50-tons-posterFifty Shades Darker, EUA, 2017
Gênero: Drama, Romance
Duração: 118 min.
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric JohnsonKim Basinger
Trilha Sonora: Danny Elfman
Roteiro: Niall Leonard
Direção: James Foley
Cotação: star_2

Não dá mesmo para esperar algo de alto nível de uma obra advinda de uma produção literária pobre. Tudo bem que Hitchcock costumava dizer que era mais fácil fazer ótimos filmes de literatura menor do que de grandes obras literárias, mas o que acontece é que o público de adaptações de best-sellers pop quer ver na tela algo bem parecido com o que leu, e isso prejudica um pouco o trabalho de invenção do diretor contratado para o serviço.

No caso de CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS (2017), o convidado da vez foi James Foley, um diretor irregular, mas que possui em seu currículo coisas muito boas, como JOVENS SEM RUMO (1984), CAMINHOS VIOLENTOS (1986) e O SUCESSO A QUALQUER PREÇO (1992). Sem falar nos videoclipes marcantes que ele fez para a Madonna, como “Papa don’t preach” e “Live to tell”. Mas ao que parece sua fase boa ficou para trás, pois seus trabalhos seguintes enterram sua reputação. E não é com a sequência de CINQUENTA TONS DE CINZA (2015) que ele conseguiria se reerguer.

Uma das vantagens dessa franquia de adaptações dos romances de E.L. James é trazer de volta a moda dos filmes eróticos, que foram ficando de lado com o tempo. Mas CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS nos deixa com saudades dos thrillers eróticos populares na década de 1990, surgidos depois do estouro de INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven. A outra vantagem é a franquia atrair um público feminino entusiasmado, coisa que não se via com tanta força desde 9 ½ SEMANAS DE AMOR, de Adrian Lyne. Aliás, os dois filmes até têm um elemento forte em comum: Kim Basinger, que aqui meio que passa o bastão para Dakota Johnson.

Anastasia Steele, a personagem de Dakota, não tem muito tempo de se livrar de Christian Grey (Jamie Dornan), o bilionário sedutor e adepto de jogos de sadomasoquismo, como já havíamos visto no primeiro filme. Anastasia havia caído fora do barco por achar que ele se excedeu nos seus jogos e na violência proveniente deles. Porém, não demora muito para que ele a convide para um jantar e ela aceite fácil voltar para seus braços. Aliás, esse tipo de facilidade da relação dos dois é bem prejudicial para que se crie um mínimo de tensão sexual. Mas o roteiro, ao que parece, está pouco se lixando com a tensão dos corpos ou mesmo o suspense de alguns momentos, que acabam ficando bem ruins.

Não tanto como os diálogos, que são de deixar o espectador bem envergonhado, embora de vez em quando seja possível se esquecer disso e ficar interessado em algumas cenas de sexo ou algumas ideias, por mais que algumas delas já tenham sido vistas em outros filmes. A cena da calcinha no restaurante, por exemplo, é igualzinha à de INVASÃO DE PRIVACIDADE, mas perde e muito em voltagem sexual para o filme estrelado por Sharon Stone, que nem é tão bom assim. Será que é só porque o filme citado era com a Sharon Stone?

Talvez não, pois o que há de mais interessante em Dakota Johnson é conferir ao seu papel um certo ar de garota comum, diferente de Jamie Dornan, que já parece mesmo um modelo. Ele, aliás, foi mesmo modelo da Calvin Klein, da Dior e da Armani. Já a filha de Melanie Griffith e Don Johnson tem um rosto comum, ainda que um belo corpo, que é até pouco explorado. Sinal dos tempos, talvez, em que se comenta bastante sobre o quão negativo pode ser a exploração do corpo feminino. Assim, a nudez de Dakota é ainda mais discreta nesta sequência do que no primeiro filme.

Quem já leu o livro garante que o longa consegue melhorar bastante muita coisa do romance, que por sua vez é considerado o melhor dos três. Não deixa de ser um mérito, principalmente por trazer uma história de contos de fadas, sem medo de ser brega, de enfiar o pé na jaca. Mas se ao menos a história de amor dos dois não fosse tão superficial e as cenas de sexo não fossem tão parecidas com videoclipes, até seria possível ter um pouquinho mais de amor por CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS, que pelo título promete ser mais sombrio que o anterior e na verdade é o oposto, por mais que tente trazer, sem sucesso, os tais elementos de suspense para a trama.

Ailton Monteiro

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