Na Trilha: Retrospectiva 2016 – Parte 2


Sete trilhas ao redor do mundo de 2016 que você precisa conhecer

Acha que a Música de Cinema só existe em Hollywood? Pense novamente: existem trilhas de excelente qualidade sendo produzidas em todos os cantos do planeta, que não deixam nada a dever aos scores para os grandes blockbusters norte-americanos. Assim, conheça algumas das melhores trilhas compostas fora do cinema hollywoodiano, lançadas ao longo do ano passado. E o melhor: todas disponíveis para serem ouvidas em serviços de streaming, como o Spotify, por exemplo.

Bellerofonte (Dark Waves) – Alexander Cimini

Bellerofonte é uma fantasia sombria de horror italiana, que conta a história de um jovem casal que, após encontrar ouro, passa a ser perseguido por vingativos piratas zumbis. O longa foi exibido em alguns festivais ao longo de 2015 e chegou a ser lançado diretamente em home vídeo nos Estados Unidos no ano seguinte, sob o nome de Dark Waves. A direção é de Domiziano Cristopharo, um cineasta italiano cujo longa anterior, Red Krokodil (idem, 2012) atraiu a atenção da comunidade de trilhas sonoras graças ao score de seu compositor Alexander Cimini. A dupla retomou sua parceria em Dark Waves, novamente com grande sucesso, rendendo elogios ao trabalho de seu compositor e uma indicação ao IFMCA Awards (o prêmio distribuído por críticos e jornalistas de Música de Cinema ao redor do globo), na categoria de Melhor Trilha para um Filme de Fantasia, Horror e Ficção Científica.

A sinopse do longa pode fazê-lo parecer uma variação trash de “Piratas do Caribe encontra The Walking Dead” (e seu trailer também não ajuda muito), mas não deixe que isso o impeça de conferir esse bonito trabalho de Cimini. Apesar de este ser um filme de horror, a trilha de Cimini não é a típica música para este gênero de filme que você poderia esperar. Na realidade, trata-se de um belo, grandioso e dramático score gótico, algo como um cruzamento entre Ennio Morricone e Wojciech Kilar, com leves toques de James Horner.

O tema principal da trilha é ouvido logo na primeira faixa, na voz da soprano Monica Boschetti, lembrando bastante sua famosa conterrânea Edda Dell’Orso, já estabelecendo a atmosfera que se seguirá no restante da trilha. Trazendo uma beleza sombria e gótica, ele depois retornará na grandiosa The Tower, e de forma mais intimista, num melancólico piano solo, em Wine Like Blood.

Em outras faixas, Cimini demonstra seu talento para criar atmosferas góticas e sinistramente emocionais com sua orquestra. Entre elas, destacam-se a misteriosa The Town e a evocativa The Arrival, que, em sua primeira metade, traz uma melodia para cordas graves que me lembrou vagamente de partes de algumas trilhas de Horner, como Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001) e O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012). Mais adiante, Fragments of Memories começa de forma ainda mais “horneriana”, com pianos hipnóticos e vozes que poderiam ser uma variação dark da música de O Homem Bicentenário (Bicentennial Man, 1999), antes da faixa se desenvolver numa melodia de grandiosidade operística para cordas, violino solo e soprano, rumo a um clímax irresistível em seu melodrama gótico.

Love Scene, por sua vez, introduz o que eu presumo ser o tema de amor do filme, ouvido aqui na voz de Boschetti, violinos, harpa e no piano, interpretado pelo próprio compositor. Este love theme retorna logo na faixa seguinte, Hidden Mysteries, que combina a interpretação apaixonada da soprano com pianos e flautas hipnóticos relacionados ao senso de mistério e descoberta.

