Música composta por Geoff Zanelli
Selo: Walt Disney Records
Formato: CD, Digital
Lançamento: 26/05/2017
Cotação:

Responda rápido: quando você pensa em filmes de piratas, qual a primeira trilha sonora que lhe vem à mente? A clássica música de Erich Wolfgang Korngold para filmes de capa e espada da Era de Ouro de Hollywood? A memorável trilha de John Debney para A Ilha da Garganta Cortada (Cutthroat Island, 1995)? Ou os scores mais modernos que Hans Zimmer e seus colaboradores criaram para a franquia Piratas do Caribe? A saga estrelada por Johnny Depp originou alguns dos scores mais queridos da carreira do compositor e redefiniu a música para filmes estrelados pelos bucaneiros do mar para toda uma nova geração. Nos quatro longas anteriores da saga, Zimmer adaptou seu estilo muito característico para trilhas de ação, ouvido em longas como Maré Vermelha (Crimson Tide, 1995) e Gladiador (Gladiator, 2000) ao contexto de uma aventura sobre piratas, com toques de fantasia e comédia.

Claro, inicialmente os resultados foram um pouco difusos: na época do primeiro filme da série, Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003), obrigações contratuais com a produção do épico O Último Samurai (The Last Samurai, 2003) impediram que Zimmer assumisse outro projeto. Assim, o score do filme foi o resultado do esforço de um batalhão de 15 compositores (!), incluindo o próprio alemão – embora apenas um deles, o hoje sumido Klaus Badelt, assine o score. Felizmente, para as duas continuações seguintes, o sujeito assumiu o comando, teve mais tempo (e mais orçamento) para trabalhar na trilha, organizou os temas da saga e contou com orquestras maiores, elevando a qualidade da música da franquia. A excelente trilha do terceiro filme, Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean: At World’s End, 2007), aliás, é uma das melhores que ele já compôs – em minha opinião, ela só fica atrás da de O Último Samurai entre os rankings de Zimmer. A ganância dos executivos da Disney, porém, ressuscitou a franquia em Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides, 2011), porém Zimmer já havia dito tudo o que gostaria com a série e, desinteressado, acabou novamente deixando a maior parte da música aos seus colaboradores, com resultados decepcionantes.

Ao longo dos quatro filmes anteriores, praticamente todos os compositores ativos da Remote Control colaboraram com Zimmer. Além do próprio Klaus Badelt, a franquia contou com as mãos de Ramin Djawadi, Steve Jablonsky, Henry Jackman, Atli Örvarsson, Lorne Balfe e Geoff Zanelli, entre (muitos) outros. Grande parte deles veio a alcançar uma carreira solo de sucesso nos anos seguintes. Zanelli, no entanto, até hoje era mais famoso por sua trilha indicada ao Emmy para a minissérie The Pacific (composta junto com Zimmer e Blake Neely) e por arranjar a peça William Tell Overture para o clímax de O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, 2013), combinando-a com o material do alemão para aquele filme, além de temas adicionais para Rango (idem, 2011) e Navegando em Águas Misteriosas, porém, como compositor solo, ele trabalhou principalmente em filmes independentes. Sua familiaridade com a franquia, no entanto, deve tê-lo ajudado a conseguir o trabalho em Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales, 2017), quinto capítulo da saga.

Na trama, o protagonista e anti-herói Jack Sparrow (Johnny Depp) é perseguido pelo temível capitão Salazar do título em português (Javier Bardem), que foi amaldiçoado após ter sido enganado pelo pirata. Para derrotar seu inimigo, Sparrow deve encontrar o mítico Tridente de Poseidon. Em sua busca, ele encontra com Carina Smyth (Kaya Scodelario), uma jovem e brilhante astrônoma, e Henry (Brenton Thwaites), o filho de seus antigos companheiros de aventuras Elizabeth Swann (Keira Knightley) e Will Turner (Orlando Bloom), que deseja o Tridente para si a fim de libertar a maldição imposta ao seu pai no terceiro filme. A direção do filme é da dupla Espen Sandberg e Joachim Rønning, cujo longa anterior, Expedição Kon-Tiki (Kon-Tiki, 2012) recebeu uma maravilhosa trilha sonora do sueco Johan Söderqvist (se você ainda não a conhece, recomendo que dê uma conferida agora mesmo).

