Música composta por Jed Kurzel
Selo: Milan Records
Formato: CD, Digital, Vinil
Lançamento: 19/05/2017
Cotação:

O xenomorfo está de volta em Alien: Covenant (idem, 2017), o oitavo filme com o icônico ser espacial a chegar nos cinemas em quase quatro décadas. O novo longa serve ao mesmo tempo tanto como uma continuação de Prometheus (idem, 2012) como de prelúdio ao clássico Alien: O Oitavo Passageiro (Alien, 1979) – todos comandados por Ridley Scott. Na trama estrelada por Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride e Michael Fassbender, a nave Covenant desvia-se de seu caminho após uma acidente cósmico, e acaba indo parar num planeta que pode vir a abrigar vida humana. No entanto, logo a infeliz tripulação acaba descobrindo que os habitantes do planeta não são lá exatamente amigáveis.

Por mais violento que seja o xenomorfo, ele inspirou algumas das trilhas sonoras mais marcantes e influentes da história do cinema, nas mãos de compositores como Jerry Goldsmith, James Horner e Elliot Goldenthal, além de trabalhos de qualidade de John Frizzell e Brian Tyler. É um legado musical impressionante e dificilmente encontrado em outras franquias (principalmente aquelas que trocam de compositor a cada filme), o qual Marc Streintenfeld tentou dar prosseguimento em Prometheus. Entretanto, o trabalho do sujeito foi apenas mediano, de forma que os melhores elementos musicais daquele longa partiram não de Streintenfeld mas sim de Harry Gregson-Williams, que compôs música adicional para a trilha, incluindo um bom tema principal, o qual o diretor Scott tratou de utilizar em substituição à música de Streintenfeld onde fosse possível. Assim, o próprio Gregson-Williams foi convocado para trabalhar em Covenant, uma escolha que me deixou feliz, uma vez que o músico inglês escreveu alguns dos melhores trabalhos de sua carreira para Scott, como Cruzada (Kingdom of Heaven, 2005), Perdido em Marte (The Martian, 2015) e seu próprio tema para Prometheus. Entretanto, o compositor logo foi preterido em favor do australiano Jed Kurzel, por algum motivo ainda não revelado.

De certa forma, o modus operandi da franquia Alien é buscar talentos (então) jovens e promissores para escreverem as trilhas sonoras. Com a exceção de Goldsmith, que, na época de O Oitavo Passageiro já era um compositor premiado e influente, Horner, Goldenthal, Frizzell e Streitenfeld ainda estavam relativamente no início de suas carreiras ao serem contratados para trabalhar nos capítulos da saga, com os filmes servindo para lhes abrir portas na indústria. Portanto, Kurzel se encaixaria até mais do que Gregson-Williams no padrão da série. No entanto, o currículo do sujeito não era exatamente inspirador até o momento. Depois de trabalhar principalmente em produções de seu país de origem, o sujeito teve a chance de despontar para o mundo com a fantasia de ação Assassin’s Creed (idem, 2016). Entretanto, além do longa ter sido uma desastre de crítica e bilheteria, o score de Kurzel para ele foi simplesmente terrível. Assim, não foi muito confiante que fui ouvir seu trabalho para Alien: Covenant. Porém, fico feliz em dizer que fui agradavelmente surpreendido pela nova trilha do compositor.

Evidentemente, não é uma trilha de fácil audição. Mais baseada em criar atmosferas de tensão e horror, combinando orquestra e eletrônicos, certamente é um trabalho que não agradará a todos. No entanto, é inegável que Kurzel é bem sucedido em suas intenções, criando com sua música ambientações sinistras, apavorantes, e muito bem adequadas à atmosfera de horror presente na franquia Alien.

A trama de Covenant se passa alguns anos antes do primeiro Alien. Talvez por isso, Kurzel buscou fazer de seu trabalho o mais próximo possível do marcante score de Goldsmith, incluindo a reprise de temas e motivos ouvidos no clássico. É um pouco irônico, considerando como a trilha do lendário maestro foi recortada, remontada e substituída por peças de Howard Hanson e faixas da própria trilha de Goldsmith para Freud: Além da Alma (Freud, 1962), por decisão de Scott e do montador Terry Rawlings. Claro, na época Scott ainda era um diretor inexperiente, em especial ao lidar com a parte musical de um filme. Porém, nos anos seguintes, ele passou a ter uma apreciação maior pelo clássico trabalho do maestro, chegando a considerá-la “uma das melhores trilhas com a qual eu já estive envolvido”. Assim, é provável que a decisão de trazer de volta os temas de Goldsmith tenha partido do diretor, seja para aproximar o novo longa do clássico, seja como uma homenagem (e talvez um tardio pedido de desculpas) ao falecido músico.

Assim, The Covenant e Planet 4 (Main Theme) trazem de volta os motivos de Goldsmith, incluindo a famosa melodia para trompete, hoje conhecida como o “tema de Alien“, mas que foi ouvida pouquíssimas vezes no longa dos anos 1970. A segunda faixa, em particular, funciona como uma recriação relativamente fiel da visão original do lendário maestro para os Main Titles do clássico: um início mais “romântico”, incluindo a tal melodia para trompete, e um final sombrio, que traz outro motivo de Goldsmith, um misterioso padrão de duas notas nas flautas, com acompanhamento de baixos, trompas e ritmos de percussão. É este motivo, aliás, que tem uma presença ainda maior no trabalho de Kurzel, aparecendo depois em trechos de Wheat Field, Grass Attack e Face Hugger. Felizmente, para o crédito de Kurzel, ele é capaz de integrar bem o motivo escrito por Goldsmith, tão sinistro e aterrorizante hoje quanto em 1979, às suas próprias melodias. E eu particularmente gostei do ousado arranjo ouvido em Face Hugger, que mantém as flautas, mas substitui os baixos e a percussão em favor de texturas eletrônicas enervantes.

