westworldcdMúsica composta por Ramin Djawadi
SeloWaterTower Music
Formato: Download Digital, CD
Lançamento: 05/12/2016
Cotação: star_3_5

Novo hit da emissora americana HBO, o drama de ficção científica Westworld foi um sucesso de crítica e audiência durante os dez episódios da primeira temporada. A complexa trama se passa num parque futurista, que simula o Velho Oeste americano, contando inclusive com androides, chamados de anfitriões, programados para acreditar que de fato vivem naquele período. Conhecido como um local que leva seus endinheirados convidados a se redescobrirem, em Westworld eles podem utilizar os androides para fazerem o que quiser, inclusive assassiná-los e torturá-los. Entretanto, quando novas atualizações são implementadas na programação dos anfitriões, eles logo passam a ter mais autonomia e consciência de sua situação, o que pode levar a uma violenta rebelião dos androides. A caríssima série foi estrelada por um elenco que inclui Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood, James Marsden, Jeffrey Wright, Thandie Newton, Rodrigo Santoro e Ed Harris no papel do principal vilão, o Homem de Preto, e criada por Jonathan Nolan (irmão de Christopher) e Lisa Joy a partir de um filme de 1973 dirigido por Michael Crichton. O músico Ramin Djawadi, que também é o compositor do outro blockbuster da HBO, Game of Thrones e já havia colaborado com o Nolan mais novo na série Person of Interest, comanda a trilha sonora.

O aspecto de sua música que mais chamou a atenção da audiência são os arranjos instrumentais que Djawadi criou para canções dos Rolling Stones, Radiohead, Amy Winehouse, The Cure e Soundgarden. Segundo o compositor, “o show tem uma qualidade anacrônica. É um parque temático do Velho Oeste, porém tem robôs nele, então por que não ter canções modernas? E isso é uma metáfora em si, envolvida no tema geral da série”. A maioria das canções é ouvida na principal cidade do parque, e serve para relembrar aos personagens (e à audiência) de que aquele não é o Velho Oeste de verdade, mas sim uma recriação artificial daquela época, uma mentira tão elaborada quanto a vida dos anfitriões.

Além disso, a escolha de cada canção não é aleatória: nos primeiros episódios, as canções como No Surprises e A Forest parecem relacionar-se à situação deprimente dos anfitriões, em especial, a de Maeve (Newton), a dona do bordel de Sweetwater, e sua amiga e protegida, a prostituta Clementine (Angela Sarafyan). Se você assistiu ao show, note como as letras das canções, ainda que não sejam ouvidas, relacionam-se ao momento vivido pelas duas personagens no início da série. A primeira, do Radiohead, diz: “A job that slowly kills you/ Bruises that won’t heal/ You look so tired and unhappy/ Bring down the government/ They don’t, they don’t speak for us” (em tradução livre, “Um trabalho que o mata lentamente/ Feridas que não vão curar/ Você parece tão cansado e infeliz/ Derrube o governo/ Eles não falam por nós”). Já a segunda, uma canção menos conhecida da banda The Cure, diz: “Come closer and see/ See into the dark/ Just follow your eyes” (“Chegue mais perto e veja/ Veja na escuridão/ Apenas siga os seus olhos”).

Por outro lado, a canção Paint it Black, dos Rolling Stones, ganhou o arranjo mais interessante. Djawadi pegou a famosa música da banda de rock inglesa e a reimaginou como uma heroica faixa de ação orquestral, que acompanha, no piloto da série, o explosivo assalto promovido pelo bandido Hector Escaton (Santoro) à cidade de Sweetwater. Ouvida aqui na quarta faixa do disco lançado pela WaterTower, ela inicia de forma sutil, numa surpreendente fusão de Stones e Morricone, antes de se transformar numa enérgica faixa (certamente a melhor do disco) para toda a orquestra, percussão e violão. Perceba, principalmente, como Djawadi transforma o refrão da canção numa heroica fanfarra para Hector e seus seguidores.

Conforme a série progride e os anfitriões descobrem mais sobre a terrível realidade de sua existência, as canções começam a acompanhar sua nascente revolta. Neste caso, músicas como Fake Plastic Trees, House of the Rising Sun e Back to Black foram as escolhidas para representar o reconhecimento pelos androides de sua situação. Segundo o compositor, a última, uma famosa canção de Amy Winehouse, marca a primeira vez em que “um anfitrião escolhe sua música”. Além disso, Exit Music (For a Film), também do Radiohead (como você já deve ter percebido, uma banda da qual Nolan é um grande fã), ouvida na chocante cena final do último episódio, retrata justamente isso: agora, são os anfitriões, não os humanos, que estão decidindo quais serão as suas canções. Djawadi dá à já sinistra canção, escrita originalmente para o longa Romeu + Julieta (Romeo + Juliet, 1996) um dramático arranjo para piano, cello solo e cordas, e, ao final da faixa, a mescla com seu próprio tema de abertura para a série.

Tanto no disco quanto na cena, tal faixa é seguida por um arranjo de uma peça de Claude Debussy, intitulada Reverie. Seu título traduz-se para o português como “devaneio”, e é também o termo utilizado pelo Doutor Robert Ford (Hopkins) para descrever as lembranças que os anfitriões passam a ter após a nova atualização (antes, suas memórias eram apagadas a cada vez que eles “morriam”). Assim, a peça de Debussy, ouvida em diversos momentos de forma diegética na série, funciona como uma das principais peças no quebra cabeças da primeira temporada, embora sua verdadeira importância seja revelada apenas no último episódio.