Dentre a música propriamente de suspense e horror, há a tensa The Fog, que traz violinos ameaçadores, quase “herrmannianos”. Entretanto, a única faixa realmente de ação da trilha é The Secreats Revealed, na qual a sessão de metais tem sua participação mais proeminente no score até então. Quando Cimini combina suas orquestrações com os solos de violino de Roberto Nosferini e a voz de Boschetti, temos uma combinação eficiente, que não deixa nada a dever à música dos filmes de fantasia hollywoodianos.

As melhores faixas são encontradas no fim do disco. Cues como Follow Me (subtitulada Film Version), Farewell (que deve agradar aos fãs de Michael Giacchino e suas trilhas para Lost) e a suíte dos créditos finais Memories Lost in the Sea são surpreendentemente ternos, melancólicos e tocantes. Por fim, o fim do disco reserva dois deliciosos bônus: o primeiro é a versão original de Follow Me, cinco minutos mais longa que a do filme – podemos imaginar que, durante o processo de montagem, Cristopharo decidiu encurtar a sequência, levando Cimini a reescrever seu cue, mas, felizmente, o compositor decidiu manter as duas versões no disco. De toda forma, a versão mais longa inclui um enérgico trecho de ação para percussão, metais e coro em sua segunda metade. Finalmente, Bellerofonte Concert Suite é exatamente o que o título indica: uma belíssima suíte baseada nos temas do filme, com brilhantes performances do violino de Noferini e do cello de Sebastiano Severi, já pronta para deixar o disco e ser ouvida em concertos dedicados à trilhas sonoras.

Bellerofonte é o tipo de trilha que só poderíamos encontrar se procurássemos fora de Hollywood. É muito melódica, gótica e operística para os padrões do cinemão norte-americano, que hoje luta uma virulenta batalha para expurgar trilhas tão expressivas quanto as de Alexander Cimini. No cinema europeu, porém, um compositor como ele tem a liberdade para brilhar e mostrar todo o seu talento, que merece ser descoberto por cada vez mais fãs de Música de Cinema.

Ah-ga-ssi (The Handmaiden) – Jo-Yeung Wook

Baseado num livro de Sarah Waters, o drama A Criada (Ah-ga-ssi, 2016) conta a história de uma garota coreana pobre, que é convencida por um charmoso golpista a se tornar a criada particular da rica Lady Hideko. O plano é convencê-la a se casar com o sujeito, para que ele possa tomar para si sua herança e, depois, interná-la num hospital psiquiátrico. Entretanto, tal conspiração ameaça ir por água abaixo quando a criada descobre-se apaixonada por sua ama, neste conto repleto de reviravoltas, onde ninguém é o que parece. Sua trilha foi composta por Jo-Yeung Wook, que já havia colaborado antes com o diretor Park Chan-Wook em longas como Oldboy (idem, 2003) e Sede de Sangue (Bakjwi, 2009).

A Criada é um filme onde a dualidade europeia/asiática é igualmente importante. Afinal, trata-se de um longa dirigido, estrelado e produzido por artistas coreanos que adapta uma obra literária de uma escritora britânica. Mesmo a mansão onde Lady Hideko vive tem uma parte em arquitetura europeia. E, na parte musical, a trilha sonora do compositor foi influenciada pela música da Europa, mais comumente usada para representar aristocratas e nobres de lá – como valsas, por exemplo. No disco, faixas como Rope and Mustache e Fire! são bons exemplos disso.

Alguns cues adotam um tom mais sombrio para representar as diversas conspirações no centro da história. Bounds of Knowledge, Shall We Play Maid e I was Going a Bit Crazy Back Then, por exemplo, trazem cordas frenéticas e tensas, quase beirando a música de filmes de terror, enquanto Five Books That I Used to Cherish e especialmente Don’t You Ever Think of Running? transmitem uma atmosfera mais grave e pesada. The Duchess Juliette introduz um motivo que representa os mistérios e os segredos sombrios que se escondem na mansão onde vivem Lady Hideko e seu noivo (e tio), o Lorde Kouzuki. Já em My Name is Nam Sookee, flautas, harpas, celesta e cordas representam a recém-chegada criada com uma melodia sedutora, porém repleta de segundas intenções e propósitos ocultos.