O material original de Kurzel, se não tem o mesmo peso de Goldsmith, felizmente é construído com competência e talento ao criar atmosferas perturbadoras e tensas. A faixa que abre o disco, Incubation, é um bom exemplo disso, baseando-se mais em texturas eletrônicas e sound design do que em melodias. Já Neutrino Burst segue no mesmo estilo, agora com o acréscimo de cordas para compor a atmosfera de perigo. Mais adiante, Spores lembra um pouco a música de A Origem (Inception, 2010), incluindo uma versão sintetizada do onipresente horn of doom, mas, de toda forma, é um cue eficiente ao demonstrar o crescente perigo que cerca os astronautas da Covenant. Por fim, Payload Deployment é de estilo praticamente industrial, trazendo sonoridades agressivas e percussão.

Mas o grande destaque mesmo é The Med Bay, uma faixa que constrói cuidadosamente a tensão ao longo dos seus sete minutos, mas sem perder o minimalismo. Durante boa parte da faixa, não há grandes explosões de violência, apenas texturas eletrônicas, percussão sintetizada e samples de sonoridades perturbadoras, como as de um sino – ligado ao conceito de morte. Apenas ao final da faixa podemos ouvir música mais enérgica, aqui a cargo de percussão metálica, que, curiosamente, me lembrou um pouco de Don Davis e sua trilha para o primeiro Matrix (The Matrix, 1999). Na sequência, a citada Grass Attack segue o mesmo estilo da anterior, combinando violinos dissonantes com percussão e texturas eletrônicas, rumo a um final violento.

Contrabalanceando tudo isso, há alguns momentos na trilha onde Kurzel deixa de lado tanta dissonância para se focar nas melodias. A Cabin on the Lake, por exemplo, traz piano e cordas melancólicas. Já Sails e Launcher Landing retratam a descoberta dos viajantes com orquestrações grandiosas para cordas, trompas e tímpanos, quase de forma similar ao trabalho de Goldenthal no terceiro filme da franquia. Mais adiante, Chest Burster possui tons elegíacos, quase trágicos, para violinos, percussão e piano. No entanto devo reconhecer que as partes mais melódicas e dramáticas da trilha não me impressionaram tanto quanto as mais dissonantes e texturais. A escrita orquestral de Kurzel aqui não é exatamente ruim, mas apenas genérica, pouco surpreendente. Na maioria das vezes costuma ser o contrário, mas aqui, se o compositor é habilidoso ao criar atmosferas perturbadoras, seus trechos orquestrais parecem derivativos de diversos outros scores diferentes, e melhores.

O clímax do disco consegue ser ainda mais duro, violento e dissonante do que o restante da trilha. Após uma breve introdução na dramática Lonely Perfection, a longa e energética Cargo Lift combina violinos, percussão e sintetizadores, resultando num senso de perigo real. Em seguida, Bring It to My Turf recupera a percussão eletrônica e o minimalismo perturbador das primeiras faixas do disco para criar uma atmosfera de tensão cada vez maior, que explode na imensa Terraforming Bay. Em tal faixa, Kurzel colide metais dissonantes, violinos caóticos, percussão e sintetizadores, num clímax verdadeiramente grandioso e excitante. Finalmente, Alien: Covenant Theme é um encerramento adequado para o disco, que se inicia com o motivo para flautas de Goldsmith, antes de partir para as próprias melodias de Kurzel.

De fato, a trilha de Alien: Covenant não irá agradar a todos, mesmo os fãs dos antigos scores da saga. A abordagem de Kurzel para o xenomorfo aqui é muito mais abstrata, moderna e eletrônica do que as trilhas mais orquestrais que acompanharam a criatura até então, e quem não aprecia música de gêneros como industrial ou dark ambient irá achar a audição do disco profundamente desagradável. Por outro lado, o talento e a habilidade do compositor com esse tipo muito específico de música é inegável, e ele é eficiente ao criar atmosferas envolventes, tensas e perturbadoras. Assim, se a trilha de Kurzel não alcança o mesmo nível de qualidade dos scores da quadrilogia Alien, por certo é um trabalho digno da herança musical da franquia.

Faixas:

1. Incubation  1:07
2. The Covenant 3:25
3. Neutrino Burst 2:57
4. A Cabin on the Lake 1:55
5. Sails 3:18
6. Planet 4 / Main Theme 2:06
7. Launcher Landing 1:19
8. Wheat Field 1:39
9. Spores 2:17
10. The Med Bay 7:25
11. Grass Attack 3:16
12. Dead Civilization 2:51
13. Survivors 1:35
14. Payload Deployment 1:46
15. Command Override 1:47
16. Face Hugger 3:56
17. Chest Burster 1:24
18. Lonely Perfection 3:21
19. Cargo Lift 4:44
20. Bring It to My Turf 2:05
21. Terraforming Bay 3:02
22. Alien Covenant Theme 1:42

Duração: 58:57

Tiago Rangel

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