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Resenha de Trilha Sonora: DOCTOR STRANGE – Michael Giacchino


dr-strange-cdMúsica composta por Michael Giacchino
Selo
: Hollywood Records
Formato
: CD
Lançamento: 21/10/2016
Cotação: star_4

Décimo quarto filme da Marvel Studios, Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016) baseia-se no personagem homônimo criado por Stan Lee e Steve Ditko, e busca levar magia e misticismo ao universo habitado pelos Vingadores, Defensores e Guardiões da Galáxia. Na trama dirigida por Scott Derrickson, o arrogante cirurgião Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) sofre um acidente automobilístico no qual perde os movimentos das mãos e, portanto, a capacidade de exercer sua profissão. Sua busca desesperada por uma cura o leva a um santuário no Nepal, um centro dedicado à magia comandado pela misteriosa Anciã (Tilda Swinton). Ela decide treinar Strange nas artes místicas, que ganha a missão de proteger a Terra de ameaças sobrenaturais, a começar por impedir os planos do vilão Kaecilius (Mads Mikkelsen).

Durante a pré produção do longa, era quase certo que Christopher Young, por já ter trabalhado por Derrickson em três ocasiões anteriormente, seria o compositor responsável pelo longa. O próprio Young, na verdade, falava sobre começar os trabalhos no filme, que ainda estava nos estágios iniciais. Porém, os meses foram se passando, não houve nenhuma confirmação oficial por parte dos responsáveis, até que, em maio deste ano, o compositor escolhido não foi Young, mas sim Michael Giacchino. Doze anos após surgir no mapa com suas trilhas para Lost e Os Incríveis (The Incredibles, 2004), o sujeito vive o ápice de sua popularidade, fazendo sua música ser ouvida em um blockbuster atrás do outro. Dada a popularidade do “gênero” hoje em dia, é curioso pensar que este é o seu primeiro longa de super-heróis desde Sky High: Super Escola de Heróis (Sky High, 2005).

Há algumas semanas, um vídeo do canal Every Frame a Painting tornou-se viral na internet ao discutir a falta de memorabilidade das trilhas da Marvel Studios e, a partir daí, abordar um problema maior: como o constante uso de temp tracks* tem prejudicado a Música de Cinema da atualidade. Particularmente, eu discordo de partes do vídeo, afinal, as contribuições de músicos como Alan Silvestri, Brian Tyler e Christophe Beck, num esforço de criar temas memoráveis para a Casa das Ideias, não devem ser subestimadas. Por outro lado, os autores do vídeo estão certos ao argumentar que as trilhas da Marvel, e da Hollywood dos dias atuais como um todo, basicamente repetem as mesmas características umas das outras, e não são exatamente o tipo de música que o espectador irá lembrar ao terminar de assistir aos longas, diferentemente de outras bilionárias sagas cinematográficas, como Star Wars, Harry Potter e James Bond. Dessa forma, se havia uma pessoa que poderia corrigir isso, esta era Giacchino – assim como o próprio Young, claro, mas não vamos perder tempo nos focando no que a trilha poderia ter sido, ao invés do que ela é. Os chefões da Marvel depositaram tanta confiança nos ombros do sujeito, que o encarregaram até mesmo de escrever a nova fanfarra de abertura da casa, substituindo a anterior, de autoria de Brian Tyler, que durou apenas três (!) filmes.

O Doutor Estranho foi criado num momento de grande fascínio de artistas ocidentais por misticismos do Oriente, misturando experiências lisérgicas, decorrentes do uso de drogas como o LSD, com ideias culturais exóticas (para um ocidental, é claro). Este movimento manifestou-se principalmente na música, como no rock progressivo de bandas como Pink Floyd, e também influenciou Steve Ditko, o lendário desenhista que quis levar tal misticismo aos quadrinhos da Marvel. Assim, Giacchino decidiu honrar as origens psicodélicas do personagem, ao incluir (além das já habituais orquestra e coro) instrumentos como cítaras, guitarras e um cravo. Trata-se de um score do compositor com uma presença maior do que a habitual de elementos eletrônicos, o que acaba trazendo um bem vindo ar de novidade à sua música. É uma pena, porém, que, no longa, os efeitos sonoros acabem quase soterrando os detalhes mais interessantes da música de Giacchino, embora, por outro lado, possamos experimentar as ideias do compositor por completo no disco.

