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Resenha de Trilha Sonora: MOANA – Mark Mancina, Lin-Manuel Miranda, Opetaia Foa’i


moana-cdMúsica composta por Mark Mancina, Lin-Manuel Miranda, Opetaia Foa’i
Selo: Walt Disney Records
Formato: CD
Lançamento: 18/11/2016
Cotação: star_4

Já há quase oitenta anos que os filmes animados da Disney vem contando histórias fantásticas, embaladas por canções marcantes, cujas ambientações variam da Europa Medieval às selvas da África, da Arábia à China, da Antiguidade ao futuro mais distante. A nova animação da Casa do Mickey, Moana – Um Mar de Aventuras (Moana, 2016), porém, explora uma cultura ainda não abordada nos filmes do estúdio: os povos que habitavam as ilhas da Polinésia, no sul do Oceano Pacífico. Na trama, a personagem título (Auli’i Cravalho) é a filha do chefe da tribo de uma das ilhas, que cresce apaixonada pelo mar e por navegação, a despeito da proibição de seu pai. No entanto, ela acaba sendo escolhida pelo oceano para levar de volta o místico coração da deusa Te Fiti, para que os habitantes de sua ilha voltem a ter abundância de pesca e coleta. Para isso, ela contará com a relutante ajuda do semideus Maui (Dwayne Johnson), o responsável pelo roubo do coração, séculos antes. O longa tem direção da dupla Ron Clements e John Musker, que já haviam utilizado outras mitologias como inspiração antes, como a árabe em Aladdin (idem, 1992) e a grega em Hércules (Hercules, 1997).

Moana é também um dos famosos filmes de princesas, como são conhecidas os musicais animados da Disney protagonizadas por heroínas descendentes de algum tipo de realeza. Tal subgênero, após alguns anos em baixa, ensaiou um retorno com A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009) e Enrolados (Tangled, 2010), mas foi apenas com Frozen – Uma Aventura Congelante (Frozen, 2013) que ele recuperou sua popularidade entre público e crítica. Naturalmente, um dos principais ingredientes para o gigantesco sucesso da animação estrelada pelas irmãs Anna e Elsa foram suas cativantes (e grudentas) canções, cortesia do casal Robert e Kristen Anderson-Lopez, que, na época, faziam sucesso com sua premiada trilha para o musical (adulto) The Book of Mormon. Ansiosa para ter outra máquina de fazer dinheiro em mãos, a Disney decidiu empregar a mesma estratégia em Moana, ao contratar o talentoso ator, escritor, compositor e rapper Lin-Manuel Miranda, responsável pelo hit da Broadway, o musical Hamilton, para escrever as canções do filme. Ele colaboraria com o cantor Opetaia Foa’i, fundador do grupo musical de música contemporânea do Pacífico Te Vaka, e com o compositor Mark Mancina, que também seria o responsável pelo score.

Como é de se imaginar, o foco musical do longa está nas belas e deliciosas canções escritas pelo trio. Contando com boas letras e melodias cativantes, tais músicas possuem uma qualidade tão consistente que, ouso dizer, é até superior às de Frozen. Particularmente, minha preferida é Where You Are, escrita por Miranda e ouvida logo no início do filme, quando o pai de Moana canta um elaborado número musical, com a ajuda dos outros habitantes da ilha, sobre as maravilhas de habitá-la, numa tentativa de levar a filha a desistir da ideia de velejar para outros lugares. Tal canção traz uma melodia alegre e cativante, que é reforçada pela bela interpretação do elenco do longa e pela letra divertida e, ao mesmo tempo tocante. Em suma, uma ótima introdução aos personagens e à ambientação do filme, que não deixa nada a dever para clássicos como Belle, de A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991), ou One Jump Ahead, de Aladdin.

No entanto, a canção que, de longe, mais tem chamado a atenção, é How Far I’ll Go, o tema da personagem-título, também de autoria de Miranda, que, segundo uma entrevista à People, a escreveu no quarto onde passou a infância. Vista como a sucessora da hoje icônica Let It Go, por sua sensibilidade pop, tal música pode não alcançar o sucesso comercial da premiada música de Elsa, mas é melhor e mais emocionante, graças ao talento de Miranda como compositor e à interpretação de Cravalho. Ela possui duas partes, ouvidas em momentos diferentes do filme, e com a segunda até superando o poder da primeira, conforme Moana opta por, finalmente, abraçar seu destino. Entre elas, está a ótima We Know The Way, uma canção de tons tribais, cantada tanto em inglês como em samoano por um coral completo, com acompanhamento de violão, percussão e orquestra. Nobre, heroica e orgulhosa, a música é uma lembrança dos gloriosos dias de navegação do povo polinésio.