Nem tudo, porém, são conspirações e tramoias. Assim, algumas das faixas de Jo impressionam por sua beleza. A faixa inicial, The Tree of Mount Fuji, que traz alguns belos solos de piano, cello e violino, enquanto Thousand Woes Under the Blue Sky, apesar de sua curta duração, impressiona com uma tocante melodia para cordas e piano. Para representar o relacionamento entre Sookee e Hideko, She’s Beautiful, Quite the Charmer e What’s with Her? possuem um estilo quase renascentista, através de alguns belos solos de harpa. Além disso, algumas faixas em ritmo de valsa retratam a crescente paixão da criada por sua ama, como a quase cômica Each Night in Bed I Think of Her Assets, e Spellbindingly Beautiful, uma valsa para orquestra, piano e castanholas, cuja melodia é depois revista e ampliada em Sea of Bells. Enfim, lembra algo que Alexandre Desplat poderia escrever para um dos diversos dramas de época europeus em seu currículo. Por outro lado, Losing Her Heart to a Fake e A Week Here… Then Finally! são mais melancólicas, mostrando o lado mais complicado do relacionamento entre as duas.

Mas, dentre as muitas faixas deste score, três delas se destacam. Wedding, a mais longa do disco, é um excelente cue, ouvido na sequência que serve de clímax para a primeira parte do filme. Ela constrói sua melodia aos poucos, trazendo um desenvolvimento musical invejável, ancorada por um belo e dramático motivo introduzido na marca de 1:46. Destaque especial para a forma como cada sessão da orquestra tem seu momento de brilhar, e para os solos de violino e piano na segunda metade do cue. Depois, sua melodia será reprisada em My Tamako, My Sook-Hee, que também serve de clímax para o segundo ato do filme. Aqui, o motivo de Wedding ganha uma impactante performance na sessão de cordas da orquestra. Por fim, You Must Be A Natural acompanha a principal (e polêmica) cena de sexo do longa, e tem como destaque uma dramática melodia para cordas e cello solo, ainda que, bizarramente, ela tenha me lembrado da icônica Journey to the Line, da trilha de Hans Zimmer para Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998).

No fim das contas, a trilha de A Criada traz tantas faixas, e de estilos tão distintos, que pode tornar um pouco desafiadora a tarefa de ouvi-la em disco, ainda que funcionem maravilhosamente bem no longa – e, nesse aspecto, a curta duração da maioria dos cues não ajuda muito. No entanto, a criatividade de Jo-Yeung Wook ao empregar diferentes instrumentações e estilos para capturar todas as complexas relações entre os personagens é notável, bem como seu domínio de uma linguagem musical plenamente ocidental. Por isso, se você gosta de trilhas europeias, em especial os trabalhos de Desplat para o cinema do Velho Continente, por exemplo, certamente irá apreciar esse belo score.

Birkebeinerne (The Last King) – Gaute Storaas

Ambientado durante as Guerras Civis Norueguesas, a aventura histórica Birkebeinerne se passa no ano de 1206, após o assassinato do rei Håkon III. O filho infante do monarca, Håkon Håkonsson, passa a ser ameaçado pelos inimigos da coroa, que desejam tomar o poder para si. Assim, dois guerreiros leais ao rei devem proteger a criança e embarcar numa perigosa jornada, que irá mudar os rumos da história da Noruega. O filme foi dirigido por Nils Gaup e traz no elenco Kristofer Hivju, conhecido fora de seu país de origem por ter interpretado o personagem Tormund na série Game of Thrones.