Muito se discutiu sobre o fato de os heróis da Marvel não terem temas memoráveis (até tem, só não são bem utilizados pelo estúdio), assim, a resposta de Giacchino foi um tema que, se não vai ser uma nova Superman March, ao menos é divertido, adequado ao personagem, e talvez até “grudento”, lembrando um pouco o próprio tema do compositor para Star Trek (idem, 2009). Introduzido numa fanfarra para coro e orquestra aos 2:17 de Ancient Sorcerer’s Secret, ele curiosamente fica ausente durante boa parte do disco, o que se prova uma decisão esperta. Afinal, por esta ser uma típica “história de origem” do personagem, Giacchino calculou que Strange ainda não havia se tornado o herói a que estava destinado a ser e, portanto, não “merecia” seu tema heroico. Apenas conforme ele avança em seus estudos mágicos que seu tema retorna, de forma que ele é ouvido depois apenas ao final de Sanctimonious Sanctum Sacking, conforme o Doutor luta seu primeiro duelo como mago. Depois, em Ancient History, o tema do herói aparece de forma quieta e sombria, em cordas, piano e guitarra, refletindo o momento triste do personagem. Mais tarde, ao final de Astral Worlds Worst Killer, o tema do Doutor Estranho é ouvido em sua forma mais imponente e vitoriosa; afinal, ele conseguiu superar e vencer os desafios à sua frente, e completar sua transformação em herói.

Além disso, há também um tema secundário, que representa a Anciã que serve de mentora para Strange, e seus grandiosos conhecimentos mágicos. Ele é ouvido em sua forma mais bombástica quando a personagem mostra todo o seu poder no confronto com Kaecilius e seus capangas, como aos 1:26 da faixa inicial e depois ao final de Smote and Mirrors – ironicamente, o coral apocalíptico e as orquestrações grandiosas poderiam ter saído do próprio Christopher Young. Já em Mystery Training, o tema da Anciã é ouvido em orquestrações enigmáticas e um coral sombrio que não soaria fora de lugar numa das trilhas de Howard Shore para a Terra-Média de Peter Jackson.

Aliás, para representar as infinitas possibilidades proporcionadas pela magia, Giacchino escreveu alguns de seus cues mais experimentais ouvidos num blockbuster de grande orçamento. A Long Strange Trip é o melhor exemplo disso: a faixa começa e termina com algo que parece ser um cântico do coral de trás para a frente e, no meio disso, uma melodia caótica para percussão, guitarra e metais violentos similares aos que Elliot Goldenthal costumava escrever em longas como Esfera (Sphere, 1998). A faixa seguinte, The Eyes Have It, não é tão experimental, mas traz de volta os sombrios cânticos do coral, acompanhando orquestrações apocalípticas. Depois, cues como Inside the Mirror Dimension e The True Purpose of the Sorcerer (é tão bom ver um álbum de Giacchino sem tantas piadinhas nos títulos das faixas) são mais sutis, mas ainda mantém o interesse do ouvinte com algumas ideias e orquestrações interessantes, como a cítara e a percussão exótica na primeira, e o coro angelical na segunda. Já Post Op Paracosm mostra Giacchino canalizando seu lado mais hippie, com cravo, guitarra e piano, da forma mais “paz e amor” possível.

As faixas de ação do disco, claro, mantém a excelência de Giacchino para filmes do tipo. Aqui, no caso, elas lembram a intensidade que o compositor trouxe para suas trilhas da saga Star Trek, além da ótima O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015), pela presença constante do coral. No caso aqui, a melhor é justamente a primeira, Sanctimonious Sanctum Sacking, em que, depois de alguns minutos de suspense, o compositor lança sua orquestra e coral em potência máxima, acompanhados por ritmos eletrônicos, levemente similares aos “pulsos” sintetizados característicos das trilhas de Alexandre Desplat. A faixa seguinte, Astral Doom, mantém a tensão através de ritmos na orquestra, coral, guitarra, e rápidas participações de percussão “tribal”, lembrando um pouco algumas trilhas do mentor de Giacchino, John Williams, como Star Wars Episódio II: Ataque dos Clones (Star Wars Episode II: Attack of the Clones, 2002) e O Mundo Perdido: Jurassic Park (The Lost World: Jurassic Park, 1997). Pouco depois, Smote and Mirrors acompanha a sequência mais marcante da projeção, na qual Kaecilius e seus capangas caçam Strange e seu colega Mordo (Chiwetel Ejiofor) por uma cidade que se desdobra aos poderes do vilão. Aqui, Giacchino utiliza cordas furiosas e enérgicas, cânticos grandiosos do coral, o tema do Doutor Estranho reorquestrado como uma fanfarra para metais, além de leves intervenções de instrumentos como órgão, cravo e guitarra.

