Música composta por Brian Tyler. The London Philharmonia Orchestra regida por Brian Tyler e Allan Wilson
Selo: Back Lot Music
Formato: Digital
Lançamento: 09/06/2017
Cotação:

O monstro egípcio mais famoso de todos os tempos está de volta em A Múmia (The Mummy, 2017), o primeiro filme de um planejado universo compartilhado cinematográfico inspirado no da Marvel e estrelado por criaturas como Drácula, Homem Invisível, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Frankenstein, Drácula e Lobisomem. Protagonizado por Tom Cruise, o novo filme infelizmente não o traz no papel da Múmia (seria algo que eu pagaria para ver); ao invés disso, o astro faz o papel de Nick Morton, um soldado e caçador de antiguidades que, durante uma missão no Iraque, acaba encontrando a tumba da malévola Ahmanet (Sofia Boutella) e a despertando. A vilã escolhe Nick como seu escolhido para ajudá-la a trazer uma maldição sobre o mundo e, para combatê-la, o herói terá a ajuda da Prodigium, uma misteriosa organização comandada por Henry Jekyll (Russel Crowe), dedicada a estudar e, se for necessário, entrar em ação contra os monstros. Entretanto, as críticas ao novo filme (péssimas) e sua bilheteria (até agora no máximo mediana) indicam um início preocupante para o recém-nascido Dark Universe da Universal.

A trilha do longa foi composta por um particularmente empolgado Brian Tyler, em seu terceiro blockbuster de ação e aventura do ano. A Múmia não apenas é a melhor do bando, como, aliás, é a melhor trilha do compositor desde a ótima As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles, 2014) – e talvez seja uma das melhores de toda a sua carreira. Trata-se de uma trilha enérgica, valorizada pela ótima interpretação da London Philharmonia Orchestra, além de ser um retorno do compositor aos filmes de terror que lhe trouxeram a atenção da crítica no início de sua carreira, através de produções como A Mão do Diabo (Frailty, 2001) e No Cair da Noite (Darkness Falls, 2003). Conforme sua carreira avançou, Tyler foi deixando o gênero para trás, partindo para filmes de ação e depois para os caríssimos blockbuster de super-heróis e da franquia Velozes e Furiosos, portanto é interessante vê-lo retomando suas raízes.

Os filmes da Múmia, aliás, são um ótimo material de inspiração para qualquer compositor criativo, com sua ambientação no deserto, mistérios que remontam à Antiguidade e o confronto entre a criatura e os aventureiros que ousaram despertá-la. Sabendo disso, Tyler, conforme revelado numa entrevista ao jornalista Jon Burligame, procurou trazer em seu score influências da música de filmes estrelados pela criatura, variando dos trabalhos de compositores como James Dietrich e Hans Salter para os clássicos dos anos 1930 e 1940, até a marcante trilha de Jerry Goldsmith para o filme de 1999, estrelado por Brendan Fraser. Isto resulta num score que é mais ou menos tudo o que você esperaria para um filme cujo título é A Múmia: orquestrações grandiosas, coral, aventura, horror, e diversos instrumentos exóticos do Oriente Médio.

Dois temas principais se destacam: um para a criatura do título, e outro para o protagonista Nick. O tema de Ahmanet é bem o que um monstro tão exótico pede em sua música: sinistro, ameaçador, porém repleto de orgulho e poder. Em sua versão para concerto, ouvida na primeira faixa do disco lançado pela Back Lot Records, sua grandiosa interpretação para a orquestra e o coral na verdade lembra algo que poderia ter sido escrito por Christopher Young, fosse ele o compositor do filme. Depois, ao longo da maior parte do disco, o tema da vilã aparece em arranjos grandiosos, quase apocalípticos, que retratam seu gigantesco poder em faixas como The Sand of Wrath, She is Risen, Chaos, Mayhem, Destruction e Unstoppable. Já em Power and Temptation, ele surge numa voz feminina de tons exóticos, quase sedutores. Por outro lado, Tyler surpreendentemente não enxerga Ahmanet apenas como um monstro unidimensional de poder devastador, e assim lhe confere novas camadas em sua música. Em Egypt’s Next Great Queen, seu tema aparece de forma terna, numa dramática performance para cordas, indicando o trágico passado de Ahmanet, antes de descender rumo a um caminho de escuridão.

