Winning Streak e When All Your Friends Are Gone, combinam cordas dramáticas, metais e percussão, alternando entre fanfarras heroicas para o Relâmpago McQueen e alguns motivos mais sombrios e agressivos para seu antagonista, o tecnológico carro de corrida Jackson Storm. Mais adiante, McQueen’s Wild Ride traz de volta um dos principais temas do protagonista, uma fanfarra introduzida ainda no primeiro filme, porém lhe acrescenta arranjos tensos e enérgicos, com orquestrações frenéticas que me lembraram da música de Newman para o clímax de Monstros S.A.. Já Fireball Beach é mais otimista e heroica, e alterna entre suas melodias de ação com guitarras dignas de um luau havaiano – quem não gosta muito de trilhas animadas com toques de mickeymousing pode se incomodar.

Ainda melhores são as faixas mais melancólicas desta trilha. A música de Newman é emotiva e tocante sem ser muito pesada ou dramática. Doc’s Painful Demise, por exemplo, começa de forma sombria, com baixos solenes, antes de logo reverter a uma bela melodia para violinos, harpa e flautas. Depois, a primeira metade da sétima faixa, intitulada A Career on a Wall, inicia-se com violões quase bucólicos antes de retornar à típica escrita emocional do compositor para violinos, cuja interpretação, repleta de um senso de nostalgia e saudade, não fica muito distante da memorável trilha de Newman para Avalon. Em Pull Over, Now!/Cruz’s Racing Dreams e 1.2%, porém, as cordas do músico estão a serviço de tons mais sombrios e carregados. Já If This Track Could Talk traz o tema principal de forma mais otimista e vencedora – e é uma pena que o violão e o piano que aparecem brevemente no início da faixa, quase remetendo a um blues do interior dos EUA, não tenham sido mais frequentes ao longo da mesma. Finalmente, a tocante Letters About You traz um dos temas principais numa performance pastoral para violão, violinos e flautas.

Claro que, sendo este um filme infantil, momentos mais leves e cômicos não poderiam deixar de faltar, embora mesmo estes, tal como nos trabalhos anteriores de Newman, são tratados com sensibilidade. Em Carros 3, os momentos de comédia variam desde paródias de valsa até melodias leves e divertidas no melhor estilo Americana para o principal alívio cômico da franquia, o caminhão-guincho caipira Mate. Estas últimas aparecem de forma mais proeminente em Mater on the Horn, Sistine Chapel on Wheels e Drip Pan, que, comédia ou não, demonstram que Newman é um dos compositores vivos atualmente mais versados em retratar a cultura musical dos Estados Unidos. Enquanto isso, Temple of Rust-Eze, a segunda parte da faixa sete (Electronic Suit) e Biggest Brand in Racing variam entre tons melancólicos, divertidos, leves e pomposos, o que é comum nas trilhas para as agitadas animações para crianças, embora, claro, Newman tenha uma forma mais sensível e sutil de lidar com o mickeymousing – diferentemente de algo como, por exemplo, a trilha de Alexandre Desplat para Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets, 2016).

As últimas cinco faixas do disco são concentradas na música de ação, começando a partir de Smokey Starts Training/A Blaze of Glory e seguindo até o final. Esta primeira, aliás, traz o retorno de uma fanfarra introduzida no primeiro Carros e ouvida aqui a partir de 1:06, utilizada tanto naquele score como neste para representar o universo das corridas automobilísticas que permeia a história. Na sequência, Starting Dead Last recupera os tons mais sombrios das primeiras faixas do disco, embora logo tente substituí-los por um senso de determinação e desejo de superar obstáculos, que se torna mais palpável na faixa seguinte, Flashback/Pit Stop. Aqui, a fanfarra do mundo das corridas ganha arranjo mais tensos para trompas, percussão e violinos frenéticos, culminando, porém, num final grandioso e heroico que reprisa o tema principal em toda a orquestra.

O disco atinge seu clímax nas excelentes Through the Pack e Victory Lane, duas faixas de ação orquestrais dinâmicas e extremamente coloridas, que embora sempre melódicas, não deixam de aproveitar toda a força da grande orquestra reunida por Newman. A forma como o compositor utiliza sua sessão de cordas para dar um senso de movimento e velocidade é particularmente excitante. A trilha se conclui com a deliciosa The Fabulous Lightning McQueen, que reúne os principais temas num encerramento que vai trazer um sorriso ao rosto do ouvinte.

É interessante mencionar que um dos orquestradores dessa trilha é o grande Don Davis – sim, aquele mesmo que compôs a música da trilogia Matrix. O compositor colaborou com compositores como James Horner, Bruce Broughton e o próprio Randy Newman durante a década de 1990, porém, desde o fim da saga de Neo e Morpheus, ele andava cada vez mais sumido da Música de Cinema. Mesmo na atual década, seus únicos trabalhos no cinema foram orquestrando as trilhas de Newman para Toy Story 3 (idem, 2010) e agora em Carros 3, além de um recente filme japonês, de nome Tokyo Ghoul, seu primeiro trabalho como compositor em quase uma década. De toda forma, Davis é um compositor cujo retorno só faria bem à combalida música de cinema hollywoodiana.

Carros 3 não é uma trilha que vai inovar no modus operandi de Newman para a Pixar, pelo contrário. Todos os seus scores para a produtora são bastante similares, no entanto, é justamente isso que os fazem ser tão queridos pelos fãs. Newman tem um estilo tão próprio e característico que os levam a se destacar do que todos os outros estão escrevendo para filmes de animação atualmente. Assim, Carros 3 pode não ser a melhor trilha do ano, mas certamente até agora é a mais divertida e deliciosa de se ouvir.

Faixas: 

1. Storm’s Winning Streak  1:21
2. When All Your Friends Are Gone / Crash  3:44
3. Doc’s Painful Demise  1:25
4. Mater on the Horn  0:28
5. Sistine Chapel on Wheels  1:05
6. Temple of Rust-eze  1:25
7. A Career on a Wall / Electronic Suit  3:20
8. Drip Pan  1:11
9. McQueen’s Wild Ride  2:05
10. Biggest Brand in Racing  3:10
11. Fireball Beach  2:15
12. Pull Over, Now! / Cruz’s Racing Dreams  1:59
13. 1.2%  1:21
14. If This Track Could Talk  2:32
15. Letters About You  2:02
16. Smokey Starts Training / A Blaze of Glory  5:56
17. Starting Dead Last  1:41
18. Flashback & Pit Stop  3:32
19. Through the Pack  3:41
20. Victory Lane  3:50
21. The Fabulous Lightning McQueen  2:08

Duração: 50:11

Tiago Rangel

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