Mais adiante, Hong Kong Kablooey é caótica e agressiva, com trompetes impressionistas e quase aleatórios, coral e violinos enérgicos, em alguns momentos lembrando até mesmo os scores da trilogia Matrix, de Don Davis, ou o seu próprio Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014). Por fim, Astral Worlds Worst Killer abre com algumas texturas para metais, coral e eletrônicos extremamente abrasivas e dissonantes, ainda que bastante impressionantes no contexto, mas depois retrata o clímax do longa construindo sua tensão e o conflito entre o herói e seu adversário de forma cuidadosa, rumo à citada interpretação vitoriosa do tema principal. Na sequência, Strange Days Ahead passa boa parte de seus seis minutos de duração encerrando de forma satisfatória a trilha, com algumas belas e conclusivas passagens para orquestra e guitarra, antes de se converter, em seus momentos finais, numa previsível, ainda que divertida, suíte baseada no tema principal para os créditos finais.

Mas são as duas últimas faixas que certamente serão as mais comentadas desta trilha. Go For Baroque traz basicamente o compositor brincando com o cravo dos estúdios Abbey Road, interpretando o tema do Doutor Estranho, conforme ele postou animadamente, durante as gravações, em seu Instagram. Já The Master of the Mystic End Credits não parece uma típica trilha para um filme hollywoodiano, mas sim uma canção de rock psicodélico, com influências orientais, escrita por George Harrison e Ravi Shankar. Enfim, é um cue divertido, surpreendente, que certamente deve agradar a quem é roqueiro “das antigas”, e a resposta ao questionamento levantado de que a Marvel usa essencialmente a mesma trilha em todo filme.

Doutor Estranho possui uma das melhores trilhas da Marvel Studios – o que, convenhamos, não é algo muito difícil. Ainda assim, é mais um trabalho que conta com a qualidade típica de Giacchino, e traz um ótimo tema para o herói. É improvável, porém, no contexto geral do MCU, que este tema acompanhará todas as aventuras do Doutor. Afinal, ele já está marcado pata aparecer em Thor: Ragnarok (idem, 2017), que será musicado por Mark Mothersbaugh, e nos dois próximos filmes dos Vingadores, que trarão o retorno de Alan Silvestri, e dificilmente os dois compositores reutilizarão o tema de Giacchino nas cenas com Strange. Continuidade musical simplesmente parece não ser a prioridade da Marvel. Creio que o melhor que podemos esperar são algumas trilhas individuais de qualidade, com bons temas – algo que Giacchino provou, mais uma vez, que é capaz de entregar aos borbotões.

* Para quem ainda não sabe, temp tracks são músicas utilizadas nos primeiros cortes do filme para facilitar ao diretor dizer, para o compositor, o que espera da música. Basicamente, todo tipo de música, especialmente outras trilhas sonoras, podem ser usadas para dar uma imagem inicial do que o diretor quer que a trilha seja. Por outro lado, conforme argumenta o vídeo, alguns diretores e produtores passam tanto tempo com as temp tracks que acabam apegando-se a elas, e acabam por praticamente obrigar que o compositor escreva algo extremamente similar.

Faixas:

1. Ancient Sorcerer’s Secret  2:37
2. The Hands Dealt  2:56
3. A Long Strange Trip  2:28
4. The Eyes Have It  1:23
5. Mystery Training  1:53
6. Reading Is Fundamental  1:39
7. Inside the Mirror Dimension  4:04
8. The True Purpose of the Sorcerer  2:09
9. Sanctimonious Sanctum Sacking  7:27
10. Astral Doom  3:41
11. Post Op Paracosm  1:15
12. Hippocratic Hypocrite  1:34
13. Smote and Mirrors  6:29
14. Ancient History  4:08
15. Hong Kong Kablooey  3:35
16. Astral Worlds Worst Killer  6:17
17. Strange Days Ahead  5:59
18. Go for Baroque  2:55
19. The Master of the Mystic End Credits  3:50

Duração: 66:19

Tiago Rangel

4 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: DOCTOR STRANGE – Michael Giacchino”

  1. “Doze anos após surgir no mapa com suas trilhas para Lost e Os Incríveis (The Incredibles, 2004), o sujeito vive o ápice de sua popularidade, fazendo sua música ser ouvida em um blockbuster atrás do outro. ”

    Com certeza!

    E a Marvel aprovou o trabalho dele. Ele confirmou no twitter que irá compor a trilha do próximo filme do homem aranha. O filme estreará no próximo ano.

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  2. “Dada a popularidade do “gênero” hoje em dia, é curioso pensar que este é o seu primeiro longa de super-heróis desde Sky High: Super Escola de Heróis (Sky High, 2005).”

    Falando nisso, Sky High nunca teve um lançamento oficial em CD não é?

    Curtir

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