O tema de Nick, por outro lado, é seu oposto: masculino, heroico e aventureiro, sua excelente versão para concerto, ouvida na terceira faixa, é um dos destaques do disco. Curiosamente, (conforme notou o crítico James Southall), de todas as coisas, tal tema traz uma estranha semelhança com Ennio Morricone: se removêssemos a melodia do tema das trompas e a puséssemos numa guitarra, ela poderia muito bem pertencer à música de algum western spaghetti. Mais adiante no disco, ele aparecerá em performances igualmente enérgicas, como em Haram, na conclusiva Between Life and Death e na ótima A Sense of Adventure, que poderia ter saído de uma das trilhas de Tyler para a Marvel. No entanto, em She is Risen, o tema do herói aparece em orquestrações sombrias e pessimistas, conforme ele percebe que está enfrentando uma adversária extremamente poderosa.

Finalmente, há um terceiro tema, voltado para a organização Prodigium e que, ainda que apareça pouco aqui, deve se tornar mais proeminente conforme o Dark Universe avançar (ou não – vide o exemplo da música do Universo Marvel). Nele, Tyler inteligentemente utiliza harpa, coro, celesta e madeiras para criar uma evocativa atmosfera de mistérios e enigmas que remontam a séculos anteriores. No disco, esse tema é introduzido na quarta faixa, e depois reaparece posteriormente em World of Monsters.

Tyler, que sempre foi um especialista em filmes de ação, aqui se encontra em excelente forma. Suas faixas do tipo nessa trilha são furiosas e enérgicas, frequentemente usando o poder da Philharmonia e do coral. A frenética Sandstorm, por exemplo, me pareceu uma variação mais dark e menos heroica de sua música de ação para As Tartarugas Ninja, enquanto a faixa seguinte, The Call of the Ancients deixa claro sua inspiração na onipresente Chevaliers de Sangreal, de Hans Zimmer, mas compensa pelo seu final bombástico. Pouco depois, a empolgante Concourse of the Undead traz os temas de Nick e Ahmanet em um embate um contra o outro, em meio ao massacre orquestral de Tyler. E, se faixas como The Sand of Wrath, Chaos, Mayhem, Destruction e Unstoppable trazem dramáticas performances do tema da vilã ao longo de suas sombrias melodias de ação, a eletrizante Liberators of Precious Antiquities “equilibra” um pouco as coisas para o lado do bem, com o tema de Nick em interpretações enérgicas para toda a orquestra, lembrando até mesmo o estilo da música de ação de John Williams. Finalmente, Forward Momentum segue no mesmo ritmo, com sua violenta melodia conduzida por violinos furiosos, muita percussão e metais, culminando num final de tirar o fôlego.

Além disso, mesmo tendo trabalhado tão pouco em filmes de terror ultimamente (foram apenas dois nesta década, O Quarto dos Esquecidos e Premonição 5), Tyler mostra que ainda “não perdeu a mão” para trilhas do gênero, muito pelo contrário. Faixas como Inquest, Set, The Calling e Possession of the Knight’s Tomb são dissonantes, guturais e duras, criando atmosferas verdadeiramente perturbadoras. Já Unstoppable, Dawn of Evil e Sepulcher acrescentam enervantes efeitos eletrônicos que não são exatamente agradáveis de se ouvir, e justamente por isso cumprem seu propósito de ajudar a construir o clima de horror.

Infelizmente, por melhor que seja a qualidade da música, ela perde um pouco de sua potência conforme o disco atinge seu final após longas duas horas de audição. Tyler é um compositor que gosta de incluir o máximo de música quanto for possível em seus álbuns, ainda que, na hora de organizar as faixas, elas fiquem numa ordem diferente da que aparecem nos filmes. Seja como for, em A Múmia ele extrapolou essa tendência, ao criar um disco que chega a ser maior até que o filme que acompanha (!): enquanto a versão digital do álbum tem pouco mais de duas horas, o longa possui apenas 107 minutos, incluindo os créditos finais. Isso significa que, além da música do filme, esta edição DeLuxe que avaliamos inclui suítes dos temas principais e até versões não utilizadas no filme de algumas das faixas, o que é mais comum nas luxuosas versões de trilhas clássicas do passado do que nas atuais.

