Resenha de Trilha Sonora: WONDER WOMAN – Rupert Gregson-Williams


Música composta por Rupert Gregson-Williams, regida por Alastair King
Selo: WaterTower Music
Formato: CD, Digital
Lançamento: 02/06/2017
Cotação:

Apesar de ter surgido nos quadrinhos mais ou menos na mesma época de outros super-heróis clássicos, como o Batman, o Superman e o Capitão América, foi apenas este ano que a Mulher-Maravilha foi levada às telas do cinema, em seu próprio filme-solo. Depois de sua participação de destaque em Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman v. Superman: Dawn of Justice, 2016), a heroína interpretada pela atriz israelense Gal Gadot ganha sua própria história de origem em Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017). Na trama dirigida por Patty Jenkins, ela é então conhecida como Diana e criada entre as Amazonas, uma raça de mulheres guerreiras que habitam a mística ilha de Themyscira. Um dia, o piloto americano Steve Trevor (Chris Pine) cai acidentalmente na ilha, e informa às isoladas Amazonas sobre a Primeira Guerra Mundial, que vem sendo travada no mundo exterior. Convencida de que Ares, o deus grego da guerra, está por trás do conflito, Diana embarca com Trevor, contra os desejos de sua mãe, a Rainha Hipólita (Connie Nielsen), rumo ao front, a fim de encerrar a devastação. Mulher-Maravilha recebeu as melhores críticas para um filme de super-herói do ano até agora, e vem sendo um sucesso de bilheteria em todo o globo.

Compondo a trilha sonora, está Rupert Gregson-Williams, o irmão caçula e menos famoso de Harry. Apesar de seu talento reconhecido pelos críticos, o sujeito passou anos trabalhando principalmente em animações infantis e incontáveis comédias estúpidas de Adam Sandler, até que, no ano passado, seu mentor Hans Zimmer decidiu “dar-lhe uma forcinha” e ajudá-lo a conseguir trabalhos de maior proeminência. Assim, o Gregson-Williams mais novo foi contratado para a aventura A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan, 2016), o drama da Netflix The Crown e, principalmente, o épico de guerra Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016), onde substituiu o score rejeitado de John Debney (que já havia entrado no lugar de James Horner, falecido antes iniciar seus trabalhos no filme). Mulher-Maravilha é o seu maior projeto até hoje, e sua grande oportunidade de mostrar sua música a uma audiência mais ampla.

Claro, ele não teria exatamente uma página em branco onde escrever. Afinal, a Mulher-Maravilha já havia ganho seu próprio tema de Zimmer e Junkie XL em Batman vs. Superman, que, por sua atitude badass, veio a se tornar o elemento mais bem sucedido daquele score entre os fãs. No entanto, como descreve o compositor, “o tema usado naquele filme representa uma Diana que já é uma super-heroína e uma guerreira confiante. No nosso filme de origem, eu precisei escrever um tema novo e música original para a jovem Diana para representar sua inocência”. Além disso, Gregson-Williams também compõe um tema para Steve Trevor e outro para os vilões General Ludendorff (Danny Huston) e Dra. Veneno (Elena Anaya). Mesmo assim, se você sentir falta do primeiro tema da heroína, não se preocupe pois, aqui e ali, Gregson-Williams o traz de volta, novamente no cello elétrico de Tina Guo. Diga o que for do Universo Estendido da DC, mas ao menos até o momento ele tem se mostrando mais tematicamente consistente do que sua contraparte/inspiração, o Universo Cinematográfico da Marvel.

A música para os filmes de super-herói dos últimos anos pode ser dividida em dois campos. De um lado, os trabalhos mais minimalistas e, de certa forma, ousados, ainda que polêmicos, que Zimmer compôs para o Superman, o Homem-Aranha e as duas versões do Batman. De outro, as trilhas mais tradicionais e orquestrais, representadas principalmente pelos scores de Alan Silvestri e Brian Tyler para o Universo Marvel. Assim, se você foi um dos que desgostou da música de O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) e Batman vs. Superman, talvez lhe agrade saber que a trilha de Mulher-Maravilha esteja mais para o segundo campo, além da clara influência dos saudosos scores que Zimmer e seus associados escreviam nos anos 1990 e início dos anos 2000. Além disso, Gregson-Williams preenche sua trilha com momentos emotivos dificilmente vistos em filmes de super-herói hoje em dia, especialmente aqueles vindos de Zimmer.

