lion-cdMúsica composta por Dustin O’Halloran, Hauschka
Selo
Formato: CD, Digital, Vinil
Lançamento: 25/11/2016
Cotação: star_3

Baseado em fatos reais, o drama Lion – Uma Jornada para Casa (Lion, 2016) conta a história de Saroo (Sunny Pawar), um garoto indiano de cinco anos de idade, que acidentalmente embarca num trem, que o leva para mais de mil quilômetros a longe de sua cidade natal. Após viver nas ruas de Calcutá, o menino é adotado por um rico casal (Nicole Kidman e David Wenham) e levado com eles para viver na Austrália. Vinte e cinco anos depois, o agora adulto Saroo (Dev Patel), com uma pequena ajuda da internet, passa a buscar obsessivamente sua família e o lar de sua infância.

Com ótimas críticas, o longa foi indicado a 6 Oscar, incluindo Melhor Filme, e Melhor Trilha Sonora para a dupla Dustin O’Halloran e Hauschka (nome artístico do compositor alemão Volker Bertelmann). Ambos possuem um background como pianistas: o primeiro recentemente venceu o Emmy por seu tema de abertura para a premiada comédia dramática Transparent, enquanto o segundo é mais famoso por seu trabalho com pianos preparados. Assim, Lion foi o projeto de maior proeminência para ambos, e a trilha mais bem sucedida da carreira dos dois até então: além do Oscar, o score também faturou indicações ao BAFTA e ao Globo de Ouro.

Nas entrevistas concedidas para promover o projeto, a dupla declarou que decidiu se focar não tanto na ambientação geográfica do longa (o que demandaria que eles escrevessem músicas típicas da Índia), mas sim em seu conteúdo emocional. Assim, a trilha de O’Halloran e Hauschka consiste principalmente nos pianos preparados do segundo (com objetos postos sobre as cordas do instrumento para modificar o som), uma pequena sessão de cordas e, claro, eletrônicos.  Em suma, trata-se de uma trilha minimalista ao extremo, não apenas no número de instrumentistas, como também em seu conteúdo.

A música de Lion gira em torno de um tema principal, ouvido logo na primeira faixa, interpretado pelo piano, com acompanhamento das cordas. Respondendo pelos melhores momentos do álbum, ele é ouvido também nas belas River, Family e Searching for Home, enquanto na tocante Orphans, ele ganha uma variação mais lenta e melancólica, que depois retornará ao fim do álbum, em Home is With Me. Por fim, o tema retorna uma última vez para a esperada cena do terceiro ato do longa, cujos cues que a acompanham são Arrival, e depois a emotiva Mother. Entretanto, apesar de ser um bom tema, a forma como a dupla de músicos trabalha com ele não é exatamente intrigante. O’Halloran e Hauschka podem até mudar alguns pequenos detalhes na orquestração do tema (como a harpa ouvida em River), mas não conseguem utilizá-lo para transmitir a jornada do protagonista e, dessa forma, a impressão que temos é que ele soa da mesma forma no início, no meio e no fim do longa – o que é um contrassenso com a própria temática do longa.

Afora isso, o restante do disco é menos melódico. Para a primeira parte do filme, que acompanha o pequeno Saroo perdido nas ruas de Calcutá, as cenas são acompanhadas por composições duras, como Train, por exemplo, que traz violinos angustiados e tristes, demonstrando a confusão do protagonista logo após ser afastado de sua família. Já Lost (Part One) e Escape from the Station poderiam vir de um dos thrillers urbanos de James Newton Howard e, ao invés de melodias, trazem pesadas texturas de sintetizadores, violinos e os pianos modificados de Bertelmann. Enfim, não são exatamente agradáveis de se ouvir, mas este era exatamente o objetivo, ao retratar as duras condições a que estão submetidas as crianças de rua da Índia. Assim, é com certo alívio que chega A New Home, que traz uma inocente melodia para piano, mostrando que, ao ser adotado por uma nova família, o menino agora finalmente pode ter uma infância normal.

Já para a segunda parte do filme (e do disco), as texturas eletrônicas agora se focam em mostrar a busca do adulto Saroo pela família. Faixas como Lost (Part Two), Falling Downward, Memory/Connection/Time e, especialmente, a longa Layers Expanding Time, conjuram atmosferas de melancolia e tristeza através de suas texturas eletrônicas, que podem ser precisas para representar o estado mental de confusão e sofrimento do protagonista, mas que fazem pouco ou nada para nos indicar sua busca pela família. Afinal, quem ouvir o disco sem ter visto o longa, pode até pensar que Saroo estava simplesmente afogado em tristeza, sem fazer nada para lidar com os traumas de sua vida. Assim, a bonita Memories, uma das melhores do disco, é mais eficiente em evocar esse aspecto, utilizando um violino solo de sonoridade solitária, acompanhado de harpa e cordas.

Para os créditos finais, a cantora pop Sia gravou a canção Never Give Up, que, no disco, é ouvida logo na primeira faixa. Mais do que no score, é aqui que finalmente ouvimos alguma influência da música indiana. De toda forma, ainda é uma canção interessante, claramente feita para entrar nas paradas de sucesso e, portanto, auxiliar no esforço de vender o longa, além de possivelmente faturar algumas indicações na temporada (o que não ocorreu, vide a concorrência fortíssima na área este ano).

Quem acompanha a temporada de premiações pode teorizar que a trilha de Lion segue tudo aquilo que os votantes da Academia mais apreciam na atualidade. Compositor(es) desconhecido(s) e relativamente iniciantes na Música de Cinema? Certo. Filme aclamado pela crítica, brigando nas categorias principais? Presente. Trilha indie, minimalista, interpretada por um elenco reduzido? Confere. A tendência nos últimos anos é que, com algumas exceções (como os onipresentes Thomas Newman e John Williams, figuras carimbadas em quase todos os anos), a Academia tenda a indicar novas vozes no mundo das trilhas sonoras, ainda que tais compositores, apesar de possuírem boas ideias, ainda não tenham tido tempo para aperfeiçoar sua arte e utilizá-la para compor algo realmente memorável.

E isso atingiu um ponto particularmente alarmante este ano, em que trilhas como Lion, Jackie (idem, 2016),e Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016) receberam a nomeação apenas num esforço da Academia em tentar modernizar a qualquer custo a Música de Cinema. No caso de Lion, sua trilha possui momentos verdadeiramente belos e emotivos, e rende uma boa (ainda que relativamente esquecível) audição no disco. Porém, daí a já ser considerada uma das cinco melhores trilhas escritas no ano passado? Eu posso pensar em dez outras candidatas melhores.

Faixas:

1. Never Give Up – Sia  3:41
2. Lion Theme  1:58
3. Train  1:38
4. Lost (Part One)  3:06
5. River  1:27
6. Escape the Station  2:25
7. Orphans  1:37
8. A New Home  1:54
9. Family  1:04
10. School  0:38
11. Memories  1:52
12. Lost (Part Two)  2:31
13. Falling Downward  3:05
14. Searching for Home  2:16
15. Memory/ Connection/ Time  1:40
16. Layers Expanding Time  5:31
17. Home is with Me  3:15
18. Arrival  4:26
19. Mother  4:28

Duração: 48:32

Tiago Rangel

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