Sua trilha foi escrita por Gaute Storaas, um compositor norueguês sobre o qual eu devo admitir que simplesmente não conhecia antes de sua música chamar a atenção da crítica internacional no ano passado. Afinal, o sujeito escreveu os scores não apenas deste como também o de Um Homem Chamado Ove (En man som heter Ove, 2016), indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro. E, se este era um trabalho mais intimista, introspectivo e melancólico, interpretado por um elenco menor de músicos, em Birkebeinerne Storaas vai por um caminho muito mais grandioso e chamativo. Sua trilha foi interpretada pela Orquestra Sinfônica de Bratislava, e traz também diversos instrumentos vikings da época, o que lhe confere um ar altamente evocativo.

O disco, na realidade, abre com a canção Bifröst, interpretada por Helene Bøksle, cujos tons grandiosos são extremamente evocativos do passado viking do país, e prepara o ouvinte para a jornada que se seguirá. Tal canção tem importância fundamental no score e age como seu tema principal: em Byrjanligr, por exemplo, ela ganha performances nobres e fatídicas, como se prometesse uma grande aventura adiante. Depois, em Ylva, a melodia da canção é interpretada por um evocativo hardanger fiddle, uma espécie de violino norueguês muito usado na música folk do país (e conhecido dos fãs de trilhas sonoras por aparecer nos scores de O Senhor dos Anéis, interpretando o tema de Rohan). Entretanto, em Konungborinn, o tema principal aparece num arranjo mais melancólico para harpa e orquestra, ao passo em que, na faixa Noregskonungr, ele ganha ares heroicos e grandiosos para representar a missão dos personagens.

A cantora Bøksle, por sua vez, não apenas é a intérprete da canção de abertura, como também empresta sua voz para o score em si, como na grandiosa Birkibeinar Titull, as citadas Ylva e Konungborinn e nas dramáticas Sorgsamr e Eftirmæli Stendr. Enfim, de fato lembra um pouco as trilhas dos épicos do início da década passada, pós-Gladiador (Gladiator, 2000), onde as tais vocalizações femininas (ou wailing voices) se tornaram lugar comum, o que poderá ser bom ou ruim no caso de Birkebeinerne, dependendo de seu nível de nostalgia pela época.

As faixas de ação de Storaas são particularmente intensas. Há a violenta Floginn Fyrur, por exemplo, que traz ritmos percussivos quase tribais acompanhando a orquestra, ou a urgente Flóttamaðr, conduzida por violinos frenéticos, trombones e percussão. A faixa seguinte, Stríð, segue na mesma linha, porém, trazem algumas rápidas performances do tema principal na orquestra. A excelente Baglar Komandi, por sua vez, traz uma ótima escrita para cordas e percussão, e alguns momentos heroicos em meio às enérgicas melodias do compositor.

Algumas partes do disco, porém, não são tão interessantes, especialmente em seu miolo, e acabam deixando a audição levemente arrastada. Entretanto, a trilha compensa em seu ótimo clímax. O trio composto por Sleðrenna, Brjótast e Sverfa Til Stáls traz intensas melodias de ação, com percussão, cordas graves e metais. Por fim, após alguns cues de suspense, a trilha tem uma conclusão altamente satisfatória em Kon Ungr, que resume alguns de seus principais elementos e traz o tema principal no hardingfele e na voz de Bøksle.

Um dos grandes prazeres em escrever sobre Música de Cinema é descobrir compositores desconhecidos que, normalmente, passariam despercebidos fora de seus países de origem. Gaute Storaas, aparentemente, é um compositor ainda jovem (sua página no IMDB inclui apenas 16 filmes, a maioria na Escandinávia), mas, a julgar por este trabalho e por Um Homem Chamado Ove, terá um grande futuro pela frente.

Kailuo Xuanyan (The Cairo Declaration) – Ye Xiaogang e Chad Cannon

Produzido em comemoração aos 70 anos da Segunda Guerra Sino-Japonesa, The Cairo Declaration é um épico chinês que dramatiza os eventos da Conferência do Cairo, de 1943, quando o presidente norte-americano Franklin Roosevelt, o primeiro ministro britânico Winston Churchill e o general chinês Chiang Kai-shek encontraram-se no Egito para discutir os cursos da guerra contra seu inimigo comum, o Japão. Dirigido por Liu Xing, o longa atraiu controvérsias por colocar Mao como um dos participantes do evento, diferentemente do que ocorreu na realidade.