A primeira faixa, Amazons of Themyscira, por exemplo, parece o cruzamento da trilha de Rei Arthur (King Arthur, 2004) com as dos dois As Crônicas de Nárnia que seu irmão Harry escreveu. A faixa traz melodias nobres e heroicas para metais, com acompanhamento de coro, percussão e os ostinatos de cello. O tema de Trevor é introduzido aos 1:52 e o de Diana a partir de 2:21, desenvolvendo-o no restante do cue. Trata-se de uma das melhores faixas do disco, no qual a música retrata as amazonas como guerreiras dignas e honradas, e uma bela introdução ao longa.

O tema de Diana, por sua vez, a mim pareceu uma variação mais lenta, solene e orquestral das notas que Tina Guo arranca com toda a ferocidade do seu cello elétrico ao interpretar o tema escrito por Zimmer e Holkenborg. Quer isso tenha sido intencional de Gregson-Williams ou não, o fato é que trata-se de uma melodia adequadamente nobre, retratando o senso de justiça, bondade e heroísmo à moda antiga de Diana. Repetido ao longo de boa parte do disco, em History Lesson, ele mantém o estilo solene da primeira faixa, enquanto em Angel on the Wing ele é acompanhado por um duduk e coral, e aparece pela primeira vez em sua forma mais heroica e grandiosa, conforme Diana realiza seu primeiro feito enquanto heroína: resgatar Trevor dos destroços do avião. Mais adiante no filme, tal tema irá aparecer com arranjos épicos enquanto ela luta na guerra, lembrando os power anthems que Zimmer escrevia para filmes de ação da década de 1990, como Maré Vermelha (Crimson Tide, 1995), A Rocha (The Rock, 1996), Gladiador (Gladiator, 2000), entre outros.  Por outro lado, em Pain, Loss & Love, o tema da heroína é ouvido num grande e melodramático arranjo para orquestra e coro, com breves participações do duduk, para acompanhar a despedida de Diana e Trevor de Themyscira. O último minuto desta faixa também introduz um breve love theme para o casal, que, infelizmente, não é muito ouvido no disco (ainda que um pouco mais no filme). Não é exatamente um Can You Read My Mind?, mas não deixa de ser uma bonita melodia para cordas.

Já o tema de Trevor é mais proeminente na segunda parte do disco, como logo ao final de No Man’s Land, onde aparece numa bela performance para cordas, demonstrando o alívio após uma dura batalha. Depois, as faixas We Are All to Blame e Hell Hath No Fury trazem grandiosos crescendos que levam ao tema do personagem num elegíaco arranjo para metais típico dos scores mais dramáticos de Zimmer e seus parceiros na Remote Control – deixando evidente que as copiadíssimas Time e Journey to the Line foram usadas como temp track.

Porém, se você está aqui pelo tema da Mulher-Maravilha, tal como ouvido em Batman vs. Superman, não se preocupe: ele marca presença em diversos momentos do disco, seja em sua forma completa, seja em breves momentos, nos quais Gregson-Williams inteligentemente usa pequenos trechos para sugerir o futuro super-heroico de Diana. Os primeiros segundos de Amazons of Themyscira, por exemplo, trazem o famoso tema num misterioso cello elétrico solo, enquanto aos 5:40 da faixa e nos 4:57 de History Lesson, podemos ouvir o ostinato que lhe serve de acompanhamento, aqui retratando o duro treinamento das amazonas. Por outro lado, em Fausta, sua melodia ganha tons sinistros e ameaçadores num dulcimer, lembrando um pouco a música de Sherlock Holmes (idem, 2009). Performances mais completas, porém, só serão ouvidas durante as faixas de ação, enquanto a heroína estiver “chutando traseiros” dos soldados inimigos, como aos 3:08 de No Man’s Land. Aqui, o arranjo de Gregson-Williams para o tema é um pouco mais híbrido entre elementos orquestrais e eletrônicos do que no original, chegando até mesmo a passar sua melodia do cello elétrico para a sessão de metais de sua orquestra. Mais adiante, em Wonder Woman’s Wrath, o compositor mescla ambos os temas da heroína, o seu próprio e o de Zimmer/Holkenborg, mas agora de forma muito mais agressiva e violenta, aumentando a velocidade do ostinato para lhe dar maior urgência e adicionando elementos eletrônicos quase industriais.

