Resenha de Filme: T2 TRAINSPOTTING


T2 Trainspotting, Reino Unido, 2017
Gênero: Drama
Duração: 117 min.
Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova, Kelly Macdonald
Roteiro: John Hodge
Direção: Danny Boyle
Cotação: star_4

O mundo mudou muito dos últimos 20 anos para cá, embora muita coisa tenha permanecido igual, como é o caso do consumismo e da superficialidade das pessoas, principalmente em tempos de redes sociais. Isso fica bastante explícito no ótimo monólogo de Renton (Ewan McGregor), atualizando para os novos tempos o “Choose Life” do clássico original de 1996.

Em tempos de sequências caça-níqueis descaradas, é bom ver um filme que faça sentido, tenha frescor e não apenas tente emular o espírito do anterior – isso seria complicado, levando em consideração que a história também se passa com um intervalo de 20 anos. Se antes havia uma conexão de amizade entre os quatro personagens, agora, depois da traição de Renton no final do primeiro filme, a noção de amizade é posta à prova. Ou totalmente deixada de lado.

Quem continua sendo puro em seus sentimentos é Spud (Ewen Bremner), até por não ter evoluído. Ao contrário: como o vício da heroína não o abandonou, sua vida se tornou ainda mais miserável, levando em consideração que agora está sozinho nessa. É ao mesmo tempo de rir e chorar o momento em que ele fala de sua tentativa de se adaptar à sociedade, quando sequer sabia que existia um horário de verão em seu mundinho de junkie (por isso sempre chegava aos compromissos com uma hora de atraso).

T2 TRAINSPOTTING (2017) é o tipo de filme que funciona melhor com uma revisitada ao original, que continua sendo a melhor obra já dirigida por Danny Boyle. Muito do mérito está na construção dos personagens criados por Irvine Welsh, autor dos romances Trainspotting (1993) e Pornô (2002). É deste último que o novo filme mais bebe da fonte.

Histórias sobre reencontros após vários anos são quase sempre interessantes. Quando os personagens são bons e temos histórias incríveis deles na memória, então, a expectativa se torna maior. E Boyle não desaponta. Os quatro rapazes, Renton, Simon (Jonny Lee Miller), Spud e Begbie (Robert Carlyle), estão muito bem representados de volta, com mais de 40 anos, ainda que Simon e Begbie, cada um à sua maneira, estejam ainda mais envenenados pelo tempo e pelo estilo de vida. Simon, por ter se transformado em um chantageador e cheirador de cocaína; Begbie, por nunca ser mesmo um exemplo de boa pessoa, mas 20 anos na prisão não costumam melhorar as pessoas.

Quem faz muita falta, ainda que apareça em uma rápida, mas marcante, aparição é Diane, a adorável personagem de Kelly Macdonald que foi o interesse amoroso de Renton no primeiro filme. Sua última linha de diálogo não deixa de ter um significado especial. O filme opta por uma personagem feminina mais jovem, Veronika (Anjela Nedyalkova), que não deixa de ser bastante interessante, além de um elemento de fundamental importância para a trama.

Aliás, falando em trama, se o primeiro filme é composto por cenas fragmentadas, mais ou menos soltas, que formam uma espécie de caleidoscópio, T2 TRAINSPOTTING possui uma melhor coesão na sua construção narrativa, para o bem e para o mal. Como os personagens estão mais sóbrios, é até natural que esse tipo de construção funcione melhor, embora, no fim das contas, isso acabe significando bem menos cenas marcantes do que as do filme anterior. O bom é que o enredo é sólido e empolgante, além de contar com uma cinematografia linda, a cargo de Anthony Dod Mantle, que vem trabalhando com Danny Boyle desde os tempos de EXTERMÍNIO (2002), embora o tom mais colorido lembre mais o de outro trabalho menos badalado do diretor, EM TRANSE (2013).

No quesito música, não há tantos momentos marcantes quanto no primeiro filme, embora a brincadeira de trazer novamente “Lust for life”, do Iggy Pop, em versão remixada pelo Prodigy, seja muito boa. Outra canção marcante e que deixam rolando até o final para arrepiar os saudosistas é “Dreaming”, do Blondie. “Radio Ga Ga”, do Queen, já aparece de maneira mais discreta, o que é uma pena. Talvez o problema esteja no fato de que a junção de velhos clássicos com canções contemporâneas nem sempre funcione bem para aqueles que viram o filme original no cinema, nos anos 1990. Mas pode ser que funcione a médio prazo, à medida que algumas canções mais novas passem a ser mais conhecidas. Isso se T2 se tornar uma obra de referência tão importante quanto seu antecessor. E isso é muita responsabilidade para a nova produção.

Ailton Monteiro

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