Experiente na saga, Zanelli mantém a música mais ou menos no mesmo estilo estabelecido por Zimmer, agora que o comando do navio é dele. Além disso, para a alegria dos fãs do alemão, boa parte dos numerosos temas e motivos estabelecidos nos scores anteriores é trazido de volta – não apenas os mais famosos, como também alguns mais obscuros. A terceira faixa, No Woman Has Ever Handled My Herschel, por exemplo, traz de volta o tema pessoal de Jack Sparrow, que Zimmer criou para o segundo longa, o do navio Pérola Negra e o famoso He’s a Pirate (mais conhecido como a suíte dos créditos finais da saga), misturados com o próprio material original de Zanelli. Mais adiante no disco, o tema de Jack ganhará contornos de ação (sem perder os tons cômicos) ao final de Kill the Filthy Pirate, I’ll Wait, enquanto o do Pérola retoma seus arranjos mais heroicos em She Needs the Sea. Finalmente, em El Matador Del Mar, ambos recebem orquestrações grandiosas de uma forma que ainda não foram ouvidas nas trilhas anteriores.

Ambos os love themes de Will e Elizabeth na trilogia fazem surpreendentes (e deliciosos) retornos aqui. O primeiro, ouvido em A Maldição do Pérola Negra, aparece aos 2:06 de El Matador Del Mar, em trompas sombrias e cautelosas. Já o outro, mais famoso, introduzido por Zimmer em No Fim do Mundo, é usado em A Vingança de Salazar como um tema para Henry, acompanhando o filho do casal enquanto ele luta para salvar o pai de sua maldição, como por exemplo em Kill the Filthy Pirate, I’ll Wait, onde é arranjado na forma de uma heroica fanfarra para trompas. Aliás, falando no terceiro longa, não podemos deixar de lado outro tema que marcou aquele score, a canção Hoist the Colors, naquela ocasião usada como um hino à liberdade dos piratas frente à perseguição que sofriam. Aqui, anos após a derrota da Companhia das Índias Ocidentais, tal tema é usado de forma mais irônica, retratando a maré de azar que se abateu sobre Jack Sparrow, conforme podemos constatar aos 2:41 de Kill the Filthy Pirate, I’ll Wait e, principalmente, em The Dying Gull.

Os novos temas de Zanelli são boas adições à coleção da franquia. Quatro deles se destacam: um para o vilão Salazar, outro para Carina, um motivo para o Tridente de Poseidon, e um novo “tema de aventura”. O primeiro segue o estilo da trilogia anterior de, nas palavras do próprio Zanelli, “tratar a orquestra como uma banda de rock”, e não fica muito distante dos temas que Zimmer escreveu para os adversários anteriores de Sparrow, como Davy Jones, o Kraken e o Barba Negra. De acordo com o compositor, ao gravar o tema de Salazar, ele ligou o cello de Adam Peters num amplificador de guitarra (uma estratégia similar à de Zimmer com o tema do Kraken em O Baú da Morte) e o combinou com o violoncelo elétrico de Martin Tillman, além de coral, orquestra e “alguns sopros bizarros”. O resultado é uma melodia distorcida, torturada, mas repleta de malícia e crueldade – e decididamente contemporânea para a época em que a história se passa. Sua audição não é exatamente agradável, mas ao menos Zanelli é eficiente em retratar a insanidade do vilão, e sua obsessão em se vingar de Sparrow. No disco, ela é ouvida em toda a sua ameaça em cues como Salazar, The Devil’s Triangle e na citada El Matador Del Mar.

O tal “tema de aventura”, por outro lado, é uma das melhores contribuições de Zanelli à franquia. Trata-se de uma heroica melodia, quase lembrando uma dança, que acompanha os diversos feitos dos personagens no longa. Já no disco, ela é introduzida num arranjo mais calmo logo ao início de No Woman Has Ever Handled My Herschel, antes de retomar seus tons mais excitantes. Depois, ele marcará presença em várias faixas de ação posteriores, como Kill the Filthy Pirate, I’ll Wait, I’ve Come With the Butcher’s Bill e na enérgica Kill the Sparrow, sempre injetando boas doses de dinamismo e aventura, em meio às melodias de ação do compositor.

Já o motivo do Tridente é adequadamente exótico, aludindo aos mistérios em seu entorno. Introduzido aos 0:31 da primeira faixa, Dead Men Tell No Tales e depois ouvido em faixas como You Speak of the Trident e The Brightest Star in the North, o tema geralmente aparece sempre que os personagens estão discutindo o tal artefato, e as formas de localizá-lo. Já em Shansa e She Needs the Sea, além de sua própria apresentação na abertura da trilha, o motivo é ouvido no duduk, um instrumento de sopro típico do Oriente Médio, aqui usado para retratar as origens exóticas do Tridente.

Finalmente, o tema de Carina representa o triste passado da jovem, que nunca conheceu os pais, e seu sonho em ser reconhecida por seus conhecimentos de astronomia. Ouvido logo ao início de Dead Men Tell No Tales, ele é mais lírico e melancólico do que os outros, ainda que ligeiramente genérico. Mais adiante no disco (e no filme), ele será melhor desenvolvido ao longo da bela The Brightest Star in the North, conforme os mistérios acerca de Carina são revelados à audiência. Sua melhor performance, porém, se dá na suíte dos créditos finais, Beyond My Beloved Horizon, primeiro num belo solo de cello de Peters e depois com toda a orquestra e coral, que vem logo após o já tradicional tema He’s a Pirate.