A trilha do longa foi escrita em colaboração por uma dupla de compositores. O primeiro, Ye Xiaogang, é considerado um dos mais ativos compositores chineses de música clássica da atualidade, e escreveu parte da trilha sonora do espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. O outro, por sua vez, é o americano Chad Cannon, de apenas 31 anos, especialista em fundir música do Oriente e do Ocidente, como fundador do Asia/America New Music Institute. No mundo das trilhas sonoras, ele já trabalhou na equipe de orquestradores em filmes como as duas sequências de O Hobbit, Godzilla (idem, 2014) e Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets, 2016), além de compor a trilha de dois curtas e dois documentários. Ainda assim, os elogios recebidos pela trilha de The Cairo Declaration provavelmente abrirão muitas portas para ambos os compositores.

Trata-se de um grandioso e épico score orquestral, que certamente agradará aos fãs desse tipo de trilha sonora. Ele não traz exatamente um tema principal ou muitas ideias recorrentes, mas, ao invés disso, apoia-se em belas peças musicais que, se não trazem um arco definido, compensam por serem excelentes por si só.

Boa parte da trilha é dedicada à ação. Faixas como Air Raid e Assault on Chong Qing combinam orquestrações vigorosas e excitantes com melodias dramáticas e trágicas para representar os horrores da guerra, de forma similar a muitos scores para filmes do gênero produzidos em Hollywood. Mais adiante, Pearl Harbor também segue na mesma linha, e traz ritmos quase mecânicos e ameaçadores na orquestra que, em conjunto com poderosos metais, ajudam a estabelecer a terrível ameaça representada pelo exército japonês no infame ataque do título da faixa. Na sequência, a faixa seguinte, Epitaph, oferece uma bela elegia aos mortos no ataque, com solos de violino e piano em meio à orquestra.

A dramaticidade com que Cannon e Xiaogang retratam a tragédia da guerra rende algumas faixas particularmente impactantes. A primeira parte de Bombers on the Yangtze traz um terno coral feminino chinês, um lampejo de humanidade em meio aos horrores do conflito, antes que este volte a mostrar sua presença, representado por meio de uma marcha para percussão e orquestra que, coincidentemente ou não, me lembrou do tema de Hans Zimmer para Pearl Harbor (idem, 2001). Já America Enters the War prenuncia um destino não muito feliz aos soldados americanos que entram no conflito, através de um motivo dramático ouvido aqui em violinos e trompetes. Depois, o início de Briefing Roosevelt é menos elegíaco e mais melancólico, através de um solo de piano, violinos e flautas, antes do cue ganhar tons mais decididos na segunda parte.

Nem tudo é trágico na trilha, porém. A faixa inicial do disco, Red State Over China, traz uma nobre e grandiosa melodia de tons orientais, representando o orgulho do povo chinês, mesmo em meio ao violento conflito com os japoneses na Segunda Guerra. Blossoming Romance, por sua vez, possui românticos solos de violino, cello e harpa em meio à orquestra. Em seguida, a melodia principal de Mao and the Journalist passa das madeiras às cordas, com acompanhamento de trompa e harpa, e parece ter sido inspirada em Edvard Grieg, em especial, sua icônica peça Morning Mood (a qual você talvez não reconheça pelo nome, mas que certamente já ouviu antes). Por fim, Enemies of the Nazi Regime e Deliberations retrata as negociações entre os países com energia e orquestrações hipnóticas.

Da décima quinta faixa até o fim do disco, a trilha assume tons progressivamente mais vitoriosos e grandiosos, mostrando os progressos feitos pelos aliados rumo à vitória na guerra. Entre elas, destacam-se a empolgante The Cairo Declaration, a nobre The Broadcast e as comemorativas e eufóricas Japanese Surrender e Mao at the Shore of the Yellow River.