Maui é o responsável pela canção mais bem humorada do filme, You’re Welcome. Contando com o vozeirão de Dwayne Johnson, tal música me lembrou um pouco de Friend Like Me, a música cantada pelo Gênio ao conhecer Aladdin no clássico de 1992. Por outro lado, Shiny, o tema do vilão Tamatoa, é a mais surpreendente: quando soube que Jemaine Clement interpretaria o personagem, um enorme e mesquinho caranguejo, Miranda inspirou-se no tributo que a banda do ator, Flight of the Conchords, prestou a David Bowie no Aspen Comedy Festival, em 2004, para escrever uma canção no melhor estilo glam rock para o personagem. Segundo o compositor, ele a escreveu após ouvir repetidamente as músicas do icônico artista após o seu falecimento, há cerca de um ano. O resultado é ao mesmo tempo hilário, sarcástico, perturbador e repleto de subtextos bizarros, como só as “canções do vilão” das animações da Disney conseguem ser. Repare como, na letra, Tamatoa reforça o tempo todo que não pode ser derrotado por sua carapaça ser rígida demais (!), enquanto zomba de Maui por perder sua força.

Depois, I Am Moana (Song of the Ancestors) é ouvida no momento mais dramático do filme. Ela se inicia com uma versão triste e melancólica da melodia de Where You Are, a cargo da atriz Rachel House, que dubla a avó e mentora de Moana na aventura. Depois, Cravalho reassume, dando tons ainda mais grandiosos e heroicos ao seu tema. Pouco depois, para o final do longa, há uma excelente reprise de We Know The Way, com toda a orquestra e o coro.

Além das músicas em língua inglesa, também não podemos deixar de mencionar as três canções interpretadas exclusivamente nos idiomas típicos de onde a história se passa, como o samoano e a língua toquelauana, compostas por Foa’i. Tulou Tagaloa acompanha a logomarca da Disney ao início do filme, e traz vocais atmosféricos e misteriosos, com acompanhamento de baixos e percussão. Depois, An Innocent Warrior segue na mesma linha, e introduz um tema a cargo dos vocais para representar o misticismo e os mistérios do oceano, que mais tarde é reprisado pela própria Moana em Know Who You Are, estabelecendo uma bela ligação entre o começo e o fim do filme, e o arco da protagonista. Por fim, Logo Te Pate é uma alegre balada, de ritmo contagiante, representando a amizade crescente entre Moana e Maui.

Para os créditos finais, como de costume, as canções do longa são ouvidas em versões pop, também presentes no disco. A de How Far I’ll Go, a cargo da cantora teen Alessia Cara, já está praticamente pronta para virar um hit entre o público alvo do filme. Já a de You’re Welcome é mais interessante: interpretada por Jordan Fisher (revelado nas séries do próprio Disney Channel, e membro do elenco de Hamilton), e com participação de Miranda, ela ganha tons de soul e R&B, mas sem deixar de ser espirituosa.

O disco traz também 25 faixas do score de Mancina, que possui uma relação extremamente saudável com o estúdio (ele é o autor do arranjo de When You Wish Upon A Star, que acompanha a logomarca utilizada atualmente pela Disney), e, sabiamente, optou por incorporar as canções à sua música original. Além disso, para manter a autenticidade, ele combinou orquestra com vocais polinésios e instrumentos, como percussão e flautas, típicos da região. Por outro lado, infelizmente Mancina não é nenhum Alan Menken e, dessa forma, seu score acaba sendo a parte menos interessante do disco, apesar de alguns bons momentos isoladamente. Ele se divide em três partes: faixas de ação enérgicas para os momentos de maior aventura do filme, orquestrações melancólicas para as cenas tristes, e músicas leves e divertidas para as engraçadas.

