jackie-cdMúsica composta por Mica Levi, regida por Ben Foster
Selo: Milan Records
Formato: CD, Digital
Lançamento: 02/12/2016
Cotação: star_3_5

Primeiro filme hollywoodiano do renomado cineasta chileno Pablo Larraín, Jackie (idem, 2016) é um drama biográfico focado no luto da então primeira-dama Jacqueline Kennedy (Natalie Portman) após o assassinato de seu marido, o presidente John F. Kennedy, em 1962.  O longa foi aclamado pela crítica, em especial pela atuação de Portman, uma das concorrentes mais fortes ao Oscar de Melhor Atriz na corrida pela estatueta dourada deste ano.

Outra indicação recebida pelo longa foi por sua trilha, composta pela jovem artista inglesa Mica Levi, também conhecida por seu nome artístico Micachu.  Após uma bem sucedida carreira na cena pop experimental e indie da Inglaterra, ela foi convidada pelo cineasta Jonathan Glazer a compor o score de seu terror psicológico Sob a Pele (Under the Skin, 2014). Tal trilha, absurdamente experimental e intencionalmente “estranha”, atraiu diversos elogios dos críticos de cinema e foi até mesmo indicada ao BAFTA, porém, no mundo das trilhas sonoras, foi também amplamente criticada por ser de difícil audição.

Em Jackie, Levi contou ao Jon Burligame, da Variety, que Larraín, ainda nos processos iniciais da montagem do longa, lhe enviou algumas cenas do longa para que a compositora trabalhasse. Assim, ele pôde montar o longa utilizando sua própria trilha sonora – em geral, isto costuma ocorrer ao contrário, o compositor deve escrever e gravar já baseando-se numa versão quase finalizada do longa. Levi também mencionou que escreveu “um monte de música sem sequer ter visto o filme”, baseando-se em suas impressões sobre a personagem e a figura histórica de Jackie. Assim, apesar de este estilo de se compor não ser novo nos cinemas já há décadas (Ennio Morricone e Hans Zimmer já trabalharam de forma similar em diversas ocasiões do tipo), a compositora conseguiu causar diversas discussões entre a comunidade de trilhas sonoras.

Deixando discussões na internet de lado, o fato é que, se você desgostou de todo o experimentalismo de Levi em Sob a Pele e está receoso em dar uma chance a Jackie, talvez goste de saber que o novo trabalho da polêmica compositora é um pouco mais “convencional”, por assim dizer. Interpretada por uma orquestra de tamanho reduzido, praticamente não há eletrônicos ou manipulações computadorizadas aqui. Ainda assim, tal como seu trabalho anterior, esta provavelmente não será uma trilha que agradará a todos os gostos, por sua abordagem mais intelectual e menos “óbvia”, por assim dizer.

Em seu longa, Larraín pinta o luto de Jackie com diversos tons: tristeza, raiva, revolta, dúvidas sobre o seu destino e o de seus filhos, seu sentimento de culpa pela morte do marido e seu desejo em exorcizar-se desse sentimento ao construir um legado pela memória do presidente assassinado. E, além da bela atuação de Portman, outra ferramenta essencial para retratar isso é a música de Levi. A trilha de Jackie é sutil e íntima no melhor sentido da palavra, pois a compositora utiliza suas orquestrações e melodias como uma forma da ex-primeira dama expressar a torrente de sentimentos fortes, confusos e conflituosos que ela sentia.

A primeira faixa do disco lançado pela Milan, Intro, traz texturas de cordas quase borradas e indefinidas, como se representando a névoa e o torpor que confundem a protagonista em meio a todo esse turbilhão emocional e político. Essa escrita distorcida para violinos e cellos, com breves participações de flautas, retorna depois em Lee Harvey Oswald. Já em Graveyard, tal “tema” é transferido das cordas para o piano, no qual ele perde seu estilo indefinido e se torna mais austero.

O maior destaque da trilha, porém, é a forma com que Levi consegue utilizar seus instrumentos e orquestrações para sugerir subtextos e características das personalidades dos personagens. Children é um bom exemplo disso: nesta faixa, ouvimos uma melodia simples e repetitiva para cordas. Aqui, a repetição das mesmas frases nos violinos e cellos, e a performance rotineira, morosa, quase entediante, dos músicos, foram pensados para refletir Jackie tentando retomar e manter sua rotina como mãe de família, mesmo apesar de estar fragilizada por sua perda. Ao mesmo tempo, as breves intervenções de sopros podem ser pensadas como representações musicais da inocência infantil dos filhos da primeira dama, ainda jovens demais para compreender a perda do pai, e o que isso implica.

Tears é curta, mas também é particularmente inteligente, na forma como usa o dueto entre cordas e o sintetizador, para sugerir melancolia, fragilidade e emoções lutando para vir a tona. A faixa seguinte, Autopsy, é ainda mais difusa e indefinida, ainda que relativamente simples musicalmente, trazendo apenas uma simples ideia de duas notas no violino, no cello e na flauta, além de algumas intervenções de um tarol. Este último instrumento retorna na citada Graveyard, aqui no ritmo de uma marcha militar, e representa na trilha o rigor e a formalidade presentes nos primeiros escalões do governo. Por fim, Burial traz a sessão de cordas em tremolo e, se em outras trilhas isso normalmente seria utilizado para sugerir tensão e suspense, aqui Levi evoca as emoções fortes e conflituosas, lutando violentamente para virem a tona. Por outro lado, Walk to the Capitol é mais sombria e ameaçadora, com violinos e cellos que poderiam ter saído de Bernard Herrmann em algum thriller de Hitchcock, enquanto a sombria Empty White House evoca uma tristeza mais evidente, ao trazer quase um réquiem fúnebre para cordas.

Nem tudo, porém, é tristeza e escuridão na trilha. Em Vanity, a melhor faixa do disco, o som triste e pesado das cordas contrasta com as flautas mais melódicas e positivas, como se mostrasse o esforço de Jackie ao tentar retomar sua vida, apesar de tudo. Depois, The End é uma elegia para cordas que conclui o longa, ainda que pareça uma versão acústica da famosa Love, de sua trilha para Sob a Pele. A faixa toma as ideias ouvidas logo no início do score e lhes dá uma sonoridade mais otimista e sonhadora, comentando acerca do legado de Jackie, de JFK e de seu curto período como presidente.

Jackie é mais uma das típicas trilhas que realmente só consegui apreciar após uma série de audições, além de, claro, uma sessão do filme. É uma trilha emocional, claro, mas que lida com essas emoções de uma forma mais crua, a ferida exposta do luto em forma de música; enfim, como se Levi usasse sua orquestra para expor a fragilidade de Jackie Kennedy naquele instante. Previsivelmente, as reações dos críticos especializados em trilhas sonoras foram mistas, com críticas e elogios de todas as partes. Particularmente, embora Jackie não seja normalmente o tipo de música que eu escolheria ouvir, apreciei a forma como a compositora escreveu uma trilha quase como uma extensão da personagem. Pode não render um disco particularmente envolvente, mas ainda serve bem ao seu propósito no longa.

Faixas:

1. Intro  1:26
2. Children  3:20
3. Car  0:23
4. Tears  0:53
5. Autopsy  2:39
6. Empty White House  2:58
7. Graveyard  3:10
8. Lee Harvey Oswald  1:58
9. Walk to the Capitol  2:43
10. Vanity  2:59
11. Decision Made  0:33
12. Burial  2:33
13. The End  5:14
14. Credits  3:14

Duração: 34:03

Tiago Rangel

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