The Cairo Declaration é uma trilha que deve agradar a todos os fãs de scores de guerra. Talvez tenha faltado um tema mais memorável, que a tornaria ainda mais contundente, mas, de toda forma, este ainda é um enérgico e excitante trabalho de uma dupla com talento de sobra para compor trilhas sonoras de ótima qualidade.

Tôi thay hoa vàng trên co xanh (Yellow Flowers on the Green Grass) – Christopher Wong

Lançado originalmente em 2015, este drama vietnamita foi um grande sucesso nos cinemas de seu país de origem, e a escolha do Vietnã para representá-lo no Oscar deste ano. Dirigido por Victor Vu, ele conta a história da vida de dois irmãos, de doze e sete anos de idade, num pequeno vilarejo vietnamita no final da década de 1980. Sua bela trilha foi composta por Christopher Wong (colaborador regular do diretor Vu), com música adicional de Garrett Crosby, e interpretada pela Orquestra Sinfônica da Bulgária. O sujeito, segundo o IMDB estudou com o lendário Jerry Goldsmith e possui uma prolífica carreira no cinema vietnamita.

O tema principal foi baseado na canção infantil Thằng Cuội, que, escrita na década de 1960, aparentemente é muito popular entre as crianças daquele país (sua versão com letras é ouvida na última faixa do disco, onde é interpretada por Hien Pham). Ele é introduzido logo na primeira faixa, The Green Grass, onde é interpretado pela viola solo de Patrick Rosalez, com acompanhamento de cordas e violão, instaurando uma atmosfera bucólica e pastoral para a vila onde os dois meninos vivem. Mais adiante, ele retorna em faixas posteriores, como na sentimental Admiration and Envy, e na triste Moon Moves Away, na qual é interpretada em violão, orquestra e piano de forma mais lenta e melancólica.

O restante da trilha é igualmente evocativa. A segunda metade de The Fable e Grumpy Teacher oferecem uma divertida e quase aristocrática valsa para cordas e sopros, certamente relacionada a forma como as crianças veem os adultos e seu imenso senso de auto importância. Já em Past the Forbidden Tree, o clima de inocência e magia infantil de maneira similar a Elmer Bernstein e seu clássico O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962), enquanto Dear Brother traz um dueto quase folk entre o piano e a viola que, estranhamente, me lembra mais a trilhas como Lendas da Paixão (Legends of the Fall, 1994) e O Patriota (The Patriot, 2000) do que um longa sobre crianças vietnamitas. The Days Ahead introduz um novo elemento no score, as vocalizações de Holley Replogle-Wong, enquanto a faixa seguinte, The Princess and the Prince, é altamente emotiva e dramática.

Crosby contribui com três das mais belas faixas do disco. A primeira, Guilty Rain, é uma tocante melodia para piano, cordas e oboé. Mais adiante, a emocionante e levemente trágica Flooded traz belos solos de cello, de oboé e piano, enquanto Running Away traz como destaque uma melancólica performance do tema principal.

O final do disco é tão bonito quanto o restante. Walking Again é dominada por uma bonita e otimista melodia para piano, e é seguida por Remembering Dad, que traz uma performance mais calorosa do motivo ouvido antes em The Princess and the Prince. Finalmente, The Matter of Loving You traz o tema principal, com o acréscimo de uma cítara vietnamita à orquestração.

Yellow Flowers on the Green Grass é uma belíssima trilha sonora, certamente uma das mais tocantes trilhas desta lista. A habilidade de Wong ao incorporar uma canção típica de seu país em meio ao seu score e ao escrever melodias tocantes e intimistas, denota um compositor de grande talento, que pode e deve ser redescoberto fora de seu país de origem.