Dentre as do primeiro tipo, a que mais se destaca é Kakamora: segundo os próprios diretores, a sequência na qual Moana e Maui enfrentam as criaturas do título da faixa foi uma homenagem intencional a George Miller e seu Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015). Dessa forma, Mancina aproveitou também para homenagear o colega de Remote Control Junkie XL e sua trilha para o renomado filme de ação, ao simular a violenta percussão tribal daquele score, acompanhando suas enérgicas melodias orquestrais. Já as outras, se não são exatamente memoráveis, ao menos fazem um bom trabalho ao empregar de forma coerente os instrumentos e coral étnicos com a orquestra, que aqui lembra um pouco o estilo de John Powell em animações. Faixas como Prologue e Tamatoa’s Lair são mais sombrias, enquanto Great Escape traz percussão e violão acompanhando metais heroicos. Já Te Ka Attacks tem como destaque o coro tribal masculino, que dá tons exóticos à faixa. Mais adiante, a longa Sails to Te Fiti inicia-se com uma ótima performance orquestral do tema de Moana, antes de ganhar melodias de ação, bem escritas, excitantes e com uma bela escrita para o coro étnico a fim de adicionar empolgação, porém não exatamente memoráveis.

Sendo esta uma animação infantil, era inevitável alguns momentos mais leves e cômicos. Battle of Wills, por exemplo, até traz um pouco de mickeymousing, para representar a difícil relação dos dois protagonistas, repletas de provocações. Já Village Crazy Lady, Wayfinding e Climbing são faixas leves e calorosas, para cordas e flautas, similares a outros cues do tipo dos scores anteriores de Mancina para a Disney, como Tarzan (idem, 1999). Por outro lado, Cavern, The Ocean Choose You e Tala’s Deathbed oferecem tons heroicos e determinados para Moana e a jornada à sua frente, através da orquestra e do coral étnico.

Mas é o final do disco que oferece a melhor parte do score. A partir de Te Fiti Restored, a orquestra, o coral e a percussão interpreta as melodias mais grandiosas e emocionantes da trilha do compositor, que já havia se sobressaído nesse aspecto nas outras animações da Disney que escreveu. Além disso, os arranjos coloridos e festivos de algumas das canções, como a versão orquestral de Tulou Tagaloa ouvida ao final de Toe Feiloa’i, e a do tema de Moana em Navigating Home, são particularmente ótimas.

A versão deluxe do disco oferece alguns bônus a mais: canções que terminaram cortadas da versão final do filme, versões demo das que entraram e do score, além de versões instrumentais de How Far I’ll Go e You’re Welcome, para serem cantadas como karaokê. Dentre as faixas do primeiro tipo, Unstopabble e More são versões preliminares das canções de Maui e Moana, respectivamente. A primeira é imaginada como uma canção folk, enquanto a outra é mais pop do que a versão final (comparações com Let It Go seriam inevitáveis), apesar de possuir um trecho que acabou sendo reaproveitado em How Far I’ll Go. De toda forma, o segundo disco, como um todo, acaba servindo mais como uma curiosidade aos fãs.

Se você for assistir a Moana nos cinemas, provavelmente o verá nas cópias dubladas, portanto, farei alguns breves comentários sobre a versão em português das canções (também disponíveis em disco). A equipe de dubladores brasileiros fez um ótimo trabalho ao manter o ritmo e a melodia das músicas, embora obviamente adaptações tivessem de ser feitas nas letras, ainda que mantendo o mesmo significado do original (uma tarefa de uma dificuldade que eu não gosto nem de pensar). A Where You Are americana virou Seu Lugar no Brasil, sem muitas diferenças de uma versão para outra, mas com destaque para a atuação de Saulo Javan, a voz do pai de Moana, que não deixa nada a dever para Christopher Jackson, o intérprete do personagem no original. Por outro lado, a versão tupiniquim de How Far I’ll Go é Saber Quem Sou, uma canção realmente difícil. Assim, a dubladora de Moana no Brasil, Any Gabrielly, não tem a mesma suavidade de sua contraparte americana, e usa alguns falsetes que acabam se tornando hilários no complicado refrão da música.