Como já era de se esperar, a maior parte do disco (em especial, sua segunda metade) é dedicada à ação. As minhas preferidas do tipo, porém, são as primeiras, como as mencionadas No Woman Has Ever Handled My Herschel e Kill the Filthy Pirate, I’ll Wait. Nelas, a música de Zanelli traz a diversão e energia que um filme como este pede, contando, para isso, com grande ajuda dos temas de Zimmer e de seu próprio (e ótimo) tema de aventura. É a mistura, aliás, deste material de Zanelli com os de seu mentor que fazem com que estes cues sejam os que mais se aproximem das trilhas dos primeiros três filmes da franquia.

No longo clímax do filme, Zanelli utiliza tudo a que tem direito: orquestrações grandiosas, coral, percussão… É também o momento onde ele traz de volta todos os seus temas para o confronto final, como os de Salazar, Carina, o do Tridente e o tema de aventura. Além disso, fãs de longa data da franquia, porém, poderão detectar até mesmo alguns motivos mais obscuros. Os primeiros segundos de I’ve Come With the Butcher’s Bill, por exemplo, trazem uma marcha para metais e percussão bem similar à ouvida no início de I Don’t Think Now It’s the Best Time, do disco do terceiro filme, que acompanhava o clímax daquele longa. Mais adiante, na mesma faixa, há o que parece ser uma brevíssima menção ao motivo da tripulação amaldiçoada do Pérola Negra, enquanto a partir de 3:09 de Treasure podemos ouvir uma versão levemente alterada da elegíaca música que acompanha a morte do Lorde Cutler Beckett (Tom Hollander) em No Fim do Mundo – difícil dizer se é a influência da temp track ou uma referência intencional. Afinal (pule para o próximo parágrafo se quiser evitar spoilers), tanto a faixa de Zimmer quanto a de Zanelli são ouvidas durante as dramáticas mortes dos respectivos antagonistas de seus filmes, embora a semelhança entre as duas apenas serviu para me distrair do sacrifício que um dos mocinhos teve de fazer para alcançar esse objetivo em A Vingança de Salazar.

Se, no papel, isso soa tremendamente épico e excitante, na prática não é bem o que ocorre. Faixas como as citadas I’ve Come With the Butcher’s Bill e Treasure, além de The Power of the Sea, fazem o que se espera de trilhas de ação da atualidade, são barulhentas e cheias de energia, mas também pouco memoráveis e genéricas. Além disso, não ajuda muito todo o esforço do compositor em tentar soar grandioso o tempo todo, o que acaba fazendo com que cada uma de suas faixas ganhe tons quase apocalípticos. Com isso, a audição do disco infelizmente se torna bastante exaustiva. Talvez eu apreciasse mais os momentos mais épicos se estes tivessem sido utilizados com maior parcimônia.

Felizmente, ele compensa um pouco isso com a faixa seguinte, My Name is Barbossa. Nesta faixa, além de uma bela performance do tema de Carina, Zanelli faz o que só pode ser descrito como um fanservice musical, ao incluir no mesmo cue diversos elementos musicais de ambos os finales de A Maldição do Pérola Negra (One Last Shot) e No Fim do Mundo (a belíssima One Day), incluindo performances tão grandiosas dos dois love themes de Will e Elizabeth quanto as ouvidas em seus scores originais. Não apenas é um aceno aos fãs da franquia, como também um tributo do próprio compositor à música da saga que ajudou a construir sua carreira.

Seja como for, a trilha de A Vingança de Salazar, se fica bem longe dos scores do segundo e (principalmente) do terceiro filme, ao menos consegue ser melhor que o fraco trabalho escrito para o quarto. Zanelli contribui com temas de boa qualidade para a franquia, e seu disco rende uma audição divertida, ainda que esquecível. Porém, se você estava com saudades da música da franquia, provavelmente ficará satisfeito com este novo trabalho.

Faixas: 

1. Dead Men Tell No Tales 1:51
2. Salazar 4:27
3. No Woman Has Ever Handled My Herschel 3:59
4. You Speak of the Trident 1:58
5. The Devil’s Triangle 2:45
6. Shansa 3:12
7. Kill the Filthy Pirate, I’ll Wait 4:50
8. The Dying Gull 1:01
9. El Matador Del Mar 8:05
10. Kill the Sparrow 6:16
11. She Needs the Sea 2:32
12. The Brightest Star in the North 6:00
13. I’ve Come With the Butcher’s Bill 6:41
14. The Power of the Sea 4:07
15. Treasure 5:43
16. My Name Is Barbossa 5:34
17. Beyond My Beloved Horizon 2:41

Duração: 71:42

Tiago Rangel

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