Por outro lado, o tema dos vilões é frustrantemente genérico. Ouvido em faixas como Ludendorff, Enough! e Fausta, ele consiste em notas ameaçadoras tocadas nos instrumentos de sempre para a música de figuras “do mal”: baixos, cellos, metais graves, um sinistro coro masculino… Já na longa The God of War, o tema ganha tons mais agressivos através da incorporação de elementos eletrônicos e de corais malevolentes, enquanto a tensão aumenta aos poucos ao longo da faixa, para acompanhar a reviravolta do terceiro ato. Assim, se Gregson-Williams acerta ao criar um tema que adequadamente convém à maldade dos antagonistas do filme, por outro lado peca por não fugir muito dos clichês usados para retratar vilões em trilhas sonoras. De tão genérico, seu tema aqui poderia pertencer a qualquer outro vilão de filmes de super-heróis recentes, seja da Marvel ou da DC.

A música de ação também não é exatamente surpreendente, ainda que almeje tons épicos. A segunda metade de Ludendorff, Enough! traz uma enérgica melodia para orquestra, com fanfarras para metais no melhor estilo Silvestri, mas não demora muito até que Gregson-Williams retorne para seu território familiar em No Man’s Land. Acompanhando a mais comentada cena de ação do filme, tal faixa pode ser dividida em basicamente três partes: a primeira é um elegíaco crescendo orquestral, no qual os tons dramáticos, a percussão e a performance do tema de Diana nos metais na verdade me lembraram de Horner e sua faixa Saving New York de O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012). Na segunda, ele resgata o tema da Mulher-Maravilha, tal como discutido acima, enquanto a terceira parte é urgente e frenética, embora pareça pertencer a uma perseguição de carro de algum thriller de ação pós-Bourne genérico, não a um filme passado na Primeira Guerra Mundial.

A música para o clímax do filme cobre praticamente um terço do disco, indo de The God of War a Lightning Strikes. Gregson-Williams procura atingir o tom mais dramático possível, incluindo orquestra, coro e eletrônicos, e performances de todos os temas principais. No entanto, toda a grandiosidade da música de alguma forma não me arrebatou como deveria. É um problema similar que tive com o trabalho do compositor em Até o Último Homem, no qual seus cues mais minimalistas foram mais tocantes do que o melodrama “zimmeriano” da segunda parte do filme, que (tal como aqui) acompanhou os feitos do protagonista na guerra. Talvez o compositor seja simplesmente mais eficiente quando não está tentando forçar os tons dramáticos do seu mentor/patrão. Por outro lado, devo admitir que as catárticas performances dos temas de Trevor e Diana em Lightning Strikes foram genuinamente empolgantes.

Minha faixa preferida, porém, é a que vem logo após o clímax: em Trafalgar Celebration, os temas de Diana e Steve, e o love theme dos dois se juntam em belos e tocantes arranjos para cordas. Com um leve toque de James Horner (o que nunca é uma coisa ruim), a faixa traz um senso de paz e resolução para o final feliz, mas também de melancolia e luto pelos que se sacrificaram para que a vitória ocorresse. Finalmente, a faixa dos créditos finais é Action Reaction, uma agressiva e violenta peça eletrônica que, distinguindo-se do estilo mais orquestral adotado até então, estranhamente me lembrou do score de Zimmer para Anjos & Demônios (Angels & Demons, 2009). E ainda sobra tempo para a canção To Be Human, escrita por Florence Welch (da ótima banda Florence and The Machine) e Rick Nowels, e cantada pela famosa cantora Sia, em parceria com o músico inglês Labrinth.

No fim das contas, Mulher-Maravilha é um trabalho irregular, mas com momentos de genuína excelência, que fazem por merecer a indicação do disco. Os novos temas de Gregson-Williams são realmente bons, e o compositor merece crédito por ao menos tentar acrescentar tons realmente emocionais e “à moda antiga” a um filme da DC, cujos modernos scores até então, capitaneados por Zimmer, foram emocionalmente estéreis.  Claro, não é um trabalho exatamente memorável, mas é um recomeço decente para a música dos icônicos personagens da editora, que poderá ganhar novo fôlego com o score que Danny Elfman criará para Liga da Justiça (Justice League, 2017).

Faixas: 

1. Amazons of Themyscira  6:47
2. History Lesson  5:16
3. Angel on the Wing  3:45
4. Ludendorff, Enough!  7:37
5. Pain, Loss & Love  5:27
6. No Man’s Land  8:52
7. Fausta  3:20
8. Wonder Woman’s Wrath  4:06
9. The God of War  8:02
10. We Are All to Blame  3:11
11. Hell Hath No Fury  3:58
12. Lightning Strikes  3:35
13. Trafalgar Celebration  4:50
14. Action Reaction  5:54
15. To Be Human (Sia) (feat. Labrinth)  4:00

Duração: 78:40

Tiago Rangel

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