O disco, porém, não limita-se apenas aos arranjos, mas traz também seleções da música original de Djawadi, incluindo sua música para a abertura. O sujeito já mostrou, em séries como Game of Thrones e Person of Interest, que possui um talento especial para criar temas de abertura memoráveis e, se seu tema para Westworld não é tão imediatamente “pegajoso” quanto o do épico medieval, certamente fará sucesso entre os fãs da série. Ouvido aqui na primeira faixa do disco, ele mistura elementos orgânicos e sintetizados, remetendo à própria temática do show. Além disso, sua melodia, segundo o próprio o compositor, foi pensada para “apoiar o aspecto de parque temático”, conforme podemos ouvir pelo piano.

Já o restante da trilha, espelhando a série, divide-se tanto em seu aspecto sci-fi quanto no faroeste. Infelizmente, ao contrário dos arranjos das canções, não é exatamente instigante ou estimulante intelectualmente, apesar de bem escrita, o que é uma pena, dada a temática complexa do programa. Para o lado de ficção científica há uma grande (e óbvia) presença de eletrônicos, criando texturas futuristas. Online, por exemplo, poderia ter saído de uma trilha de Trent Resznor e Atticus Ross, enquanto Reveries inicia-se de forma sutil, em sintetizador, mas logo ganha violinos atmosféricos, como se retratasse o despertar de uma vida artificial. Por outro lado, Freeze All Motor Functions, No One’s Controlling Me e Violent Delights acompanham a violenta revolta das máquinas e, portanto, são mais nervosas e intensas. Tais faixas são baseadas em torno de um motivo que funciona quase como uma marcha eletrônica para os androides, tão mecânica e fria quanto eles, porém também ameaçadora e sinistra. Por outro lado, por serem bastante abrasivas, poderão afastar o ouvinte acostumado ao estilo mais orquestral de Game of Thrones.

Representando o lado western da série, Djawadi compôs um tema específico, ouvido logo na segunda faixa, Sweetwater, em violão, cordas, percussão e, claro, o piano de salloon. Depois, ele será ouvido de forma mais sombria em Pariah e Trompe L’Oeil, bem como  uma variação de ação na enérgica Nitro Heist.

Entre os temas recorrentes, destacam-se o do Doutor Ford e o do Homem de Preto, cujas suítes podem ser ouvidas no disco nas faixas oito e dezesseis, respectivamente. O primeiro é representado com uma melodia levemente melancólica, calorosa, mas também enigmática, tal como o personagem interpretado por Anthony Hopkins. Depois de introduzido na suíte, ele é reprisado em faixas como Reveries, The Maze e Bicameral Mind. Já o tema do segundo é mais pesado e ameaçador, ouvido principalmente nos baixos em sua suíte e retratando todo o perigo representado pelo vilão. Porém, à medida em que conhecemos a trágica história pregressa do personagem, seu tema também ganha contornos mais tristes e carregados, como podemos ouvir pouco depois, em Trompe L’Oeil.

Aliás, Djawadi aqui tem a oportunidade de mostrar seu lado mais dramático, que, em meio a tantos filmes de ação, ficção científica e fantasia, quase não fica evidente. Afinal, sendo um antigo trainée de Hans Zimmer, Djawadi aprendeu como compor uma elegia impactante que, na série, ajuda a dar o tom dramático das chocantes revelações dos últimos episódios (em especial do season finale). Faixas como a citada Trompe L’Oeil e What Does This Mean são adequadamente trágicas e tristes, enquanto Someday é ao mesmo tempo romântica e pesada, retratando o malfadado destino dos amantes Dolores (Wood) e Teddy (Marsden). Pouco depois, Bicameral Mind começa de forma solene, mas logo ganha contornos decisivos conforme a faixa avança, culminando numa fatídica performance do tema de abertura ao final: a rebelião das máquinas começou.

Westworld pode não ser a melhor trilha para televisão do ano (ele ainda fica atrás da música de Penny Dreadful ou da própria Game of Thrones, por exemplo), mas é mais uma amostra da maturidade que Djawadi atingiu nos últimos anos. Embora seja uma pena que sua música não aborde de forma mais ousada e surpreendente a complexa temática da série, o sujeito (com a ajuda, claro, de Nolan) ganha pontos pela inteligente incorporação de canções no score, escolhidas não apenas por sua fama, mas também por serem adequadas à narrativa. É uma pena, portanto, que a segunda temporada retorne apenas em 2018, mas, desde já, estaremos no aguardo das surpresas que Nolan e Djawadi nos reservam.

Faixas:

Disco 1:
1. Main Title Theme – Westworld  1:41
2. Sweetwater  2:53
3. Black Hole Sun  2:29
4. Paint It Black  5:44
5. This World  2:29
6. Online  4:19
7. No Surprises  4:02
8. Dr. Ford  5:30
9. A Forest  2:48
10. Reveries  3:00
11. Nitro Heist  3:32
12. Motion Picture Soundtrack  2:42
13. Freeze All Motor Functions  3:03
14. Pariah  3:08
15. Fake Plastic Trees  2:14
16. MIB  3:06
Duração: 52:40

Disco 2:
1. The Maze  4:05
2. House Of The Rising Sun  1:24
3. Trompe L’Oeil  5:04
4. What Does This Mean  3:04
5. Something I Can Never Have  5:56
6. White Hats  2:27
7. Back To Black  1:58
8. No One’s Controlling Me  1:59
9. Memories  3:44
10. No Surprises (Stride Piano)  2:37
11. Violent Delights  4:58
12. Someday  3:40
13. Sweetwater Stride  0:41
14. Do They Dream  1:48
15. The Stray  2:18
16. Bicameral Mind  4:25
17. Exit Music (For A Film)  4:26
18. Reverie  1:42
Duração: 56:16
Duração Total: 108:56

Tiago Rangel

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