Cézanne et Moi – Éric Neveux

Este drama francês, dirigido por Danièle Thompson, conta a história da amizade entre o pintor Paul Cézanne (Guillaume Gallienne) e o escritor Émile Zola (Guillaume Canet), ao longo de muitos anos, na França do século XIX. Sua trilha foi composta por Éric Neveux, um músico bastante proeminente em diversas produções francesas para o cinema e a televisão.

Para Cézanne et Moi, Neveux escreveu um belo score, que celebra a vida e a amizade entre os dois artistas. Ela é conduzida por um tocante tema principal, introduzido em Ouverture, no qual é interpretado em piano e violão, com acompanhamento de cordas e harpa. Depois, ele retorna em faixas como a alegre e pastoral Souvenirs d’Enfance, ou em Ballade des Deux Amis, que traz uma bela performance do tema principal em sua segunda metade. Mais adiante, na primeira parte de Retrouvailles, há uma variação mais intimista do tema, em violão, cordas e cello.

Em Emile et Gabrielle uma melodia intimista e romântica para cordas, violão e piano descreve o relacionamento entre Zola e sua esposa, Gabrielle. Por outro lado, há momentos mais sombrios em La Lettre d’Emile e, especialmente, na atmosférica e carregada La Souffrance de Paul. Ambas as faixas combinam solos para violoncelo e violino com cordas expressivas, criando texturas de grande dramaticidade.

Ao final da trilha, ouvimos algumas melodias melancólicas, representando o triste fim da amizade entre os dois artistas (que, na vida real, romperam após Zola ter usado a vida de Cézanne como base para sua obra L’Œuvre, muito para o desgosto do pintor). La Fin d’Une Amitié utiliza cordas e pianos melancólicos e tristes para retratar o drama da situação em um minuto e meio. Porém, em Paul s’en Va, o tema principal e o motivo ouvido em La Lettre d’Emile ganham interpretações dramáticas, quase trágicas, para toda a orquestra, piano, e solos de violino e cello, atingindo seu clímax emocional antes de finalizar de forma triste e intimista, que em nada lembram o clima feliz e solar do início. Por fim, Cézanne et Moi (Générique de Fin) tem tons agridoces e melancólicos, com sua bonita melodia para piano e cordas.

A trilha de Cézanne et Moi é bastante curta (cerca de 32 minutos), mas também excepcionalmente bonita e tocante. Suas orquestrações minimalistas e delicadas, e seu lindo tema principal, capturam a duradoura amizade entre os dois artistas ao longo dos anos, e o impacto que ela teve na vida da dupla.

Un Monstruo Viene a Verme (A Monster Calls) – Fernando Velázquez

Lançado no Brasil como Sete Minutos Depois da Meia Noite, este drama de fantasia conta a história de Conor (Lewis McDougall), um solitário garoto de 13 anos de idade, cuja mãe (Felicity Jones) encontra-se bastante debilitada pelo câncer. Além disso, ele também precisa lidar com seu afastado pai (Toby Kebbel), com sua dura e rigorosa avó (Sigourney Weaver) e com os valentões de sua escola. Uma noite, porém, o menino recebe a visita do monstro do título (voz de Liam Neeson), com a promessa de contar três histórias que ajudarão Conor a lidar com as difíceis situações em sua vida. Uma co-produção entre Espanha, Estados Unidos e Reino Unido, o longa foi dirigido por J.A. Bayona, e teve sua trilha composta por Fernando Velázquez, aqui regendo a Orquestra Sinfônica de sua Bilbao natal.

A dupla colaborou em apenas três filmes até o momento mas, ainda assim, já é o suficiente para dizer que esta é uma das mais excitantes parcerias entre diretor e compositor a surgir nos últimos dez anos. O Orfanato (El Orfanato, 2008) foi uma trilha de horror de ótima qualidade, e O Impossível (El Imposible, 2012), um belíssimo score de drama. Agora, Sete Minutos Depois da Meia-Noite combina estas duas características, e o compositor foi tão bem sucedido que a trilha entrou entre as dez melhores do ano, em minha lista pessoal.