Particularmente, eu sou a favor de álbuns mais longos, que incluam a trilha completa ou pelo menos o máximo de música que for viável, pois apenas assim é possível ter uma visão mais completa de toda a complexidade do trabalho desenvolvido pelo compositor. Entretanto, no caso de A Múmia, há tanta música aqui que a audição do disco se torna cansativa, o que prejudica o impacto das faixas finais – e não ajuda muito o fato de que, no terço final do disco, as faixas sejam bastante repetitivas, menos focadas na ação e mais em suspense. Creio que, para tornar a experiência auditiva mais dinâmica, poderiam ser cortadas algumas faixas mais discretas e menos chamativas, como The Lost Tomb of Ahmanet, Pathogen of Evil, Iniquity e mesmo a longa Destiny, por não acrescentarem muita coisa e diluírem os pontos fortes da trilha.

Por outro lado, o compositor confirma suas intenções de fazer uma trilha tão “à moda antiga” quanto possível, ao incluir algo que costumava ser comum na Música de Cinema hollywoodiana, mas hoje parece uma arte esquecida: uma suíte para os créditos finais, baseada em seus temas. No contexto do disco, The Mummy End Title Suite não traz nada de muito diferente do que foi apresentado até então: partes das versões para concerto dos temas de Ahmanet, de Nick e da Prodigium e trechos de alguns cues anteriores (como Egypt’s Next Great Queen). Entretanto, é bom que seja o próprio compositor o responsável pela peça que será ouvida durante os créditos, e Tyler (junto com Michael Giacchino, por exemplo) é um dos poucos da nova geração de compositores que se dedica a escrevê-la nos dias de hoje. Na maior parte dos blockbusters, isso tem ficado sob responsabilidade do editor musical, que apenas enfileira faixas anteriores da trilha uma atrás da outra (isso quando não é também utilizada uma canção pop).

Embora as críticas ao filme tenham sido pavorosas e sua bilheteria até agora esteja sendo menos que estelar, a trilha de Tyler, paradoxalmente, é a melhor ouvida na atual temporada de verão*. Afinal, trata-se de um trabalho rico, diversificado, criativo, temperado com ótimos temas, inteligentemente escrito e excelentemente interpretada pela orquestra. Tivesse sido o longa mais bem recebido, seu impacto fora da comunidade que aprecia trilhas sonoras seria muito maior. De toda forma, é sempre bom ver compositores como Brian Tyler ainda lutando bravamente para manter a chama das trilhas orquestrais acesa.

*Aqui, nesse caso, refiro-me ao verão no Hemisfério Norte, que ocorre no meio do ano. No cinema norte-americano, os estúdios costumam aproveitar o período entre maio e agosto, quando a população está de férias, para lançar seus principais blockbusters do ano..

Faixas: 

1. The Mummy  4:29
2. The Secret of the Mummy  4:41
3. Nick’s Theme  2:04
4. Prodigium  2:51
5. Egypt’s Next Great Queen  3:23
6. Sandstorm  1:12
7. The Call of the Ancients  3:34
8. A Sense of Adventure  2:40
9. Haram  4:25
10. A Warning of Monsters  6:07
11. The Lost Tomb of Ahmanet  2:35
12. Providence  1:59
13. The Sand of Wrath  2:43
14. Enchantments  1:06
15. Concourse of the Undead  5:00
16. World of Monsters  2:33
17. She is Risen  4:04
18. Chaos, Mayhem, Destruction  4:43
19. Sanction of the Gods  3:07
20. Unstoppable  4:15
21. Beyond Evil  2:14
22. Power and Temptation  1:29
23. Inquest  1:36
24. Forward Momentum  3:46
25. Set  3:25
26. Pathogen of Evil  2:04
27. Liberators of Precious Antiquities  1:48
28. Dawn of Evil  4:02
29. Sepulcher  4:43
30. Iniquity  2:12
31. The Calling  2:35
32. Possession of the Knight’s Tomb  2:43
33. Destiny  8:22
34. Sentience  3:19
35. Between Life and Death  2:23
36. The Mummy End Title Suite  10:13

Duração: 124:25

Tiago Rangel

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