We Know The Way virou Para Ir Além, e, naturalmente, apenas as partes em inglês foram dubladas. You’re Welcome foi traduzida literalmente como De Nada, e, portanto, não fica muito atrás da original, graças à divertida performance de Saulo Vasconcellos, a voz de Maui no Brasil. Já em Brilhe, o dublador Roberto Garcia não tem o mesmo charme glam rock de Jemaine Clement, mas mantém o tom sarcástico e zombeteiro da canção, tão hilária quanto a versão americana. Por fim, Canção Ancestral e Teu Nome Eu Sei fazem as vezes de I Am Moana (Song of the Ancestors) e Know Who You Are, e, embora os textos de ambas não sejam exatamente idênticos, a equipe de dublagem e as atrizes acertam ao reproduzir o tom triste e melancólico de ambas as músicas.

De toda forma, seja em inglês ou em português, Moana é uma das melhores trilhas musicais a sair da Disney em um bom tempo. Já é quase certo que Mancina, Miranda e Foa’i conquistarão uma, ou talvez até mais, indicações ao Oscar, embora sua concorrência será particularmente dura. Por outro lado, é uma pena que o score de Mancina não mantenha o mesmo nível, tal como Menken costumava fazer em seus tempos áureos e, por esse motivo, serei obrigado a retirar meia estrela da nota do disco. Ainda assim, um prato cheio para quem gosta das animações musicais da Casa do Mickey.

Faixas:

1. Tulou Tagaloa (Olivia Foa’i)  0:51
2. An Innocent Warrior (Matthew Ineleo and Sulata Foai-Amiatu and Vai Mahina)  1:37
3. Where You Are (Auli’i Cravalho and Christopher Jackson and Louise Bush and Nicole Scherzinger and Rachel House)  3:30
4. How Far I’ll Go (Auli’i Cravalho)  2:43
5. We Know The Way (Lin-Manuel Miranda and Opetaia Foa’i)  2:21
6. How Far I’ll Go (Reprise) (Auli’i Cravalho)  1:27
7. You’re Welcome (Dwayne Johnson)  2:43
8. Shiny (Jemaine Clement)  3:05
9. Logo Te Pate (Olivia Foa’i and Opetaia Foa’i and Talaga Steve Sale)  2:10
10. I Am Moana (Song of the Ancestors) (Auli’i Cravalho and Rachel House)  2:42
11. Know Who You Are (Auli’i Cravalho and Matthew Ineleo and Olivia Foa’i and Opetaia Foa’i and Vai Mahina)  1:12
12. We Know The Way (Finale) (Lin-Manuel Miranda and Opetaia Foa’i)  1:09
13. How Far I’ll Go (Alessia Cara Version) (Alessia Cara)  2:55
14. You’re Welcome (Jordan Fisher/Lin-Manuel Miranda Version) [feat. Lin-Manuel Miranda] (Jordan Fisher)  2:17
15. Prologue  2:25
16. He Was You  0:50
17. Village Crazy Lady  0:45
18. Cavern  2:05
19. The Ocean Chose You  1:17
20. The Hook  1:09
21. Untitled Track 21  2:00
22. Battle of Wills  3:10
23. Kakamora  4:33
24. Wayfinding  1:52
25. Climbing  0:54
26. Tamatoa’s Lair  2:45
27. Great Escape  0:59
28. If I Were the Ocean  3:01
29. Te Ka Attacks  1:41
30. Maui Leaves  2:05
31. Heartache  0:39
32. Untitled Track 32  1:01
33. Sails to Te Fiti  5:46
34. Shiny Heart  0:36
35. Untitled Track 35  1:03
36. Hand of a God  0:30
37. Voyager Tagaloa  0:57
38. Toe Feiloa’i  1:25
39. Navigating Home  0:47
40. The Return to Voyaging  1:01

Duração: 75:58

Tiago Rangel

Uma opinião sobre “Resenha de Trilha Sonora: MOANA – Mark Mancina, Lin-Manuel Miranda, Opetaia Foa’i”

  1. As canções são ótimas! Minhas favoritas são You’re Welcome, Where You Are e Shiny. Há muito tempo não me empolgava com uma animação (nem mesmo Frozen) e as músicas foram essenciais para isso, afinal estamos falando de um musical. Mancina também me desapontou. Também percebi outro “rip-off” na trilha. O tema escrito pelo John Williams para Kylo Ren (SW7) está presente em uma das primeiras faixas da trilha.

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