Velázquez é um compositor que nasceu na época errada: ele não teme evocar emoções por meio de sua música, de tentar diminuí-las ou soterrá-las, pelo contrário – em suma, sua música não é discreta. Ainda assim, isso não significa que ele esmague o longa com sua trilha, ou que ela seja onipresente a ponto de prejudicá-lo. No caso de Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Velázquez demonstra ter sido um bom aluno na escola de Williams, Barry e outros compositores que não evitavam o melodrama, mas sabiam a hora exata de utilizá-los, para maximizar seu impacto dramático.

O tema principal do score é ouvido logo aos 2:13 de Conor Wakes Up/Main Title, logo após uma tensa abertura. Trata-se de uma melodia simples, inocente como o protagonista, mas também melancólica e triste, representando a situação vivida por Conor naquele momento. Posteriormente, ouviremos tal tema, seja de forma mais infantil e (levemente) mais positiva, em Home Alone/Dad Arrives, seja mantendo seus tons pesados e tristes, como em Montage, na qual o ouvimos de forma incerta e hesitante sobre o seu futuro.

A trilha também traz momentos de puro horror, gênero no qual Velázquez é especialista. Muitos desses momentos estão relacionados aos primeiros encontros de Conor com a criatura, antes que este ganhe a confiança do menino. The Monster Wakes Up traz percussão, coros aterrorizantes e trombones para representar a suposta ameaça do enorme ser, e não fica muito distante do trabalho do músico em filmes como Mama (idem, 2013) A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015). Já The Second Encounter inicia-se de forma mais sutil, antes de transformar o tema principal numa fanfarra de ação para metais. Por fim, Break Things utiliza trombones, baixos e tímpanos de forma grave e extremamente brutal.

As faixas que acompanham os três contos do monstro permitem a Velázquez adentrar mais a fundo o território da música de fantasia. The First Tale e Grandma’s Clock/The Second Encounter trazem diversas cores ao longo de sua duração, de tons nobres e majestosos ao suspense, ao completo horror e à melancolia ao longo de seus sete minutos – em tese, era para sair um cue desconjuntado, mas, surpreendentemente, não é o que ocorre. Por fim, The Third Tale é mais curta, e se foca em orquestrações pesadas e dissonantes de horror.

Além disso, a trilha traz uma forma diferente de horror. Em faixas como Drawing, Crisis e The School, Velázquez utiliza texturas melancólicas e opressivas de cordas e piano, que ameaçam esmagar as notas iniciais do tema principal, como se retratassem toda a carga dramática que engole o pobre Conor. Por outro lado, a primeira traz alguns breves ecos de John Williams e seu seminal E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extraterrestrial, 1982), através do uso de harpa e celesta, um breve respiro de inocência, em meio a um clima tão pesado.

Mas são nas três últimas faixas que Velázquez atinge o ápice emocional do score. I Wish I Had a Hundred Years começa de forma melancólica, e finaliza com uma tocante performance do tema principal em cordas, piano e coral. Depois, na linda e tristíssima The Truth, o compositor lentamente direciona sua melodia rumo a uma emocionante apresentação do tema principal, com acompanhamento de um coro angelical, capaz de tocar mesmo os mais corações mais endurecidos. Finalmente, End Credits encerra o score e o filme com uma bela suíte baseada no tema principal.

Por esta trilha, Fernando Velázquez levou para casa o Goya, o “Oscar do cinema espanhol”, o primeiro de sua carreira. Ele certamente é o nome mais reconhecível fora de seu país de origem dentre os músicos espanhóis que, aos poucos, invadem a Música de Cinema mundial, compondo scores de qualidade e excelência poucas vezes ouvidos nos dias de hoje. Assim, A Monster Calls não apenas foi a melhor representante dentre as trilhas ibéricas de 2016, como também uma das maiores realizações ouvidas em qualquer canto do planeta.

Tiago Rangel

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